Fluxo de ciclistas mulheres aumentou 1.444% em quatro anos na Av. Eliseu de Almeida, em São Paulo

Número de mulheres e crianças pedalando também aumentou. Foto: Fabio Miyata

Número de mulheres e crianças pedalando também aumentou. Foto: Fabio Miyata

Uma contagem de ciclistas realizada em 12 de maio na avenida Eliseu de Almeida, zona oeste de São Paulo, mostra que o fluxo de ciclistas na ciclovia instalada no canteiro central da via cresceu 40% em apenas um ano, passando de 888 para 1.245 (média de 1,48 por minuto). Essa foi a primeira contagem realizada com a ciclovia completa.

Se compararmos com os números de 2010 (561), ano em que foi realizada a primeira contagem e quando ainda não havia infraestrutura cicloviária, o aumento foi de 122%. Para a coordenadora da pesquisa, Taís Balieiro, o principal motivo para a alta é a finalização da ciclovia Eliseu de Almeida/Pirajussara até a cidade de Taboão da Serra. “Junte-se a isso o aumento na cultura da bicicleta em São Paulo de um modo geral.”

O horário de pico total ocorreu entre 7h e 8h, com 157 ciclistas, e entre 17h e 18h, com o total de 129, tendo o percurso Taboão da Serra-Centro como o mais utilizado no geral. O saturado bicicletário da estação Butantã da linha 4 – Amarela do Metrô é uma demonstração da demanda dos ciclistas da região.

A ciclovia Eliseu de Almeida/Pirajussara possui 5,3 km, com início na estação Butantã do Metrô e termina na esquina com a avenida Intercontinental, no limite de Taboão da Serra.

A Ciclocidade ainda planeja realizar contagens na ciclovia da avenida Vergueiro, no Centro, em duas pontes da cidade e estão em estudo o Jardim Helena, na zona leste, e o Largo do Socorro, na zona sul.

Mulheres, crianças e adolescentes

40% mais ciclistas no último ano e
aumento de 122% em quatro anos,
com mais de 2 bicicletas/min no pico

crianças e adolescentes pedalando

132% mais mulheres em um ano, com
crescimento de 1.444% em quatro anos

120% mais bikes elétricas em um ano

Os dados coletados pela Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade) mostram ainda que houve crescimento no número de mulheres pedalando de 60 para 139 entre 2014 e 2015, um acréscimo de 132%. Em relação a 2010, a alta foi de 1.444%. Entre 12h e 14h, as mulheres representaram 21,4% do total de ciclistas contabilizados.

“Mais mulheres pedalando significa uma equidade melhor na cidade. Acredito que as mulheres são um pouco mais cautelosas e precisam se sentir mais seguras antes de pedalar na rua. Uma estrutura segregada dá mais coragem a elas para pedalar”, diz Taís.

A contagem – realizada na esquina da avenida Eliseu de Almeida com a avenida Deputado Jacob Salvador Sveibil (atrás do Shopping Butantã) – detectou ainda uma boa porcentagem de crianças e adolescentes de bicicleta (3,3%), especialmente por volta das 7h e entre 16h e 17h. “Aumento no número de crianças e adolescentes significa mais segurança”. As bicicletas elétricas também estão sendo mais usadas. Entre 2014 e 2015 houve elevação de 120% (5 para 11).

Contagem sendo realizada na ciclovia da Eliseu de Almeida. Foto: Fabio Miyata

Contagem sendo realizada em 12/5 na ciclovia da Eliseu de Almeida. Foto: Fabio Miyata

Histórico

Segundo dossiê elaborado pela Ciclocidade, as tentativas de implantação de uma ciclovia na região vêm desde 2004, com a realização do Plano Regional Estratégico do Butantã, que estabeleceu o ano de 2006 como data para a conclusão da obra. No ano seguinte, houve o anúncio da prefeitura de que a estrutura seria concluída até 2010. Em 2008, outro projeto previa infraestrutura cicloviária em vários pontos da cidade, com uma rede estrutural integradora, incluindo o eixo da Eliseu.

Mas, como aponta o relatório da Ciclocidade, “em 2012, ao fim de mais uma gestão, o poder público não deu início a viabilização de qualquer infraestrutura básica a fim de fornecer segurança e conforto para o tráfego de bicicletas nessa importante avenida, acessada diariamente por mais de 600 ciclistas, em condições extremamente precárias e com trânsito intenso de automóveis”. A ciclovia viria a ser iniciada apenas no final de 2013 – quase dez anos depois do primeiro anúncio.

Atraso pago em vidas

Enquanto alguém pensava se desengavetava o projeto ou não e ignorava as alternativas oferecidas, vidas se esvaíam. Em 2012, o pedreiro Lauro Neri morreu na avenida, gerando protestos. Próximo à região, na avenida Francisco Morato, Nemésio Ferreira Trindade também teve sua vida interrompida, em novembro do mesmo ano.

Em agosto de 2013, o chefe de cozinha José Aridelson morreu na rua Ari Aps, paralela à Rodovia Raposo Tavares. Em janeiro de 2014, o frentista Maciel de Oliveira Santos, de 42 anos, perdeu sua vida na avenida Pirajussara quando voltava pedalando para casa. São pessoas que continuariam vivendo junto a seus amigos e familiares se a infraestrutura prometida para a região já tivesse sido entregue.

Protesto de ciclistas durante instalação de ghost bike para Lauro Neri em 2012. Foto: Michelle Mamede

Protesto de ciclistas durante instalação de ghost bike para Lauro Neri em 2012. Foto: Michelle Mamede

Manifestações e cobranças foram constantes

Além das cobranças da imprensa e de ciclistas e moradores, que chegaram a entregar um abaixo assinado à prefeitura, a Ciclocidade realizou uma reunião com a subprefeitura do Butantã em setembro de 2010 (que, naquele momento, assumia para si a responsabilidade pela ciclovia). Nessa reunião, os representantes da entidade ficaram sabendo que o início das obras não ocorreria antes do final de 2011, quando seria concluída a canalização do córrego Pirajussara.

A Ciclocidade sugeriu então uma nova proposta cicloviária, com a infraestrutura para bicicletas junto à calçada. Desse modo, a segurança dos ciclistas naquele importante e bastante utilizado eixo de deslocamento seria atendida mais rapidamente. Mas imprensa, ciclistas, moradores e a associação de ciclistas mais uma vez não foram levados a sério: a canalização foi concluída, mas as obras da ciclovia não começaram.

A mobilização prosseguiu. Em maio de 2012, um abaixo assinado pedindo a construção da ciclovia foi entregue ao então prefeito Gilberto Kassab. Em dezembro do mesmo ano, cidadãos realizaram uma manifestação na avenida. Outra manifestação aconteceu em fevereiro de 2013, dessa vez com a presença do subprefeito do Butantã e diversos vereadores (veja aqui), que propuseram um encontro na Câmara Municipal de São Paulo para discutir a construção da ciclovia. Uma carta de reivindicações foi apresentada nesse encontro. Na reunião foi apresentado um plano da prefeitura para a região e discutidas as possibilidades com os cidadãos.

Finalmente a implantação

Em setembro de 2013, o subprefeito do Butantã, Luiz Felippe de Moraes Neto, apresentou um projeto para a ciclovia, novamente na Câmara Municipal, em reunião da Frente Parlamentar em Defesa da Mobilidade Humana. Infelizmente o projeto não foi aprovado pela CET, por falta de qualidade técnica.

A recusa levou o subprefeito a buscar uma solução alternativa para conseguir iniciar logo as obras – o que veio a ocorrer em dezembro de 2013, com a implementação de um primeiro trecho da ciclovia, ainda sem sinalização (saiba mais).

Em junho de 2014, a Ciclocidade realizou nova medição, contabilizando 648 ciclistas em 14h de contagem. Uma semana depois, a sinalização desse trecho inicial foi finalmente implantada pela CET. Após a sinalização, foram contabilizados 888 ciclistas em 14 horas, um aumento de 53% em relação a 2012.

Em outubro do mesmo ano, foi anunciado o início da segunda fase da obra, com a promessa de levar a ciclovia até o Taboão no início de 2015. A CET entregou dia 30 de janeiro de 2015 o novo e último trecho da Ciclovia Eliseu de Almeida, com 3,2 km de extensão.

Veja nossas matérias anteriores sobre a Ciclovia Pirajussara (Eliseu de Almeida)


5 comentários para Fluxo de ciclistas mulheres aumentou 1.444% em quatro anos na Av. Eliseu de Almeida, em São Paulo

Enviar resposta

Você pode usar estas tags HTML

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>