Pedalando em Copenhagen – e 12 curiosidades sobre a Dinamarca, o país da bicicleta

As cores da capital dinamarquesa. Foto: Raquel Jorge

As cores da capital dinamarquesa. Foto: Raquel Jorge

Os 22 dias que passei pedalando pela costa da Dinamarca foram simplesmente sensacionais. Um país que só posso descrever como ideal para o ciclismo, seja de estrada, mountain ou urbano. Sem contar a simpatia de um povo que sorri para você na rua, no supermercado, no correio, na estrada. Um país que me ensinou ser possível algo que muitos encaram como utopia.

A verdadeira aula aconteceu em Copenhagen. Cheguei em Copen, como os locais se referem à capital, de trem. Ainda era cedo e o dia estava lindo. Resolvi não deixar para amanhã o que queria fazer hoje: larguei os alforjes no quarto e saí munida com minhas câmeras e minha bike. A cidade é linda e vale a pena o pedal até a Ponte Oresund. Além de ser um exemplo de engenharia, o parque que leva a ela é incrível.

A sensação de pedalar pela primeira vez em Copenhagen é difícil de descrever. É desafiador e faz você se sentir pequeno, vulnerável, meio perdido! Foi como entrar pela primeira vez de carro numa grande avenida de tráfego rápido, como a Marginal em São Paulo, uma semana após tirar a habilitação – e sentir aquele pânico na hora de mudar de faixa. E eu que me achava tão experiente pensei: “sabe nada, inocente!”

Também achei que bom senso e saber conduzir uma magrela seriam suficientes. Que nada, parecia uma pateta atravancando a vida de quem vinha atrás. Além de não conhecer a dinâmica do pedal local, também não conhecia as ruas e tive que parar várias vezes para verificar o mapa. Lembrando que nas cidades grandes todo mundo tem pressa! Eu só pensava no Lenine falando baixinho nos meus ouvidos: “calma alma minha, calminha!”

Foto: Raquel Jorge

Passarela exclusiva para ciclistas. Saiba mais. Foto: Raquel Jorge

Comportamento

Esqueçam cumprimentar ou sorrir para os que passam. Isso não existe. Nem seria possível cumprimentar todos que cruzam seu caminho. Pensem em um enxame de magrelas. E se bobear eles passam por cima, seja pedestre, gato ou ciclistas sem noção (eu!). Copenhagen é uma Amsterdam turbinada no anabolizante das duas rodas.

Fiquei bastante intimidada achando que precisaria de um intensivão até pegar o jeito. Mas depois de quatro horas pedalando pela cidade consegui entender sua dinâmica.

O segredo é: “em Roma faça como os romanos”. Se você não sabe, observe os locais e aprenda com eles. São os melhores professores. Foi isso que fiz e no fim do dia já estava me sentindo à vontade para ir e vir sem medo.

Além da estrutura do tráfego, há toda a conduta dos ciclistas. Não existe parar no meio da via, não existe virar sem dar sinal. E os sinais são vários, não apenas para virar. Há os sinais que indicam que você vai parar e pretende ir para o lado oposto. Só sei que é um tal de mão pra cima e mão pra baixo que exige sua total atenção em relação aos movimentos de quem vai à frente.

Profusão de bikes por todos os cantos. Foto: Raquel Jorge

Profusão de bikes por todos os cantos. Foto: Raquel Jorge

Estrutura

A mesma estrutura que existe para os carros se repete para a bicicleta. Há faróis em todos os cruzamentos, alguns deles são tão complexos que exigem semáforos trifásicos. O espaço destinado a bicicleta tem a mesma proporção do que é destinado aos automóveis, com a exceção de algumas passarelas que são exclusivas para bikes.

Nos calçadões do centro não é permitido pedalar em horário comercial. Neste caso o condutor precisa descer da bicicleta e empurrar.

As calçadas são largas e há paraciclos em frente a todos os prédios, casas e estabelecimentos comercias. Quase todos lotados de bicicletas. “Estacionar” nem sempre é uma tarefa fácil. A estação de trem dispõe de um complexo sistema para prender a bike, imenso e abarrotado.

Bicicletas como parte da vida

Outra coisa que chama a atenção é a diversidade das bicicletas. Há magrelas de todos os tipos, cores e formatos, sendo que a maioria segue o estilo “urbano”. Isso sem falar nas cestas, nos alforjes e nos engates com caixas (de todos os tipos que se possa imaginar), carrinhos de bebês e se tudo isso não bastasse há ainda os bike táxis – uma espécie de tuc-tuc que funciona realmente como um táxi e não como uma atração turística.

Conheci uma dinamarquesa no trem, jovem e bela. Mora em Copen e estava voltando da costa oeste onde foi surfar. Conversamos bastante, principalmente sobre o uso da bicicleta e mobilidade. Ela não conseguia compreender como pode a bicicleta ser um problema. Contou que na Dinamarca todos pedalam, mas não exclusivamente (e aí está a grande diferença!). Contou que as pessoas têm e usam o carro, mas que na maioria do tempo optam pela bicicleta por ser mais rápido, prático e prazeroso. O carro é usado em situações muito específicas, mas não no dia-a-dia.

As pessoas têm carro,
mas optam pela bicicleta
por ser mais rápido,
prático e prazeroso

O fato (e o grande X da questão) é que as pessoas conduzem tanto o carro quanto a bicicleta, (além de serem pedestres) e por isso têm uma compreensão bilateral (ou tri). Quando na bike, conseguem se colocar no lugar do motorista, e vice-versa.

Não existe conflito entre estes dois “grupos”, pois não há distinção entre eles. Ambos são formados pelas mesmas pessoas. Aquele conceito de “conseguir se colocar no lugar do outro” acontece involuntariamente, pois ele “é” de fato o outro. O segredo do sucesso é ter respeito. Qualquer que seja a opção de transporte.

Não existe conflito
entre motoristas e ciclistas,
pois os dois grupos são
formados pelas mesmas pessoas

Depois dessa verdadeira aula sobre ciclismo urbano voltei para a costa oeste e segui fiel a minha rota. Existem muitas outras, mas a do Mar do Norte tem algo peculiar: ela te tira da estrada tanto quanto é possível, e inclui no caminho tudo que pode ser interessante. Um moinho histórico, um farol, uma cidade pitoresca, uma eclusa (pequeno canal que serve de “elevador” para embarcações). Mesmo que isso signifique muitos quilômetros que poderiam ser evitados, assim como trechos por propriedades privadas, como fazendas ou sítios – tudo com a permissão do dono.

Acredito que o princípio é: quem viaja de bicicleta não está com pressa, o objetivo não é o destino, mas desfrutar o caminho. E eles têm toda razão.

Segui pela costa em direção ao sul até chegar na fronteira com a Alemanha. Outro país que se revelaria o melhor amigo da magrela.

Curiosidades e dicas sobre o país da bicicleta

1 Ao contrário da Noruega e Suécia, na Dinamarca bicicletas não entram em ônibus. Não adianta espernear. Eles unificaram todas as rotas do país, portanto, não há desculpa: vai ter que pedalar.

2 Os parques nacionais e reservas disponibilizam bicicletas gratuitas para os visitantes. Sem nenhuma burocracia, sem trava, sem preencher cadastro. Aliás, não há ninguém nos pontos de coleta, você simplesmente pega a bicicleta, passeia e depois devolve.

3 Na Dinamarca, se você chega em um camping pedalando (e pretende acampar), o camping é obrigado a te receber. No entendimento deles não se pode dizer ao cicloviajante “há outro camping daqui 50km”, ou “durma no carro”. Nossa fragilidade é também nossa garantia de abrigo.

4 É um país extremamente seguro, onde você pedala por horas pelos parques ou lugares bastante remotos sem medo algum. Mas na capital durma com a bicicleta ao seu lado. Lá existe tanto furto de peças quanto da bike inteira.

5 O travesseiro é quadrado. Estranho, mas você se acostuma.

6 As pessoas são extremamente simpáticas e solícitas.

7 Eles têm a tradição de espetar a bandeira do seu país na porta do chalé ou em frente à barraca. Faça o mesmo, nossa bandeira é sempre muito bem-vinda!

8 Na rosa dos ventos, ao invés de um galo há uma vaquinha.

9 A sinalização das rotas é consistente e fácil de seguir, mas há que ficar atento: basta não ver uma única plaquinha para se perder, principalmente atravessando centros urbanos.

10 Todo vilarejo da costa tem uma peixaria, que também funciona como restaurante. Quase sempre o melhor lugar para comer, é barato e os peixes e frutos do mar são sensacionais.

11 Nos grandes centros sempre fico próxima a estação de trem, onde é mais barato, há várias opções de hospedagem e nunca é distante dos pontos de interesse. Além disso, se você se perder, a estação serve de referência, pois todos sabem indicar o caminho até ela.

12 Não há relevos desafiadores, mas o vento é simplesmente absurdo. Basta dizer que é o país que mais produz energia eólica no mundo e Wind Surf e Kite Surf são esportes nacionais. Empinar pipa não rola, pois o vento é forte demais para isso.

Raquel Jorge fez uma cicloviagem de 6.200 km pela Europa, contornando o Mar do Norte e passando por Noruega, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Holanda, Bélgica e Inglaterra. E ela conta os detalhes aqui no Vá de Bike, da preparação aos desafios do caminho, com dicas para quem tem vontade de ganhar o mundo e informações sobre a mobilidade nos locais onde passou. Veja o que ela publicou por aqui.
Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge


4 comentários para Pedalando em Copenhagen – e 12 curiosidades sobre a Dinamarca, o país da bicicleta

  • Guilherme Pereira

    Adorei a matéria e já tinha ouvido falar na cultura da Dinamarca, porém não com tanta natureza de detalhes. Acredito que seria um sonho para mim, cruzar países, meramente pedalando.

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  • Guilherme S Araujo

    Queria saber se este movimento do Vá de Bike chegará no Rio de Janeiro, antes do maior evento mundial que ocorrerá aqui? Pois temos um ambiente natural propício e desafiante para qualquer atleta que se diz top. O que é bom, para deleite da população, que não sabe o que de real existe na relação e no respeito entre o ciclista e o pedestre e o tráfego em geral de veículos. A saúde comum a todos.

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  • marcio rebeldia

    karalea que PHO DAS TI CO!

    e Pensar que aki em SP, pra descer pro litoral
    tem que penar …

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  • Valeu, Raquel! Tenho acompanhado alguns de seus artigos e aventuras. Queria apenas notar que nos ônibus intermunicipais (aqui na minha região, os azuis) é possível levar bike, mas os motoristas não gostam. E se você estiver em um grupo, só pode levar uma de qualquer maneira. Nos trens, paga-se um pouco a mais, mas há espaço para a bike. Pelo menos nos regionais. Quanto aos carros, é extremamente caro ter um. Os impostos e taxas desencorajam a aquisição. Por fim, fiquei surpresa de que você tenha achado o povo dinamarquês simpático. Creio que você conheceu certamente as pessoas certas. Eu gosto de muita coisa aqui, mas tenho bastante dificuldade com a falta de calor humano. De qualquer maneira, no tocante à cultura da bicicleta, é realmente impressionante. Não sei se você chegou a ver que aqui as crianças não passam pela experiência do triciclo. Ainda pequeninos se iniciam na bicicleta sem pedais. Boa sorte com sua s viagens e se vier a Aarhus, avise!

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