Ciclistas “se arriscam” ao usar as vias?

A bicicleta também é um veículo. E tem prioridade de circulação em relação aos carros e motos (art. 58/CTB). Foto: Willian Cruz/VdB

O telejornal SP TV (Globo) relatou, no final de 2018, o aumento na circulação de ciclistas em São Paulo, que dobrou em relação ao ano anterior. A reportagem toca em pontos importantes, mas tem uma falha conceitual que não pode continuar fazendo parte do bom jornalismo.

A matéria cita as 16 mortes ocorridas no ano até então, que poderiam ter sido evitadas se a infraestrutura de proteção não tivesse estagnado na capital paulista desde o início da gestão João Dória/Bruno Covas. Além de não aumentarem, as ciclovias sequer receberam manutenção por parte da prefeitura – com exceção de algumas ações de tapa-buraco e da ressinalização onde houve recapeamento de toda a via.

Uso da rua

Foto: Willian Cruz

Apesar dos acertos, o tom da reportagem é de que os ciclistas é que “se arriscam” ao trafegar em meio aos carros. Isso é afirmado de forma recorrente ao longo do vídeo. Entendemos que isso não tenha sido proposital para antagonizar o uso da bicicleta como transporte, mas resultado de um pensamento ultrapassado, que precisa ser revisto nas redações.

A bicicleta em meio ao trânsito, por si só, não é perigosa. Seu uso é autorizado e regulamentado pelo próprio Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que a reconhece como veículo e estabelece que ela deve ter prioridade de circulação em relação aos demais (art. 58).

É portanto bastante equivocado dizer que os ciclistas “se arriscam” ao circular nas ruas, já que estão apenas exercendo seu direito. É equivalente a dizer que os motoristas se arriscam todos os dias ao usar as grandes avenidas e que portanto não deveriam fazê-lo.

Capacete

Foto: Rachel Schein

Há ainda uma tentativa sutil, em dois momentos, de associar a falta de capacete a esse suposto “risco” em que os ciclistas se colocariam, como se os acidentes acontecessem também por causa disso. Para tornar claro, imagine que você está caminhando em uma calçada e alguém do nada te acerta uma paulada na cabeça; foi você quem se colocou em risco ao não caminhar de capacete ou o que causou esse risco foi haver naquele local uma pessoa descontrolada carregando um pedaço de pau?

A falta do capacete não cria risco de acidentes: seu objetivo é proteger o ciclista depois que um deles acontece. Por isso, é igualmente equivocado associar o risco de acidentes ao uso ou não do capacete (que por sinal não é obrigatório por lei). O acidente, no caso um atropelamento, vai acontecer estando o ciclista de capacete ou não. A probabilidade de se acidentar não muda (exceto quando o ciclista fica mais confiante por estar com a cabeça protegida, mas essa é outra discussão).

Em resumo, não se previne acidente colocando capacete no ciclista. Isso deve ser feito criando condições para que ele circule em segurança. O capacete protege, sim, da mesma forma que joelheiras, cotoveleiras, colete cervical e protetor bucal, mas nenhum desses equipamentos é obrigatório, não pode ser exigido e muito menos associado a irresponsabilidade. São equipamentos para proteger depois que ocorre um atropelamento; não funcionam para evitá-lo.

Mas o que coloca os ciclistas em risco então?

A bicicleta branca (Ghost Bike) em memória de Márcia Prado, atropelada na Paulista em 2009, quando ainda não havia ciclovia. Foto: Willian Cruz

O perigo para quem pedala está, em maior parte, na conduta dos motoristas. Um ciclista que se desequilibra e cai sozinho se machucará muito menos do que aquele que teve seu guidão tocado por um retrovisor de automóvel.

O que coloca os ciclistas em risco não é o uso da via e nem a ausência de capacete: é a falta de respeito de boa parte dos motoristas, que ainda não aceitam a bicicleta como meio de transporte, bem como a falta de sinalização e estrutura adequados para proteger os entes mais frágeis do trânsito veicular.

Punir adequadamente os motoristas que cometem atitudes criminosas no trânsito seria muito importante (em países que já evoluíram nesse entendimento, um motorista que derrube um ciclista terá sérios problemas com a justiça), mas essa é uma mudança que ainda demora para vermos por aqui.

Como resolver?

Ciclovias permitem que até mesmo crianças usufruam do espaço viário em segurança. Imagem: George Queiroz/Bicicleteiros

O risco causado por motoristas imprudentes e impunes é potencializado pela omissão do poder público, que tem obrigação (art. 24 do CTB, inciso II) de tornar as vias mais seguras para quem se desloca em bicicleta. E uma das maneiras mais eficientes de se fazer isso é criando estruturas de proteção que forcem os motoristas a circular com maior distância dos ciclistas, sejam elas ciclovias ou ciclofaixas.

A consequência da ausência dessas estruturas é que os ciclistas são empurrados para o uso das calçadas – uma situação que não deveria ocorrer, mas que só será solucionada de fato quando os ciclistas se sentirem protegidos em outro local, seja na via junto a motoristas, seja em estrutura segregada (o que na nossa cultura viária atual acaba sendo a melhor opção).

Apesar desses pontos, a matéria é importante por mostrar que as ciclovias precisam ser ampliadas com urgência, acompanhando o aumento da demanda.

Com sucessivos retrocessos e adiamentos na política pública, justificados por declarações preocupantes como as que foram dadas nessa recente entrevista de rádio, cada minuto que se passa sem que a proteção seja estendida pode ser tarde demais para a vida de alguém.

Estamos no terceiro ano dessa gestão. É hora de acordar.


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