Movimentos sociais estão mudando a cidade de São Paulo

Renato Guimarães, da Purpose; Fernanda Danelon e  Luciana Cury, dos Hortelões Urbanos; o mediador Francisco Cesar Filho; Mauricio Piragino, da Rede Nossa São Paulo; e Odin Züge Júnior, participante da Bicicletada. Foto: Rodrigo Paiva

Renato Guimarães, da Purpose; Fernanda Danelon e Luciana Cury, dos Hortelões Urbanos; o mediador Francisco Cesar Filho; Mauricio Piragino, da Rede Nossa São Paulo; e Odir Züge Júnior, participante da Bicicletada. Foto: Rodrigo Paiva

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São Paulo tem vivido uma época de transformação. A cidade que foi pautada durante muitas décadas por políticas que priorizaram o desenvolvimento sob a ótica do automóvel ou do crescimento desordenado, sem cumprir seu planejamento, agora vive um cenário de mudança. E a mudança surge de pequenos grupos da sociedade civil, que querem ver a cidade respirar. Foi nesse contexto que, no dia 30 de maio de 2013, aconteceu o debate “Mobilização – A sociedade civil organizada”, promovido pela Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, parte da Virada Sustentável de 2013, com cidadãos que participam de alguns desses grupos que vêm mudando a cara de São Paulo.

“Não somos nós que servimos o governo, o governo tem que ouvir a sociedade, porque o governo serve à sociedade”, declarou Fernanda Danelon, dos Hortelões Urbanos. ”Ou o poder público acompanha [essa transformação] ou ele é derrubado. Os governantes não podem se afastar da população. Eles estão perdendo o pé da administração das cidades, que está sendo feita diretamente pelos cidadãos”, ressaltou Odir Züge, participante da Bicicletada.

O fato é do jeito que a cidade está, não suporta mais o modelo tradicional que construímos ou aceitamos até agora. ”Essa cidade só vai poder voltar a ser cidade quando se descentralizar, porque é impossível a gente viver dessa forma”, disse Mauricio Piragino, da Escola de Governo e Rede Nossa São Paulo. Uma opção, sugere, seria fortalecer as subprefeituras.

Segundo pesquisa realizada pelo IBOPE e apresentada no debate por Maurício, o índice de referência de bem-estar da cidade, ou seja, a percepção do paulistano em relação a qualidade de vida, é alarmante: de 2012 pra 2013 dobrou o número de paulistanos que tem medo de sair a noite, chegando a 40% – e mais de metade da população gostaria de se mudar de São Paulo.

Movimentos mudando a cidade

Odir Züge Junior. Foto: Rodrigo Paiva

Odir Züge Junior. Foto: Rodrigo Paiva

“Movimentos horizontais aparecem basicamente onde não há canais de diálogo com o governo”, explicou Odir, que fez questão de esclarecer que não representava a Bicicletada, porque não se pode representar um movimento que, por definição, não tem líderes ou hierarquia. “Os movimentos sociais mudaram: eles não têm mais aquela bandeira de mudança de classe social ou de mudança do próprio Estado. O Estado muda para um estado de bem-estar social, mas que não gera bem-estar pra todos. E aqueles que estão fora dessa abrangência de bem-estar são os que se manifestam”.

“Portanto são movimentos que afirmam identidades, são movimentos culturais mais até do que movimentos políticos”, conclui Züge. “E essa forma de subversão não-violenta está se tornando cada vez mais comum em São Paulo. A cidade está fervilhando nesse sentido”.

“São Paulo é um amontoado de condomínios, áreas fechadas e a rua é um espaço de ninguém, uma terra de ninguém onde as pessoas se matam”, afirmou. “A proposta da Bicicletada é completamente diferente: é transformar a rua num espaço público que seja um local de vivência”. Afinal a rua deve ser o espaço de todos, não de ninguém.

Fernanda Danelon (esq.) e Luciana Cury, dos Hortelões Urbanos. Foto: Rodrigo Paiva

Fernanda Danelon (esq.) e Luciana Cury, dos Hortelões Urbanos. Foto: Rodrigo Paiva

Hortas urbanas

As hortas urbanas são outro exemplo desse movimento de transformação da cidade. ”Nós começamos ocupando praças que estavam abandonadas e, através da nossa ação, a gente percebeu que a vida naquelas regiões começou a se transformar”, contou Luciana Cury, dos Hortelões Urbanos.

“A melhor colheita
das hortas urbanas
é a mobilização social”
- Fernanda Danelon

“Quando você está cuidando daquele espaço, você está olhando pro que está acontecendo com seu próximo, vizinhos começam a se conhecer, começa a haver uma transformação social, de um uso do espaço de uma cidade tão agressiva quanto São Paulo. E todo lugar que é abandonado, vai ficar cada vez mais abandonado, é a inércia daquela situação, e todo lugar que é cuidado, é exatamente o oposto, ele será cada vez mais cuidado”.

Fernanda Danelon contou que percebeu o quanto estava envolvida com a causa depois que acordou num sábado as 8hs da manhã pra participar de uma audiência pública na subprefeitura do seu bairro, pra entregar uma proposta de hortas em escolas públicas e postos de saúde. “Eu nunca tive uma postura política mais ativa, e de repente, naturalmente eu estava lá. E a mobilização continua no momento que você muda a sua postura diante do que você come, até porque isso também é uma questão econômica e política também. Comer é um ato político”.

Concentração da Bicicletada, na Praça do Ciclista. Foto: Rachel Schein

Concentração da Bicicletada, na Praça do Ciclista. Foto: Rachel Schein

A Bicicletada e seus frutos

“Como é que uma pessoa se torna  um ciclista atuante?”, questiona Odir. “A pessoa cresce alienada,  sem saber as distâncias, se deslocando de carro, de ônibus, sem saber quanto é um quilômetro, sem saber o que come… E um belo dia ela vai andar de bicicleta na Ciclofaixa. Nesse momento ela começa a ter uma outra relação com aquele veículo, com o próprio corpo. Até que um dia, por uma greve de ônibus ou um carro que quebra, ela faz um salto pro mundo real, que é usar a bicicleta como meio de transporte . Aí ela descobre que ela mora bem mais perto de onde ela trabalha, ao invés de uma hora e meia ela leva meia hora e que ela vai chegar de bom humor, porque ela se divertiu no meio do caminho”.

Manjericão crescendo na horta que foi criada na Praça do Ciclista. Foto: Rachel Schein

Manjericão crescendo na horta que foi criada na Praça do Ciclista. Foto: Rachel Schein

“Ela recupera o padrão de saúde, ela se sente inserida num todo que é a cidade, ela começa a questionar o que ela passa a consumir. Nesse momento ela na verdade está dando vários saltos: ela está percebendo ser um ente político, ela está percebendo ser um consumidor privilegiado, ela está se percebendo um ser humano vivo, ela está se percebendo ligada àquela maquininha que ela achava separada dela que é o corpo. Ela muda até o padrão de beleza e a forma que ela vê a beleza nos outros. Nesse momento ela começa a participar”. E cita as diversas formas de participação: “dessa Massa Crítica que já tem mais de 10 anos, já saíram duas associações [a CicloBR e a Ciclocidade], e vários coletivos, como o Pedal Verde, as Pedalinas, etc”.

Crianças na Horta do Ciclista. Foto: Rachel Schein

Crianças na Horta do Ciclista, aprendendo a cuidar do que é coletivo. Foto: Rachel Schein

Redes sociais e o momento da mudança

E pra quem acha que o grande responsável pelas mobilizações são as redes sociais, há um engano: a mobilização é o momento exato de que a ideia vira realidade. “As duas coisas são importantíssimas e fundamentais”, afirma Renato Guimarães, da Purpose. “Mas tecnologia, internet, Facebook e etc. não substituem o trabalho consistente como o que vocês fazem aqui, da construção quase que diária da percepção de que a mudança precisa vir. O dia é que está preparado para a mudança vir, o que essas tecnologias fazem é facilitar extraordinariamente a conexão entre as pessoas”.

Segundo Renato, as redes sociais ajudam a organizar um movimento que está borbulhando há muito tempo. ”Há 20 anos tem alguém pensando nisso, e só agora a coisa explodiu”, concorda Mauricio Piragino. E só explode quando não dá mais pra sustentar o modelo antigo. “A mobilização só acontece quando a água chega na ponta do nariz”.

“Estamos passando de uma
sociedade de consumo para uma
sociedade do conhecimento”
- frase de Ladislau Dowbor,
citada por Fernanda Danelon

E parece que a água já chegou na ponta do nariz . A cidade anda insustentável há muito tempo. “A sustentabilidade está diretamente associada aos processos que podem se manter e melhorar ao longo do tempo”, escreveu Oded Grajew, também da Rede Nossa São Paulo, em artigo publicado pela Folha de São Paulo (vale a pena ler na íntegra). “A insustentabilidade comanda processos que se esgotam. E isso depende não apenas das questões ambientais: são igualmente fundamentais os aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais”. E é para melhorar esses aspectos que as mobilizações acontecem.

“Essa cidade é uma das mais desequilibradas que eu conheço”, disse o próprio prefeito, Fernando Haddad, numa das reuniões de revisão do Plano Diretor. E para Renato Guimarães, o sistema político tradicional terá que se reinventar. Enquanto o poder público tenta resolver essa equação, continuaremos plantando hortas, andando de bicicleta e, de grão em grão, nos mobilizando para construir uma cidade melhor.

Vídeo do debate

O debate foi disponibilizado na íntegra. Assista um pouquinho hoje, mais um pouco amanhã… Apesar de longo, vale a pena ver inteiro.

“Tente mover o mundo. O primeiro passo será mover a si mesmo.” - Platão


11 comentários para Movimentos sociais estão mudando a cidade de São Paulo

  • Carlos

    Vejam este vídeo e tirem as suas conclusões.
    http://youtu.be/yBUZH2vCD_k

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  • Cícero Soares

    Putz, cara, revisando as notícias dos pra lá de 250 mil às ruas no dia de hoje, bateu um insight: claro, não é só 20 cents, nem é só Tarifa Zero, nem é só… Ou é. Se for, é um #VerásQueUmFilhoTeuNãoFogeALuta sob uma crise geral de…. mobilidade! Então não fica só nesse entrave metropolitano do ir e vir, em seus modais públicos custosos e parcos e na sua decadência sistêmica. Há, na verdade, um entrave geral de mobilidade, de mobilidade num sentido mais amplo.

    Por isso que andam dizendo que o protesto só ganhou força em vista de um certo mal-estar social difuso aí (claro, tirando a ferramenta facebookiana, as Tropas de Choque acabaram dando uma forcinha, né? Como se a cada disparo de munição, hum, “não-letal” eles sentenciassem: “Vocês não tem o direito ao direito de mobilidade, qualquer que seja ela”.)

    Assim: o que me parece difusa é essa impotência de mobilidade, e não só pra essa “nova” geração. Difusa, talvez chegando ao ponto de ebulição, é essa imobilidade de diálogo entre um político-institucional envelhecido e acomodado (inclusive o partidário, por isso que levantar bandeira partidária agora ficou, hum, feio), a contemporânea sociedade heterogênea e hiperinformacional, e os espaços públicos cada vez mais homogêneos e imobilizados da metrópole. E…

    (E chega! Que absurdo! Já tô escrevendo bobagem…rs. E também já passou da hora de nanar. Que sonhar é preciso, escrever não é preciso.)

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  • Carlos

    Por falar em mudança, é possível também que haja resistência veja esta reportagem nesta revista:http://www.revistabicicleta.com.br/bicicleta_noticia.php?ciclovia_na_cidade_baixa_e_inaugurada_com_protestos&id=14361

    O leva a pensar também nos conflitos e divergência de opinião e mudança também de cultura, e hábitos econômicos … afinal o que se pretende com movimentos de sustentabilidade.

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  • rachel

    Carlos, vc está se referindo as manifestações contra o aumento da passagem?

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    • Cícero Soares

      Se o Carlos não está se referindo, eu estou, Rachel.

      Porque, das duas, uma: ou eu estou ficando velho, logo mais “sensível”, ou o MPL pecou em comunicar (pra não dizer em organizar, que mesmo a horizontalidade não deve se furtar a controle organizacional, né?) “para os não engajados” essa grande idéia, ainda em forma de sementinha, que é a Tarifa Zero.

      E aí deu no que deu: mais um retrocesso pro semeio dessa idéia pra além das barricadas.

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    • Carlos

      Sim, estava me referindo. É bom tentar evitar o máximo possível que o passeio seja associado a baderneiros. Sempre é assim: uns poucos acabam fazendo a fama do movimento. A Massa Crítica de Porto Alegre, apesar de ter sido vítima de um motorista, pode ter criado uma rejeição por uma parte da população. Às vezes, uma atitude inflexível de uns pode ocasionar dano a imagem de todos.
      Esta manifestação agressiva pelo aumento das tarifas, pode causar danos à construção da mobilidade, pois se a bicicleta acaba passando de longe da discussão das tarifas, pois muitos que não usam o transporte público, usando exclusivamente a bicicleta podem dar opinião que não agrade aqueles que dependem exclusivamente do transporte público. E, como muitas vezes, as pessoas tendem a usar, como bode expiatório, outros movimentos que não tem nada a ver com a história.
      Deste modo, é bom termos cuidado.

      Apenas como comentário sobre a Tarifa Zero, em algumas cidades do mundo, ela existe. E pode ser pensado como alternativa ao Pedágio Urbano. E, se pensar bem, pode ser um matador da mobilidade urbana. Apesar de uma primeira vista, não estar relacionado com bicicleta.

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  • Carlos

    Pena que movimentos sociais mais radicais e belicosos estão também agitando a cidade. Por isto que é importante que o movimento social em prol da mobilidade deva ser mais educado, mais educado, e mais informativo que dá feedback para os não engajados. É preciso maior comunicação em todos os sentidos, principalmente dentro e com informações corretas.

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  • Zé do Pedal

    Gosto muito das materias da Rachel Schein !

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  • Eduardo Amorim

    Muito bom o debate!
    Mas para alguém como eu, que não tem/não sabe dirigir carro, usa bicicleta como principal meio de transporte e busca mais segurança no trânsito a bicicletada é um desserviço!
    Talvez tenha seu valor como recreação ou instrumento de protesto, mas não tenho opinião formada sobre isso.

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  • Carlos

    Excelente ! Como educação e cultura para nós, ciclistas, este tópico é obrigatório.
    Levanta e resolve algumas questões interessantes. E, como é densa essa informação, é um tópico que merece revisitação, e acompanhamento.

    Comentário bem votado! Thumb up 4 Thumb down 0

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