Saia na Noite: 25 anos iniciando mulheres nas pedaladas

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Saia na Noite leva mulheres para pedalar nas ruas desde 1992. Foto: Divulgação

Em 1985, aos 37 anos, Teresa D’Aprile se divorciou. Nessa mudança de vida, acabou comprando uma bicicleta, sem entender muito bem por que tinha feito aquilo, nem imaginando o quanto aquela bike mudaria sua vida – e a de tantas outras mulheres.

Teresa D’Aprile inspira mulheres de todas as idades a adotarem a bicicleta. Foto: Ivson Miranda

Teresa vendeu o carro assim que começou a se deslocar com a magrela, fazendo dela seu meio de transporte para o trabalho, seu equipamento para prática de esporte e ganhando uma nova forma de lazer. Naquela época, era ainda mais difícil pedalar nas ruas. “Eu era vista nas ruas como um ET de bicicleta, devido à idade e por ser mulher”, recorda. Sem contar que se nem a lei de trânsito reconhecia a bicicleta como veículo ainda, imagine os motoristas…

Suas amigas aplaudiam a iniciativa ousada, mas tinham vergonha ou receio de fazer o mesmo. Até que deixaram a timidez e as preocupações de lado e juntaram-se a ela para fundar o Saia na Noite, no ano de 1992, em São Paulo. O primeiro grupo feminino de ciclistas que se tem notícia no Brasil persiste por mais de duas décadas, trazendo cada vez mais mulheres ao uso da bicicleta. “Nossa ideia sempre foi ver mais e mais mulheres pedalando e hoje isso já é uma realidade. Não importa a idade, tenha 20 ou 60, somos todas ciclistas”, resume Teresa.

Mais de mil mulheres

Neste outubro de 2017 o Saia na Noite completa 25 anos. “É muito tempo, eu nem vi passar”, comenta Teresa. E é assim mesmo quando a gente faz o que gosta. “Amo o que faço e minhas meninas”, confessa. E esse amor não é só pelo giro dos pedais: ela conta que o que a fez prosseguir sempre com o grupo foi ter por perto mulheres “que tem vontade de mudar, de se divertir, conhecer pessoas e principalmente chegar lá”.

Foto: Divulgação

“Somos um grupo muito, muito feliz”, resume D’Aprile, emocionada com os 25 anos de um árduo mas gratificante trabalho, no qual nunca buscou remuneração. “Fico feliz em ajudar muitas mulheres que passaram e ainda passam por nós.” E não foram poucas: mais de mil já passaram pelo grupo.

As participantes também a ajudam a manter a atividade do Saia na Noite. “Cada uma ajuda como pode, guias, fotógrafas e as que trabalham atrás dos bastidores. Temos uma equipe de mulheres que ajudam no pedal, umas fechando o grupo, outras no meio e outras incentivando, e sempre usamos radio comunicador. Não tenho palavras para agradecer a ‘diretoria’, que é como chamo as meninas que vão toda semana e fazem parte do apoio, porque afinal somos uma equipe.”

Apoiando quem quer começar

“Nossa maior faixa etária é dos 30 aos 50 anos”, revela Teresa. Segundo ela, as mulheres procuram a bicicleta como lazer, para interagir com a cidade, pela descoberta do novo, para praticar exercícios e por uma questão de sustentabilidade. “A proposta do grupo é promover pedaladas femininas para incentivar esse meio de transporte sustentável e não poluente, além de estimular mulheres adultas a melhorar sua qualidade de vida física e emocional.”

“A ideia do Saia na Noite é iniciar as mulheres no pedal, num ritmo mais lento, porque nós mulheres temos mais paciência para ensinar as técnicas da pedalada, e sempre com muita calma, uma incentivando a outra”, descreve. “Temos orientação mecânica básica, sabemos trocar câmara e fazer pequenos ajustes se necessário”.

O grupo faz saídas todas as terças-feiras à noite, em uma pizzaria da Zona Sul. Os roteiros têm sempre cerca de 25 km, com subidas mas em ritmo bem lento. “O trajeto é decidido na hora do passeio, se tivermos novatas fazemos um percurso mais light. E sempre incentivando as novatas. Não importa se ela precisar empurrar a bicicleta em suas primeiras subidas, nós vamos estar juntas conversando e sabemos que logo ela vai conseguir subir pedalando. Isso é pedalar em grupo, todas vão e voltam juntas”, garante Teresa.

O Vá de Bike já teve oportunidade de acompanhar algumas saídas do grupo e vimos o cuidado e carinho com o qual as iniciantes são tratadas.

Cumplicidade e amizade dão a tônica do grupo. Foto: Divulgação

Mais do que apenas pedalar

Para Teresa, a bicicleta vai muito além do transporte, esporte e lazer. “A bicicleta é uma poderosa ferramenta para troca de experiências entre quem a utiliza. Estamos convencidas que uma mulher a mais pedalando significa uma transformação positiva em si mesma e para com aqueles com os quais ela se relaciona. Pedalando nós temos outra disposição, outro brilho no olhar”, afirma.

“Às vezes me perguntam por que só mulheres. Ai está à explicação: com 25 anos de grupo, muitas meninas já passaram por aqui e ainda estão passando, e nossa ideia é que elas migrem para outros cantos, conheçam pessoas e tenham uma vida alegre junto à magrela. Só eu sei como foi difícil chegar até aqui, principalmente pelo preconceito da idade, mas hoje já está mudando. Além de pedalar somos terapeutas e sempre prontas para ouvir. Somos livres e com certeza temos muitas aventuras para contar, somos um grupo feliz! Eu amo o que faço e enquanto as pernas aguentarem vamos continuar e ajudar mais e mais mulheres a pedalar. Quando um grupo é criado, surge uma família onde todos têm suas características, mas juntos fazem a diferença.”

E os encontros não são só para montar na bike e girar os pedais. “Ter uma noite só para nós é muito bom para conversar, trocar receitas, falar dos filhos, maridos, namorados e trabalho. Temos até algumas que vem com as filhas ou filhos para incentivar.”

Foto: Divulgação

Roteiros variados

Uma vez ao mês, numa quinta feira, o grupo faz algo diferente, como pedais gastronômicos ou temáticos, como Saia de Pijama, Saia no Halloween e Saia na Sopa. Normalmente esses roteiros especiais têm em torno de 15 km sem subidas, para que todas possam participar. “Inclusive os meninos”, destaca D’Aprile, com a ressalva de que “ficam até tontos com tanto falatório.” Há também aqueles que não sobem na bicicleta, mas ainda assim apoiam as mulheres que querem pedalar: “tem namorados, maridos ou amigos que não pedalam mas fazem questão de incentivar as companheiras e esperam na pizzaria por duas horas até voltarmos da pedalada”, relata.

E mesmo o passeio principal nem sempre segue à risca a regra dos 25 km. “Se de repente passamos em frente a uma sorveteria, ou vemos que está tendo algo diferente, damos uma paradinha, em vez de pedalar os 25 km paramos para nos divertir.”

Foto: Divulgação

Os finais de semana também têm pedaladas eventuais, com roteiros diferenciados. “Um domingo por mês fazemos o Saia Pró, um pedal com cerca de 50 km sem hora para voltar. A maioria das vezes cultural, ou rodamos a cidade e imediações, mas nesse caso só quem pedala forte. E outro domingo por mês um Saia Light com no máximo 15 km e sem subidas, para quem está começando.”

E homem não entra? Ela diz que sim. “Sempre nos acompanham alguns maridos, namorados ou solteiros, também meninos que estão começando a pedalar e precisam aprender a mudar as marchas, por exemplo. Mas eles não têm muita paciência porque o ritmo é lento e as meninas falam muito”, resume Teresa, com sua sinceridade de sempre.

As mulheres e a bike

Foto: Ivson Miranda

Desafio aventura, liberdade e prazer vêm impulsionando cada vez mais mulheres a descobrirem seus espaços pedalando. No passado a maioria das meninas tinha namorado ou marido ciclista, mas hoje a coisa mudou. Pode-se até dizer ‘caso ou compro uma bicicleta’? Não importa ser mãe, médica advogada, dona de casa, ter 18 ou 60 anos, a paixão é a mesma: vamos todas pedalar e pedalar.

Quem entra nesse mundo não consegue mais sair, mesmo que pelas circunstancias às vezes precise se afastar da magrela por um tempo. Os principais objetivos são descobrir o novo, fazer novas amizades e conseguir chegar lá, ter um dia só para elas, fofocar com as amigas e se divertir.

A sociedade achava estranho quando você começava a pedalar ou tomava iniciativa de fazer algo, mas nos dias de hoje as coisas mudaram. A bicicleta é uma realidade e o numero de mulheres pedalando cada dia aumenta mais. Cada uma com seu objetivo, lazer, esporte, competição ou como modo de transporte. Antes de tudo, essas mulheres parecem ter descoberto que é preciso se desfrutar da vida ao máximo, pois ela é muito preciosa!

– Teresa D’Aprile, fundadora do Saia na Noite

Imagem: Divulgação

Quando e onde

Todas as terças, em São Paulo
Saídas regulares na Pizzaria Primo Basílio
Al. Gabriel Monteiro da Silva, 1864
Veja mapa

Mais informações no site e na página do Facebook

Vídeo

Veja essa matéria sobre o grupo no Jornal da Cultura:

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