Cicloturismo no Nordeste: pedalando de Alagoas até a Bahia

Adriana Marmo, Fabio Samori e Raquel Jorge. Foto: Raquel Jorge

Adriana Marmo, Fabio Samori e Raquel Jorge. Foto: Raquel Jorge

Muitos dizem ser perigoso viajar de bicicleta pelo Brasil. Mencionam a falta de estrutura, os perigos decorrentes das diferenças sociais e culturais e até desastres naturais são trazidos ao discurso. Após percorrer pouco mais de 400 km por vias secundárias e BRs que ligam a capital alagoana à capital baiana, só tenho uma coisa a dizer: é simplesmente maravilhoso.

Cada “perigo” criado e aumentado ao longo dos meus anos como ciclista foi, um a um, sendo desmistificado, e no lugar de cada suposta ameaça descobri delicadezas e gentilezas de um Brasil que até então me havia sido negado.

Embarcamos no dia 24 de dezembro. Sim, véspera de Natal. Eu e meu amigo e sócio, Fábio Samori. As bicicletas estavam devidamente encaixotadas e não houve nenhum contratempo para despachá-las, mas tivemos que pagar R$ 380,00 pelo excesso de peso, pois despachamos também os alforjes com todos os nossos pertences.

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

A saída de Maceió

Em Maceió ficamos na casa do Caio, um amigo querido que nos acolheu e nos permitiu usar sua sala de estar para montar as magrelas. No dia seguinte chegou a terceira mosqueteira, outra amiga pedalante, Adriana Marmo. A sala de estar do rapaz virou oficina: arruma isso, desentorta aquilo. Partimos bem cedo na manhã do dia 26 deixando um imenso bilhete de agradecimento na geladeira do moço.

O primeiro dia de pedal foi delicioso. Maceió tem uma enorme ciclovia que contorna toda a orla no perímetro urbano. Depois disso seguimos pelo acostamento. O único momento de estresse foi na travessia de uma ponte, em que o acostamento acabou e tivemos que entrar na estrada. O movimento era intenso e fomos ultrapassados sem cerimônia por motoristas que seguiam em alta velocidade.

Depois disso foi tudo delicioso. Passamos pela famosa praia do Gunga, com seu infinito coqueiral. De cima um paraíso, mas lá na beira da água uma muvuca sem fim. Empurramos as bicicletas até um canto tranquilo onde aproveitamos para comer e nadar. Eis que na hora de ir embora a maré havia subido, impossibilitando nosso retorno. Um barqueiro pra lá de sorridente apareceu para nos resgatar: nós, as bikes, as malas e as cuias. De volta à estrada descobrimos que, apesar de estarmos percorrendo a costa, não havia nada de plano. Foi um sobe e desce sem fim. Delicioso, ainda que cansativo.

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

Lua cheia e café

Chegamos em Duas Barras já era noite. Fomos muito bem acolhidos em uma pousadinha, simples e charmosa. Das janelas de madeira do quarto via-se uma imensa lua cheia que nascia no horizonte.

Mas a surpresa maior veio ao amanhecer. Que lugar espetacular, onde o Rio Jequiá com suas curvas e praias de dunas brancas desaguava em um mar de uma cor que não existe. Não resistimos a este paraíso e acabamos partindo apenas no fim da tarde.Pedalamos por cerca de uma hora quando começou a escurecer. Na estrada avistamos uma placa que dizia: Foz do Rio Poxinzinho.

Entramos por uma trilha e, no fim dela, mais um paraíso. Fomos serpenteando um imenso mangue, até ver seu rio chegar no mar. Não tivemos dúvida, armamos a barraca, tomamos banho no rio e assistimos a um espetáculo de lua e nuvens no céu. Comemos miojo (claro!) e tomamos um café saboroso, graças a uma traquitana que o Fábio levou que, de alguma forma, fazia café.

Acordamos com o barulho da chuva estalando no teto da barraca. Não era uma chuvinha, era aquela coisa que chamamos de chuva de verão. Veio forte e durou 10 minutos. Desmontamos acampamento e voltamos para a estrada, a AL-101. Após percorrermos 70km por uma estrada simpática que remetia a tudo o que é tropical, chegamos no Pontal do Peba.

Seguimos pela praia até que esta fez uma enorme curva, revelando uma beleza única. De um lado um mar verde água, à nossa frente uma praia deserta, do outro lado dunas brancas e imensas. Nosso queixo caiu. Fomos nos informar e, aparentemente, era inviável seguir de bicicleta. Paramos ali, comemos e bebemos no boteco da Maria e do Bicudo. Jogamos futebol com a molecada e partimos.

De volta pra BR, seguimos por mais 10km até chegar no vilarejo mais almejado até então: Piaçabuçu, nada menos do que a cidade que abriga a foz do Rio São Francisco.

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

Nadando na foz do São Francisco

Basta dizer que foi uma emoção generalizada. Chegar pedalando até o pequeno cais, ver os barquinhos todos atracados e coloridos por um pôr do sol que insistia em roubar a cena. Noite de Coca-cola com pizza e pousadinha bem simples no centro. Acordamos cedo, um dia nublado e abafado.

Foi fácil conseguir um barco para nos levar para o outro lado do rio, fazendo assim a travessia do estado do Alagoas para Sergipe. Mas não sem antes parar e nadar na foz, onde aproveitamos para comprar uma enorme variedade de doces caseiros vendidos ali mesmo, em uma tenda às margens do rio. Entre os quitutes havia cocada, queijadinha, doce de amendoim e de castanha de caju. Mal sabíamos que esses doces salvariam o dia!

Do outro lado do rio seguimos por uma estrada secundária, a SE-100 – trata-se do início da Costa Verde. Ela começa em um pequeno povoado às margens do São Francisco. Não é asfaltada, o que a torna imensamente mais charmosa. Você passa por vários vilarejos e sítios, uma infinidade de igrejinhas pitorescas, quase nenhum carro e muitas vacas.

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

À mercê da maré

Foi em um destes vilarejos que a roubada começou. Paramos para tomar sorvete e comprar água. O sol forte judiava. O senhor da vendinha começou a prosear. Papo vai, papo vem, soubemos que era possível seguir pela praia até a cidade de Pirambu, desde que a maré estivesse baixa.

Claro que nenhum de nós havia baixado o aplicativo das marés. Grave erro! Nisso passa um senhor, sem camisa, bermuda de pescador, chapéu de palha e uma peixeira que ía da cintura até quase o chão. O senhor da vendinha gritou: Manoel, como esta a maré? E Manoel balbuciou: tá vazando!

Animados com a possibilidade fomos instruídos sobre como chegar na praia, o que incluiu 3kms por um single track seguido de muitos e muitos metros empurrando as bicicletas sobre as dunas. Chegamos, olhamos e concluímos que era viável seguir. E seguimos. Menos de 2kms depois nos demos conta de que a maré não estava vazando, ao contrário, estava subindo, tornando impossível o pedal. Ainda faltavam 40km e não ia rolar empurrar. Estávamos no meio do nada, um lugar lindo, mas absolutamente remoto e distante de tudo.

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

Paramos as bikes sobre as dunas, jogamos uma canga no chão e ali ficamos por mais de quatro horas. Tomamos café, comemos todos os doces que havíamos comprado naquela manhã e mantivemos os olhos ansiosos nos movimentos do mar. Resumindo, quando a maré baixou já havia anoitecido. Percorremos o trecho que faltava guiados pela luz da Lua, derrapando o tempo todo e tentando desviar das inúmeras “marias farinha” (caranguejo) que, muito suicidas, se jogavam embaixo das nossas rodas.

Atravessamos vários riozinhos sem enxergar direito e em uma dessas travessias a Adriana caiu e machucou o tornozelo. Nada grave, mas nos deixou ainda mais ansiosos para chegar em algum lugar. Foi belo, mas foi tenso. E confesso que sentimos um alívio coletivo quando avistamos, lá longe, as primeiras luzes da cidade.

Chegamos em Pirambu já passava das 23h. Exaustos, sujos, com fome e com sede. Não vou entrar nos detalhes sórdidos da espelunca que escolhemos para passar a noite. Tipo hotel dos horrores. O importante é que chegamos, dormimos, acordamos e partimos!

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

De Pirambu a Aracaju

O pedal entre Pirambu e Aracaju foi sensacional. Belo e tranquilo. Seguimos pelo acostamento da SE-100 sem nenhuma dificuldade e, 60kms depois ficamos emocionados ao cruzar a ponte João Alves, sobre o Rio Sergipe, e avistar nas suas margens toda a beleza da capital sergipana. Fomos recepcionados pelo querido Marco Antônio, o bike anjo que nos acolheu e abriu sua casa para nós. Ele e sua adorada esposa Fabiana nos fizeram sentir em casa, e como se isso não bastasse, na manhã seguinte nosso anjo nos escoltou por mais de 30kms, até sairmos do perímetro urbano e cairmos, mais uma vez, na estrada.

Percorremos um longo trecho sem acostamento. Era dia 31 de dezembro, o tráfego era intenso e havia uma ansiedade no ar, todos querendo chegar logo no seu destino. Sentíamos o sol, impiedoso, fritando nossa nuca. Após 50kms o ritmo caiu, o calor estava opressivo e ainda faltava um bom trecho para percorrer. Foi quando avistei uma placa que dizia “Lagoa Azul”. Gritei para meus parceiros: bora parar pelo amor de Deus!

Paramos, e foi como achar um Oásis no meio do deserto. A lagoa era de fato azul, cravado na areia branca o primeiro boteco com música audível da viagem. Demorou 30 segundos para tirarmos capacete e tênis e nos jogarmos na água. Uma água fresca e cheia de peixes enormes que insistiam em ser nossos amigos. Depois encaramos um PF maravilhoso, tomamos algumas caipirinhas e era disso que precisávamos para recarregar as baterias e seguir viagem.

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

A famosa Mangue Seco

70km depois chegamos na Praia do Saco, linda, apesar da música alta e desagradável que saía do porta malas de uma caminhonete (algo que presenciamos em todos os lugares por que passamos). Não demorou para encontrarmos o Hugo, o barqueiro que topou nos levar, junto com nossas bikes, até Mangue Seco. Meia hora depois chegamos neste belo e pitoresco vilarejo, cenário de Jorge Amado e perfeito para representar o que a Bahia tem!

Apenas um detalhe: nada apropriado para pedalar. Uma região em que não existem ruas, trilhas ou qualquer coisa que não seja dunas de areia. E toca empurrar a bike pra cima e pra baixo à procura de um lugar para passar a noite. Acabamos encostando em um boteco, pedimos uma caipirinha, depois a segunda e pra resumir, acabamos acampando no quintal do dono do bar e tudo que economizamos em hospedagem, gastamos em cachaça – mas afinal, era noite de Ano Novo.

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge

O primeiro dia do ano amanheceu todo torto! Muito calor, muita ressaca e muita duna para empurrar as bikes. Pegamos uma embarcação coletiva até o vilarejo de Pontal. Lá seguimos pedalando e sofrendo pela SE-100. Chegamos na cidade de Indiaroba com uma imensa esperança de nos jogar em um ônibus. Cada volta que o pedivela dava era uma martelada dolorosa no cérebro.

Chegamos e demos de cara com uma rodoviária fantasma. Tudo fechado! Seguimos até a vila de Itanhi, na divisa de estado entre Sergipe e Bahia. Fomos informados que um ônibus passaria, em algum momento, seguindo para o sul. Nos largamos, literalmente, na beira da estrada e esperamos por quatro horas até o dito cujo passar.

O ônibus nos levou até Arembepe, onde terminamos a viagem, após percorrermos 428kms de pedal e pouco mais de 100km no busão. Nos demos o luxo de passar dois dias na praia de pernas para o ar. No terceiro dia conseguimos um carro para nos levar até o aeroporto, às 3h30 da manhã. O Fábio conseguiu encaixotar a bike com o papelão que pegamos na rua. Eu e a Adriana morremos com 150 pilas cada uma para embalar naquele plástico que há nos aeroportos.

Dormi durante todo o voo e ao pousar senti aquele tão familiar gostinho de “quero mais”!

Além de muito prazer, esta viagem me proporcionou um conhecimento sobre meu país que até então eu desconhecia:

1 É seguro viajar de bicicleta pelo nordeste

2 Se fizer uma rota pela costa, baixe o aplicativo das marés

3 Esteja sempre abastecido de água potável e tome muita água de coco

4 É possível e tranquilo acampar na praia – não há campings no nordeste

5 A cerveja é sempre absurdamente ruim. E se você prefere vinho tá ferrado. Não existe!

6 A comida é barata e deliciosa

7 Dê o exemplo, não jogue lixo nas praias ou vias e colete o lixo deixado por terceiros sempre que possível

8 Ande bem sinalizado e procure usar roupas coloridas

Foto: Raquel Jorge

Foto: Raquel Jorge


3 comentários para Cicloturismo no Nordeste: pedalando de Alagoas até a Bahia

  • Olá Clarissa, tudo bem?

    Li seu comentário e, pelo fato de meu texto te-la ofendido, senti que uma resposta seria apropriada. Considerei suas observações e conclui que cometi o erro grosseiro de expressar como certezas experiências que foram subjetivas. Minhas dicas foram baseadas únicas e exclusivamente no que eu vivenciei e eu deveria ter deixado isso claro no texto.

    Peço desculpas por te-la ofendido, meu texto é sempre muito pessoal, sou uma viajante e não uma jornalista. Vejo agora que meu tom (nos dois itens sobre dicas que você apontou) foi arrogante, não foi minha intenção e vou tomar cuidado para que isso não aconteça novamente. Obrigada pelo comentário e por ter me dado a oportunidade para melhorar.

    No mais, reafirmo que a viagem foi simplesmente maravilhosa e surpreendente.

    Um bj, Raquel

    Comentário bem votado! Thumb up 4 Thumb down 0

  • clarissa

    Ola bom dia! Existe vinho sim, talvez nao o que você desejasse..e cerveja? Como assim ruim? Sao as mesmas marcas nacionais. Existem muitos campings no nordeste, inclusive em pirambu onde você passou. Estava gostando muito do relato ate chegar nesse resumo preconceituoso. Nao tome o nordeste pelo perrengue que vcs passaram e na proxima viagem se programem melhor senao qualquer lugar sera tao dificil quanto. Nao olhar a tabua de mares demonstra claramente sua falta de planejamento.
    Particularmente me senti ofendida por tds que ajudaram vcs nessa travessia.

    Thumb up 3 Thumb down 0

  • Felipe Brust

    Olá. Programei viagem semelhante pra fazer com minha esposa e meu irmão. Mas saindo de Recife com destino à Salvador. O litoral sul Pernambucano e o Norte Alagoano (já rodei de carro) são atrações magníficas. À época, embarcava-se pela TAM com a bike montada. Chegamos pedalando ao Aeroporto mas perdemos o voo por 5 min e preferimos fazer o caminho inverso até onde ‘Deus sabe onde’. Coincidentemente, só pedalamos até Aracaju. Exatamente o trecho que não foi pedalado no relato.

    Mapeei as possíveis estadias anteriormente, pois não levamos barracas. A Estrada do Côco, estrada entre o Aeroporto e Praia do Forte é duplicada e pedagiada. Pontos de apoio, Postos, acostamento largo, vida pedestre, uma delícia. 50 km despreocupados com muita oferta hoteleira e praias lindíssimas. Busca Vida, Jauá, Interlagos, Arembepe, Jacuípe, Guarajuba, Itacimirim, Praia do Forte. Dormimos em PF e depois seguimos pela Linha Verde.

    Estrada igualmente tranquila, mas com altimetria maior (picos de 60m) e menos pontos de apoio. Tirar dinheiro depois de Praia do Forte só uns 100 km depois. Comprar água ou um lanche também é tarefa complicada. Um longo trecho sem estrutura mas que compensa com Mirantes e balneários cerca de 2 a 3 km da estrada principal. Mais belas praias: Imbassaí, Vila de Sto. Antônio (ficamos 3 dias), Sauípe, Massarandupió, Subaúma, Baixio (dormimos também). Muita gente percorre esse trecho pela areia da praia. Mas são muitos rios e alguns impossíveis de atravessar com alforges.

    Em Barra do Itariri tem uma belíssima foz de rio, cerveja, moqueca de primeira e uma estradinha de terra safadinha que margeia o mar para evitarmos os ‘tobogãs’ da Linha Verde com vários picos que passam dos 100m. Seguimos por ela 15 km até Sítio do Conde (estrutura de lotérica e banco na sede distante 3 km) e mais 12 até Siribinha onde ficamos 5 dias. Atravessamos o rio Itapicuru com uma canoa observando a maré baixa com destino a Mangue Seco 40 km adiante, passando por Costa Azul. Mangue Seco é o único lugar que não conhecíamos e realmente fascinante. De barco fomos até Praia do Saco, seguimos para Aracaju e voltamos de ônibus pra Salvador.

    Sem sobressaltos, sem pressa, sem sustos, sem perrengues, sem capacetes, sem peso, sem agonia sem pneus furados, sem stress. Com muito respeito, planejamento e água. Viajar de bike é estar em harmonia e pertencer ao lugar.Hoje já existe estrutura bike friendly em algumas pousadas com flexibilidade de tarifas sem café, por exemplo, pra quem madruga.

    Thumb up 1 Thumb down 0

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