Ajudando deficientes visuais a pedalar

Bicicletas enfileiradas, aguardando os participantes do passeio.

A ABRAG realizou em outubro de 2011, em parceria com a Fundação Dorina Nowill, a terceira edição do Passeio Ciclístico com deficientes visuais. Fui convidado novamente e dessa vez tive disponibilidade de horário, tendo a felicidade de participar.

O evento ocorreu no Parque Villa Lobos, em uma manhã agradável e de muito sol. Além dos passeios de bicicleta, houve gincanas e brincadeiras envolvendo pessoas com deficiência, guias e acompanhantes, em um clima descontraído e de muitos sorrisos.

O passeio é realizado com bicicletas do tipo tandem (conhecidas popularmente como “de dois lugares” ou “duplas”). A pessoa com deficiência senta atrás e um voluntário guia a bicicleta. Como as duas pessoas podem pedalar, o deficiente visual consegue ter uma experiência semelhante à de quem usa uma bicicleta individual. A sensação é de liberdade e alegria e é comum a associação com lembranças boas da infância.

Pedalada conjunta

É um privilégio poder atuar como guia em uma atividade como essa. A alegria de quem pedala pela primeira vez, ou pedala novamente depois de um longo tempo, é contagiante. A conversa flui de forma natural e agradável e você aproveita para contar por onde estão passando, o que está ao redor, o que são os sons ouvidos por onde se passa.

A experiência é também um aprendizado para o guia, principalmente para os que não convivem com um deficiente visual. Durante a conversa, sabendo ouvir aprende-se muitas coisas, tanto sobre a realidade de quem não exerga (ou enxerga muito pouco) como sobre a vida. Essa troca de experiências tem muito a ensinar para ambos.

Enquanto eu aprendia sobre como se orientam pelos outros sentidos, sobre pequenos desafios do dia a dia e o apoio que obtêm de instituições como a Dorina Nowill, algumas das pessoas que guiei me faziam diversas perguntas para conhecer também a minha realidade. Perguntavam como era ir para todos os lugares de bicicleta, preocupados com um trânsito que parece sempre tão agressivo. A uma senhora que pedalou comigo e fez diversas perguntas, contei também sobre o trabalho de Bike Anjo. Ela elogiou, compreendendo como uma iniciativa de solidariedade com quem está começando a pedalar nas ruas e precisa de apoio.

Como atuar como guia

Marcio Campos levando a Dirce para uma volta de tandem no Parque Villa Lobos.

Antes de começar, deve-se explicar como é a bicicleta e levar a pessoa até ela para reconhecê-la pelo tato, mostrando onde ficam o selim e o guidão. Explique que o pedal gira em conjunto e que vocês pedalarão juntos. Conte como será o passeio: até onde vamos, como é o terreno, se há inclinação ou curvas, etc.

Quando forem sair, sente na bicicleta primeiro e apoie os dois pés no chão, segurando a bike com firmeza. Peça para seu carona sentar e apoiar os dois pés no pedal, para você poder sair. Se você começar a pedalar sem a pessoa estar com os pés nos pedais, eles poderão machucá-la quando começarem a girar ou ela pode se desequilibrar por falta de apoio.

Como o guia fica responsável tanto por desviar de obstáculos como por frear, é importante avisar com antecedência ao colega quando você for precisar diminuir ou parar, para que ele não continue pedalando. Também é válido avisar sobre curvas, para que ele não se confunda com o equilíbrio, e também sobre irregularidades do terreno.

Alguns não têm experiência anterior com a bicicleta (ou a tiveram há muito tempo) e apresentam alguma dificuldade inicial em se equilibrar. Por isso, o guia precisa ter um bom equilíbrio. Mas a dificuldade é apenas na saída e o equilíbrio conjunto é encontrado assim que a bicicleta pega alguma velocidade.

Quem nunca andou de bicicleta costuma se assustar um pouco com medo de cair, portanto cabe ao guia passar muita tranquilidade, pedir para o novo ciclista relaxar e confiar na sua experiência e equilíbrio para conduzi-lo. Logo ela encontrará seu equilíbro, com mais facilidade do que se estivesse tentando fazer isso em uma bicicleta individual.

Agradecimento

Participar dessa atividade foi uma experiência única. Obrigado à ABRAG e à Dorina Nowill por propiciar essa oportunidade a todos, ao Zé Maria da Bike Time pela organização e pela animação nas gincanas e ao amigo Márcio Campos pelo convite. Podem me chamar novamente na próxima!

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12 comentários para Ajudando deficientes visuais a pedalar

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