Todos os dias, 10 pessoas dão a vida para que possamos andar de carro em São Paulo

O Coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP, Paulo Saldiva, voltou a afirmar em recente entrevista à Rádio Eldorado, que a diminuição do álcool na gasolina vai aumentar a poluição e agravar os problemas de saúde que ela causa. O médico explica que a nova composição emitirá gases que prejudicam o funcionamento de órgãos vitais, como o coração e os pulmões.

Segundo Saldiva, a mudança da proporção de álcool na gasolina se dá apenas por motivos econômicos, sem levar em consideração o impacto ambiental e a saúde das pessoas. “Quando você abre uma empresa, é necessário fazer um licenciamento ambiental, que envolve uma série de estudos. Mas quando você modifica o teor de um combustível não é preciso realizar estudo nenhum?! A decisão é econômica.”

Em 2003, num debate na TV Cultura, quando acontecia semelhante diminuição da proporção do àlcool na gasolina, ele já fazia o mesmo alerta: “A primeira conseqüência é o aumento da emissão de monóxido de carbono, que está associado ao número de mortes por infarto e arritmia cardíaca. Segundo aspecto, é o aumento de hidrocarbonetos, moléculas de combustível parcialmente queimadas, que vão promover riscos de produção de tumores. Finalmente, o aumento do teor de material particulado, fuligem, que estará sendo depositado dentro do pulmão.”

Poluição na cidade de São Paulo
Poluição na cidade de São Paulo
Foto: Marcelo de Paula Corrêa

Uma matéria da Folha, de fevereiro desse ano, cita estudos feitos pela equipe de Saldiva no Incor que concluíram que nos dias em que o monóxido de carbono, principal poluente emitido pelos automóveis, excedia seus limites na atmosfera da cidade, aumentava o número de admissões por arritmia cardíaca e infarto. Esse poluente também aumenta o número de mortes fetais, porque a hemoglobina dos fetos puxa para si o monóxido do sangue da mãe, podendo até asfixiar o bebê em formação.

“Quando se decide algo assim [reduzir a presença de álcool na gasolina], deveria se levar em conta também o custo que a poluição acarreta ao sistema de saúde, mas isso nunca acontece.”, diz Saldiva.

Em 2003, ele já alertava que em São Paulo morrem de 10 a 12 pessoas todos os dias devido à poluição do ar e ilustrava o pensamento que devemos assumir em relação ao uso do carro com duas metáforas bem claras:

- “Calcula-se que o paulistano, ao longo de sua vida, perca 2 anos e meio de vida por conta da poluição. Imagine se eu desse um comprimido e que ao tomá-lo pudesse dar dois anos de vida a mais. O quanto estaríamos dispostos a pagar por isso? Acho que esse seria o preço que o paulistano teria que pagar para resolver o problema da poluição da cidade.”

- “Vamos supor que eu inventasse um capacete tele-transportador, que você põe na cabeça, pensa e chega ao seu destino sem poluição qualquer. Todo mundo vai achar uma ótima notícia. Mas eu digo: olha, o combustível desse capacete é carne humana. Para funcionar, essa usina necessita que haja a morte de 10 pessoas [por dia]. Eu iria ser preso se dissesse isso. Como se trata de carro, de indústria de petróleo, um bem que todo mundo deseja, não acontece nada.”

Vale a pena ler a transcrição do debate, que foi parte do projeto Biodiversidade Brasil, uma parceria da TV Cultura e Natura, realizado em 2 de março de 2003, há exatos 3 anos. Continua mais atual do que nunca. Nele, o então secretário de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável do Ministério do Meio Ambiente, Gilney Viana, conclui: “Na Europa há muitos pactos em relação a questão do transporte. Nos países nórdicos, por exemplo, o uso da bicicleta é estimulado enquanto política pública. É preciso que pactuemos, governo e sociedade organizada, a carificação desses custos sociais, humanos e financeiros para que possamos ponderar. Alguém tem que ceder e todos temos que ceder um pouco para melhorar a qualidade de vida.”

Para ajudar um pouco a diminuir a poluição produzida na cidade, nem precisa radicalizar e trocar o carro pela bicicleta: use o transporte público. Um ônibus, isoladamente, polui bem mais que um carro, mas se você dividir a poluição produzida pela quantidade de pessoas que o utilizam, a poluição que cada indivíduo causa no seu deslocamento será bem menor. E nem precisa fazer muita conta, é só pensar que tem um carro a menos na rua e você está usando um ônibus ou metrô que já estaria ali, com ou sem você dentro dele.

“Ah, mas meu vizinho vai continuar andando com a pickup diesel dele o dia todo, não vai adiantar nada se eu sozinho poluir menos”. Bom, então continue usando seu carro, compactuando com o homicídio culposo que é a poluição. Você continuará causando em todos, inclusive em seus próprios familiares, a redução de sua expectativa de vida e as doenças respiratórias e cardíacas. Se você não conseguir tornar o ar tão mais limpo quanto gostaria, limpará pelo menos sua consciência, sabendo que faz o máximo que pode.

Pelo menos nos dias úteis, quando não preciso transportar minha mulher e meu filho pequeno, uso a bicicleta. Nesses dias eu não poluo o ar que meu filho respira. No âmbito individual, é o máximo que eu posso fazer por enquanto – e me sinto bem com isso.


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