Ciclovia removida ressurge repintada pela população em São Paulo

Além da faixa branca separando a área de proteção a quem circula de bicicleta, foram pintadas frases como "nenhum cm a menos". Foto: Mauricio Andrade/Bike Zona Oeste

Além da faixa branca separando a área de proteção a quem circula de bicicleta, foram pintadas frases como “nenhum cm a menos”. Foto: Mauricio Andrade/Bike Zona Oeste

Uma ciclovia removida há quase dois meses foi finalmente repintada na capital paulista. Mas não se trata de ação do programa São Paulo Cidade Linda, da gestão João Doria: foi uma ação feita por cidadãos, preocupados com a segurança e a vida de quem circula por ali. Veja mais fotos no final da matéria.

A retirada dessa ciclovia está envolta em polêmica, com procedimentos incorretos, informações contraditórias e órgãos públicos empurrando a responsabilidade entre si sem se esforçar de fato em resolver a situação. Cansada dessa situação, a população tomou a frente e repintou a estrutura no último final de semana (13/14 de maio). Além de uma faixa branca segregando o espaço protegido, mensagens como “nenhum cm a menos” e “feito pelo povo” foram pintadas sobre o asfalto onde antes havia uma ciclovia.

Foto: Mauricio Andrade/Bike Zona Oeste

Foto: Mauricio Andrade/Bike Zona Oeste

Resultado imediato

Mauricio de Andrade, do coletivo Bike Zona Oeste, se surpreendeu com a pintura popular na manhã desse segunda-feira (15), mas já notou mudança no comportamento dos motoristas. “Pelo meu momento de subida foi muito tranquilo, principalmente na curva. Os carros que passavam voltaram a lembrar que ali existe uma ciclovia”, relata. O maior ganho em segurança será na descida, pois é uma ciclofaixa de mão dupla e sem sinalização os carros subiam de frente para quem desce a via, com claro risco de atropelamento devido à negligência da prefeitura.

Remoção suspeita

A ciclofaixa havia sido removida silenciosamente em março, na rua Dr. Fausto de Almeida Prado Penteado e em sua continuação na Av. Amarílis. Sem comunicação ou consulta à população, a ação foi justificada como “manutenção” pela Prefeitura, mas apenas depois de descoberta e exposta pela Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade), pelo Vá de Bike e pela imprensa tradicional.

Tratada internamente como parte da operação tapa-buraco, a ação da regional Butantã recapeou apenas a parte da rua que continha a ciclovia, ao longo de cerca de 1 km de extensão, com retirada de sinalização horizontal (placas) e também de tachões, fazendo com que a estrutura sumisse completamente. Passados dois meses, ainda não há previsão para repintura oficial e recolocação dos tachões removidos. As placas foram reinstaladas logo após a divulgação do caso.

Respostas contraditórias

Inquirida à época da retirada, a Regional Butantã informou ao Vá de Bike que a sinalização de solo seria de competência da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) – posição mantida até hoje, segundo mensagem enviada à nossa redação na manhã de hoje (15/5). Já a CET informou, em nossa consulta de um mês atrás, que como o serviço foi realizado pela Regional, o órgão estaria em “tratativas para a repintura”.

Hoje perguntamos novamente ao órgão de trânsito sobre a repintura. A nota que recebemos foge da pergunta direta que fizemos e, com rodeios, contradiz a informação que recebemos no mês passado, que dava como certa a repintura, sendo uma questão apenas de “tratativas”.

A CET nos informa agora que essa remoção seria parte de “um plano de revitalização e revisão das ciclovias”. Diz ainda, em nota, que tem realizado “um amplo debate” sobre o assunto e que o resultado desse diálogo é o que definirá o projeto a ser adotado nessa e em outras ciclovias da cidade. Veja o texto completo:

A secretaria municipal de Mobilidade e Transportes iniciou um plano de revitalização e revisão das ciclovias com o objetivo de garantir a convivência, com segurança, entre bicicletas e os demais veículos em São Paulo.

A Secretaria tem realizado um amplo debate com ciclistas, comunidade local e com representantes da Prefeitura Regional para buscar as melhores alternativas.

O resultado desse diálogo é o que definirá o projeto a ser adotado em cada ponto da cidade.

Debate com moradores

Com essa resposta a uma pergunta específica sobre essa ciclovia removida, nos parece que a prefeitura só a repintará se a comunidade local (leia-se moradores) aprovarem. Seria interessante sabermos se a presença de calçadas também passa por aprovação desses moradores, se eles também são consultados sobre a necessidade de travessias de pedestres, semáforos, sinalização sobre a presença de escolares e outras medidas para a segurança de quem usa o espaço público naquelas vias.

O viário não pode ser tratado como quintal da casa dessas pessoas, que tentam fazer prevalecer seu conforto de estacionar o carro em frente ao imóvel em detrimento da segurança e da vida de cidadãos que por ele se locomovem. Há uma diferença grande de equilíbrio nessas demandas e nos parece que vidas não são um preço justo a se pagar para garantir um pretenso (e inexistente) direito de estacionar na porta de casa.

A necessidade de proteção e segurança viária não pode ser comparada, por ninguém em sã consciência, à comodidade de estacionar em espaço público de circulação viária um automóvel particular.

Histórico

21 e 22 de marçoCiclovia é removida pela prefeitura, sem nenhuma comunicação ou consulta aos espaços institucionais onde isso deveria ocorrer, como a Câmara Temática da Bicicleta no Conselho Municipal de Transportes e Trânsito (CMTT). A Ciclocidade publicou um detalhamento de como ficaram sabendo da retirada e por que tratar como “operação tapa-buraco” foi um procedimento bastante incorreto. Nossa matéria à época alertou sobre a necessidade de sinalização temporária, como cones ou cavaletes.

24 de março – Prefeitura Regional do Butantã informa à imprensa tradicional que a repintura seria feita em uma semana.

10 de abril – Ciclocidade envia e-mail ao Secretário Municipal de Mobilidade e Transportes, Sergio Avelleda, e à Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), cobrando a repintura. De acordo com a entidade, não receberam nenhuma resposta até agora.

18 de abril – Estrutura continua sem sinalização de solo, com carros trafegando e estacionando sobre o espaço, apesar das placas. Regional Butantã e CET empurram a responsabilidade entre si, sem avançar na solução do problema. Bicicletinhas foram pintadas por cidadãos sobre o asfalto novo, mostrando que a remoção dessa ciclovia não será esquecida.

25 de abril – Ciclocidade envia um segundo e-mail perguntando sobre a repintura. Novamente, nenhuma resposta.

2 de maio – Assunto foi cobrado em reunião da Câmara Temática de Bicicleta, na presença do Secretário de Mobilidade e Transportes e toda sua equipe. Não houve resposta, apenas a promessa de trazer alguma informação na próxima reunião.

Após diversos e-mails sem resposta, ofício protocolado no dia 11 pede repintura da ciclovia apagada no Morumbi.

Após diversos e-mails sem resposta, ofício protocolado no dia 11 pede repintura da ciclovia apagada no Morumbi.

10 de maio – Um terceiro e-mail foi enviado cobrando a repintura, dessa vez através da Câmara Temática.

11 de maio – Foi protocolado um ofício, destinado ao secretário Avelleda e ao presidente da CET, João Octaviano Neto, solicitando “com a maior brevidade possível a repintura da ciclofaixa e recolocação de toda a sinalização cicloviária” no local.

14 de maio – Ciclofaixa amanhece repintada pela população.

Galeria


20 comentários para Ciclovia removida ressurge repintada pela população em São Paulo

  • Guilherme Santos

    O nome do que foi feito é vandalismo.

    E se um motorista pintasse de preto onde existe uma ciclovia? Ou se sobre a ciclovia fossem pintadas vagas de estacionamento?

    A discussão se deveria existir ou não uma ciclovia ali é válida, agora pintar por sua própria vontade é errado.

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    • Renato

      Legal fera, então tirar na surdina sem discutir com os ciclistas está certo? ALI ERA UMA CICLOFAIXA, só para constar.

      Estacionamento não é direito constitucional previsto em lei em lugar algum do mundo. Se informe!

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      • Guilherme Santos

        Tá certo, “fera”,

        Ciclovia também não é um direito constitucional se informe!

        Pela lei o ciclista pode continuar circulando por ali, pelo bordo da via com prioridade sobre demais veículos.

        Desculpe por não conseguir desenhar aqui mas vou tentar explicar…

        Não sou contra as ciclovias e não sou a favor de suas retiradas.

        Reitero que o que foi feito é vandalismo. Se ciclistas pintam ciclovias sobre a rua e acham certo o que impede motoristas de pintarem vagas ou apagarem ciclovias e acharem que também estão no direito.

        Tente olhar a situação pelo outro lado, aliás isso se chama empatia. Pratique um pouco, faz bem.

        Sds

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        • Renato

          ERRADO!

          A Lei nº 12.587 de 2012 que instituiu as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU). O inciso II do Art. 6º do texto legal é claro aí afirmar que há “prioridade dos modos de transportes NÃO motorizados sobre os motorizados e dos serviços de transporte público coletivo sobre o transporte individual motorizado”.

          Só por esse princípio a remoção de ciclofaixas e ciclovias para priorizar automóveis já pode ser considerada ILEGAL.

          Segundo o CTB, as vias foram projetadas para a circulação de TODOS OS VEICULOS, motorizados e não motorizados, o que tb inclui a bicicleta.

          Logo, o poder publico e o orgão de transito tem como premissa e prioridade a CIRCULAÇÃO e não estacionamento de veiculos privados e tem amparo para implantar ciclofaixas no lugar de vagas de estacionamento, da mesma forma que tem liberdade para mudar o sentido de direção de uma avenida

          As ciclovias e ciclofaixas são regulamentadas por lei e estão acima de estacionamento privado.

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          • Guilherme Santos

            “Só por esse princípio a remoção de ciclofaixas e ciclovias para priorizar automóveis já pode ser considerada ILEGAL”

            Da onde vc tirou que é ilegal?

            Eu sou advogado e por esse seu raciocínio percebo que você não entende muito de leis e legalidade.

            É premissa da prefeitura tirar e colocar vagas de carro como é premissa da prefeitura tirar e colocar ciclovias. Uma coisa não é ilegal só porque vc quer que seja.

            A única coisa ilegal nessa história é o vandalismo de se pintar uma rua.

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  • Mário

    As entidades internacionais que premiaram Haddad por sua gestão progressista, deviam dar o troféu abacaxi para o mimadinho dolynho!!!!!

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  • Rodrigo Thedim

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    • Tiago

      Que nem a ciclovia da Margem oeste do Rio Pinheiros, não? pouco movimento, assaltos frequentes, sem iluminação, segurança….e acessos.

      Ciclovia feita pelo Alckmin…..

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  • Luiz

    Sou pedestre, não tenho carro, moto ou bicicleta, e sou totalmente favorável aos ciclistas, e acho que todas as ruas que tenham espaço para implantação de uma ciclofaixa deveriam ser efetivadas.
    Mas peço aos ciclista mais RESPEITO ao pedestre. É muito comum o ciclista ignorar completamente a faixa de segurança avançando o sinal vermelho. Em avenidas onde a a faixa de pedestres é ampla, ficam passeando com sua bike esperando o farol abrir, e o pedestre que se dane. Calçadas viraram ciclovias, já tomei vários sustos com ciclistas que me ultrapassam nas calçadas sem nenhum aviso sonoro, e já fui ofendido ao protestar. Deixo uma sugestão de campanha: CICLISMO COM CIDADANIA.
    Mais respeito ao Pedestre e principalmente ao IDOSO!!
    Obrigado.

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  • 12012

    Motorista não percebe que uma ciclovia ali diminui a quantidade de carros na frente dele no horário de pico. Pensa que cada ciclista que passa ali do lado do seu amado carro podia estar dentro de outro carro bem na sua frente. Por mim toda rua tinha ciclovia, ciclista faz um favor pra cidade e os carristas só reclamam.

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  • Guilherne

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  • Bruno Lippi

    Vá de bike faz um trabalho sensacional. Sempre acompanho como forma de participar. Embora, normalmente eu não consiga participar das reuniões por conta de agenda, me sinto bem representado por vocês. Vim do RJ e lá infelizmente não temos esta mobilidade e respeito que existe aqui. Ainda é muito pouco o que temos, mas muito já se foi conquistado aqui em SP. Após anos sem andar de bike, estou de volta a um esporte, um estilo de vida e a liberdade que andar de bike me proporciona. Graças a este trabalho em conjunto, sigo para o trabalho todos os dias muito mais feliz ao utilizar a bike. Eu e mais algumas pessoas que sempre vejo pelas vias todos os dias. Grande abraço e podem contar comigo.

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  • Du Dias

    Sem falar no princípio da supremacia do interesse público sobre o privado.

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  • Wilson

    Ou seja, a prefeitura acaba de assumir que foi remoção mesmo.
    A prefeitura, quando diz que fará revisões de ciclovias após amplo debate com a comunidade, quer dizer que prevalecerá a opinião da maioria. Acontece que no caso de ciclistas, as políticas públicas adotadas para sua proteção não são exatamente políticas de maiorias. Em algumas situações é necessário também atender às necessidades de minorias. Afinal, os governos são, ou ao menos deveriam ser, para todos, e não apenas para grupos, sejam eles maiorias ou minorias.

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