Ciclovias não são a solução milagrosa

Cansados de ouvir na mídia que as bicicletas só serão viáveis quando houver ciclovias o suficiente (quanto é o suficiente?), muitos ciclistas se uniram para redigir, colaborativamente, um documento que expressasse essa indignação. Reproduzo o documento mais abaixo, neste mesmo artigo.

As ciclovias são úteis, sim. São importantes, claro! Mas estão longe de serem a solução definitiva para podermos circular com nossas bicicletas. Um dos motivos é que segregam o ciclista e criam um reduto para sua circulação, que acaba sendo considerado pelos motoristas como o único espaço de direito dos ciclistas. Isso fica mais claro no manifesto do final deste artigo. Abaixo, um bom e um mau exemplo de ciclovia em São Paulo.

Um bom exemplo: ciclovia da Radial Leste

Ciclovia Radial Leste
Ciclovia da Radial Leste em 22/07/2008 (ainda sem sinalização)
Foto: CicloBR

Ciclovias que sirvam para proteger o ciclista do fluxo de carros são realmente úteis, como é o caso da ciclovia que está sendo construída na Radial Leste. Lá, o tráfego de carros não oferece opção para o ciclista. Quando está fluindo, é muito rápido. Quando está parado, não há espaço para passar com a bicicleta, a não ser que o ciclista o dispute com as motos, se arriscando a uma situação perigosa caso os carros comecem a andar de repente a uma velocidade razoável.

As alternativas viárias são poucas, muito quebradas e complicadas. Fica difícil descobrir e aprender um caminho alternativo, o trajeto passa a ser muito mais longo e com bem mais desnível (subidas e descidas). Não há uma avenida paralela com menor fluxo de carros que possa ser utilizada, como acontece na maior parte da Marginal Pinheiros, por exemplo, ou da Av. Brasil. Também não havia calçada que o ciclista pudesse utilizar (mesmo que isso não fosse o correto segundo o código de trânsito, seria pelo menos uma alternativa). Era uma avenida, feita apenas para os carros, pessoas não eram bem vindas. Poucos ciclistas se arriscavam ali. Outros tantos tentavam encontrar caminhos “pelas quebradas” e muitos outros simplesmente desistiam.

Para construir essa ciclovia, que teve um trecho inaugurado mas ainda está em construção, a calçada foi alargada, tendo até intervenções na via em alguns trechos. Há pouquíssimas interrupções. A ciclovia passa por trás dos pontos de ônibus. E foi feita como via compartilhada, pois não havia espaço para os pedestres circularem, muitas vezes nem para chegar ao ponto de ônibus. Uma mudança paisagística acompanha a implementação da ciclovia com verde onde havia cinza e algumas árvores onde havia entulho. A avenida se tornou mais humana e agora há opção para quem quiser exercer seu direito de usar a bicicleta para chegar onde deseja (nem que para isso a deixe em um bicicletário e siga o resto do caminho de metrô – antes, nem isso).

Um mau exemplo: ciclovia da Avenida Sumaré

Ciclovias não devem ser utilizadas apenas para que as bicicletas não atrapalhem os carros, como foi feito na Av. Sumaré, muitos anos atrás. Aliás, nesse caso específico, a ciclovia é cortada a cada esquina para dar prioridade aos automóveis, quando em qualquer outro país com cultura ciclística mais madura a prioridade é inversa. Nos cruzamentos, o ciclista é obrigado a parar e praticamente pedir licença aos automóveis que aguardam a abertura do semáforo, se arriscando no meio deles sem saber se o sinal está para abrir. É preciso muita atenção para não se ver em meio a um estouro de boiada metálica.

O trajeto tem vocação para pista de cooper e não para ciclovia. Afinal, é um roteiro “a passeio”, não sendo rota de ciclistas que utilizam a bicicleta como meio de locomoção. Tampouco serve para levar o ciclista a algum lugar útil, apenas para deixá-lo ao Deus-dará no topo da movimentada Henrique Schaumann, onde na primeira esquina metade das pistas vira para descer a Cardeal Arcoverde, para desespero do ciclista que queira chegar na Avenida Brasil.

Ciclovia da Av. Sumaré
“Sonorizadores” na ciclovia da Avenida Sumaré
Foto: CicloBR

Junte a isso o piso irregular e esburacado, alguns galhos grossos de árvores em uma altura perigosamente baixa para quem está em cima de uma bicicleta e os “sonorizadores”, colocados próximos às esquinas para forçar o ciclista a dar prioridade ao automóvel, e voliá : temos uma ciclovia que caiu em rápido esquecimento pelos ciclistas.

Li recentemente que há um plano para essa ciclovia ser reformada (procurei a fonte, mas infelizmente não encontrei) para se transformar oficialmente em pista para corrida e caminhada. Se isso realmente ocorrer, os ciclistas continuarão fazendo o que já fazem atualmente: utilizar a via, que tem muito menos interrupções e, quando tem, são semaforizadas, permitindo a passagem do ciclista sem interrupção pelo menos quando o sinal está verde – na tal da ciclovia, nem isso: se não parar, mesmo no verde, periga ser atropelado.

Ciclovias são o ideal em avenidas de grande circulação, como a Radial Leste, a 23 de Maio e a Marginal Tietê, mas para avenidas com um fluxo não tão rápido de veículos motorizados, o melhor é a integração da bicicleta ao fluxo viário, com sinalização adequada e, no máximo, uma ciclofaixa (semelhante à motofaixa que foi criada lá). Mas o principal é o respeito dos motorizados e o entendimento de que a bicicleta é um veículo como qualquer outro, só não tem motor. Isso só conseguiremos com campanhas de conscientização e com nossa presença cada vez maior nas ruas, conquistando nosso espaço. Enquanto as campanhas de conscientização não vêm, ocupemos as ruas, que também são de nosso direito. A rua é de todos.

Manifesto dos Invisíveis

Motorista, o que você faria se dissessem que você só pode dirigir em algumas vias especiais, porque seu carro não possui airbags? E que, onde elas não existissem, você não poderia transitar?

Para nós, cidadãos que utilizamos a bicicleta como meio de transporte, é esse o sentimento ao ouvir que “só será seguro pedalar em São Paulo quando houver ciclovias”, ou que “a bicicleta atrapalha o trânsito”. Precisamos pedalar agora. E já pedalamos! Nós e mais 300 mil pessoas, diariamente. Será que deveríamos esperar até 2020, ano em que Eduardo Jorge (secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo) estima que teremos 1.000 quilômetros de ciclovias? Se a cidade tem mais de 17 mil quilômetros de vias, pelo menos 94% delas continuarão sem ciclovia. Como fazer quando precisarmos passar por alguma dessas vias? Carregar a bicicleta nas costas até a próxima ciclovia? Empurrá-la pela calçada?

Ciclovia é só uma das possibilidades de infra-estrutura existentes para o uso da bicicleta. Nosso sistema viário, assim como a cidade, foi pensado para os carros particulares e, quando não ignora, coloca em segundo plano os ônibus, pedestres e ciclistas. Não precisamos de ciclovias para pedalar, assim como os carros e os caminhões não precisam ser separados. O ciclista tem o direito legal de pedalar por praticamente todas as vias e tem preferência, garantida pelo Código de Trânsito Brasileiro, sobre todos os veículos motorizados. A evolução do ciclismo como transporte é marca de cidadania na Europa e de funcionalidade na China. Já temos, mesmo na América do Sul, um grande exemplo de soluções criativas: Bogotá.

Não clamamos por ciclovias, clamamos por respeito. As leis de trânsito colocam em primeiro plano o respeito à vida. As ruas são públicas e devem ser compartilhadas entre todos os veículos, como manda a lei e reza o bom senso. Porém, muitas pessoas não se arriscam a pedalar por medo da atitude violenta de alguns motoristas. Estes motoristas felizmente são minoria, mas uma minoria que assusta e agride.

A recente iniciativa do Metrô de São Paulo de emprestar bicicletas e oferecer bicicletários é importante. Atende a uma carência que é relegada pelo poder público: a necessidade de espaço seguro para estacionar as bikes. Em vez de ciclovias, a instalação de bicicletários deveria vir acompanhada de uma campanha de educação no trânsito e um trabalho de sinalização de vias, para informar aos motoristas que ciclistas podem e devem circular nas ruas da nossa cidade. Nos cursos de habilitação não há sequer um parágrafo sobre proteger o ciclista, sobre o veículo maior sempre zelar pelo menor. Eventualmente, cita-se a legislação a ser decorada, sem explicá-la adequadamente. E a sinalização, quando existe, apenas proíbe a bicicleta, nunca comunica os motoristas sobre o compartilhamento da via, regulamenta seu uso ou indica caminhos alternativos para o ciclista. A ausência de sinalização deseduca os motoristas, porque não legitima a presença da bicicleta nas vias públicas.

A insistência em afirmar que as ruas serão seguras para as bicicletas somente quando houver milhares de quilômetros de ciclovias parece a desculpa usada por muitos motoristas para não deixar o carro em casa, ao dizerem “só mudarei meus hábitos quando tiver metrô na porta de casa”, enquanto continuam a congestionar e poluir o espaço público, esperando que outros resolvam seus problemas em vez de tomar a iniciativa para construir uma solução.

Não podemos e não vamos esperar. Precisamos usar nossas bicicletas já, dentro da lei e com segurança. Vamos desde já contribuir para melhorar a qualidade de vida da nossa cidade. Vamos liberar espaço no trânsito e não poluir o ar. Vamos fazer bem para a saúde (de todos) e compartilhar, com os que ainda não experimentaram, o prazer de pedalar. Com força e determinação, iremos construir nossos espaços nas cidades e ser a vanguarda de um futuro sustentável para as próximas gerações.

Preferimos crer que podemos fazer nossa cidade mais humana do que acreditar que a solução para os nossos problemas é alimentar a segregação com ciclovias. Existem alternativas mais rápidas e soluções que serão benéficas a todos, se pudermos nos unir para construirmos juntos uma cidade mais humana.

A rua é de todos. A cidade também.

Nós, que também somos o trânsito:

Adriana de Oliveira Branco
Afonso Savaglia (http://www.savaglia.com.br)
Alberto Pellegrini
Alex Gomes ( U-Biker )
Alexandre Afonso
Alexandre Catão
Alexandre Loschiavo (Sampabiketour)
Alexandre Palmieri (Kampa.com.br)
Alonzo “Chascon” Zarzosa (Terrorista Latino)
Álvaro Diogo
Ana Paula Cross Neumann (Aninha)
Andre Galhardo
André Mezabarba (Belo Horizonte, MG)
André Pasqualini (CicloBR)
André Vinicius Mulho da Costa (Florianópolis, SC)
Angelo Augusto Vivian (O Barco Bêbado)
Antonio Lacerda Miotto (Pedalante)
Arlindo Saraiva Pereira Junior (Nighto)
Aylons Hazzud
Ayrton Sena Santos do Nascimento
Beto Marcicano (Super Ação!)
Bruno Canesi Morino
Bruno Cézar Grego (No Nose)
Bruno de Crudis Rodrigues
Bruno Giorgi Crisóstomo Ianoni
Bruno Gola
Bruno Rodrigues
Caio Yamazaki Saravalle
Carlos Cabral
Cármen Sampaio Amendola
Carolina Spillari
Célia Choairy de Moraes
Chantal Bispo (Eu vou voando)
Chico Macena (www.chicomacena.com.br)
Daniel Albuquerque
Daniel das Neves Magalhães
Daniel de Araújo Costa (Florianópoli, SC)
Daniel Ingo Haase (FAHRRAD)
Daniel Moura (Maceió, AL)
Daniel Ranieri Costa (São Paulo, SP)
Daniela Pastana Cuevas
Danilo Martinho May
Drielle Caroline Alarcon
Eduardo Cooper
Eduardo Girão (www.estudiogirao.com.br)
Eduardo Lopes Merege
Eduardo Marques Grigoletto (CicloAtivando)
Evandro L. Nappi
Evelyn Araripe
Fabiano Faga Pacheco
Fabricio Mouret
Fabrício Zuccherato (pedal-driven)
Flávio “Xavero” Coelho
Felipe Aragonez (Falanstérios)
Felipe Antônio Paulon Fontes (Pensando Torto)
Felipe Martins Pereira Ribeiro
Felippe (Ciclo Urbano)
Fernando Guimarães Norte
Filipe Franco de Souza
Francisco Pellegrini
Frank Barroso (Movimento Cidade FuturaNa cidade sem meu carro )
Gabriel ‘Dread’ Siqueira (Irradiando Luz)
Gabriel Silveira de Andrade Antunes (Brasília, DF)
Gerhard Grube
Guilherme Henrique Maruyama da Costa
Gustavo Bianchini (Total Bike)
Gustavo Fonseca Meyer
Hélio Wicher Neto
Henrique Mogadouro da Cunha
Henrique Boney (www.boney.com.br)
Hilton Luis Moreira Bulhões
Ian Thomaz (Enquanto não Há Fogo)
Inês Castilho
Isaac Akira Kojima (Total Urbs)
Jeanne Freitas Gibson
Jeison Jaques Dück
Jessé Teixeira Félix
João Guilherme Lacerda
Joao Paulo Pedrosa (Malfadado, o contestatário) (Portugal)
Joel Pinheiro
José Alberto F. Monteiro
José Paulo Guedes Pinto (Ecologia Urbana)
Juliana da Silva Diehl
Juliana Mateus
Juliana Medeiros de Souza (Brasília, DF) (Substantivo Comum)
Jupercio Juliano de Almeida Garcia
Kelaine Azevedo
Keline Cajueiro Campos Barreto
Laércio Luiz Muniz (Onipresente Ausente)
Larissa Xavier Neves da Silva (Porto Alegre, RS)
Lauro Martins de Oliveira
Leandro Cascino Repolho
Leandro Coletto Biazon
Leandro Kruszielski (meandros)
Leandro Valverdes
Leonardo Américo Cuevas Neira
Lewis Clementino da Silva
Lincoln Eduardo Paiva
Luciano César Marinho
Luciano Galicki
Luciano Muniz Pacheco – lucmult
Luciano Ogura Buralli
Lucien Constantino (Lilx)
Lucio Flausino Dias Junior
Luis Sorrilha (BIGSP)
Luis Gustavo Lino (Goiânia, GO)
Luis Patricio
Luiz Humberto Sanches Farias
Maíra Rosauro Zasso (Desembuchando)
Manuela Ortiz
Marcel Manzano Lima
Marcelo Bunscheit (Roda28)
Marcelo de Almeida Siqueira (Bicicuba) e (Galeria do Artista)
Marcelo Império Grillo (MIG)
Márcia Regina de Andrade Prado (†† 14.1.2009)
Márcio Campos
Marcos Miranda Toledo (Belo Horizonte, MG)
Mariana Cavalcante (Gira-me)
Mariana Zdravca
Mariane Palhares
Mário Canna Pires
Marla Estima Vargas Ranieri Costa
Matias Mignon Mickenhagen
Mathias Fingermann
Mauricio Canavate
Maurício Rodrigues de Souza
Mauro Baraldi
Michelle Bertolazi Gimenes
Mila Molina
Neide Gaspar
Otávio Remedio
Paula Cinquetti
Paulo V. Delgado
Pedro Lasmar Marins (Pedro Marins)
Polly Rosa
Poti Campos (Pedivela)
Rafael Dias Menezes
Rafael Ehlert (Porto Alegre, RS)
Rafael Rodolfo Chacon
Renan Peneluppi
Renata Falzoni (falzoni.comnightbikersespn/renatafalzoni)
Renato Kairalla Costa (Tinho) (Se Locomovendo na Selva de Pedra)
Renato Panzoldo
Rex (Caminhos do Rex)
Ricardo Lacerda Bruns
Ricardo Nunes (ExtremeFunBikes)
Ricardo Shiota Yasuda
Ricardo Sobral (Bicicleta na Cidade)
Roberto Piani
Rodrigo Arnoud
Rodrigo Mendonça (www.blog.caminhosturismo.com)
Rodrigo Navarro
Rodrigo Sampaio Primo
Rodrigo Squizato (Blog da Terra)
Ronaldo Toshio Ciclista Toshio
Silvia Düssel Schiros (Faça a sua parte)
Silvio Duarte Moris (silviobikersp.multiply.com)
Silvio Tambara (Na medida do humano)
Soraia Lopes de Miranda Silva (Brasília, DF)
Talita Oliveira Noguchi
Thatiane Hijano Costa
Thiago Benicchio (Apocalipse Motorizado)
Vado Gonçalves (Moonlight Bikers)
Verônica Mambrini (Gata de Rodas – São Paulo Cycle Chic)
Victor Kazuo Teramoto (TASCidade – Transforme Agora Sua Cidade)
Victor Y. G. Takayama
Vinicius de Araujo Sant’Ana
Vinicius Zanona (Guarapuava, PR)
Vitor Chiarini Zanetta
Vitor Cunha Criscuolo
Vitor Leal Pinheiro (Quintal)
Wadilson (Passeios de bike em São Paulo)
Willian Cruz (+ Vá de Bike! +)
Yorik von Havre
Yuri Schultz

Texto do Manifesto atualizado em 24/07/2009. Para a versão mais atual, clique aqui.

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39 comentários em “Ciclovias não são a solução milagrosa

    1. Esse é o texto mais ridículo que já li.. É a prova concretas que aqui as pessoas simplesmente não respeitam as regras
      Se existem vias EXCLUSIVAS para bicicletas, ele DEVEM ser usadas, e é o que dizem as leis do trânsito!É assim que funciona a sociedade organizada. Todos andam nos devidos lugares: ônibus nas faixas para ônibus quando existem, carros nas faixas para carros, e motos em qualquer lugar porque simplesmente não existem vias exclusivas para bicicletas. Se foram construídos quilômetros e quilômetros de ciclovias deve haver algum motivo, que é oseguinte: organizar o trânsito! Já é uma bagunça,difícil de circular nessa cidade e ainda por cima aparecem esses ciclistas que não querem respeitar as regras! De acordo com esse texto então, as ciclovias NEM SEQUER deveriam existir. Tem ciclistas que andam na contramão e literalmente se jogam na frente do carro e nem dá tempo de prever isso!

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      1. Correção: não existem vias para motos.
        Tem gente que pede por favor pra sofrer um acidente, e eu não quero estar perto quando isso acontecer

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      2. Monica, ridículo não é o texto, mas um comentário agressivo desses, que demonstra claramente não ter compreendido o que leu.

        Comece pela data: esse texto é de 2008, 14 anos atrás. Quase não havia ciclovias em São Paulo naquela época, as poucas haviam sido feitas para retirar os ciclistas das ruas para que não atrapalhassem os carros, sem preocupação alguma com a segurança do ciclista.

        Provavelmente você não se lembra (ou não se importa), mas a ciclovia da Sumaré tinha SONORIZADORES nos cruzamentos, para obrigar o ciclista a parar para os carros (veja aqui). As conversões eram permitidas e sempre havia carros e caminhões bloqueando a travessia. A ciclovia da Faria Lima terminava num balão para o ciclista voltar pra casa e tinha até um ponto de ônibus bem no meio dela. A ciclovia da Marginal Pinheiros, recém-inaugurada, tinha apenas dois acessos, um em cada ponta do trajeto de 14 km. Esse é um dos pontos sobre o qual o texto fala.

        O outro ponto é que naquela época ouvíamos muito que São Paulo só seria viável para bicicletas quando houvesse ciclovias. E que bicicletas não deveriam trafegar nas ruas, junto aos demais veículos, apenas nas ciclovias. O que é um completo absurdo, nem mesmo o Código de Trânsito concorda com isso. Espero que não seja essa sua opinião, seria muita falta de informação e de consideração pela vida e pelo direito que os outros têm de usar a via, que é exatamente o mesmo que o seu.

        Em nenhum lugar o texto diz que “as ciclovias nem sequer deveriam existir”. Realmente não sei de onde você tirou isso. Pelo jeito você leu o texto tentando encaixá-lo em sua visão particular de mundo, dentro das suas certezas sobre todos os ciclistas serem pessoas horríveis, de má índole, que merecem ser expulsos das ruas, talvez presos, ou até mesmo atropelados de propósito “para aprenderem a não incomodar os outros”.

        Se acalme. Respire. Tire do coração todo esse seu ódio a ciclistas. Imagine que quem escreveu não é alguém que se joga na frente do seu carro de forma suicida, só pra atrapalhar sua vida tranquila e maravilhosa. Imagine por exemplo uma mulher como você, que decidiu usar a bicicleta em vez do carro porque se sentia muito pressionada, tinha uma rotina muito corrida, estressante, e precisava muito de umas gotas de felicidade todos os dias. Alguém que trabalha diariamente, inteligente e esforçada, bem sucedida, respeitada na empresa por levar seu trabalho muito a sério. Uma pessoa gentil com os vizinhos, amorosa com o marido, que busca o filho na escola no final do expediente, para levá-lo por três quadras até em casa na cadeirinha da bicicleta. Sem nenhuma ciclovia nesse trajeto. Mesmo porque naquela época não tinha nenhuma, só lá na avenida tal, em um lugar totalmente fora da rota que ela precisava fazer todos os dias. Ela leva seu filho para casa trafegando na mão correta, com iluminação piscante e tudo mais que você considere correto na conduta de um ciclista.

        Agora imagine que, numa noite dessas, na rua tranquila em que mora, um motorista jogou o carro lateralmente contra essa mulher, a espremendo contra a calçada enquanto gritava “sai da rua, aqui não tem ciclovia!”. Exagero? Não. Infelizmente, quase todo ciclista tem alguma história como essa para contar.

        Para fugir do carro, que emparelhou e está se aproximando de lado, ela chega muito perto da calçada. O pedal bate na guia e ela cai de lado, com a bicicleta que leva seu filho. Se esfola inteira para segurar a bicicleta com a mão em vez de parar sua queda. A criança chora, mas não se machucou porque a cadeirinha a impediu de cair. A mãe a pega no colo e senta na calçada, do lado de um saco de lixo, porque as pernas tremem. E chora junto com a criança. O motorista? Virou a esquina faz tempo, talvez nem tenha percebido que ela caiu. E não se importaria mesmo. Afinal, para ele, ela não deveria estar ali e merecia uma lição.

        Ela agora carrega o filho chorando em um braço, enquanto com o outro empurra a bicicleta até em casa, porque não conseguiria mais pedalar. Entra em casa com lágrimas nos olhos, cotovelo com sangue escorrendo, as costas doendo com a pancada. Dói para respirar, mas a dor maior é por dentro. Ela se senta no sofá com a roupa suja da queda, abraça a criança e canta baixinho até que ela pegue no sono. Toma um banho para se acalmar. E então vai até o computador e escreve um “manifesto”, uma carta que ela gostaria que todos os motoristas lessem. Que o prefeito e os vereadores lessem. Que o presidente lesse.

        Dentro desse contexto, talvez agora você perceba que o objetivo não era promover a baderna, dizer que ciclovias não servem para nada, ou que “vamos andar onde a gente quiser e pronto”. Era explicar que os ciclistas têm, sim, direito de usar a via onde não houver ciclovias, sem que alguém ameace sua vida por causa disso. Direito esse que, por sinal, está previsto em lei, até com prioridade sobre os demais veículos (art. 58 do Código de Trânsito). E ela achava um absurdo ouvir de um monte de gente, todos os dias, que as bicicletas só deveriam ser usadas como meio de transporte “no dia em que tivermos ciclovias na cidade toda”.

        “As ciclovias são úteis, sim. São importantes, claro!” – reconhece o texto. Adiante, fala-se sobre “ouvir que ‘só será seguro pedalar em São Paulo quando houver ciclovias’, ou que ‘a bicicleta atrapalha o trânsito'”. Percebe? Isso é reforçado mais abaixo. Perto do final: “Não podemos e não vamos esperar. Precisamos usar nossas bicicletas já, dentro da lei e com segurança.” Captou? Espero que sim. Ufa.

        E, novamente, é necessário contextualizar no momento histórico da mobilidade ativa em São Paulo: não havia perspectiva nenhuma de que “quilômetros e quilômetros de ciclovias” seriam construídos e precisávamos ter nossas vidas respeitadas mesmo sem elas. Em 2012, publicamos esse outro texto, que esclarece vários pontos que você não foi capaz de entender neste aqui. Recomendo ler.

        Tenho, hoje, minhas próprias ressalvas sobre alguns detalhes do texto aqui desta página, que acabam mesmo passando a impressão de que ciclovias não seriam uma solução interessante. Mas a essência dele continua válida. Nosso entendimento sobre a importância de infraestrutura cicloviária evoluiu ao longo do tempo, mas faço questão de não alterar esta página para manter o registro sobre como eram nossos apelos ao poder público naquela época. Para compreender melhor nossa visão sobre as ciclovias atualmente, recomendo este outro texto aqui.

        Por fim, preciso dizer que uma reação dessa proporção a um texto que, essencialmente, pede o respeito à vida, nos causa preocupação. Ele não deveria te ofender dessa forma. A não ser que você se enquadre na parcela minoritária de motoristas criticada num curto trecho do texto. Se for esse o caso, melhore, antes que tire a vida de alguém enquanto dirige.

        Grande abraço, de alguém que é filho, pai, marido e que usa a bicicleta em vez do carro. Inclusive compartilhando a via com você se não houver ciclovia no trajeto até meu trabalho ou até a escola da minha filha.

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  1. Caro W.Cruz, sou de Brasília, moro aqui, cresci nesta cidade e nela aprendi a pedalar e me apaixonei pelo ato. Sempre pedalei pelas ruas evitando vias de alta velocidade (aqui são muitas). Não sou contra ciclovias e afins em alguns casos. Entretanto, na minha opinião, a única coisa capaz de mudar o panorama vivido hoje é a educação. Falamos muito da educação do motorista, mas acredito que a educação deve ser investimento básico a TODOS desde os primeiros anos de vida. Pra mim, na grande maioria dos casos é desnecessária a instalação de estrutura cicloviária. O simples cumprimento do Código Brasileiro de Trânsito (CBT) seria suficiente para tornar melhor e mais seguro o uso de veículos não motorizados. Por aqui a grande maioria respeita o ciclista. Porém, muitos ainda desrespeitam a lei e outros tantos são agressivos com ciclistas, pedestres e até com outros motoristas. Sem me alongar mais, parabéns pela insistente luta. Estamos juntos nela! Há tempos queria assinar o Manifesto do Invisíveis. Obrigado pela oportunidade. Abraço!!!

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  2. Concordo com o teor da matéria, acho que o foco e sem duvida a educação do motorista sobre os direitos do ciclista e vice-versa.

    Quanto aos praticantes de corrida ou jogging ou caminhada, também penso ser necessária esta conscientização. No parque Villa Lobos a invasão de corredores na ciclovia eh constante, mesmo havendo espaço para ambos.

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  3. Assino embaixo e parabenizo pelo excelente texto. Idéias fáceis de serem disseminadas embora difíceis de serem absorvidas. Kee it up guys!

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  4. O ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, disse numa entrevista para Renata Falzoni e Felipe Aragonez, que estacionar os carros nas ruas não é direito constitucional em nenhum país do mundo. Portanto, bastaria proibir o estacionamento de veículos e, no lugar, instalar uma ciclofaixa. Isso foi feito em Bogotá. E se houver reclamações por parte dos motoristas — “onde vou estacionar meu carro?” — ele avisa: “isso não é um problema público”. Achei muito interessante e muito simples.

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  5. Caros amigos espero que apartir deste lamentavel acontecimento com a nossa companheira possamos nos unir em torno de coisas importantes, em plena aveinida paulista. um estendido quase 4 horas.
    motorista de onibus não gosta de ciclista, e hora de começarmos arepensar se as metas e focos estao alinhados, estaremos fazendo uma pedalada em prol da nossa amiga que perdeu a sua vida mas continua na memoria daqueles que compartilharam com elas boas pedaladas, que deus abencoe toda a sua familia, um abraço;

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  6. Meu Caro Willian Cruz e demais assinantes do Manifesto dos Invisíveis. Como a maioria de vocês também pedalo no dia-a-dia em viagens para o trabalho, seja em Blumenau, seja em Curitiba. Não posso concordar que Curitiba seja exemplo de infra-estrutura de transporte. Foi. Não é mais.

    O sistema de transporte está involuindo, com grandes congestionamentos de automóveis nos horários de pico, lotações absurdas no interior das estações-tubo do sistema “expresso” e ausência de infra-estruturas para a bicicleta. Fiz junto com outros companheiros da Bicicletada um mapeamento da infra-estrutura cicloviária implantada. Problemas, problemas, problemas.
    Como você sabe, William, sou consultor e vivo exclusivamente de projetos cicloviários.

    Tenho projetado ciclovias em todo o País. As soluções são, em geral, boas. No entanto, depende da execução, depende da não alteração do que foi projetado.

    Seguimos sempre em nossos projetos as 5 regras dos holandeses e outras mais:
    1)máximo de segurança viária (com planejamento e desenho da infra-estrutura realizado em quatro níveis – a)montando redes cicloviárias, b)com tratamento das seções dos diferentes espaços,
    c) tratamento dos diversos cruzamentos e interseções;
    d) tratamento dos pisos das vias cicláveis;
    2) buscamos traçar rotas mais diretas possíveis, fazendo para tal uso de espaços disponíveis (ciclorotas), atalhos, ciclovias, ciclofaixas, semáforos especiais para ciclistas etc;
    3) Buscamos sempre que possível garantir a CONTINUIDADE dos trajetos, poucas mudanças nos desenhos e na largura das vias cicláveis, com sinalização adequada;
    4) Buscamos conceder conforto aos ciclistas, através de pisos agradáveis (mais lisos possíveis, sem criar superfícies derrapantes), buscamos através do paisagismo oferecer zonas de sombra e espaços de abrigos para intempéries repentinas etc. etc.;
    5) Buscamos gerar atratividade aos ciclistas e aos ainda não ciclistas. Ciclorotas, ciclovias, ciclofaixas, espaços compartilhados na via ou fora dela têm de ser atraentes. Por isto uma cor, um guarda-corpo, cercas laterais não contínuas, abrigos ou coberturas temporárias, assim como mobiliários urbanos e equipamentos de apoio são desejáveis sempre.

    É isto, meu Caro Willian e turma.
    Não posso ser contra ciclovias.
    Entendo a posição dos ciclistas de São Paulo que se colocam contra ciclovias e a panacéa que ela pode representar. Pelo menos na visão dos obtusos automobilistas. Mas acho que a ciclovia ainda é uma infra-estrutura importante em muitas ocasiões.

    No entanto, tenho pregado a idéia das Rotas Cicláveis. Nos espaços centrais das grandes cidades ou das megalópolis acho que a ciclofaixa é imbatível. Mas tem de ser muito bem sinalizada. Uma cidade como São Paulo, já disse em entrevista, mas não publicaram. teria de ter uma rede de vias cicláveis com 2500 a 3000 km. Isto faria com que cada morador tivesse ao menos
    de 20 cm a 25 cm de infra-estrutura. Hoje, no Brasil, Praia Grande é a cidade com o melhor índice de centímetros/ha. Na Holanda como um todo este índice atinge mais de 1 metro e em algumas cidades ele ultrapassa 2 metros.

    A melhor solução para nós ainda é buscarmos a apropriação dos espaços já construídos, na via pública mesmo, nas ciclofaixas.

    Tenho pedalado diariamente em Curitiba e Blumenau e brevemente em Florianópolis também. Sei dos riscos que corro ao me misturar entre automóveis, ônibus e caminhões. Tenho passado por situações de aperto incríveis, em locais que adoraria tivesse uma ciclovia latera. Por isto mesmo, não posso me colocar contrário a este tipo de infra-estrutura, mas entendo perfeitamente a indignação de vocês.
    Folgo em saber, por fim, que você, Willian, achou legal a ciclovia vizinha a Radial Leste. Para o trecho seguinte da Radial, eu dei alguma consultoria, mas não sei se irão aproveitar minhas idéias.

    Chega, já falei muito.
    Saiba apenas que apoiarei sempre a luta de vocês.
    Grande Abraço.
    Miranda
    diretrizes mais diretas e retas possíveis (máximo de tangentes);
    2) com menor número de interrupções;
    3) com máximo de segurança (tratamento das interseções);
    4) máxima conexão (ou seja, formação de rede cicloviária);
    5)

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  7. Concordo integralmente com o exposto. Moro em Brasília e a cidade foi planejada exclusivamente para carros particulares. TODOS os demais veículos e também os pedestres são impedidos de exercitar seu direito de ir e vir. É necessário que a população seja educada, nas escolas, nos cursos de formação de trânsito, na TV, no Rádio, em casa, nos jornais, revistas, blogs e em todos os meios possíveis para respeitar a VIDA.
    Parabéns pelo trabalho.

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  8. Acrescentei o nome dos dois no “documento-fonte”. Assim, quando ele for usado para divulgação novamente, os nomes de vocês estarão lá.

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