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Foto: Raquel Jorge

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Dia desses um amigo querido me questionou sobre o pedalar. Ele perguntou: “mas o que é pedalar para você? Não é o simples fato de se locomover em duas rodas?”

A resposta é não. Para mim não é. Sim, eu uso a bicicleta como meio de transporte em São Paulo, mas é algo que faço normalmente, há muitos anos. A bicicleta é simplesmente o meio e optei por ela por ser mais rápida, prática e prazerosa.

Mas o que faz meus olhos brilharem e meu coração saltar é pedalar por novos caminhos, por lugares em que nunca estive, de preferência lugares remotos, desabitados, fora dos grandes centros, onde não sei o que vou encontrar e onde em cada curva algo novo se revela. Em outras palavras, o que me move (e comove) é viajar.

E viajar de bicicleta amplia não só os horizontes, mas todos os seus sentidos. É como voltar a ser criança, quando toda experiência é nova, onde o aprendizado é constante. Tudo se intensifica e nada passa despercebido.

É uma viagem para dentro tanto quanto é para fora. Sua fragilidade é também sua força. O mundo físico e palpável vai sendo vivido e sentido com a mesma intensidade em que outro mundo vai acontecendo dentro de você. Lembranças, ideias, emoções. Isso gera uma sensação de pertencimento em que você se torna, de forma verdadeira, parte do todo.

Foto: Raquel Jorge

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É diferente de “mochilar”, de viajar de trem, carro, ônibus. De bicicleta o fator “liberdade” ganha novas nuances. O vento no rosto, a leveza, a flexibilidade de entrar em qualquer lugar, a inexistência de burocracias, a intimidade que se cria com os elementos. A exposição diante do sol, da chuva, do frio, do calor, do vento, dos barulhos, dos cheiros, do solo, do claro e do escuro. E nem vou mencionar os insetos!

É sair da bolha. É abrir mão do conforto, do conhecido, do ar condicionado, do aquecedor, da língua que se entende, do percurso que se conhece, da comida que acolhe e do afeto que acalenta.

É a plena consciência do estar vivo. É simplesmente viver. Paradoxalmente, de bicicleta você viaja com muito pouco, e este muito pouco te proporciona o mundo!

A dificuldade de voltar

Todos que viajam têm uma certa familiaridade com o que alguns chamam de “bode” ou “depressão da volta”. Eu costumo me referir a este sentimento como “Síndrome pós GRU” (GRU é a sigla para o aeroporto internacional de Guarulhos).

Quanto mais longa é a viagem, mais difícil é voltar. Conforme o dia do retorno vai se aproximando os sintomas começam a se manifestar. Um certo desânimo na alma. Aquela dor de cabeça que você nem lembrava mais que existia começa a incomodar novamente. E você torce para chover, porque ter que ir embora em um dia ensolarado é ainda mais sofrido.

Senti tudo isso nos dias que antecederam meu voo para São Paulo. Mas a saudade dos amigos, da família e do meu cão me mantiveram firme, e pensar em revê-los manteve a alma leve. Daí você entra no avião e enquanto ele sobrevoa o Atlântico vai dando uma tristeza difícil de explicar. Você fecha os olhos e começa a reviver momentos da viagem, lembra do sabor da torta de maçã, do vento frio na pele, das cores do por do sol e se dá conta de que agora tudo isso só existe na sua memória. Que acabou. Que você não vai acordar amanhã e estudar mapas, e pedalar por estradas desconhecidas.

Ao contrário disso, você volta para os caminhos conhecidos. Vai passear com seu cão, dá bom dia para o porteiro, caminha pelas ruas que, ao contrário de você, não se transformaram. E conforme você vai, aos poucos, retornando para a vida com a qual está familiarizada, se dá conta de que nela habitam as opções desnecessárias. Opções demais, opções que só atravancam a vida. E descobre que, paradoxalmente, quanto mais opções você tem, mais preso você se sente.

Eu abro meu armário e não consigo escolher qual roupa vestir. E lembro com um imenso saudosismo da liberdade que vivi durante a viagem, quando não havia opção. Não havia o que pensar, o que considerar, o que combinar. Era o short ou a calça e fim de papo. E fui muito feliz usando a mesma roupa por quase quatro meses.

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

Daí vou ao supermercado e me sinto perdida. Lembrando que em um voo a opção é quase sempre frango ou pasta, e o quanto essa limitação de opções é leve. Você demora 2 segundos para escolher e pronto. Ou quando está na estrada e simplesmente come o que está disponível, o que deu para levar no alforje.

Lembro de uma cena do filme “Guerra ao Terror”, em que o personagem principal volta para casa, vai ao supermercado e entra no corredor de cereais. Ele para e olha para aquela imensidão de opções e aquilo o preenche de um infinito vazio. Eu nunca me identifiquei tanto com uma cena de filme como me identifico com esta.

Sei exatamente o que ele sentiu. E é bem complexo, algo que envolve todo o mecanismo da sociedade moderna. A sociedade do consumo. O “consumir e aparentar” são mais importantes do que o “ser e sentir”. Essa cena na realidade revela muita coisa sobre o mundo em que vivemos. É possível fazer uma análise sociológica imensa sobre isso. Mas não me atrevo.

Não gosto de fragmentar a humanidade, mas há pessoas que vão me compreender e se identificar e há aquelas que vão achar que sou louca. Porque somos todos diferentes e encontramos prazer e sentido em coisas (e lugares) diferentes. E que bom que é assim. Sempre digo que o mundo seria insuportavelmente chato se fôssemos todos iguais, com os mesmos ideais, sonhos e objetivos. É a diferença que nos enriquece, mas esta já é outra história.

Voltando à volta: é sempre difícil e o processo é lento, cada dia voltamos um pouquinho, mas nunca completamente. Você conta com paixão o que viveu e conheceu, ainda assim existe uma solidão no relato, pois por mais precisa que seja a descrição, só você estava lá. E você se esforça para atravessar a ponte e dividir isso, sabendo que no fundo esta ponte só pode ser atravessada parcialmente.

Tenho total consciência de que não importa o que eu faça, estarei sempre com um pé em cada continente. Com um oceano no meio e enquanto as pernas se esforçam para se manter em equilíbrio, os braços tentam abraçar essa bola maravilhosa que chamamos de mundo!

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

Raquel Jorge acaba de completar uma cicloviagem de 6.200 km, contornando o Mar do Norte e passando por Noruega, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Holanda, Bélgica e Inglaterra. Todas as sextas-feiras, conta no Vá de Bike detalhes de suas cicloviagens, da preparação aos desafios do caminho, com dicas para quem tem vontade de ganhar o mundo em duas rodas sem motor e informações sobre a mobilidade por bicicleta nos locais por onde passou. Veja o que ela já publicou por aqui.

8 comentários para Voltar

  • Muito bonito os relatos de viagens que a Raquel J. postou durante esse tempo de viagem. Mas uma coisa seria legal compartilhar o custo de cada viagem; Como estadias, refeições, improvisos de consertos etc etc…
    Seria interessante cada postagem incluírem o quanto se gastou no final da viagem. Assim todos os posts não ficam com cara de “tudo lindo e maravilhoso”.
    Sei que cada viagem é sofrida e ao mesmo tempo bela, e que existem os desafios adversos na jornada. É apenas uma opinião. Isso não desmerece as viagens feitas pela Raquel J. Aliás, parabéns pela coragem.

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  • excelente texto! para mim a bicicleta é disparado o melhor meio de viajar. Não conseguiria traduzir melhor do que você esse sentimento. Só acrescentaria os contatos e amizades que fazemos viajando assim: a bike abre portas de desconhecidos, angaria simpatias, curiosidade e assim torna muito mais fácil conhecer gente boa por onde passa. E para mim a dimensão humana é um dos aspectos mais ricos de qualquer viagem!
    Parabéns pela trip, e que venha a próxima!

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  • Vagner

    Belíssimo relato, Raquel.Parabéns pelas viagens. Seja bem vinda à SP! Abraços

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  • Raquel,
    Parabéns pela aventura e pelos relatos, que nós fizeram viajar junto contigo.
    Após a síndrome do GRU, vem a pesquisa e um novo projeto, está fase também é muito gostosa.
    Até a próxima.

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  • Vera Penteado

    Quel, agora você me fez chorar…

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  • Iuri Baranov

    Viajar é bom. De bike, melhor ainda! Fico imaginando que a viagem perfeita seja uma volta ao mundo a pé!

    Raquel, você poderia informar quanto gastou por dia em média na viagem? Contando alimentação, estadia, transporte etc…

    Parabéns pela viagem e que venham muitas outras!

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  • Helton

    Me identifiquei muito com o penúltimo parágrafo:

    “Você conta com paixão o que viveu e conheceu, ainda assim existe uma solidão no relato, pois por mais precisa que seja a descrição, só você estava lá.”

    Faço pedaladas sozinho e me perguntam se não sinto medo, ou falta de alguém junto. Confesso que nos momentos difíceis nunca senti falta de mais gente, apenas nos pontos altos da viagem, dá uma tristeza por não ter mais gente ali pra aproveitar junto.

    Comentário bem votado! Thumb up 7 Thumb down 0

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