Entenda de vez a Ciclorrota do Brooklin, em São Paulo

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A Ciclorrota implementada pela Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET) na região do Brooklin, em São Paulo, chamou atenção de ciclistas, motoristas e da imprensa. Os comentários das reportagens por vezes a fazem parecer uma medida inócua. Mas será mesmo?

O que é e como funciona

Ciclorrota prioriza o uso de ruas mais tranquilas. Foto: Ciclocidade

A Ciclorrota (ou ciclo-rota) recentemente inaugurada representa os melhores caminhos dentro do bairro do Brooklin para se trafegar de bicicleta (veja o mapa traçado pelo Vá de Bike). Esses caminhos já existiam e já eram utilizados pelos ciclistas mais experientes que conheciam bem o bairro. Agora foram sinalizados, tanto para indicar aos ciclistas quais as melhores ruas quanto para torná-los ainda mais seguros, diminuindo a velocidade dos automóveis e estimulando o compartilhamento das vias.

A ciclorrota não é um caminho exclusivo para bicicletas. Também não é uma ligação entre pontos da cidade, nem um roteiro para passeio (embora possa muito bem ser usado para isso). É uma sinalização das vias mais adequadas para o ciclista trafegar pela região, quando precisa passar por ela, mesmo que seu destino seja outro lugar. Ou seja, é uma rota pensando em quem utiliza a bicicleta como meio de transporte, para que possa ter deslocamentos mais seguros.

Entenda aqui a diferença entre ciclovia, ciclofaixa e ciclorrota.

As vias sinalizadas indicam a presença e a preferência da bicicleta sobre os demais veículos, como rege o código de trânsito para todas as vias. Não há horário de funcionamento, como é de se esperar em qualquer infraestrutura cicloviária séria que seja voltada ao transporte. A ciclorrota está lá, disponível para os ciclistas, em qualquer dia, a qualquer hora.

Há sinalização horizontal (de solo) e vertical (placas). A sinalização de solo lembra muito as que são pintadas por cicloativistas regularmente na cidade há anos, aumentando a segurança dos ciclistas ao mesmo tempo que reivindicam seu direito de circulação. A Ciclorrota vai ao encontro das medidas de baixo custo e rápida implementação sugeridas pelo Vá de Bike há alguns anos. Também já comentamos por aqui a importância de sinalizar Ciclorrotas.

Espero que a CET tenha encarregado de sinalizar a Ciclorrota o mesmo agente que, ao apagar sinalização semelhante feita pelos ciclistas na Av. Paulista, disse que bicicletas pintadas no asfalto confundiam motoristas e que a Companhia atendia apenas aos automóveis. Seria um belo aprendizado. A CET está evoluindo e seus funcionários precisam acompanhar essa mudança (ou procurar outro emprego).

Conceito original

Foto: Ciclocidade

O conceito da Ciclorrota lembra os Bicycle Boulevards que existem em algumas cidades de outros países. Ruas que já possuíam menor tráfego têm sua velocidade reduzida e recebem sinalização vertical e horizontal, priorizando o uso da bicicleta e desencorajando o uso do automóvel.

No exterior, às vezes algumas quadras são fechadas para tráfego apenas local (de quem mora ali), exceto para quem passa de bicicleta. Cruzamentos são repensados para tornarem-se mais seguros para o ciclista e cruzamentos com vias arteriais recebem sinalização específica.

Muitos conceitos de traffic calming são utilizados nos Bicycle Boulevards, tornando o ambiente muito mais agradável e seguro para as pessoas (a pé ou de bicicleta), priorizando a vida e não a fluidez. Os Bicycle Boulevards seguem o conceito de “cidades para pessoas”. É um dos caminhos para humanizar o trânsito da cidade.

A Universidade Estadual de Portland disponibiliza na internet um guia para a criação de Bicycle Boulevards. Há também o guia elaborado pela cidade de Berkeley, que implementou com sucesso diversos Bicycle Boulevards. Mais informações podem ser obtidas aqui.

Vantagens

Foto: Ciclocidade

A Ciclorrota está implementada em uma região crítica, onde as avenidas principais são estreitas, com tráfego rápido e corredores de ônibus. Praticamente não há ruas paralelas margeando as avenidas que pudessem se tornar caminhos intuitivos para os ciclistas que não conhecem bem a região.

As rotas alternativas são entrecortadas e, para a maioria, desconhecidas. O que a CET fez foi sinalizar e tornar mais seguras essas rotas, para que ciclistas de passagem as reconheçam e utilizem, em vez de correr riscos nas vias principais.

A sinalização legitima a presença da bicicleta nas vias e estimula o compartilhamento e o respeito. Isso é o que o ciclista mais precisa. O custo é extremamente inferior ao de ciclovias segregadas, não há redução do espaço destinado ao automóvel e, como pudemos ver, o tempo de implementação é muito mais curto. A diminuição de velocidade é um ponto importante, pois aumenta a segurança nas vias tanto para os ciclistas como para os pedestres e os próprios motoristas.

Críticas

As principais críticas que circularam na imprensa nos primeiros dias da Ciclorrota demonstraram que ainda não se sabia bem do que se tratava. Expectativas mal direcionadas e falta de compreensão do conceito fizeram surgir afirmações como “leva do nada a lugar nenhum” ou “há subidas”.

Ora, o objetivo da Ciclorrota não é levar de um ponto ao outro – como a Ciclofaixa de Lazer, que liga parques. É pura e simplesmente indicar os melhores caminhos para o tráfego de bicicletas e garantir sua prioridade e segurança nessas vias. A origem e o destino dependem de onde o ciclista veio e para onde ele vai. Não é um circuito de passeio e sim uma medida de apoio e incentivo ao deslocamento em bicicleta.

Subidas existem porque a região não é plana em sua totalidade. Existe um trecho mais elevado, que obviamente precisa ser acessado através de uma subida. Analise as ruas ao redor e veja que para evitar aquele trecho de subida, seria necessário utilizar outra subida, uma contramão, ou um trecho arriscado de avenida.

Trecho com paralelepípedos. Foto: Ciclocidade

Críticas mais procedentes citam o fato de haver ruas de paralelepípedos. De fato esse tipo de calçamento não é nada agradável ao ciclista e pode até prejudicar as rodas de bicicletas com pneus finos. Entendemos que não havia como esperar um recapeamento da rua para só depois implementar a Ciclorrota, mas cobrir com asfalto, ainda que apenas na parte da via onde circulam as bicicletas, torna-se agora bastante indicado.

Houve também reclamações sobre a falta de fiscalização quanto à velocidade dos carros e à distância mínima para ultrapassagem, que não têm sido obedecidas. Para os motoristas levarem a sério essas determinações, é imprescindível que haja, ainda que eventualmente, fiscalização e punição.

Faixas comunicando a obrigação de guardar a distância de um metro e meio ao ultrapassar bicicletas também ajudariam bastante no início da operação. Entenda por que a distância de 1,5m é importante.

Matérias relevantes

Renata Falzoni

Ciclocidade (página 4)

RespirAr (Rede Globo)

Matéria do SBT


Visualizar Ciclorrota do Brooklin em um mapa maior

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11 comentários para Entenda de vez a Ciclorrota do Brooklin, em São Paulo

  • Mais Detalhes Sobre a 1ª Ciclorrota de São Paulo | Bicicletada Curitiba

    […] artigo do Vá de Bike traz mais esclarecimentos sobre a medida, que é um bom início para melhorar a qualidade de vida […]

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  • Otávio

    Hoje tive a oportunidade de usar a ciclorota no percuso paulista-sto amaro(américo brasiliense) passando pela berrini. Achei o caminho interessante, apesar de ser rota alternativa para muitos carros conforme informação de um colega que trabalha na região. Ponto alto pra mim foi a sinalização, bem legal, porém algumas coisas que não gostei nada, além de várias ruas de paralelepípedos, existem conversões à esquerda e todas em via de mão dupla, as que me preocupam mais é a primeira vindo da rua guaraiúva, onde o fluxo sentido bairro é alto, tive que jogar a direita pra fazer a conversão e outra na rua da paz onde tive que fazer a mesma manobra. Não usei o caminho de volta então não vou opinar, pelo caminho que utilizei dou nota 7, nem tanto pelo percurso, mas pela atitude de implantar a rota e fazer uma grande divulgação do transporte do futuro.

    []s

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  • Rota de bicicleta é implementada | LucianoNunes.Net

    […] http://vadebike.org/2011/07/entenda-de-vez-a-ciclorrota-do-brooklin-em-sao-paulo/ Esta entrada foi publicada em Brooklin, Melhorias do bairro. Adicione o link permanente aos seus favoritos. ← Quem me viu crescer – Gustavo Veiga Assalto no Brooklin → […]

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  • Márcio Mollica

    Parabéns a CET pelo projeto…e obrigado ao Vá de Bike por divulgarem esta informação.

    Há algum tempo estava considerando “abandonar” meu carro, e a notícia da ciclorrota foi o incentivo que precisava. Moro em Moema, trabalho na região do Shopping Morumbi, e grande parte deste percurso está coberto pela ciclorrota, contrariando quem acha que ela leva “o nada a lugar nenhum”. Levo pouco menos de meia hora no trajeto, o mesmo que levava de carro, e as condições para pedalar são boas….só vi problema nas ruas mais rápidas, como a Bacaetava, onde os motoristas ainda não estão respeitando os novos limites de velocidade.

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  • Gabriel

    Eu tenho a impressão – mas é puro achismo – de que a existência de uma ciclorrota levaria os motoristas a acreditar que as demais ruas da região não devem ser usadas por ciclistas.

    Eu quase consigo antecipar os motoristas reclamando dos ciclistas em outras vias, dizendo que “vocês já têm a ciclorrota, essa rua é para carros” ou coisa do tipo.

    Mas, como disse, não tenho embasamento para isso e não conheço a experiência de outros países. Se puderem me falar mais sobre isso, agradeceria.

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  • Aline P Fraznini

    Bom dia…
    Primeiramente gostaria de paranabenizar pelo post… está maravilhoso.
    Gostaria de complementar o comentario do Rogério Polo, pois infelizmente é uma grande verdade que há falta de conhecimento da nossa população, comprar roupinha e acessórios é muito fácil pois felizmente já temos um comércio muito ativo com preços acessiveis. O dificil é uma educação adequada da população geral e principalmente no curso para obter uma habilitação.
    Estava comentando ontem mesmo, falando sobre o tempo que perdemos trancados dentro dos carros…. Adoro camisetas com frases simples que ajudem a devagar, colocar na cabeça desse povo as maravilhas que podemos ter com isso… A de ontem foi: ESTÁ COM PRESSA? VÁ DE BIKE!!!
    Bicicleta não deveria continuar sendo vista como esporte e sim como um meio eficiente e saudavel de locomoção.
    É bom para saúde, é bom para seu BOLSO e é bom para o meio ambiente.
    Infelizmente os meus medos ainda não me permitem abandonar o uso do automovel.
    Obrigada pelos esforços! Sonho em um dia poder enfiar meu carro na garagem e andar tranquila com uma bicicleta urbana 😉
    Grande Abraço!

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  • Rogério Polo

    Parabéns pela iniciativa de postar este esclarecimento.
    A primeira matéria que vi na TV sobre o assunto mostrou um senhor, todo vestido de ciclista, fazendo críticas, dizendo exatamente o que é citado no seu texto “leva do nada a lugar nenhum”.
    Lamentável o comentário, fiquei revoltado com a falta de conhecimento do camarada.
    Por sorte a Renata Falzoni entrou logo depois e fez os comentários pertinentes.
    Estas ciclorrotas terão um papel importante para conscientização da população!!!!
    Sempre teremos críticas negativas sem sentido, mas espero que não venham dos ciclistas!!!
    Precisamos sim de críticas, mas construtivas!!!!
    Abraço e sucesso!!!

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  • Mais Detalhes Sobre a 1ª Ciclorrota de São Paulo « bicicletada curitiba

    […] artigo do Vá de Bike traz mais esclarecimentos sobre a medida, que é um bom início para melhorar a qualidade de vida […]

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  • jose

    Parabéns a todos os envolvidos pelo projeto sair do papel!

    A idéia é muito bacana e relativamente simples de virar realidade! O “problema” é que foi entregue um pequeno trecho, que no momento, para quem bate o olho no mapa, realmente parece que a rota liga nada a lugar nenhum… a CET (prefeitura, estado, o papa, sei lá, rs) não fez o óbvio que era divulgar corretamente o projeto (e vc fez agora, com maestria! rs), dizendo que isso era apenas o trecho inicial do projeto… e é claro, dando algum prazo para o próximo trecho (de preferência que seja ligado, em algum ponto, a esse trecho inicial, para fazer sentido na cabeça do pessoal) e ir expandindo…

    Falando em divulgação, existe algum site/blog oficial das ciclo-rotas? Isso seria muito importante, nem que fosse um site meia boca que nem o da ciclo-faixa, para divulgar o projeto, mostrar como funciona, ter notícias, etc… vc já fez quase tudo isso nesse post, isso é bem legal, mas é necessário um canal oficial para isso tmb! Isso existe, ou existe projeto disso?

    Sobre a expansão das rotas, alguma novidade? Tanto de datas prováveis, qual seria o próximo trecho, se seria ligado ao primeiro trecho (algo muito importante), etc?

    Outra coisa, tem alguma previsão, ou ao menos foi tocado no assunto durante dos debates sobre as ciclo-rotas, de elas se conectarem a ciclovia do pinheiros e a ciclo-faixa do lazer? É que esse primeiro trecho da rota chega bem perto de ambas… isso é mera coincidência ou foi feito já tendo em mente essa ligação?

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  • Rafael

    Willian, parabéns e muito obrigado pelo mapa.
    Procurei por todo lugar, até fiz uma reclamação no site da CET por não terem divulgado o mapa.

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