De Dover a Londres: entre pomares, montanhas e estradas da Inglaterra

A caminho de Sittingbourne. Foto: Raquel Jorge

A caminho de Sittingbourne. Foto: Raquel Jorge

E quem disse que o tempo na Inglaterra é miserável? Enquanto caía o mundo na capital paulista, na costa inglesa o céu e o mar não poderiam ser mais azuis. Saí de Dover e segui para o norte contornando o mar. Foi fácil identificar o caminho e de cara entendi que a sinalização das rotas na Inglaterra não iria me deixar na mão. O trecho histórico denominado Viking Coastal Trail foi uma surpresa maravilhosa – nem sabia que este lugar existia. Um percurso feito por vias exclusivas para bikes e pedestres, com o mar de um lado e paredões de pedra branca do outro.

Na realidade as ciclovias não foram criadas recentemente. São vias que já existem há muitos anos (algumas históricas), mas que eram exclusivas para pedestres (ou cavalos). O que eles fizeram foi simplesmente incluir a bicicleta na lista de “permitido o tráfego” e encheram de plaquinhas, tanto indicando o caminho quanto alertando o ciclista para dar prioridade a quem segue a pé.

O que haviam me dito, de ser ruim pedalar e sobre motoristas agressivos, confesso que não vi. Muito pelo contrário. Foram raros os trechos em que segui pela estrada e só cruzei motoristas pacientes.

Aliás, só gente simpática – com a exceção de uma motorista histérica que ficou gritando pra mim porque eu estava na mão errada. Assoprei beijos pra ela e disse: all you need is love!! (tudo que você precisa é amor). Achei que citar Beatles seria apropriado.

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

O celular perdido

Após passar por ruínas romanas peguei um single track maravilhoso. No alto da colina havia um banco. Sentei, vi o mapa, chequei minha localização no celular. Comi uma maçã, fiz xixi na moita e segui em frente. Quando cheguei em Whitstable (15 km depois) fui pegar o celular para ver o nome do B&B que havia reservado. Cadê celular? Cadê mapa? Num tava. Tinha deixado no banco da colina. Putz. Fiquei dividida entre o desespero de perder o celular, o custo disso, as informações etc, e o mantra que dizia: é apenas um celular, não é o fim do mundo!

Abri o lap top, achei o B&B, larguei os alforjes e voltei 15km atrás do meu device. Ele não estava mais no banco. Estava uma tarde linda e pensei em todas as coisas boas que estava vivendo. Qualquer coisa para não deixar o desânimo encostar. Perto das ruínas havia um pub, resolvi perguntar. Nada. Estava na rua, subindo na bicicleta quando passa por mim um carrão preto, tipo um SUV. O carro para ao meu lado, a janela se abre, dentro um casal de meia idade muito elegante. Ele perguntou: você perdeu um mapa. Sorri já entendendo que eles haviam achado. A senhora desceu do carro e me entregou mapa e cel. Fiquei tão feliz que a abracei forte. Ela não esperava tanto afeto e ficou rindo com minha evidente alegria.

Voltei para Whitstable, lavei roupa, comi, dormi. Sem acreditar no tanto de sorte que eu tenho nessa vida!

Cama e café da manhã

O dia seguinte foi delicioso, totalmente de paz e harmonia. Consegui consertar minha bike (três raios quebrados) com os queridos da lojinha de Whitstable, depois o pedal foi literalmente um passeio pelo interior. Fazendas e bichos até chegar em Sittingbourne. Com direito a piquenique com maçãs colhidas no pé.

Acho que foram os ingleses que criaram o conceito de B&B (Bed and Breakfast). É diferente de pousada e definitivamente diferente de um hotel. Os B&Bs normalmente funcionam na casa de uma pessoa ou família. Eles oferecem um quarto (quase sempre com banheiro) e café da manhã. E é tudo que você precisa.

Os lençóis são de florzinha e combinam com as cortinas (mas nunca com o carpete que, invariavelmente, tem uma estampa que Deus me livre – só consegue apreciar quem está sob a influência de substâncias ilícitas). Daí você acorda e ao descer as escadas já sente aquele cheirinho inigualável de café recém-passado. Chega no jardim de inverno e encontra uma mesa cuidadosamente arrumada, só para você, com as louças da vovó e geléia caseira.

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

Sinalização

Deixei Sittingbourne bem cedo. O trecho era para ser bem curto, mas não foi. Sair da cidade foi um tormento. Fiquei girando que nem peru e nada de encontrar a saída. A cidade nem era tão grande, mas era no interior e sem o mar como referencia e sem GPS fiquei totalmente dependente das placas da rota.

Daí havia uma obra no caminho, onde as placas simplesmente desapareceram. Tentei as três opções possíveis, pedalei por cada uma por alguns quilômetros e nada. Não teve jeito, tive que apelar para o maps.me do celular, e fui seguindo a flecha que apontava para o leste, mas tendo que evitar as highways.

Conclusão: fui me enfiando pelas fazendas da região e estava tudo indo muito bem, obrigada. Até que dei de cara com uma porteira fechada. Cadeadão e tudo. Cheguei a considerar pular a porteira, mas sei lá, melhor evitar tiro de sal no traseiro.

Dei meia volta e fui contornando a highway da forma que era possível. 37 km de zigue-zagues depois, eis que volto a ver as adoradas plaquinhas da rota 1.

Viagem próxima do fim

A viagem estava chegando ao fim. Comecei a pedalar mais devagar como se isso permitisse que ela durasse mais. Não queria que esta viagem tão maravilhosa terminasse. Uma viagem única e especial. Por tê-la feito sozinha, do começo ao fim. E perceber que este foi o fator mais importante, o maior desafio, e que isso muda tudo. Cada um destes mais de 100 dias solo na estrada me ensinou algo. Sobre o mundo compartilhado e sobre aquele que é só meu.

Aprendi a distinguir saudade de carência, carência de solidão, solidão de solitude. Entendi a diferença ente teimosia e determinação. Generosidade e fraqueza. Tolerância e submissão. Fome e fomeeeeee. Frio e frioooooo.

Não que eu já não soubesse, mas tudo se intensifica quando nos colocamos em situações que incitam o sentir. Que é algo totalmente diferente do saber.

O saber pensado é fácil. O saber sentindo já é outra história.

Percorri cenários descritos por ela, a querida Jane Austen. Estava a pedalar pela terra em que ela nasceu, onde brotaram seus personagens e cresceram suas histórias. Lembrei especialmente de uma, cujo título resume muito aquilo que somos, nossa essência: Razão e Sensibilidade. Escrito em 1811 continua tão atual. O eterno conflito entre o que sabemos e o que sentimos. Inerente à nossa espécie. Assim sempre foi. Assim sempre será.

Pedalei pela costa até chegar em Dartford. Cidadezinha meio feia, tipo industrial, cinzenta. Última parada antes de ir para Londres. Já estava a 40 km da capital. O mapa que eu tinha chegava só até aqui. Chequei na internet e de acordo com o site oficial de rotas ciclísticas, havia um caminho de Dartford até o centro de Londres margeando o Tâmisa por todo o trecho.

O dia seguinte amanheceu chuvoso, segui as plaquinhas e de fato, fui contornando o rio e vi suas margens se transformando, o mato deu lugar a vilarejos, e após uma longa curva, entre momentos de tempestade e raios de sol, avistei o perfil da cidade no horizonte. Parei. Olhei. Chorei.

Lá estava ela, a bela capital inglesa.

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

Raquel Jorge acaba de completar uma cicloviagem de 6.200 km, contornando o Mar do Norte e passando por Noruega, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Holanda, Bélgica e Inglaterra. Todas as sextas-feiras, conta no Vá de Bike detalhes de suas cicloviagens, da preparação aos desafios do caminho, com dicas para quem tem vontade de ganhar o mundo em duas rodas sem motor e informações sobre a mobilidade por bicicleta nos locais por onde passou. Veja o que ela já publicou por aqui.

2 comentários para De Dover a Londres: entre pomares, montanhas e estradas da Inglaterra

  • RicardoP

    Que legal essa matéria sobre bicicleta! Bem que o Renato poderia comentar ela…

    …se ele gostasse de bicicleta.

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  • maria luciani

    Mravilhosa, Raquel! Eu choro e rio com você. O lance do celular perdido, foi forte! Todos esses momentos ficarão eternamente gravados em sua memória. A vida ficará mais fácil. O seu espírito e físico, ficaram mais fortes… Abraços fraternos.

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