Entenda a ameaça de remoção de ciclovias em São Paulo – e preocupe-se

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Sem a ciclovia, o caminhão que passou ao meu lado estaria exatamente atrás de mim. Com pressa, numa descida, sem paciência para esperar a velocidade do ciclista. Foto: Willian Cruz

Sem a ciclovia, o caminhão que passou ao meu lado estaria exatamente atrás de mim. Com pressa, numa descida, sem paciência para esperar a velocidade da bicicleta. Foto: Willian Cruz

Foi na manhã de 20 de março que os cidadãos paulistanos que utilizam a bicicleta receberam uma péssima notícia, que lhes perfurou como a lâmina fria de uma faca: a gestão João Doria (PSDB) anunciava através da imprensa tradicional que irá remover ciclovias na cidade.

De acordo com as declarações à imprensa, algumas faixas serão “remanejadas”, o que se pode entender como mudanças de trajeto, forçando o ciclista a um caminho mais longo do que quem se desloca em automóvel. Outras serão substituídas por simples sinalização de compartilhamento da via – as chamadas ciclorrotas, que já foram implantadas sem muito resultado prático na capital. A sinalização das ciclorrotas nada mais faz do que reforçar o que já determina o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), em seu artigo 58: que bicicletas têm direito ao uso da via, com preferência sobre os automóveis.

"Pra quem não sabe o que é uma ciclorrota (que é o que a CET pretende fazer com as ciclofaixas), vejam essa foto da Rua Turiassu tirada agora de tarde e me digam se isso é um um lugar legal e seguro para você pedalar com seu filho." - Texto e foto de George Queiroz

“Pra quem não sabe o que é uma ciclorrota (que é o que a CET pretende fazer com as ciclofaixas), vejam essa foto da Rua Turiassu tirada agora de tarde e me digam se isso é um um lugar legal e seguro para você pedalar com seu filho.” – Texto e foto de George Queiroz

Quem pedala diariamente na cidade, quem transporta crianças na bicicleta, quem tem mais idade ou quem ainda não tem a agilidade e frieza necessárias para fugir de motoristas que não aceitam a bicicleta na rua, sabe prever os efeitos que essa mudança trará. Por mais que possam ter seus defeitos, as ciclofaixas e ciclovias delimitam visualmente um espaço onde os carros não devem circular e tornam claro o direito de circulação de quem está pedalando, retirando a bicicleta da frente dos carros e os motoristas impacientes da traseira dos ciclistas. Especialmente em vias mais rápidas e nas subidas.

Com a eliminação de ciclovias, motoristas que não admitem a presença de bicicletas à sua frente se sentirão empoderados para ameaçar a vida de quem insistir em pedalar, exercitando seu revanchismo sem se importar se uma placa indica a presença de ciclistas ou se o Código de Trânsito os protege.

Com a implantação da atual malha viária, o uso da bicicleta aumentou 66% e a morte de ciclistas caiu 60%

Primeiras a desaparecer

“A primeira região a receber alterações será a Vila Prudente, na zona leste de São Paulo”, informa nota da CET. “A secretaria irá organizar um amplo debate com ciclistas, comunidade local e com representantes da Prefeitura Regional para buscar as melhores alternativas. O resultado desse diálogo é o que definirá o projeto a ser adotado em cada ponto da cidade”, prossegue o texto.

Ciclovias da Vila Prudente serão as primeiras a serem removidas. Foto: Rachel Schein

Ciclovias da Vila Prudente serão as primeiras a ser removidas. Foto: Rachel Schein

O desmonte atenderia a uma demanda da vereadora Edir Sales (PSD), que enviou um ofício ao presidente da CET pedindo a remoção das estruturas e declarou em plenário ter “certeza que essas ciclovias serão retiradas”, após suas conversas com o prefeito. Em uma das ciclovias que Sales quer remover, ela pede a implantação de vagas de estacionamento a 45º, deixando claro que o problema não é falta de espaço mas sim sua preferência por vagas de estacionamento em detrimento do espaço de circulação segura de ciclistas. Há um abaixo-assinado pedindo que essas estruturas sejam mantidas – assine, por favor.

Como ela, diversos outros vereadores estão se mobilizando para forçar junto ao prefeito a remoção de ciclovias na cidade, como é o caso de João Jorge (PSDB), Aurélio Nomura (PSDB) e principalmente Camilo Cristófaro (PSB).

O prefeito está convencido de que muitas ciclovias não teriam ciclistas e também que elas atrapalhariam o comércio, “prejudicando a sobrevivência de famílias“, como já declarou – o que sabemos não ser verdade.

Essa declaração apela ao emocional para jogar os comerciantes contra os ciclistas, ganhando seu apoio para a remoção das estruturas. E, ao falar sobre isso, Doria cita especialmente as ciclovias da periferia, o que as coloca no topo da fila de remoção.

Subida da Consolação: impraticável sem a demarcarção de área para bicicletas. Foto: Willian Cruz

Subida da Consolação: impraticável sem a demarcarção de área para bicicletas. Foto: Willian Cruz

Consolação na mira

Outra ciclovia ameaçada de remoção na nota da CET é a da Rua da Consolação, que liga a ciclovia da Avenida Paulista à rede cicloviária da região central. “Uma das alternativas para a região é criar uma ciclorrota em outra via próxima”, informa o comunicado. O próprio prefeito afirmou que ciclovias que “não podem ser utilizadas de forma segura”, como é o caso (em sua opinião) da Consolação, “deixarão de existir”.

Ou seja: de acordo com a nota e com a declaração do prefeito, a ciclovia será retirada, com uma alternativa sendo criada em outra rua da região, aumentando o trajeto para quem vai de bicicleta. Esse desvio será em formato de ciclorrota, sem oferecer estrutura específica, apenas uma sinalização sobre a presença de bicicletas. Mas todas as vias da região são saturadas de automóveis e não há ruas “calmas” onde os ciclistas possam trafegar sem a proximidade perigosa de motoristas estressados com os congestionamentos.

A substituição de uma ciclovia por uma ciclorrota é uma situação que se agrava ainda mais para pessoas transportando os filhos em cadeirinhas ou pedalando junto com crianças, idosos ou iniciantes. Sem falar dos skatistas, patinadores e principalmente os cadeirantes que também fazem uso das ciclovias. Você consegue imaginar um cadeirante usando uma ciclorrota? Pois então.

Contradições

Em outubro, João Doria tentou tranquilizar os ciclistas quanto à retirada de ciclovias. Foto: Willian Cruz

Em outubro, João Doria tentou tranquilizar os ciclistas quanto à retirada de ciclovias. Foto: Willian Cruz

Apesar da nota e da declaração do prefeito, o secretário de Mobilidade e Transportes, Sergio Avelleda, disse ao colunista da Folha Leão Serva que não haverá mudança na Consolação e que a ciclorrota seria uma alternativa “a mais”, na Rua Frei Caneca. Também afirmou que não serão eliminadas ciclovias.

Mas em quem devemos acreditar? Na entrevista dada às pressas pelo secretário como contenção de danos, nas afirmações contundentes do prefeito ou na nota oficial da CET? Se formos levar a sério as declarações do secretário ao colunista, a nota da CET está errada e precisa de uma correção, de uma errata, de uma retratação. E se o secretário contradiz o prefeito, podemos confiar que Doria não passará por cima de Avelleda, para fazer valer o que afirmou publicamente?

“A prefeitura ignorou a Câmara Temática de Bicicleta (CTB), vinculada ao Conselho Municipal de Trânsito e Transportes, e não cumpriu com o acordado em diversas audiências sobre consultar as organizações e a CTB antes de planejar mudanças nas políticas cicloviárias”, denuncia a Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade). “Isto é, no mínimo, preocupante e, para as políticas públicas de mobilidade urbana, ilegal, pois a Política Nacional de Mobilidade Urbana (lei nº 12.587 de 2012) obriga as prefeituras a processos participativos para a gestão das políticas de mobilidade”, alerta a entidade em uma nota de repúdio à remoção de estruturas cicloviárias.

Não há como nos sentirmos seguros. Não temos mais como confiar em discursos que se contradizem o tempo todo. Sem meias palavras, as ciclovias paulistanas estão, de fato, ameaçadas.

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3 comentários para Entenda a ameaça de remoção de ciclovias em São Paulo – e preocupe-se

  • Evaldo de Jesus Oliveira

    O problema é que o novo prefeito “PRECISA” acima de tudo, desfazer qualquer coisa que o “PETÊ” tenha feito.
    Faz parte da retórica de que “precisamos acabar com este partido, que gerou ( sozinho), 13 milhões de desempregados.Você “ciclista” que votou nele: Parabéns.

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  • nardel gonçalves silva

    o prefeito enrolão ,quer tumultuar ele faz tudo com o proposito de chamar a atenção,malditos aqueles que votaram no falastrão,se ele quer retirar as ciclovias que faça mais vai ter muita dor de cabeça,tomara que quando se eleger novamente todos os ciclistas sem exeção não vote nesse camarada,tanta coisa seria pra se meter e agora fica enchendo o saco dos ciclistas,o haddad meteu um louco e implantou varios quilometros de ciclovias ,agora vem esse mané desconstruir o progresso,na rua da consolação até agora ninguem falou em acidente,sera que esse prefeito é burro b,bicicleta tem freio véio,ele aumentou a velocidade na marginal e de certa maneira aumentou os acidentes,não é divulgado estes acidentes e porque em.vou andar sempre na minha bike,da maneira que eu quiser ,porque não da para confiar em ninguem nesta cidade de corruptos,se é pra bagunçar que todos andem por ai sem regra,quem sabe depois com outro prefeito as coisas andem melhor

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  • Cesar A. Asciutti

    A marcação com tinta vermelha delimitando os espaços e sua designação é fundamental para a habitualidade deste novo convívio. No atual momento, retirar esta marcação visual, NÃO colaborará com o treinamento que os usuários das vias necessitam, nem ciclistas e nem motoristas. Somente com o amadurecimento destes usuários no compartilhamento das vias é que poderíamos pensar em retirar a marcação visual. O compartilhamento tem que ser construído com treinamento, divulgação e regulação. Isto tem que ocorrer com todos os usuários das vias, pedestres, ciclistas, motociclistas, motoristas, motoristas profissionais e servidores.

    Comentário bem votado! Thumb up 5 Thumb down 1

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