Por que o Dia Nacional do Ciclista é em 19 de Agosto?

Todo mundo dá os parabéns, mas poucos sabem que a data tem um objetivo bem maior.

Foto: Willian Cruz/VdB

Assim como no Dia da Bicicleta, há vários “dias do ciclista”. Volta e meia a gente vê alguma postagem dando os parabéns por aí. Mas algum deles é o “certo”?

Geralmente essas datas são divulgadas sem nenhuma explicação ou reflexão sobre sua importância. Costumam ser lembradas só para vender algum produto mesmo, ou melhorar a imagem de alguma marca e tentar uma proximidade forçada com os ciclistas. Por isso, criamos esse texto para esclarecer o motivo da data – e porque ela é importante.

Dia trágico

Pedro Davison, ciclista brasiliense morto em 19 de agosto de 2006. Foto: Sérgio Barata / Divulgação

Em 19 de agosto de 2006, o biólogo Pedro Davison, então com 25 anos, foi atropelado enquanto pedalava no Eixo Sul, em Brasília. Pedro não resistiu e faleceu.

Quem conduzia o automóvel era Leonardo Luiz da Costa. Ele dirigia embriagado, excedia a velocidade permitida para a via e estava com a CNH vencida. Para piorar, fugiu sem prestar socorro.

Pérsio Davison, pai de Pedro, contou ao jornal Correio Braziliense que, no início, a situação era tratada como “acidente”. Apenas durante a investigação é que passou a ser considerada como crime.

“Foi o primeiro julgamento em Brasília como crime doloso de trânsito”, afirmou ao jornal. “O caso criou impacto forte na cidade, como a revelação de uma violência que não podia mais acontecer. Aquilo foi consequência do comportamento de uma pessoa.”

Condenação do criminoso

Levou quatro anos para que o autor do crime fosse condenado, por homicídio doloso. Em fevereiro de 2010, Leonardo Luiz da Costa foi sentenciado a 6 anos de prisão em regime semiaberto, após um julgamento de quase 10 horas. Por ser réu primário, o acusado pôde recorrer da sentença em liberdade. E cumprido um sexto da pena, o regime passaria a ser aberto.

Nesse período, é quase certo que tenha continuado dirigindo. A condenação foi considerada leve por amigos e familiares da vítima na ocasião, dada a gravidade do crime praticado e as repercussões que isso teria, sobretudo porque Pedro deixava uma filha de 8 anos. O final do julgamento foi marcado por gritos de protesto.

Em julho de 2012, veio outra sentença. Leonardo foi condenado a pagar indenização de R$ 150 mil aos pais e à filha da vítima, mais R$ 970,47 de pensão a sua filha, até a data em que ela completasse 25 anos, incluindo uma parcela a cada 12 meses do mesmo valor, a título de 13º, e mais R$ 323,49, correspondente a 1/3 de férias. Ele também teve que arcar com as despesas do funeral do ciclista, no valor de R$ 3.612,00.

O réu chegou a recorrer, mas a decisão de primeira instância foi confirmada pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDFT).

Dia do Ciclista se torna Lei

Renata Florentino, integrante da Rodas da Paz, atuou junto ao legislativo para que a data fosse oficializada no calendário nacional. Foto: Arquivo pessoal

Levou mais de 11 anos para que o 19 de agosto se transformasse no Dia Nacional do Ciclista. E não apenas como uma data informal: ela foi oficializada pela Lei 13.508, em 22 de novembro de 2017.

A ONG Rodas da Paz, que trabalha desde 2003 no Distrito Federal buscando um trânsito mais seguro e pacífico, teve atuação fundamental para que a Lei passasse a existir. “A entrada da Rodas da Paz nessa luta pela consolidação do Dia do Ciclista tinha duas motivações”, conta Renata Florentino, integrante da associação. “A primeira porque era uma forma de dar visibilidade para a violência no trânsito para com o ciclista, que acontecia na capital federal. O caso do Pedro Davison foi um dos casos que subsidiou o debate sobre a Lei Seca, que veio logo em seguida, por conta do motorista que estava embriagado”, relata.

“Além da visibilidade, a institucionalização da data também era importante, porque coloca no calendário oficial essa preocupação que os governos têm que ter com a questão. Fazendo parte do calendário oficial de comemorações do país, você coloca isso na agenda governamental de outra forma. Se torna um lembrete mínimo, uma cobrança anual que se faz também. É uma data pra dar visibilidade pra questão da violência no trânsito e ao mesmo tempo pra cobrar respostas”, completa Renata.

Dia de reflexão

Mais que uma comemoração, o Dia Nacional do Ciclista é uma data para reflexão sobre nossas atitudes no trânsito e sobre a necessidade de proteção ao ciclista por parte das autoridades – seja com fiscalização e punição a motoristas irresponsáveis, ou com a implantação de ciclovias como forma de proteção física. É um dia para se pensar em maneiras de aumentar a segurança de quem pedala nas ruas das cidades, seja para se deslocar, como lazer ou para a prática esportiva.

Mãe leva os filhos na bicicleta, em ciclofaixa de São Paulo: vidas que precisam ser protegidas. Foto: Priscila Cruz/VdB

A data também é importante para se promover o uso da bicicleta, já que ela representa um meio de transporte sustentável e que em muito contribui para nossas cidades, com a redução das poluições atmosférica e sonora, diminuição de mortes no trânsito, desafogamento das redes de transporte coletivo e alívio dos congestionamentos causados pela enorme quantidade de automóveis circulando nos grandes centros.

É um ótimo dia para reforçar a cobrança a autoridades municipais, estaduais e federais para que tornem nossas cidades seguras para a mobilidade ativa, tanto no âmbito do uso da bicicleta quando também no do pedestrianismo.

Pedro Davison, Márcia Prado e tantos outros somos todos nós. Quando um ciclista morre no trânsito, morre um pedacinho de cada um de nós. Temos que lutar para que isso pare.

Lembre-se disso nas eleições e cobre dos políticos eleitos constantemente, em qualquer época do ano. É seu direito como cidadão.

Ghost Bike

Luiza Davison coloca flores na ghost bike de seu pai, em cena do curta-metragem Lulu Vai de Bike. Imagem: Edson Fogaça/Reprodução

Uma bicicleta branca enfeitada com flores marca até hoje o local do atropelamento. Esse tipo de memorial, conhecido internacionalmente como ghost bike, é uma homenagem a quem perdeu a vida para a pressa e a irresponsabilidade de alguém, para a falta de planejamento viário, para a omissão do poder público.

As ghost bikes também têm o objetivo de evitar que a morte de um ciclista caia no esquecimento e seja considerada apenas um inconveniente temporário ao trânsito de uma tarde qualquer. São um convite a refletir sobre o que aconteceu naquele local, para que não venha mais a acontecer e muito menos seja normalizado como um simples acidente.

Documentário

Luiza Davison em cena do curta-metragem Lulu Vai de Bike. Imagem: Edson Fogaça-Reprodução

Um dia que era pra ser de muita alegria acabou ficando marcado na memória de Luiza Davison. “No dia do meu oitavo aniversário, no dia 19 de agosto de 2006, logo depois da minha festinha, meu pai saiu pra fazer o que mais gostava: pedalar. Mas um motorista embriagado fez com que sua vida terminasse ali, no Eixo Rodoviário de Brasília, onde hoje uma bicicleta pintada de branco, sempre cercada por flores, mantém viva sua memória.”

O depoimento de Luiza está no curta-metragem Lulu Vai de Bike, que você pode ver abaixo (ou neste link). Ela também comenta sobre a Lei que instituiu o Dia do Ciclista em todo o território nacional: “é uma lei que veio pra promover a paz no trânsito, o uso da bicicleta, a cidadania e a mobilidade sustentável”.

Mas Luiza nunca deixou de pedalar. Ela ainda acredita que a bicicleta é “um dos melhores e mais saudáveis meios de transporte de que dispomos”.

Hoje, quando pedalo pelas quadras de Brasília, fico imaginando o prazer que meu pai devia sentir e entendendo cada vez mais toda sua paixão pela bicicleta. Uma paixão que ele me deixou como herança e que eu quero sempre preservar.

– Luiza Davison

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