Mortalidade no trânsito: conhecer para agir

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Infográfico traz dados consolidados que mapeiam em detalhes a violência do trânsito brasileiro e fornecem diretrizes para combater essa doença social. Clique aqui para a versão completa. Imagem:Reprodução/Infoviz

Em 2007, o Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo divulgou um dado alarmante: o carro é a maior causa de morte de crianças em São Paulo, com 44,2% das mortes de crianças ocorridas no estado por “acidente”, ocasionadas por atropelamentos ou outros acidentes de trânsito (25,7% e 18,5% respectivamente). Em 2010, o dado agravou-se: 43,7% dos óbitos de crianças de 0 a 14 anos tem o trânsito como principal causa. Essas razões, de longe, superam afogamentos, choques elétricos e quedas. Quando vemos inúmeras matérias sobre segurança doméstica e dicas de como garantir a integridade física das crianças em casa, não dá a impressão de que, talvez, algo precise ser feito justamente nas ruas?

É para trazer luz a questões como essa que um grupo de comunicadores e designers criou o Infoviz, uma plataforma gráfica com o mapeamento das tragédias de trânsito que acontecem diariamente no Brasil, servindo também como um balizador de dados para a imprensa, que ainda trata o tema sem a atenção devida. “Essa é uma informação que afeta 100% da população, por isso queremos que o trabalho alcance o maior número de pessoas possível, que faça barulho e abra o debate”, esclarece a jornalista Diana Assennato, uma das realizadoras do projeto. Junto com Diana, trabalharam o videomaker Thiago Vecks e o designer Thomaz Rezende, que pesquisaram dados e os organizaram para produzir o infográfico.

Números assustadores

Não só as crianças estão sujeitas a perder a vida. Com elas, milhares de outras pessoas morrem anualmente – e muitas mais são mutiladas ou que sofrem sequelas irreversíveis – em ocorrências que têm pelo menos um veículo motorizado (seja carro, ônibus, caminhão ou motocicleta) na soma de fatores que levam à tragédia. Mais de 40 mil mortes por ano no Brasil, em média, são baseadas nessa equação, número em muito superior às mortes causadas por conflitos armados em todo o mundo.

Para dar uma dimensão mais exata, essas mortes equivalem a um desastre aéreo como o do avião Fokker 100 da TAM, que matou 99 pessoas em 1996, em São Paulo, ocorrendo a cada 22 horas. A cada 12 minutos, uma família perde um de seus entes mais próximos: filhos, pais, mães ou irmãos. Outras 161 mil pessoas saem feridas, das quais 60% com alguma lesão permanente. Esse massacre também custa caro aos cofres públicos e ao bolso da população: 62% dos leitos de traumatologia da rede pública estão ocupados com vítimas dos desastres de trânsito.

Com base em dados consolidados de 2010, o Infoviz traz informações sobre número de mortes no trânsito por habitante, por categoria de usuário, feridos, internações em leitos de traumatologia na rede pública, número de veículos emplacados por ano, veículos por habitante, comparativo de mortes por países e outros indicadores. Entre as fontes consultadas, estão o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Datasus, banco de dados do Ministério da Saúde, o relatório anual da World Safety, entre outros.

90% das mortes no trânsito são provocadas por comportamentos evitáveis, como falar ao celular ao volante, dirigir embriagado, andar acima do limite de velocidade e ultrapassar o sinal vermelho, configurando essas ocorrências como crimes de trânsito.

90% das mortes no trânsito são provocadas por comportamentos evitáveis, como falar ao celular ao volante, dirigir embriagado, andar acima do limite de velocidade e ultrapassar o sinal vermelho, configurando essas ocorrências como crimes de trânsito.

#naofoiacidente

Com tantas mortes, mutilações e internações hospitalares, a realidade dos incidentes de trânsito, que se configura um problema de saúde pública, traz um outro questionamento: essa tragédia pode ser chamada de acidente? A diferença entre acidente e crime de trânsito está expressa no capítulo 19 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e é também esclarecida pelo Infoviz como algo que “que não pode ser previsto e que, portanto, não pode ser evitado”.

Uma falha mecânica no veículo, um mal súbito que o motorista sofra ao volante são o que podem, de fato, ser considerados “fatalidades”. Porém, atitudes frequentes em nossas ruas como ultrapassar em local proibido, dirigir sob efeito de álcool ou acima da velocidade, não são acidentes, e sim atos deliberados: é justamente essa conduta imprudente e irresponsável, mesmo que banalizada em nossas cidades e estradas, que causa 90% das tragédias de trânsito – que podem matar ou ferir, transformando o agente da ação em um criminoso. A pena para quem causa lesão corporal ou mata estando à direção de um veículo pode chegar a dois e quatro anos de detenção, respectivamente, ampliada por até um ou dois anos, para cada um dos crimes, em casos de agravantes previstos no CTB.

De acordo com o videomaker Thiago Vecks, outro dos idealizadores do Infoviz, “foi curioso perceber como a nossa desinformação pauta a maneira como tratamos o assunto. Quando algum amigo ou parente é vítima de um crime de trânsito, sem perceber dizemos que foi uma vítima de ‘acidente’. Não é apenas uma questão de nomenclatura: entender que a tragédia ‘não foi um acidente’ é uma forma de endereçar o problema na direção certa. É isso que queremos mudar”, afirma.

William Morsetvita foi morto ao atravessar uma faixa de pedestres, por um motorista que acelerou para "aproveitar" o sinal que já havia fechado. Esse é um exemplo de crime de trânsito, que não deve ser considerado um simples acidente. Foto: Priscila Cruz

William Morsetvita foi morto ao atravessar uma faixa de pedestres, por um motorista que acelerou para “aproveitar” o sinal que já havia fechado. Esse é um exemplo de crime de trânsito, que não deve ser considerado um simples acidente. Foto: Priscila Cruz


4 comentários para Mortalidade no trânsito: conhecer para agir

  • Fabio Degani

    Ontem houve mais uma vítima:

    http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/06/ciclista-morre-em-acidente-na-zona-sul-de-sp.html

    Era um conhecido meu de pedaladas, atropelado por uma van que subiu no canteiro central. Vai responder em liberdade e não vai acontecer nada.

    Ando de bicicleta todos os dias, e os motoristas que deveriam ser os mais profissionais são os mais agressivos e ignorantes.

    Nem sei mais o que dizer.

    Mais uma vida foi perdida pela pressa. Por nada.

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  • Fabio Boni

    Domingo (08/06/2014) pedalava tranquilamente pela ciclovia da Pedroso de Moraes em Pinheiros qdo um carro, sem controle, invadiu o canteiro central, arrancou uma árvore e por muito pouco não me atropelou.
    O carro acabou parando com as rodas para cima atravessado no meio da ciclovia.
    O motorista completamente bêbado, sem cinto de segurança foi jogado para o banco de trás do carro. Estava tão bêbado que não deixamos ele sair do carro. Mantivemos ele lá até a chegada da polícia.
    Tirei até foto, mas não tenho como por aqui no comentário. Se eu estivesse alguns segundos adiantado ele teria me atropelado.

    E todo domingo de manhã é a mesma coisa. Sempre saio bem cedo e vejo o pessoal saindo bêbado de baladas ou até parado nos postos de gasolina ainda bebendo.

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  • Anderson

    Infografico incrível. Tá a explicação do caos que impera no nosso país, as pessoas aceitam essa barbaridade como algo normal, e quando vc reclama ainda corre risco do motorista te matar mesmo. Eu não acredito mais que esse país tenha solução, só uma reforma geral em todo sistema politico/administrativo do país poderia nos trazer alguma esperança.

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  • Carlos

    Só para lembrar, na Holanda verificou-se a mesma coisa: que as crianças eram atropeladas com frequência. Lembrar de como aconteceu o desenrolar na Holanda, vamos encontrar um caminho para a melhor mobilidade com qualidade e segurança.

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