Agressões a ciclistas

Quem não pedala regularmente nas ruas e estradas geralmente nem imagina que tem gente que coloca a vida de ciclistas em risco propositalmente. Os motivos podem ser vários: complexo de inferioridade (ou de superioridade), road rage, inveja da mobilidade num dia de trânsito parado ou, o motivo mais torpe, por pura diversão, com brincadeiras que podem levar à morte.

Você está errado, eu te mato

Alguns carros fecham os ciclistas de propósito e outros tiram fina, geralmente para mostrar que o ciclista “não devia estar na rua”, mesmo sendo direito do ciclista estar ali e por melhor que ele esteja conduzindo sua bicicleta. Alguns vão empurrando lentamente o ciclista contra a calçada, até que ele freie para deixar o carro passar ou caia sobre a calçada. Por mais absurdo que seja, essas pessoas colocam em risco a vida do ciclista, ou mesmo de um pedestre, com a desculpa de mostrar que ele “está errado” (ocupar melhor a faixa ajuda o ciclista a minimizar essa situação de risco).

Uma vez uma moça avançou de propósito o carro no trânsito parado, andando bem devagar até quase encostar o parachoque na minha perna. Quando eu perguntei por que ela estava fazendo aquilo, tive que escutar dela, gritando, sob o olhar espantado da passageira, que eu é que estava “errado”. Só por estar ali, parado, esperando o trânsito andar. Eu devo tê-la ultrapassado alguns segundos antes, com uma despretenciosa bicicleta, e ela não gostou. Com essas pessoas não adianta discutir.

Machucar é divertido

Nas estradas, alguns caminhoneiros passam rente aos ciclistas que pedalam no acostamento. Às vezes isso é feito por pura diversão, só “para dar um sustinho”. Em muitos casos, acaba em morte, pois uma pequena esbarrada na ponta do guidão é suficiente para jogar o ciclista para debaixo das rodas do monstro de metal. E não precisa nem encostar: até mesmo o deslocamento de ar é suficiente para fazer isso quando o caminhão está em alta velocidade.

Já nas cidades, os que colocam a vida do ciclista em risco por diversão são geralmente jovens que ainda não perceberam a máquina de moer carne que têm nas mãos, nem que podem matar ou aleijar pessoas até mesmo com um simples descuido, quanto mais com uma brincadeira irresponsável. Jovens que, influenciados pela valorização que a sociedade e a propaganda fazem da “força” do automóvel, o utilizam como forma de autoafirmação, usando para isso o poder físico que o carro dá em relação a alguém sem armadura de metal (seja um ciclista ou um pedestre). Tentam dessa forma mostrar a si próprios que, pelo menos com a ajuda de uma casca de uma tonelada e um motor a combustão para facilitar a fuga e evitar um revide, são superiores em alguma coisa a outras pessoas.

Dia da caça

Uma das “brincadeiras” que esses homicidas em potencial fazem é enrolar o tapete de borracha do carro e agredir ciclistas em movimento. Isso quase sempre derruba o ciclista, que se arrebenta todo no asfalto, podendo sofrer um acidente grave. Principalmente se a vítima cair em direção ao carro, que pode passar com a roda por cima do ciclista. O motorista então foge do local, provavelmente rindo, deixando a vítima caída sangrando no asfalto.

Entretanto, na tarde de 25 de abril de 2007, quem se deu mal nessa brincadeira de péssimo gosto foram os ocupantes do automóvel. Em uma atitude corretíssima, ciclistas que treinavam na USP e foram agredidos com um tapete de borracha acionaram a segurança do campus, que chamou a Polícia Militar. O veículo foi encontrado e os estudantes detidos por tentativa de homicídio doloso (com intenção de matar).

Os agressores eram estudantes da Escola Politécnica da USP. Alunos de uma universidade de renome, que têm um nível de instrução razoável e supostamente teriam alguma inteligência.

Veja a notícia completa aqui. Os agressores eram Daniel Oltemann Rodrigues, então com 22 anos, e Rodrigo Nunes Mahsuz, com 20 anos. Como eles gostam de brincar e dar boas risadas, talvez tenham se divertido ao passar uma noite na cela.

Ué! Só uma noite?

Como assim “uma noite”? Já saíram? Sim, foram soltos no dia seguinte! Apesar do flagrante, o juiz entendeu que não foi tentativa de homicídio doloso. E, por serem réus primários, terem residência fixa e se terem se comprometido a comparecer a todas as fases do processo, foram liberados. São meninos bonzinhos, não merecem ficar na cadeia só porque sua brincadeira poderia ter matado alguém.

Não entendo muito de direito, talvez o juiz até tenha resolvido soltá-los porque foram presos com acusação considerada errada (tentativa de homicídio doloso em vez de culposo). Mas de qualquer forma, não deixa de ser uma tentativa de homicídio: se alguém aponta uma arma para uma pessoa pensando que está descarregada, mas quando aperta o gatilho por brincadeira uma bala sai e a mata, é um homicídio, não é? Mesmo que eles não tenham neurônios suficientes para perceber que aquela brincadeira pode matar, a tentativa de homicídio é clara. Talvez não por dolo, mas por culpa.

Mas enfim, quem sou eu, um leigo em direito, para questionar um juiz… Vamos dar uma segunda chance aos rapazes então. Só espero que eles tenham entendido por que foram presos: não foi porque “os malditos ciclistas chamaram a polícia”, nem porque “esses ciclistas da USP odeiam motoristas” (até porque a maioria deles vai até ali de carro), mas sim porque os dois irresponsáveis do automóvel feriram pessoas e saíram rindo, sem se preocupar com elas. E porque podiam ter matado alguém por pura diversão. Um erro é perdoável, desde que se aprenda alguma coisa com ele. Espero que tenham aprendido o respeito ao próximo com esse episódio, para a vida não ter que ensiná-los de forma ainda mais dura no futuro.

Tudo bem, convenhamos que os dois não precisam ficar na cadeia, mas deveriam pelo menos ter retirado deles o direito de dirigir por um bom tempo. Quem usa o carro como brinquedo coloca a vida de outras pessoas em risco. Por pura diversão.

Saiba mais:
Carro mata, use com cuidado
Campanha realmente agressiva
Ao pedestre, com carinho
Dicas para o ciclista urbano, parte 1: Como se manter seguro no trânsito


10 comentários para Agressões a ciclistas

  • Adriano Rotting

    a cada dia que passa, fica mais claro que caro é para os fracos.

    Meu primeiro veículo foi e sempre será a bike. Depois que adquiri a maioridade, até comprei um fusca, mas a bike continua em primeiro lugar, acredite!

    é por estas e outras que eu me envergonho de ser motorista. Sempre respeito pedestres, animais, ciclistas, motos, outros carros e o que mais vejo é mautorista que se acham os donos das ruas.

    muito triste e desmotivador.

    outro dia, eu estava P da vida caminhando quando fui atravessar uma rua e o infeliz parou sobre a faixa de pedestres. Eu reclamando de tal atitude do moleque, ele me deu a grande idéia: passa por cima! Foi exatamente o que fiz. (risos)

    Precisavam ver a cara dele…

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  • Folha de São Paulo estimula guerra entre ciclistas e motoristas | Vá de Bike!

    […] Agressões a ciclistas, como a de Ricardo José Neis, ocorrem sim. E não são novidade. Mas a imprensa insiste em disfarçá-las como “acidentes”. […]

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  • André Caon Lima

    Aqui em Ctba, tem uma campanha “um pouquinho mais agressiva” contra carro que para sobre a faixa: http://www.youtube.com/watch?v=iDeTDkNHkx0

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  • + Vá de bike! + - O que importa é o tráfego de automóveis fluir

    […] um tipo de motorista que coloca a vida de um ciclista em risco para provar seu ponto de vista: o de que ele não deveria estar ali. Através de finas, buzinadas, […]

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  • Fê Maddu

    Willian, por falar em USP, fui andar por lá no Domingo – estava ansioso pois era a primeira vez pedalando no campus – e não pude entrar. O guardinha babaca me disse que Sábado era até as 14:00 – como iam supervisionar a partir daquela hora quem estava pedalando naquele lugar enorme? – e saí de lá vociferando, indignado com essa restrição. Tinha me esquecido que talvez não rolaria de pedalar, não lembro o motivo da estúpida proibição, acho que alguns poucos e influentes estudantes motorizados de economia ou um curso careta qualquer reclamaram dos ciclistas. Com certeza você deve saber. Fiquei com vontade de juntar todos nós – imagina 305 mil – e chegar lá num domingo e entrar à força como uma forma de protesto!!! O que achas???
    Continuando a falar de restrições, na minha faculdade eu prendo minha bike no portão e um segurança me disse que não podia colocar lá. Ele foi bem simpático e eu nem quis discutir, mas uns dois dias depois eu tava lá colocando a minha no mesmíssimo canto e sempre têm uma ao meu lado, graças.
    Vamos de bike, sempre! Abraço

    http://femaddu.blogspot.com/

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  • cristiano bertoni

    hahahahhaa, os muleques da poli ficaram guardados por uma noite ??? SHOW !!!!!!
    uma hora dessas que eu queria voltar a estudar na USP … imagina só, eles seriam diversao garantida :oP
    … que ao menos tenha servido de lição

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  • Chester

    Ainda em agressões a ciclistas:

    http://greencycles.blogspot.com/

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  • Willian Cruz

    Só para ilustrar mais um pouquinho, vejam esse caso, em que um ciclista parou no farol amarelo e o motorista que vinha atrás desceu pra bater nele…
    http://tinyurl.com/25a7v5
    (Chester, valeu pelo link)

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  • Andre Pasqualini

    Você foi bonzinho Willian… O correto é realmente homicidio doloso, com a intenção e jamais um juiz sério (existe isso aqui no Brasil?) poderia ter soltado esses malucos. Não tenho a menor pena deles, pois se um dos ciclistas tivesse morrido, ninguem teria pena dos motoristas e eles seriam soltos da mesma maneira.
    Abração

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  • Renan Rinaldi

    Se candidata que eu voto em você! 🙂

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