Quanto pesa sua bagagem?

A caminho de Oostender. Foto: Raquel Jorge

A caminho de Oostender. Foto: Raquel Jorge

Entrei na Bélgica pela costa e decidi visitar sua História. Desci para o interior até chegar em Brugge, que é considerada uma das cidades mais lindas do mundo e é Patrimônio da Humanidade protegido pela UNESCO. Eu já a conhecia, mas entrar no centro histórico pedalando teve outro sabor. Mudou muito desde que vim. Estava mais cheia de gente, mais suja, mais consumista. Ainda assim, linda e com cheiro de chocolate… belga!

Entre uma catedral e outra, muitos turistas entrando e saindo das infinitas lojinhas que davam para a rua. Estou tão distante deste mundo – urbano e consumista, dos apelos publicitários, das falsas necessidades – que não me sinto mais parte dele. É como se eu estivesse observando de fora, de outra dimensão, de dentro deste lugar em que me encontro onde nada disso importa. Onde a vontade de possuir, comprar e ter simplesmente não se manifesta.

Há mais de três meses que meu mundo se resume à minha bicicleta e 10 quilos de tranqueira, que inclui as câmeras fotográficas e o laptop. E deixa eu contar: to carregando coisa demais… tem pelo menos 1 quilo que levo por puro capricho. Bobagens que confortam.

Em Brugge. Foto: Raquel Jorge

Em Brugge. Foto: Raquel Jorge

Lembrei de um livro que li há alguns anos: “Vida Líquida”, do Zygmunt Bauman, onde ele fala sobre a forma como nos preenchemos. Neste mundo em que tudo é obsoleto (líquido), onde nada é feito para durar (ou ficar), entramos em um círculo vicioso de consumir e vivenciar momentos e relações efêmeras, onde o prazer existe, mas não dura e logo voltamos a sentir o vazio, retornando assim ao início do ciclo. Sábios são aqueles que entendem isso e se alimentam de conhecimento e de emoções sólidas, que entram e ficam. Dessa forma, onde antes era vazio, aos poucos vai se preenchendo de algo que é verdadeiro. Algo que jamais perdemos e que só tende a nos deixar mais ricos e paradoxalmente, mais leves.

Já havia visitado Brugge, mas nunca havia dormido na cidade. Meu Deus, é tudo quanto é sino tocando a noite inteira! Nunca pensei! Acordei com os galos e com as badaladas das sete da matina – quase uma sinfonia. Um dia lindo de sol e ar gelado. Foi o tempo de arrumar os alforjes para tudo mudar. Chuva torrencial despencando de um céu pesado. Mas isso não me impediu de partir, assim como não impediu um enxame de turistas a invadir as estreitas e belas ruas do centro histórico.

Fui acompanhando um canal desde Brugge até vê-lo desembocar no mar, em Oostende. Uma cidade enorme, não muito distante da fronteira com a França. Achei um hotelzinho simpático por fora, um labirinto por dentro. Daqueles prédios muito, mas muito velhos, em que tantas mudanças já foram feitas que ninguém mais sabe onde fica o quê. Mas o quarto era grande o suficiente para nós duas, eu e minha magrela, o que nos meus termos significa: perfeito.

Fui caminhar na orla, entrei em um museu e sorri quando soube que o exército de terracota de Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China, estava sendo exposto ali. Sorte. Depois encarei um prato nacional (que os franceses teimam em dizer que é deles, mas não é!!) – mariscos com batata frita!

Lembrei com saudade de um dia em Londres, meu irmão tinha ido me visitar e fomos jantar no Belgo de Covent Garden. Um restaurante moderninho em um bairro histórico. Imaginem um imenso porão, com mesas medievais de madeira, longas e iluminadas com candelabros. Um pequeno exército de garçons vestidos de monges. A estrela da festa: marisco com batata frita, sempre regado com muita cerveja.

Viajar de bicicleta é assim, você vive uma viagem na viagem. Lembra de momentos, de pessoas, de histórias. Tem ideias incríveis que depois você certamente vai esquecer. Escuta músicas e pela primeira vez presta atenção no que elas querem dizer. Forma frases inteiras que gostaria de dizer para esta ou aquela pessoa, mesmo sabendo que isso jamais vai acontecer. Vive a chuva, o sol, o vento, o mato e ouve os barulhos do mundo.

Viajar de bicicleta é viver duas vezes. Você vive o mundo real, físico e palpável. E vive o mundo que só está acontecendo na sua imaginação.

E olha que eu nem sou usuária de substâncias ilícitas!

Indicação de rotas funciona como o jogo de ligar os pontos. Foto: Raquel Jorge

Indicação de rotas funciona como o jogo de ligar os pontos. Foto: Raquel Jorge

Passava das 22h. Entrei em um bar pra lá de simpático e aconchegante. No copo um Disaronno, sem gelo e superfaturado. Na vitrola (era vitrola mesmo), John Coltrane tocava, alheio à chuva que despencava lá fora! Foi a primeira vez na viagem em que fui a um bar à noite. Mas o cansaço não me permitiu ficar por muito tempo, fui logo embora, antes que começasse a tocar músicas natalinas, Dean Martin e afins! Perigava eu querer dançar!

De acordo com a Rota do Mar do Norte deveria haver uma balsa de Oostende até Ramsgate, na Inglaterra. Passei dias pesquisando na internet sobre este trecho, sem sucesso. Resolvi ir me informar pessoalmente. A mocinha do Tourist Information Center sabia menos que eu.

Nunca ouvi tantos nãos em tão pouco tempo. Quase me candidatei ao emprego dela! A placa na porta deveria dizer: Desinformation Office! Quando questionei sobre rotas ciclísticas na costa francesa ela levantou as sobrancelhas e torceu os lábios, como quem diz: cê ta ferrada, colega!

Fui ao centro em busca de uma livraria. Lá encontrei um mapa do norte da França, mas não havia nenhuma literatura referente a caminhos para pedalar. Apenas mapas comuns.

Voltei pro meu cafofo e fui lavar roupa. Meu reino por 20 ml de cândida!! Minha camiseta, que um dia foi branca, encontrava-se em um estado avançado de encardimento!! Estava limpa e cheirosa, mas branca nunca mais ela será! Pensei nas propagandas de Vanish e dei risada sozinha! Se minha avó visse o estado da pobre t-shirt ela iria me excomungar e dizer: põe pra quarar, menina!!

No dia seguinte pedalei até a França, cruzei a fronteira deixando para trás a vida boa das super ciclovias – as rotas na Bélgica continuaram na mesma lógica das Holandesas, de ligar os pontos. Dia feio, lugar sem graça. Mas descobri de onde partia a balsa, e após uma noite mal dormida achei o caminho até o píer de Dunkerque.

A Inglaterra é uma ilha, e isso facilita o trabalho dos oficiais da imigração. Depois de três meses transitando pra lá e pra cá na Europa precisei sacar meu passaporte e dar explicações sobre minha pessoa e minha viagem. Tudo com muita simpatia, nenhum aborrecimento, uma enorme fila de carros… e uma bike, a minha.

O controle é feito ainda na França, antes de cruzar o Canal da Mancha, pois se alguma entrada for negada não é nem necessário mandar o sujeito de volta, é só não permitir que suba a bordo.

E foi assim, em um dia de céu azul e ar fresco, que vi as praias francesas se distanciando e as maravilhosas falésias de Dover surgindo no horizonte. Voltar para a Inglaterra foi como voltar pra casa.

raquel jorge belgica

Foto: Raquel Jorge

Raquel Jorge acaba de completar uma cicloviagem de 6.200 km, contornando o Mar do Norte e passando por Noruega, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Holanda, Bélgica e Inglaterra. Todas as sextas-feiras, conta no Vá de Bike detalhes de suas cicloviagens, da preparação aos desafios do caminho, com dicas para quem tem vontade de ganhar o mundo em duas rodas sem motor e informações sobre a mobilidade por bicicleta nos locais por onde passou. Veja o que ela já publicou por aqui.


5 comentários para Quanto pesa sua bagagem?

  • waldeir

    Acho que esse tipo de publicação deveria ser proibida… dá muita inveja na gente…rsrs…
    Que linda história. Inspiradora. Parabéns!

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  • Christophe

    Hi raquel!
    Im just lookink on the vadebike site for some information on my cycling trip from SP to Rio in november and look what I came accross!!! Lots of fotos from my home town Brugge !! The road from brugge to oostende is a route that i do every week, it is indeed lovely over here :-) a shame that i just saw your site right now, i could of offered you a place to stay here in brugge. I live right neXt to the canal, at the side of the strange, modern, big, white, curved bridge, if you can remember. Its the start of the canal route to Oostende. Anyhow, if you need anything more around here, you can contact me. Enjoy the bime trip!
    Christophe

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    • Hi Christophe,

      how great to hear from you! You are very lucky to have such an amazing and beautiful route weekly in your life! I loved to cycle from Brugge to Oostende…it was a real treat! Are you planing to cycle from SP to Rio in November? That sounds like a good plan. Please get in contact so I can help with your trip in Brazil! My facebook is Raquel Jorge and my email is queljorge@gmail,com

      Looking forward to hearing from you!

      Raquel ;)

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  • Leonardo

    Ola Raquel,

    O seu texto é muito inspirador! Adorei a parte “Estou tão distante deste mundo – urbano e consumista, dos apelos publicitários, das falsas necessidades”.

    Fiz uma viagem “tradicional” para Europa em Maio de 2015, mas fiquei com vontade de fazer uma parte dessa viagem de bike.

    Li alguns dos seus textos, gostei da emoção que você coloca nos seus textos, parabéns por escrever bem! adicionei você no face book para poder acompanhar um pouco da sua perceptiva do mundo!

    E agora, qual é a próxima trip?

    Desejo muita saúde para que você possa continuar buscando seus sonhos e objetivos. B

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  • Ana Luísa

    Olá! Obrigada por compartilhar esses momentos conosco! Você é inspiradora. Grande abraço.

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