Com mais de duas mil integrantes, coletivo ciclofeminista Ciclanas completa um ano

Confraternização das Ciclanas no final do ano passado. Foto: Ciclanas

Confraternização das Ciclanas no final do ano passado. Foto: Ciclanas

Quando março chega, e com ele, o Dia Internacional de Luta das Mulheres, surgem homenagens que geralmente incluem flores, cosméticos e outros itens que reforçam a ideia estereotipada de feminilidade. O que para uns pode ser cortesia, para outros (e principalmente, outras) não é percebido dessa forma. Foi uma situação como essa que motivou o surgimento das Ciclanas, coletivo ciclofeminista de Fortaleza que há um ano reúne mulheres que debatem o uso da bicicleta na capital cearense. Elas recusaram as flores e foram em busca de autonomia e voz.

“Um ciclista sugeriu num grupo no Facebook que no oito de março flores e cartões fossem distribuídos para mulheres em uma ciclofaixa da cidade”, contou a jornalista Rosana Reis, durante atividade das Ciclanas no Lady Fest, em Fortaleza, no último dia 11 de março. “Sabíamos que a intenção era boa, mas o significado desse dia é outro”. Mesmo explicando as razões políticas da data, as mulheres que disseram não à iniciativa foram hostilizadas por membros do grupo que não compreendiam suas razões.

“A Ciclovida (Associação dos Ciclistas Urbanos de Fortaleza) já havia nos procurado para realizar uma ação. Quando esse fato ocorreu ficou ainda mais evidente a necessidade de um espaço seguro para falar abertamente sobre o que vivíamos enquanto mulheres e ciclistas, sem ter que nos preocupar com o julgamento dos homens”, lembra. Rosana e mais duas ciclistas (entre elas, a autora desta matéria) organizaram uma roda de conversa para mulheres que já usavam a bicicleta ou gostariam de adotar o veículo.

Surgiam as Ciclanas, que atualmente contam com mais de duas mil integrantes em seu grupo fechado do Facebook. No espaço virtual elas falam sobre assédio, machismo dentro do cicloativismo, mecânica de bicicleta, violência urbana e outros temas ligados a gênero e bicicletas. Fora da internet, palestras, debates, pedaladas, oficinas de alongamento, mecânica para mulheres e até uma cicloviagem são algumas das ações já realizadas pelo grupo.

Há um ano, o grupo (ainda sem nome) se reunia pela primeira vez Foto: Sheryda Lopes

Há um ano, o grupo (ainda sem nome) se reunia pela primeira vez Foto: Sheryda Lopes

Machismo

Os debates são destacados pela cabeleireira Karla Kizzy, 36, como uma grande contribuição do coletivo. “Ter conhecido a realidade de outras mulheres em relação ao seu cotidiano, sua relação com a bike para locomover-se para trabalho, faculdade e afins, assim como assédio e violência que enfrentamos, a constante luta contra o machismo tanto no trânsito quanto na sociedade… tudo isso fez meu pensamento resgatar o que eu tinha esquecido em mim”.

Karla acredita que é importante que mulheres ciclistas de outras cidades se encontrem e debatam essas questões, o que já vem acontecendo: já existe o Ciclanas Blumenau, inspirado na experiência em Fortaleza, e durante o I Fórum Nordestino da Bicicleta realizado em Recife, no ano passado, um debate com a presença do grupo provocou reuniões com outras mulheres nordestinas, que já começam a se articular em suas cidades. Lembrando ainda que essa não é a primeira experiência feminista que envolve o ciclismo: em São Paulo, por exemplo, o coletivo Pedalinas iniciou suas atividades em 2009.

Para a ciclana Renata Araújo, 31, psicóloga, o feminismo tende a transformar o cicloativismo, que ainda é composto, em sua maioria, por homens. Em Fortaleza, ela acredita que o machismo ainda é presente de forma ampla, tanto no trânsito quanto em outros espaços. Porém, sente que o número de mulheres que pedalam em Fortaleza aumentou em relação ao último ano e comemora o fato de o assunto ser discutido. “As mulheres estão se unindo e percebendo a potência disso, elas estão lutando mais, aceitando menos o machismo nosso de cada dia e estão nas ruas”, analisa.

Oficina de lambe-lambe e estêncil em parceria com o coletivo Mulheres no Graffiti, também de Fortaleza Foto: Ciclanas

Oficina de lambe-lambe e estêncil em parceria com o coletivo Mulheres no Graffiti, também de Fortaleza. Foto:Ciclanas

Enviar resposta

  

  

  

Você pode usar estas tags HTML

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>