Cicloviagem na Serra Catarinense

Foi uma viagem de 285km em dois dias, feita por três pessoas (Willian Cruz, Bruno Gellert e Denny Sachtleben). No primeiro dia, rodamos 170km, saindo praticamente do nível do mar para cerca de 1500m de altitude, na Serra do Rio do Rastro (SC). No segundo dia, rodamos 115km, com uma longa e maravilhosa descida de serra em estrada de chão (Serra do Corvo Branco).

Faz tempo que estou para postar esse relato, mas demorei para escrever. Eu queria resgatar toda a emoção da viagem nesse texto, então demorou para ficar pronto. Queria fazer um texto que me fizesse lembrar de pequenos detalhes da viagem, das emoções que senti pelo caminho.

Cada vez que leio esse texto, me sinto lá de novo. E resolvi compartilhar isso com vocês, postando ele aqui. Ao longo do relato há várias imagens como essa ao lado, tirada em uma ponte no caminho. Cliquem nas fotos para vê-las ampliadas.

Espero que gostem tanto de ler esse texto quanto eu gostei de escrevê-lo.

Sexta, 30/Set/05

Correria! Era meu último dia em Floripa eu ainda tinha um monte de coisa pra fazer.

Primeiro tive que preparar a “mudança”. Eu havia ficado 10 meses a trabalho em Florianópolis e o hotel havia virado minha casa. Por isso, arrumar as malas foi bem complicado, já que eu tinha mais coisas para levar do que elas poderiam carregar. Tive que escolher algumas coisas para deixar por lá (sucos, bolachas, espuma de barba, etc.) e o resto precisei de criatividade e paciência para conseguir encaixar nas duas únicas malas que eu levaria.

Depois ainda tive que ir comprar sapata de freio, pois sabia que desceríamos a Serra do Corvo Branco, toda em terra, e estava com medo que as sapatas que eu tinha não dessem conta. Comprei, instalei e regulei os freios. Também tive que arrumar a mochila que eu ia levar na cicloviagem. Já fazia alguns dias que eu vinha planejando o que levaria: sempre que eu lembrava de alguma coisa que seria bom levar eu anotava, para não esquecer de nada. Depois foi só descartar algumas coisas que poderiam ser consideradas dispensáveis.

Foi corrido fazer tudo isso, mas com planejamento prévio deu pra cumprir o horário.

Deixei as malas e o mala-bike vazio no hotel, com a intenção de pegar no domingo antes de ir para o aeroporto. Até pensei em levar o mala-bike, para evitar problemas com a bike na rodoviária, mas teria que levá-lo nas costas, amarrado na mochila – o que era impraticável devido a seu peso e tamanho e à ausência de um bagageiro na bike. Eu também poderia colocar a bicicleta nele já no hotel e pegar quatro táxis, entre a ida e a volta de Tubarão… Claro que optei por ir pedalando e sem o trambolho!

Coloquei a mochila nas costas e pedalei para a rodoviária debaixo de uma chuvinha fina, que chovia mais de baixo para cima que de cima para baixo (quando voltei a São Paulo, instalei para-lamas). Ainda bem que era perto.

O Denny já estava me esperando por lá e já tinha comprado as passagens. Na hora de embarcar as bikes no ônibus, aquela ladainha: não vai ter espaço, não cabe bicicleta aí, o “ferro” delas vai rasgar as malas, etc. Esperamos o “simpático” motorista da Viação Catarinense colocar todas as bagagens lá e ainda sobrou 1/3 do bagageiro sem mala nenhuma. Com jeito, teria sobrado até 2/3. Colocamos as duas bikes lá dentro, fisicamente separadas de todas as outras bagagens. O motorista amigo nos ajudava o tempo todo, com frases motivadoras como “anda logo aí” e “vocês estão atrasando o ônibus”, supervisionando nossos esforços com as sombrancelhas franzidas. Embarcamos e ocupamos nossos assentos, para esperar por mais dez minutos até ele ligar o ônibus e sair (ué, achei que era a gente que estava atrasando o ônibus…).

Oba, pizza!
Rodízio de pizza, para forrar de carboidrato na noite anterior à viagem (há sempre uma boa desculpa para se comer pizza)

Mas não nos estressamos: a expectativa da viagem superava essa pequena amolação de tal modo que nem demos atenção. E também não foi tão ruim assim: afinal, embarcamos as bicicletas sem nem precisar embalar, “na seca” mesmo. Deitamos uma por cima da outra e boa.

Chegamos em Tubarão depois de pouco mais de duas horas de estrada, com um pouco de chuva no caminho. Como eu estava decidido a fazer a viagem mesmo com chuva, não me preocupei.

O Bruno já nos esperava na rodoviária. De bike, claro. Fomos até a casa dele largar as mochilas e partimos para um rodízio de pizza. O tempo em Tubarão estava bom e aproveitamos para dar uma volta na cidade. Fomos dormir por volta das duas da manhã.

Sábado, 01/Out/05

Primeira parada, em Pedras Grandes
Parada rápida para comprar frutas. Olhando com atenção dá para ver a chuva fina, que nos acompanhou por boa parte do caminho.

A idéia era sair bem cedo, mas como fomos dormir tarde acabamos saindo às 8, tendo dormido apenas 5 horas. Ainda paramos em uma padaria para forrar o estômago de carboidrato (e de café preto pra quem gosta) e, depois de um trecho de asfalto, entramos em uma estradinha de lajotas em direção a Lauro Müller, sob uma chuva fina mas constante, que nos acompanhou por umas boas horas.

No início dessa estrada optamos por ir pela “calçada”, porque a via era estreita, de pista dupla e com calçamento muito ruim, cheio de buracos e poças de lama enormes. Mas de calçada ela não tinha nada, em alguns pontos estava mais para um single track. Desviando de muitas poças d”água, alguns buracos e saindo eventualmente para a rua para respeitar um ou outro pedestre que aparecia, nos abençoamos com a terra arenosa que respingava para cima e nos salpicava de marrom. Quem está na terra é para se sujar. 🙂

Mata, chuva, barro e diversão
Mata, chuva, barro e diversão
Mata, chuva, barro e diversão

9:15 da manhã, paradinha rápida para comprar bananas em um lugar que o mapa depois mostrou ser Pedras Grandes. A chuva continuava, agora já não mais tão fina. Era uma quitanda que tinha tudo quanto era fruta por um preço muito baixo: compramos várias frutas e pagamos um total de menos de um Real. Comprei também uma maçã pequena que comi pelo caminho. Estava tão doce que depois me arrependi por ter comprado só uma! Eu não sou muito chegado em maçã, mas durante a viagem descobri que as dessa região são maravilhosas.

A pedra do He-Man
“Essa pedra é do He-Man”
(é o que diz a inscrição…)

Fomos margeando um rio enorme e cheio de pedras. Essa estrada era bem legal, alternando subidas leves com algumas descidas boas. Vi uma ponte que parecia coisa do Indiana Jones e fiquei morrendo de vontade de atravessar, mas passamos batido. Daqui a pouco outra, eu só namorando ela de longe. Tiramos algumas fotos na “pedra do He-Man”, que ficava em frente a um paredão de onde ela claramente havia caído, provavelmente há muito tempo.

Um pouco adiante o primeiro – e felizmente o único – problema mecânico da viagem: minhas marchas atrás não passavam mais. Dava impressão que o cabo havia quebrado, mas eu achei que não fosse isso porque já fazia uns 15 dias que toda vez que eu tomava chuva (com a bike, claro) as marchas mais pesadas não entravam.

Oficina mecânica ao ar livre
Oficina mecânica ao ar livre.
“Xi, entrou terra aqui na parada!”

Viramos a bike e o Bruno mostrou seus conhecimentos de mecânica. O cabo estava bom, mas dava a impressão de que o câmbio não se mexia, como se estivesse travado. Ao soltar o cabo, o diagnóstico: o câmbio estava perfeito, o problema era que o último conduíte lá embaixo, já perto da roda, agarrou o cabo dentro dele e não o deixava mais ir e nem vir! Se eu tivesse passado a bike por uma revisão antes de viajar, isso não teria acontecido…

Com um pouco de esforço, o conduíte foi retirado e começou a sessão de limpeza. Ainda bem que eu tinha levado o óleo de transmissão (um Finish Line para “molhado”) e o Bruno um alicate, que foi útil depois na remontagem. Jogamos óleo no conduíte e assopramos até o óleo e o ar estarem saindo facilmente do outro lado. Passamos o cabo por ele, remontamos no câmbio e o Bruno fez a regulagem, comigo e o Denny palpitando. “Mais pra fora! Mais pra dentro! Tá muito solto! Agora tá bom”.

Enquanto consertávamos, vimos passar um carro de boi que parecia ter saído de uma máquina do tempo. Era uma carrocinha em que até as rodas e o eixo eram de madeira, com um boi puxando. Pena que não deu tempo de sacar a câmera. Bike consertada, tocamos adiante.

Nessa brincadeira perdemos quase uma hora. Partimos, comigo avaliando a regulagem para ver se estava boa. “Melhor que antes”, hehe. Tava boa o suficiente para a corrente e a catraca já desgastadas, que eu aposentei após essa aventura com medalhas de honra ao mérito. A catraca Alívio já tinha quase cinco anos de uso e pelo menos uns 15 mil km rodados! A corrente era mais nova, devia ter rodado “só” metade disso…

Seguimos adiante, até que o Bruno sugeriu que passássemos para o outro lado do rio… por uma ponte daquelas! Ótimo, vai render boas fotos! 🙂

Bruno e Denny entrando na ponte
Bruno e Denny entrando na ponte
Aqui dá pra ver a ponte toda
Aqui dá pra ver a ponte toda. Eles estão bem ali no meio.
Willian na ponte Isso aqui tá escorregando...

Passar nessa ponte foi muito legal. Só dá um pouco de receio na hora que você entra nela e a bike começa a escorregar: eu freava e ela continuava descendo, porque as tábuas molhadas estavam lisas. Se eu colocasse as duas mãos no guidão para me equilibrar, a manopla entraria nos buracos da rede lateral e aí era chão na certa; se descesse muito rápido, a roda poderia entrar nos vãos entre as tábuas, dos quais era preciso ficar desviando. O jeito era manter uma das mãos no “corrimão” de arame, mais para se equilibrar enquanto a bicicleta deslizava para o meio da porte, porque diminuir a velocidade era difícil. Mas apesar de tudo a ponte era bastante segura, sendo praticamente impossível cair no rio mesmo se eu conseguisse tomar um capote lá no meio.

Do outro lado do rio havia uma plantação de couve-flor que eu, bicho de cidade, achei muito bonita. Dez metros adiante outra estrada, dessa vez de terra, e dá-lhe perna de novo. Eram 10:40 e a chuva continuava. Estávamos fazendo um ritmo tranqüilo, sem forçar, porque sabíamos que a subida da serra nos esperava. E não ia ser fácil.

Próximo a Orleans, a chuva deu trégua. Lá chegando, paramos para comer alguma coisa, já era quase meio-dia. Mandamos pra dentro uns salgados de uma loja de conveniência, que eu não sei se estavam bons mesmo ou se a fome é que era grande. Demorou mais tempo do que esperávamos para chegar até ali, mas mesmo assim não quisemos almoçar direito porque estávamos na esperança de conseguir almoçar lá em cima, em uma churrascaria que o Bruno conhecia.

Agora é que eu quero ver...
Lá vem a subida!

Paramos rapidamente em Lauro Müller às 12:30, para tirar algumas fotos e para que eu colocasse uma camiseta entre as duas camisas de ciclismo, já que estava esfriando. Mal sabia o frio que ainda iríamos passar naquele dia. Essa foi nossa última parada antes da Subida (com S maiúsculo).

Denny Sachtleben e Bruno Gellert
Começo da subida. O cara da esquerda é o Denny e o que não sente frio é o Bruno.

Começamos a Subida meio que sem perceber ela chegando. Claro que percebíamos que estávamos subindo, mas ela só se tornou forte mesmo por volta das 14h, quando atingimos a camada de nuvens e entramos na neblina fechada. A inclinação ficou bem forte e o chão passou a ter ranhuras para aumentar o “grip” dos pneus dos carros, principalmente em situações de gelo na pista – que não presenciamos, mas para a qual inúmeras placas alertaram desde o meio dessa subida até a chegada em Urubici (que por sinal ainda estava beeeem longe…)

Olha o tamanho do chifre do bicho
Olha o tamanho do chifre do bicho. Eu pedi pra ele olhar pra câmera pra foto ficar melhor, mas ele não quis interromper o almoço. Tudo bem, melhor não incomodar…

Vimos dois acidentes com caminhões no caminho, sempre com a rápida intervenção da Polícia Rodoviária da região. Felizmente em ambos ninguém se machucou e acho que não houve nem prejuízos aos veículos. O primeiro foi logo no começo da subida, com um caminhão do tipo “bi-trem” que saiu com algumas rodas para fora da pista e não conseguia voltar sozinho. Ele havia nos passado uns 10 ou 15 minutos antes e quando chegamos a polícia ja estava lá, sinalizando para evitar algum acidente pior, já que o segundo “vagão” ocupava toda uma pista. Continuamos subindo e 15 minutos depois esse caminhão já nos passava novamente, seguindo sua viagem.

O outro acidente foi já próximo ao topo da subida, com um caminhão que não conseguiu ângulo para fazer uma curva da estrada e empacou encostado no paredão de pedra, sem conseguir sair dali. A polícia também já estava lá, ajudando outros veículos grandes a fazer essa curva com o caminhão ali. Em alguns pontos dessa estrada eu vi caminhões e ônibus “manobrando” para conseguir fazer algumas curvas, pois a pista era relativamente estreita e as curvas eram muito fechadas.

Na estrada
É, não tem acostamento aqui...
A estrada estava tão tranqüila que dava até pra brincar com a câmera.

A estrada não tem acostamento no caminho todo até lá em cima, apesar de haver vários “refúgios” ao longo da subida. Por sorte, ela não é muito movimentada e é *muito* silenciosa, o que nos possibilitava saber com boa antecedência, mesmo sob a forte cerração, quando um veículo grande estava subindo. Isso até nos permitia, nos trechos mais estreitos, parar de pedalar e aguardar encostados no guard-rail até que o caminhão ou ônibus passasse, sem nos colocar sob risco desnecessário.


Tem uns pequenos caminhos naquela parede vertical com grama, ao lado da estrada; juro que tinha uma vaca andando ali, mas ela ficou com vergonha e se escondeu atrás da árvore.
Uma última olhada na vista antes de entrar na neblina
Propaganda é isso a�
Caldo de cana, salame, cachaça, mel… neblina!

Os faróis dianteiros e os piscas traseiros das bikes nos deram uma segurança adicional, nos tornando visíveis em meio à neblina e gerando alguns toquezinhos de buzina amigáveis de carros e motos nos cumprimentando.

Logo no início da àrea de neblina, paramos em uma lojinha na beira da estrada para comer bolachas e barras de cereais que havíamos trazido. Havia ali uma bica, que trazia água de cachoeira geladinha e deliciosa. Essa cachoeira, que nos acompanhou dali até o topo da subida, provavelmente dá corpo ao grande rio que atravessamos na ponte lá embaixo, horas antes. A cada pouco a estrada passava por ela novamente, de um lado ou do outro da pista. Às vezes não era possível vê-la, apenas ouví-la, pois a neblina era muito intensa.

O dono da loja comentou que a cerração já durava 15 dias. A névoa nos impediu de ver a maravilhosa paisagem dali até o topo, pois era muito fechada. Em alguns pontos, a visibilidade não passava dos dez metros. No início da subida a névoa ainda era seca, mas conforme foi ficando mais forte ficamos ensopados. A pista toda estava molhada, era como garoa. Estámos no meio das nuvens.

O esforço da subida nos salvava de sentir frio. A inclinação estava muito forte. Esse pedaço mais íngreme devia ter no máximo 15km, mas levou cerca de duas horas para ser vencido. Nesse trecho relativamente curto, subimos mais de mil metros!

Nas nuvens
Ciclistas sumindo na neblina
Roda nova Bruno encontra um novo acessório para a bike. O cenário ali do fundo era meio fantasmagórico: ruínas, várias moitas com lírios brancos crescendo, tudo envolto na névoa… Valha-me, Nossa Senhora de Ghisallo! 🙂

Li uma vez uma frase que dizia que as subidas fortes e longas são sempre um processo de negociação com a dor, onde você limita a velocidade da escalada pela dor que suporta sentir. Para mim, isso nunca foi tão verdade. Por pelo menos quatro vezes tive que parar devido a câimbras. Eu parava, alongava um pouco, pressionava fortemente a região com câimbra durante algum tempo – para que a circulação limpasse o ácido lático dali – e prosseguia logo em seguida, para não dar tempo do corpo esfriar.

Repare na pista: de concreto e com ranhuras, para que os pneus dos carros não escorreguem quando há gelo na pista
Neblina
Ó senhor, por que tanta neblina!

Perto do topo, passamos por uma turma que descia a pé no meio da neblina, a maioria acima dos 50 anos. Eles, que aparentemente desceriam a serra á pé, ficaram felizes em nos ver e se identificaram com nosso esforço, nos saudando com frases como “é isso aí, mostra que a gente pode!”. Foi um momento bem legal.

A chegada ao topo, às 16:30 e com cerca de 100km pedalados, foi uma das maiores vitórias da viagem! Havíamos vencido um obstáculo enorme, um desafio para poucos. Nos sentíamos ótimos!

A nuvem branca ainda era onipresente: ao nosso redor, acima, abaixo e mesmo dentro de nossos pulmões. Apesar de bloquear a maravilhosa vista do mirante e de tudo que estivesse a mais de 30 metros, a neblina não tirou a magia daquele momento único, em um lugar onde poucos chegam sem a muleta dos motores, onde cada um de nós havia vencido um grande desafio pessoal.

Em quase toda trilha o Bruno faz amizade com algum cachorro, mas esse aí era medroso demais pra ser amigo dele.

Estávamos verdes de fome e paramos em um dos dois quiosques para comer, os únicos lugares para se alimentar em quilômetros. Havia dois cachorros grandes por ali: um muito tranqüilo e outro que, com medo das bicicletas, tentava nos intimidar com um latido grosso. Desmontados, nos aproximamos e a desconfiança do cão de pêlo preto foi embora, substituída pela esperança de ganhar alguma comida. Mas isso só durou até o Bruno esbarrar em um painel com um monte de souvenirs pendurados, que caiu com estardalhaço, rompendo o silêncio e a tranqüilidade do lugar e fazendo o cachorro preto correr em disparada pelo meio da neblina, para ficar latindo por meia hora de uma distância que achou segura… foi hilário! Azar dele, só o outro ganhou comida.

Alongamos bem para relaxar os músculos cansados enquanto decidíamos o que comer. Conforme o calor do exercício foi dissipando, começamos a sentir o frio que fazia ali e fomos vestindo nossas roupas mais quentes. Certamente fazia menos de dez graus ali.

Por incrível que pareça, não havia nada quente para comer ou beber no tal quiosque. Nem um cafezinho! Pelo contrário, tudo estava gelado, afinal ali estava mais frio que dentro da geladeira aqui de casa… 🙂 As opções eram salgadinhos, bolachas, maçãs, queijo e salame. Detonamos uma peça de salame e meio tijolo de queijo, porque achamos melhor almoçar alguma coisa salgada já que a churrascaria-lenda-urbana já era.

Almoço às 17h
Ué, não tinha uma churrascaria aqui em cima?

Que salame bom! E com a fome que estávamos e um queijinho para acompanhar, ficou melhor ainda. Sobrou um pedaço que eu embrulhei e levei, sem saber o quanto agradeceria por isso no caminho… Numa peregrinação dessas, a gente aprende a dar valor a pequenas coisas.

“E aí, vamos até Urubici para voltar pela Serra do Corvo Branco ou vamos dormir em Bom Jardim da Serra e voltar por aqui mesmo amanhã? Urubici está a uns 80km.” Não tivemos que pensar muito: vamos até Urubici.

Com o corpo frio, estávamos sentido a baixa temperatura que reinava ali no meio da neblina. Colocamos mais blusas, tomamos um gel de carboidrato cada um, filamos um café quentinho no posto da polícia e voltamos para a estrada. Estávamos com pressa, pois já era por volta das 17h30 e logo iria escurecer.

Nessa hora o Bruno começou a dizer que os 80km até Urubici seriam tranquilos: subida até Bom Jardim da Serra, depois só reta e descida.

Pouco tempo depois, a neblina molhada se dissipou e pudemos apreciar a paisagem. A estrada era muito bonita. Estávamos no topo do planalto e por isso a visão se estendia ao longe em vários trechos. Ladeando a estrada, víamos com frequência araucárias e macieiras. Nessa época do ano, as macieiras estavam “peladas”, sem folhas ou frutos, seus galhos bastante ramificados compondo um cenário inusitado.

Passamos por Bom Jardim quase sem perceber. Estávamos no embalo, pedalando forte. A temperatura havia subido um pouco depois que saímos da neblina, então tiramos as blusas mais quentes. Devia estar em torno de 15°.

Pedimos informação sobre o caminho e não tinha muito o que errar: a estrada seguia sem nenhuma bifurcação ou saída relevante até o Cruzeiro. De lá, seguindo reto chegaríamos a São Joaquim, “a cidade onde tem neve”, mas não teríamos o que fazer por lá e aumentaria em bem mais de 100km o percurso para o dia seguinte, portanto fora de cogitação. Virando à direita no Cruzeiro, teríamos uns 50km até Urubici.

Ao passar por Bom Jardim da Serra, o Bruno proferiu a frase que seria eternizada como marco dessa viagem: “daqui até Urubici é só descida”. A estrada era um sobe e desce interminável, mas a cada trecho de subida vencido a gente ouvia: “fica tranqüilo que daqui até Urubici é só descida”!

Começou a escurecer e ainda estávamos na estrada. Ainda tinha chão e aquele sobe e desce começou a minar nossas forças, sobretudo por não termos conseguido nos alimentar adequadamente. Tínhamos uns dois pacotes de biscoito doce, alguns sachês de gel de carboidrato e um resto de salame, que eu comi na base da dentada sem parar de pedalar.

Cada vez que tomava um gel de carboidrato, eu ficava um pouco mais esperto, mas por volta das 22h já estava até começando a dar sono, mesmo pedalando. Não tínhamos consumido carboidrato suficiente no dia e estávamos sentido o efeito ali. Faltava “combustível”. Pensamos até em dormir por ali, no mato que margeava a estrada, mas se estávamos com frio pedalando, imagine deitados no solo molhado… A sensação térmica, em pé, devia estar em torno dos 10°C. No solo, durante a madrugada, talvez caísse a valores negativos, não tínhamos equipamento ou roupas para isso.

Noite chuvosa e fria na estrada
“Daqui até Urubici
é só descida!”

As subidas da estrada, embora sempre curtas, se tornaram um sacríficio. Cada descida era uma bênção. A chuva, que ia e voltava, finalmente nos deixou em paz. Em certo momento, paramos por cerca de meia hora para descansar e matar dois pacotes de biscoitos recheados. Quebrou bem o galho, mas estava longe de ser uma refeição decente.

Apesar das dificuldades, do sono e do cansaço, não estávamos desanimados. Continuávamos sabendo apreciar o silêncio da noite, as luzes das cidades brilhando nas nuvens ao longe, a beleza das estrelas e do braço da galáxia reluzindo acima de nós. O fato de estarmos ali, longe de tudo, tendo chegado apenas com as próprias pernas e sem a ajuda de ninguém, diminuía todas as dificuldades ao tamanho de “incômodos passageiros”.

Continuamos. De repente, uma lanterna balançando adiante, na escuridão da estrada: era um senhor indo pescar, levando uma lanterna grande, suas varas e apetrechos em uma barraforte. Nos cumprimentou com a simplicidade do interior e a cumplicidade de ciclistas que se encontram na estrada. Tentou nos acompanhar, mas a lanterna, as varas, as sacolas, a bicicleta simples e a idade lhe pesavam; logo a lanterna balançante ficou para trás em alguma curva.

Finalmente, teve início a descida para Urubici. A famosa descida, aquela que ansiávamos havia horas! Realmente foi uma bela descida de serra: longa, ininterrupta, íngreme, cheia de curvas. Passamos por um mirante de onde se poderia ver toda a cidade de Urubici, mas não deu para parar pois estava cheio de carros com música alta e jovens curtindo uma forma de lazer um pouco diferente da nossa: estavam bebendo, gritando e dançando em cima dos carros, visivelmente embriagados. Não seríamos bem recebidos.

Mais uns dez minutos de descida e estávamos entrando na cidade. Já era mais de meia-noite.
– Onde a gente vai achar um restaurante a essa hora?
– Se tiver algum aberto, é na avenida principal…

Pedalando por ela, encontramos um restaurante que servia lanches e pizzas. Eu queria pizza, mas fui voto vencido. Comemos 2 lanches cada um, descansamos, conversamos, rimos, sentimos sono e o restaurante estava fechando. Eram 1:30 e saímos para procurar uma pousada. Estava MUITO frio. Eu estava com duas camisetas de ciclismo, uma de malha, uma blusa de ciclismo quente (por dentro parece “soft”), uma jaqueta de nylon de costura selada e mesmo assim sentia frio. Devia estar fazendo uns 5°C ou menos.

Seguimos pela avenida principal, olhando em todas as travessas. Volta e meia encontrávamos uma pousada, mas todas estavam fechadas e ninguém atendia à porta. Nas que tinham o telefone escrito do lado de fora, até ligávamos pelo celular, mas ninguém atendia também. Acho que as pessoas hibernam nessa cidade.

Enquanto o Denny e o Bruno procuravam pousadas, meus olhos buscavam ao redor algo que pudesse ser um plano B: um lugar coberto que nos protegesse do vento gelado que nos cortava e da chuva que poderia voltar na madrugada. Mas logo adiante encontramos um hotel, que como todo bom hotel tinha um atendente na recepção a noite toda.
– Oi! Boa noite! A gente veio de Tubarão e estamos na estrada desde as 8 da manhã… Estamos bastante cansados e só precisamos de uma cama pra dormir e um chuveiro quente. O que que dá pra fazer aí pra gente?
– Bom… eu posso colocar todos num quarto e fazer por R$ 30 cada um…

Olhamos um pro outro buscando aprovação e respondemos todos que sim quase ao mesmo tempo.

Paramos as bikes no estacionamento dentro do hotel, as acorrentamos e levamos os “roubáveis” conosco (ciclocomputadores e luzes). Ainda não tínhamos certeza do que faríamos no dia seguinte, por dois motivos. Primeiro que para não perder o vôo para São Paulo eu teria que chegar em Tubarão antes das 4 da tarde. Eu e o Denny havíamos até comprado a passagem de volta para Floripa antecipadamento, para o horário das 16:30. O outro motivo é que estávamos BEM cansados. Não sabíamos como estaríamos no dia seguinte.

Procurando alternativas, perguntamos ao senhor da recepção se na cidade havia ônibus para Tubarão. Não havia. Só para São Joaquim, um que passava na frente do hotel às 8:30. Teríamos que dar sinal na rua, para tentar convencer o motorista a deixar colocar 3 bicicletas no bagageiro. Difícil. Mesmo que conseguíssemos, em São Joaquim teríamos que convencer outro motorista a permitir o transporte das bikes. Além disso, não sabíamos a que horas sairia de São Joaquim o ônibus para Tubarão. E se só saísse à noite? Além disso, se lá não nos permitissem embarcar com as bicicletas, estaríamos a uma distância maior de Tubarão, com muito menos tempo para retornar… Como se não bastasse, teríamos que acordar às 7:30, mas estávamos quebrados demais para isso.

“Bom, vamos dormir. Amanhã, se conseguirmos acordar no horário, a gente decide na hora.” Estávamos cansados demais para planejar o dia seguinte. Pegamos a chave e subimos.

Hotelzinho bacana...
Finalmente, o merecido descanso!

Enquanto eu tentava “pisar leve” no corredor, para não acordar os outros hóspedes com o cloc-cloc do taquinho de metal da sapatilha de ciclismo, fiquei imaginando como seria o quarto. Estava esperando o pior, achava que nos colocariam num quarto qualquer. Afinal, estavam fazendo um preço mais baixo. Mas ao abrir a porta me surpreendi, o quarto era ótimo! Tinha 5 camas lá, um banheirão bacana com uma ducha boa e um aquecedor excelente – que além de aquecer o quarto, serviu para secar nossas roupas e sapatos molhados de chuva.

Revezamos no uso do chuveiro com merecidos banhos de 20 minutos. Cada um que saía do banho já encontrava o anterior desmaiado de sono. Peguei no sono assim que caí na cama, já por volta das 2:40 da madruga.
Domingo, 02/Out/05

Olha as caras de sono...
Ônibus é para perdedores, vamos mesmo é no pedal! 😀
Café da manhã
Come bem que não sei se vai ter almoço hoje
Manhã de sol
Manhã de sol e estrada de chão batido: cenário perfeito para um mountain biker
Araucárias
Céu azul e araucárias

Às 7:30 alguém acordou os outros dois: “e aí, vamos de ônibus ou não?”. Eu acho que foi o Bruno, mas tava difícil até de saber quem eu era. Como já tínhamos discutido o assunto ontem e a vontade de continuar na cama era grande, a decisão foi rápida e unânime: tentar ir de ônibus era menos divertido e era arriscar demais com o horário. Voltaríamos pedalando mesmo, pela Serra do Corvo Branco.

Dormimos por mais uns 40 minutos e descemos para tomar o café da manhã, tortos de sono e virados de fome. E café da manhã de hotel é uma beleza: pão de tudo quanto é tipo, bolos, leite, sucos e um cafézão preto pra terminar de acordar. Pena que não tinha banana, mas tinha aquelas maçãs maravilhosas. Terminado o café, enchemos os camelbacks, as caramanholas, peguei umas maçãs pra comer no caminho e rua. Já era por volta das 9 da manhã e precisaríamos correr.

Saí de lá cheio de roupa, porque achei que ia fazer frio como no dia anterior. Que nada! O tempo estava ótimo! O sol deu as caras, o céu estava limpo e em menos de 5km eu já tinha tirado duas das três camisas de ciclismo que eu havia vestido.

Pegamos uma estrada de terra bem detonada, que levaria à Serra do Rio do Rastro. Essa estrada passava perto do Morro da Igreja, que tem uma vista ótima, mas não daria tempo de subir lá. Passamos batido. Depois de algum tempo, a estrada passou a margear um rio. De um lado da estrada havia um paredão de pedra nos acompanhando; do outro, o rio, com aquele barulho gostoso da água correndo nas pedras. Muitas araucárias ajudavam a compor a paisagem inesquecível.

Depois de um tempo cruzamos o rio e nos afastamos um pouco dele. Começou um sobe e desce que me fez ficar para trás dos companheiros, vários anos mais novos que eu. Quem passava de carro nessa hora via uma cena esquisita: um ciclista pedalando com uma maçã presa na boca! É que nas subidas eu segurava ela com os dentes, para liberar as duas mãos, e nas descidas e retas eu comia com uma mão e segurava com a outra o guidão. Tudo para não ficar muito pra trás dos outros dois.

Essa parte da estrada tinha alguns trechos de barro, um prenúncio do que estava por vir. Adiante, morros altos com paredões de pedra que pareciam feitos à mão. Algumas partes pareciam até um castelo. E muitas araucárias dos dois lados da estrada… No meio dos morros dava pra ver um vão, lá em cima, de onde saíam contantemente uns pedaços de nuvem. Dava para perceber que do lado de lá da serra o tempo estaria fechado e que desse lado só havia sol porque a serra segurava as nuvens.

Chegando na Serra do Corvo Branco. Veja o paredão de pedra na última foto.

Na base da serra encontrei os dois. Só que a maçã não aplacou a fome e eu resolvi comer duas barrinhas (sim, eu estava com fome!). Eles partiram para me esperar lá no topo e pouco depois eu subi.

A subida era mais ou menos íngreme, mas não era muito alta. Devia ter uns 200m mais ou menos. A vista ia ficando cada vez melhor conforme eu subia e dava para perceber bem que tínhamos vindo por um vale.

Lá no fundo do vale tinha uma Kombi que algum dia passou direto em vez de fazer a curva. Com a neblina que tinha ali nesse dia, não era difícil imaginar como aconteceu: basta se empolgar na velocidade na hora que acaba a subida. Barranco
Neblina
Foto na beira do barranco. “Um passinho pra trás, por favor…”
Põe a roupa que tá frio!

A neblina chegou de uma vez num certo ponto da subida e a nuvem era quase palpável. Quando cheguei no topo e encontrei o Denny e o Gellert, a visibilidade era bem baixa e o ar tinha esfriado. Dava para ver a nuvem se movendo, saindo da abertura, como se tivesse vontade de cobrir todo o vale ensolarado pelo qual viemos. Fizemos uma parada ali, onde tiramos fotos, descansamos um pouco e demos boas risadas. Começou a dar frio e coloquei a blusa, mas um pouco adiante eu já a tiraria de novo: o frio só duraria enquanto estivéssemos dentro da nuvem úmida.

Passamos entre as duas paredes de pedra que cercavam a estrada, formando um “portal” para o outro lado da serra. Logo adiante havia um mirante. Não dava para ver nada porque a neblina estava bem densa, mas paramos para tirar umas fotos. Um turista que estava ali com a família se ofereceu para tirar fotos para nós e acabou montando uma seqüência bem bacana da gente descendo emparelhado na neblina. A estrada tranqüilíssima permitia que brincássemos no meio da pista, que naquele curto trecho era asfaltada.

Mirante no topo da Serra do Corvo Branco
Mirante no topo da Serra do Corvo Branco
Denny, Bruno e Willian na neblina
Descemos abaixo da camada de nuvens, primeira vista da paisagem.
Descemos abaixo da camada de nuvens, primeira vista da paisagem.
Serra do Corvo Branco
Onde está Wally?
Serra do Corvo Branco
Belo vale!

Começamos a descida. Eu estava começando a ficar preocupado em ter que descer devagar pra não escorregar no asfalto molhado, mas fiquei feliz da vida logo na primeira curva: o asfalto acabou e começou um barrão esburacado! Maravilha! Barro voando pra todo lado e respingando no rosto, poças enormes, pedras, valetas… e uma vista incrível! Assim que saímos da camada de nuvens, dava para enxergar lá longe! Foram uns 15km de descida contínua, boa parte dela em alta velocidade! É bunda pra trás pra não capotar de frente, fé no freio e sorriso no rosto… Às vezes, doíam os braços e as mãos de tanto segurar o guidão com força, controlando a velocidade nos manetes de freio. Em algumas partes, a estrada estava tão barrenta que a bike parecia querer sair de baixo de mim e pular para fora da estrada. Em um trecho já no final da descida, a 50km/h com muita lama e poças de água, a bike começou a rabear bastante por causa dos pneus mistos, que não têm grip na lama. Se eu já não estivesse acostumado com esse tipo de pneu, já ia “comprar terreno”…

Muita lama!
Olha que beleza de estrada, toda enlameada… Ouvi dizer que querem asfaltar, é um pecado! E essas árvores aí do lado, plantadas de forma tão simétrica, tinham cara de reflorestamento…

Isso sim é mountain-bike!! 😀

Lá para baixo, começamos a margear outro rio. Recomeçou o sobe e desce e a estrada continuava sendo de terra, mas um pouco mais compacta. E continuava molhada, espirrando barro no rosto.

Um pouco adiante, um bar. Compramos água e biscoitos. Estávamos em Grão-Para.

Nesse lugar o chão ainda era barro, cheio de poças. Um rapaz, menor de idade, brincava de Superman numa Honda Biz, para poder passar pelas poças de lama sem sujar a roupa limpa (ai se ele cai…). Descansamos um pouco e seguimos.

Mais um pedaço de estrada de terra, nosso habitat natural, e chegamos a uma rua larga com calçamento de lajotas. As crianças que brincavam na rua pararam para ver a gente passar. Estávamos entrando em Braço do Norte.

Fomos até o centro da cidade, que era o caminho para a próxima estrada. Estávamos morrendo de fome, procurando algum lugar para comer. Tava difícil, tudo fechado! Mas no fim encontramos uma lanchonete-boteco de um casal de idade, ao lado da igreja, que tinha um salgado ótimo!

Igreja em Braço do Norte
Igreja em Braço do Norte
Barro? Eu? Aonde?
Café é sempre bom! 🙂

Fizemos uma pausa de uma meia hora nesse lugar. Depois de vários quibes, risoles e coxinhas regados a Gatorade, que quebraram o galho na falta de um almoço decente, arrematamos com um cafezinho e já íamos embora, às 15h.

As bikes esperando a gente rangar
Tinha barro, é? Nem percebi…

Antes de sairmos, fiz as contas com a quilometragem que ainda faltava e percebi que seria impossível chegar na rodoviária de Tubarão a tempo de pegar o ônibus para o qual tínhamos comprado as passagens. Como conseqüência, eu iria perder o vôo de Floripa para São Paulo… o último do dia! E para ajudar, eu ainda estava sem celular!

Consegui ligar do orelhão para um 0800 da companhia. Havia outro vôo às 23 horas, que ia para Guarulhos. Bom, tudo bem, de lá tem ônibus de graça para o aeroporto de Congonhas, meu destino original. Vai demorar mais, mas eu chego! “Beleza, remarca pra mim!”

Vôo remarcado, fiquei mais tranqüilo. Isso estava me estressando. Ainda teríamos que correr, mas conseguiríamos. Toca pra estrada!

A próxima cidade era Gravatal. Quando passamos por uma pequena ponte, numa curva da estrada, havia um pescador no riacho abaixo que quando nos viu fez a maior festa, cumprimentando com a alegria e a naturalidade que o povo simples do interior tem. Dava para perceber que ele se entusiasmou com o nosso jeito de viajar e que gostaria de estar ali conosco. Quem viaja de bicicleta conhece esse tipo de reação e sabe que é uma das coisas que faz a viagem valer a pena.

A estrada era asfaltada, com acostamento, poucos carros, sem muitas subidas. A paisagem era bonita e em boa parte do caminho havia pastos dos dois lados. A estrada era ótima! O único porém era o cheiro de cocô de vaca que vinha dos pastos, que nos acompanhou em boa parte do caminho…

A certa altura, vimos lá na frente da estrada uma movimentação esquisita que não era de carros, parecia um amontoado de gente ocupando a estrada inteira. E era! Era um grupo de umas trinta pessoas vindo de bicicleta pela estrada, entre jovens e adultos, provavelmente se deslocando de uma cidade à outra em grupo. Nesse trecho da viagem ainda encontramos mais uns dois ou três grupos como esse, embora menores.

Conforme íamos avançando pela estrada, o cansaço ia batendo. Ao longo da viagem de volta, consumi o que restava das minhas barras de cereais e géis de carboidrato. O tempo estava esquentando e, quando já estávamos em Gravatal, eu estava procurando um lugar onde pudesse trocar a calça de ciclismo por uma bermuda. Sob o sol daquela tarde, a calça esquentava demais. Paramos em um posto de gasolina onde estava tendo um festival ou exibição de motos, patrocinado pela Red Bull. Bem que no caminho a gente tinha visto alguns carros com carretinhas e pick-ups nos passarem, levando motos vistosas. Me troquei no banheiro do posto e seguimos.

Já não faltava muito. O esforço da longa viagem já cobrava seu tributo e cada quilômetro avançado era uma vitória. A certa altura, já podíamos avistar a cidade de Tubarão. A visão do destino já próximo renovou nossas forças e fizemos um último esforço para vencer rapidamente os últimos 15 quilômetros.

Chegamos na casa do Bruno, finalmente! Mas já era por volta das 17h e ainda estávamos preocupados com o horário, precisávamos ir logo até a rodoviária. Havia o receio de não conseguir passagem. Enquanto eu arrumava a mochila com as coisas que havia deixado na casa, o Denny tomou um banho relâmpago e foi tentar limpar um pouco a bike. Tomei meu banho, tirei o grosso do barro da bike e fomos depressa para a rodoviária – junto com o Bruno, que nos guiava pela cidade.

Já em Tubarão
Foto tirada na frente de uma loja que tinha vidro espelhado na entrada.
É, a limpeza da bike não foi grande coisa…

Chegando lá, compramos as passagens para um ônibus que sairia em uns 20 minutos. Ufa! A correria compensou! Sensação de alívio e de missão cumprida indescritíveis… Fizemos um tempo fora da rodoviária até a hora do embarque, tiramos algumas fotos e fomos para a plataforma tentar convencer o motorista a colocar as bicicletas no bagageiro.

Tinha bastante gente para embarcar e ficamos esperando pacientemente que o motorista e outro funcionário da empresa terminassem de colocar as bagagens no compartimento do ônibus. Comecei a ficar preocupado em não sobrar espaço e o motorista usar isso como argumento para não levar as bikes.

As bikes no bagageiro do ônibus
As duas bikes sujas de terra no bagageiro do ônibus

No fim, me preocupei à toa: o bagageiro era dividido em três partes e uma delas sobrou inteira para colocarmos as bicicletas. Elas estavam isoladas numa das partes do bagageiro, sem contato com a bagagem de ninguém e o motorista não falou nada, mesmo as bikes estando sujas de terra. Ufa! Nós as colocamos deitadas uma por cima da outra, despedimos do Bruno – que além de ter sido parceirão na viagem ainda nos hospedou em sua casa – e embarcamos.

Claro que dormimos na viagem até Florianópolis. Porém, a cada solavanco na estrada acordávamos preocupados com as bicicletas, que deviam estar sendo jogadas para cima e para baixo no bagageiro. “Bom, agora não dá pra fazer nada mesmo, quando chegar em Floripa a gente vê.”

Quando chegamos, esperamos todos os outros passageiros tirarem suas bagagens para chegar perto das bicicletas. Nessa hora, o motorista nos abordou com um sorriso e disse que adorava ver bicicleta no bagageiro do ônibus. Ele contou que era presidente da associação dos colecionadores de bicicleta de Itajaí (se não me falha a memória) e que tinha mais de 70 bicicletas em sua casa. Pegar um motorista desses é ganhar na loteria! 🙂 (saiba mais sobre as dificuldades no transporte de bicicletas em ônibus de viagem clicando aqui)

As bicicletas estavam intactas, apesar dos solavancos na estrada. Empurramos até fora da rodoviária de Florianópolis, vestimos mochila, capacetes e luvas e nos despedimos, com a esperança de repetir a viagem um dia.

Pedalei até o hotel. Coisa pouca, cerca de 1km. Flávio, camarada da recepção do hotel, gente fina pra caramba, queria saber tudo sobre a viagem. Logo chegou outro conhecido, o taxista que sempre me levava ao aeroporto e que me levaria até lá novamente – agora pela última vez, pois eu estava voltando a São Paulo em definitivo. Meu trabalho em Florianópolis estava encerrado e eu me despedia do estado com essa cicloviagem. Enquanto contava a eles sobre a viagem e mostrava as fotos na câmera digital, eu limpava a bicicleta, desmontava e colocava no mala-bike.

Depois de algum esforço para encaixar o mala-bike, as malas e a mochila no porta-malas pequeno do táxi, saí do hotel onde eu havia morado por dez meses e fomos para o aeroporto. Já eram dez da noite. Estava em cima da hora, se o ônibus tivesse demorado quinze minutos a mais para chegar em Floripa eu talvez perdesse o vôo. No aeroporto, correria para fazer logo o check-in e despachar a bagagem toda. Ufa, embarquei!

Meu vôo foi até o aeroporto de Cumbica. Lá peguei um ônibus da companhia aérea até Congonhas, onde chamei um táxi e fui pra casa. No celular, um recado me dizia que eu não precisaria trabalhar na segunda-feira. Que beleza! Cheguei em casa só às 2 da manhã, morto de fome e de cansaço. Fiz minha primeira refeição decente em dois dias – uma bela de uma lazanha, que além de gostosa havia sido feita com muito carinho por uma esposa com saudade. Desmaiei de sono. Ainda bem que eu estava dispensado do trabalho no dia seguinte, senão teria sido MUITO difícil acordar às 7! 🙂

Cheguei em casa com muitas histórias para contar e muitas fotos para mostrar. A viagem havia sido maravilhosa e por mais de uma semana eu ainda estava anestesiado pela experiência fascinante de fazer uma viagem dessas de bicicleta. Nada me estressava, nada me tirava do sério. Nessa primeira semana em São Paulo, fiz a mudança de emprego mais tranqüila da minha vida: não fiquei ansioso, nem tenso, nem preocupado. Eu estava simplesmente feliz.

Tenho muita vontade de repetir essa viagem, mas com um roteiro mais longo e viajando por vários dias. A região é linda. Sei que o Denny e o Bruno já fizeram outras cicloviagens pela Serra Catarinense, mas eles moram no estado. Pra mim que moro aqui em São Paulo fica mais difícil, principalmente porque teria que deixar mulher e filho sozinhos aqui por alguns dias. Ah, o que a gente não deixa de fazer pelos filhos… Mas tenho esperança que um dia ele me acompanhe em viagens assim. Talvez até pelo mesmo caminho, talvez com os mesmos companheiros de estrada. O futuro me dirá. Mas, tendo companhia ou não, um dia eu faço outra viagem dessa. Ah, se faço…

O que levei na viagem

– Sacolas plásticas: tudo que era colocado na mochila ficava ensacado, para não molhar se chovesse na estrada (e choveu). Também levei sacolas extras para guardar a roupa suja separada da limpa.

– Isotônico, barras de cereais e géis de carboidrato.

– Meias, sunga: geralmente não uso nada por baixo da roupa de ciclismo (para evitar assaduras, principalmente em longas distâncias), mas estava MUITO frio e no primeiro dia usei uma sunga. Tive até que usar duas meias!

– Duas camisetas de malha, para forrar o corpo caso esfriasse muito no topo da serra (ainda bem que eu levei).

– Roupas de ciclismo: levei roupas extras caso estivesse muito frio. Também levei uma bermuda extra caso esquentasse no caminho.

– Uma blusa de ciclismo flanelada e uma jaqueta de costura selada, boa para frio com chuva.

– Hipoglóss: distâncias muito longas às vezes dão assaduras, é sempre bom levar.

– Boné, guardanapos de papel, desodorante, protetor solar com repelente, dinheiro, câmera fotográfica, celular.

– Óleo de corrente, kit de reparos em pneu, duas câmaras de ar, chave allen, chave de corrente, bomba de ar.

– Capacete, luvas, óculos escuros para pedalar durante dia e óculos com lentes amarelas para pedalar à noite.

Comente! 🙂


11 comentários para Cicloviagem na Serra Catarinense

  • Tweets that mention + Vá de bike! + - A bicicleta como meio de transporte no país do automóvel » Cicloviagem na Serra Catarinense -- Topsy.com

    […] This post was mentioned on Twitter by Vá de Bike!, Pisa Trekking . Pisa Trekking said: RT @wcruz: Só quem já fez uma cicloviagem sabe a delícia que é. Muda nossa visão de mundo. Essa foi a q mais me marcou: http://j.mp/c6AxtJ […]

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  • O cicloturismo mudando sua percepção do mundo | + Vá de bike! +

    […] curtas de dois dias, mas mesmo assim saí diferente de cada uma delas. Aqui no site há um relato da cicloviagem que fiz em Santa Catarina, bastante passional e cheio de fotos, que vale a pena ler. Foi uma experiência de superação e […]

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  • Andre Wohl

    Cara… mto show teu post!!!!
    Eu perdi por motivo de viagem na empresa uma trip organizada pelo Pedala Joinville para a regiao, so que eles subiram o Morro da Igreja e desceram o Corvo Branco ate Grao Para. infelizmente eu perdi… e depois do teu post ficou com mais vontade…
    Grande abraco, e parabens!

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  • Eduardo da Silva Chi

    E aí Galéra !
    lendo o relato de vocês ,voltei no tempo em que tinha meus 15anos de idade,onde convidei um amigo para irmos de Lajeado -RS onde moro até Soledade-RS,distânte 100km incluindo 7km de serra.Com uma Monareta aro20 e uma Barra circular aro 26 ,na época só caloi 10 tinha marcha,isto éra no ano de 1985.Por isto quando li entendi realmente cada detalhe,inclusive em um mesmo dia passar calor ,frio,chuva,fome.Parabéns pela coragem,espírito de aventura e fé.
    Vocês são Campeões.

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  • Rodrigo.p.c

    vcs sao muito corajosos gotei de tudu.estao de parabems. sou do ES

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  • Luciano Alvarez

    Galera, Parabéns pelo evento!!!

    Aproveitando gostaria de dizer que também realizo este tipo de viagem a mais de 12 anos. Recentemente um amigo e eu fomos de São Paulo à Buenos Aires, Brasil – Argentina, passando pelo sul do Brasil, entrando pelo Uruguai, seguindo pelo litoral até Buenos Aires, totalizando 3 mil km.
    Continuem as pedaladas e se eu puder auxiliar em alguma coisa, estarei à disposição.

    Abrassssssssss.

    L. Alvarez.

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  • Alexandre

    Cara que legal …. muito legal não só o relato da aventura, como tb a amizade de vcs …… ainda não consegui terminar de ler, mas desde já, sentí vontade de estar tb pedalando.

    Parabéns! E sucesso nas pedaladas ….. Pedala Galera !!!

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  • Bruno Gellert

    Caraca! to a meia hora colado no pc!
    demais demais demais!
    lembrei perfeito de tudo!
    so faltou falar la quando estávamos em orleans, que paramos no posto pra comer e usamos MTO o banheiro!
    aeuaehuaehuaehaeuhae
    saudades!
    trip perfeita! parceiros perfeitos!
    se cuida willi!

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  • Marco Labão

    Wau, bela viagem Willian. Grande descrição de detalhes, motiva-nos a faze-la e conseguir a mesma diversão.

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  • Denny Sachtleben

    Willi, sem dúvida essa nossa trip entrou pra história!!!!
    Todas as dificuldades, lugares, pessoas, bike, foi tudo perfeito. O lance de perder o vôo só deu mais emoção a nossa trip, a descida do corvo branco foi a melhor descida da minha vida, perfeito!
    Temos q marcar outro pedal desses, aquela época q vc passou em floripa foi dos melhores pedais, com a galerinha mais massa!
    Legal seu relato, completo assim só me fez voltar ainda mais no tempo, relembrar cada momento dessa nossa trip louca, 180km num dia foi meu recorde, até hoje tem neguinho que não acredita!! heheh

    Grande abraço Willi!

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  • Chester

    Fantástico o relato. Mesmo para quem não curte mountain bike (ou ciclismo em geral) ele transmite visceralmente a emoção da viagem. Valeu a demora.

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