Proibidas de pedalar em seu país, iranianas protestam e viajam o mundo

A ciclista iraniana Ishbel Taromsari. Foto:  Reprodução/ World Bike Girl

A ciclista iraniana Ishbel Taromsari. Foto: Reprodução/World Bike Girl

A iraniana Ishbel Taromsari está na estrada há dois anos com a sua bicicleta e o Brasil foi o 16º país que a recebeu. Se até meados do ano passado a aventura era uma jornada pessoal, desde setembro de 2016 a volta ao mundo ganhou um novo caráter: no dia 10 daquele mês, Ali Khamenei, líder supremo do Irã, emitiu uma ordem que proíbe mulheres de andar de bicicleta em público.

Mesmo antes de oficializada, a proibição já vinha ocorrendo na prática desde maio daquele ano. Em agosto, um grupo de iranianas foi detido por andar de bicicleta, sendo obrigadas a assinar um documento jurando nunca mais repetir o ato. Elas planejavam participar de um evento de ciclismo, mas tiveram de desistir, pois não teriam como treinar: os parques exclusivos para mulheres seriam os únicos locais onde poderiam pedalar.

As mulheres no Irã responderam à proibição postando selfies e vídeos pedalando, usando a hashtag #IranianWomenLoveCycling (veja algumas das fotos no final da matéria). Ishbel, que integrava a equipe nacional de ciclismo feminino do país, fez desta a sua bandeira e engrossa o coro a favor aos direitos das mulheres.

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Carreira de lado

Depois de participar de uma competição no Cazaquistão, ela tomou uma decisão importante no voo de volta. “Peguei minha bicicleta e mochila do complexo esportivo Azadi e voltei ao aeroporto de Teerã para pegar um voo para Istambul. Eu passei as três semanas seguintes pedalando na Turquia, por conta própria e naquele tempo eu fiz uma decisão de mudança de vida: viajar pelo mundo com a minha bicicleta”, relata no seu site.

A discriminação contra
as mulheres no ciclismo
não é uma
questão importante
para a UCI

A iraniana seguiu o coração e deixou para trás um “mundo de discriminação, bullying e doping”, como descreve. Ela ainda se preocupou em fazer queixas formais à UCI (Union Cycliste Internationale), a entidade mundial para o ciclismo, sobre a discriminação das ciclistas vivida pela equipe. ”Embora a UCI tenha agradecido às informações sobre doping, fui informada por escrito pelo seu departamento jurídico de que, para prosseguir a queixa de discriminação, poderia ser responsável pelos custos da investigação e das audições”, diz.

A ciclista relata que discriminação contra as mulheres no ciclismo não é uma questão importante para a UCI e este é um fator importante contribuindo para a sua existência em grande escala em todo o mundo esportivo do ciclismo.

Enquanto isso, no Brasil

Ciclista em Curitiba. Foto: Aline Cavalcante

Ciclista em Curitiba. Foto: Aline Cavalcante

As mulheres estão ganhando as ruas de bike, mas ainda não são todas. Segundo o levantamento realizado em 2015 pela Ciclocidade, apenas 6% das pessoas que pedalam em São Paulo são mulheres. Para entender essa e outras questões, foi criado em 2015 um Grupo de Trabalho de Gênero na associação.

O primeiro resultado divulgado pelo GT foi o compilado da pesquisa inédita “Mobilidade por bicicleta e os desafios das mulheres de São Paulo”, que chega para jogar luz sobre os desafios femininos pelas ruas da metrópole. O trabalho foi totalmente elaborado, conduzido e analisado por pesquisadoras mulheres.

Segundo Marina Harkot, integrante do GT e coordenadora do levantamento, os principais problemas que impedem as mulheres de usar a bicicleta são os desafios que as ciclistas enfrentem todos os dias: “o medo de ser atropelada e de colisões, assim como a falta de respeito no trânsito, no compartilhamento de vias”, destaca.

Ainda é notório que as mulheres que pedalam há mais tempo e usam a bicicleta mais vezes por semana têm renda mais baixa entre as entrevistadas. “Possivelmente isso acontece por falta de alternativa, já que a bicicleta é o meio de transporte sem custo que resta como opção para elas”, finaliza Marina.

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