Londres, a última parada da cicloviagem pela Europa

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Foto: Raquel Jorge

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Colorida, vibrante, despojada e multicultural. Londres é assim. Meio careta, meio irreverente, meio decadente. E bela, muito bela! Sim, existe o conservadorismo, a troca da guarda, a adoração pela realeza. Mas a beleza está em ver como tanta coisa (e tanta gente) diferente consegue viver em harmonia.

Ok, às vezes dá defeito. Eu mesma presenciei alguns defeitos bem grandes. E nem sei quantas vezes precisei sair correndo da estação. Motivo: evacuação por ameaça de bomba. A maioria foi alarme falso, mas algumas realmente explodiram ao longo dos nove anos que vivi aqui. Primeiro foi o IRA, seguido pelos neonazistas, depois nem sei mais… tantos foram (e são) os grupos extremistas dos últimos anos.

Foto: Raquel Jorge

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Vi e vivi tantas coisas aqui. A morte da Lady Di. A Copa de 2002. Teve a crise da vaca louca, depois o drama da gripe aviária. Amigos para sempre. Amigos que já partiram. Casinha apertada. Casona com esquilos e raposas no quintal. Teve o reveillon do milênio em que trabalhei até às 4 da manhã em um restaurante ao lado da roda gigante London Eye – era para ser a noite de estreia, com patrocínio da British Airways, mas não rolou por falta de segurança na estrutura, mico histórico.

Vi subir tantos dos prédios, pontes e símbolos que hoje adornam as margens do rio Tâmisa. Vi a rainha duas vezes, por acaso, de chapéu passando por mim no seu carro real inconfundível.

Tantas vezes perdi meu ponto porque dormi no busão da madrugada depois do trabalho. E tantas vezes fiquei bebendo com os amigos esperando o metrô abrir para voltar para casa. Só comprava roupas em lojas de caridade, pois o din din era para morar bem, comer bem e viajar. E vivia a pegar trens para todos os cantos, mesmo que fosse só para passar o dia.

Passei perto da minha primeira casa, onde eu dormia no chão e precisava colocar moedinhas no registro para tomar banho. Era em um bloco tipo Cohab e ficava em frente ao Imperial War Museum. Toda vez que eu abria a cortina via um pedaço do muro de Berlin.

Assisti pela TV de um pub no Soho a primeira torre do WTC em Nova Iorque cair. Lembro como se fosse hoje. A sensação. A tristeza. A cidade que silenciou. Agora caminho por ruas que foram tão familiares um dia. Com suas casas vitorianas, paredes de tijolinho, janelas sextavadas e as lâmpadas amarelas – a luz de Londres é encantadora.

E onde mais você teria um restaurante persa, com as pessoas fumando narguilé na calçada ao lado de uma igreja católica? A placa anunciando o horário da missa junto com a placa listando os sabores da culinária árabe, onde mulheres de burca conversam e sorriem com os olhos. E mais à frente um chinês que diz ter o melhor “crispy duck” do mundo, seguido de um tailandês e de repente um libanês. E aí você entra e é tudo de verdade. As pessoas falam a mesma língua do cardápio. Uma cidade constituída e colorida por imigrantes e bagunçada por turistas do mundo inteiro.

Demorei para chegar – tinha me esquecido como o Tâmisa é voluptuoso e cheio de curvas – mas cheguei, pelo leste, contornando o rio. Passando por todos os lugares que dão vida aos cartões postais da cidade. Eu e minha bike. E chegar assim, pedalando pela História e pela minha história, não tem preço.

Fui até a catedral de St. Paul com o intuito de acender uma vela e agradecer pela maravilhosa viagem. Cheguei lá. Tudo muito lindo. Peguei a fila para entrar. Eu lembrava que não era gratuito entrar nesta casa de Deus, mas quase caí de costas quando vi o preço: 18 pounds!! O quê????? Nem que a vaca faça cof cof, my friends. Dei meia volta com zero de culpa e saí pensando: esta não é a casa de Deus, esta é a casa do Tio Patinhas!

Eu havia separado 5 libras para velas, mesmo sabendo que não dá para mensurar gratidão. Atravessei a Milenium Bridge convicta de que empregaria este valor de uma forma mais verdadeira.

Fui à Tate e depois caminhei ao longo do Tâmisa. Resolvi atravessar a ponte que leva a Charing Cross. Após o último degrau vi um rapaz. Estava sentado no chão, olhos fechados. Nas mãos um cartaz que dizia: Homeless, hungry. Please help (sem casa, com fome, por favor me ajude). Olhei para aquela imagem de total abandono e não tive dúvidas. Ao invés de colocar o dinheiro na caixinha que estava no chão eu peguei sua mão. Ele abriu os olhos sem brilho e me fitou. Coloquei as 5 libras na mão dele e disse: força, colega! Ele sorriu com a alma e apenas disse: God bless you (Deus te abençoe). E eu pensei: ele já faz isso! Sei que isso não vai, nem de longe, resolver o problema dele. Mas ao menos nesse dia ele iria comer. Ou beber.

Foto: Raquel Jorge

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Desafio aos sentidos

A estrutura para quem pedala não é muito diferente da que temos em São Paulo. Há muitas ciclovias mas, como as nossas, elas não estão interligadas e não é raro ver os bikers pedalando entre os carros e ônibus. Há uma diferença, porém. Aqui bicicletas podem (e muitas vezes é a rota) andar na contra mão. Dentro dos parques o espaço é demarcado e os paraciclos não são consistentes: há lugares com muitos e lugares sem nenhum, nos quais o poste é disputado a tapa.

Não há regras em relação ao capacete, usa quem quer. Mas uma coisa é clara: quase todos usam algum elemento fluorescente, assim como luzes traseira e dianteira. Outra coisa que chamou a atenção é a velocidade em que eles pedalam. Aliás, voam. Os courriers então, nem se fala, passam por você a milhão. Fiquei me sentindo uma tartaruga em terra de lebres.

Londres desafia os sentidos de quem esta habituado a pedalar, dirigir e caminhar na mão direita. Aqui é tudo ao contrário. E como se isso não bastasse, os carros podem estacionar em qualquer mão, ou seja, é comum ver carros estacionados um de frente para o outro e aí você se confunde ainda mais. Mas quem pedala em São Paulo se vira em qualquer canto do mundo e rapidinho você pega o jeito e se adequa.

Diferente e única

É uma cidade verdadeiramente cosmopolita. Na mesma calçada caminham uma noiva, um transexual, um executivo, mulheres de burca. Gente de todos os cantos do globo, todas as cores, credos e times de futebol (ou rugby). De um lado um grupo joga capoeira e do outro um oriental toca violino. O ônibus de dois andares pintado de rosa choque vende coquetéis ao lado da perua vintage que oferece sorvete. E próxima à London Bridge uma bela garota que toca e canta. Uma voz de anjo e uma música linda. E você pensa: um dia haverá fila pedindo seu autógrafo, quem sabe?

E aí você se atrasa para encontrar os amigos porque Leicester Square esta muvucada com a première do novo filme da Drew Barrymore e enquanto ela desfila pelo tapete vermelho você tentar passar pela multidão. Daí você sai do pub e caminha pelo West End, passa pelo teatro no momento em que a Nicole Kidman está no palco. Depois pensa em entrar no Ronnie Scott para assistir ao show do Courtney Pine, mas desiste porque já esta tarde e você está pobre de marré, marré deci!

Londres, última parada desta incrível viagem. Difícil ficar. Difícil partir.

Raquel Jorge fez uma cicloviagem de 6.200 km pela Europa, contornando o Mar do Norte e passando por Noruega, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Holanda, Bélgica e Inglaterra. E ela conta os detalhes aqui no Vá de Bike, da preparação aos desafios do caminho, com dicas para quem tem vontade de ganhar o mundo e informações sobre a mobilidade nos locais onde passou. Veja o que ela publicou por aqui.
Foto: Raquel Jorge

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3 comentários para Londres, a última parada da cicloviagem pela Europa

  • Fabio

    Oi, Raquel,

    Eu li teu relato da viagem na Noruega e achei muito interessante. Moro na Alemanha e pretendo em breve viajar por lá também de bicicleta, mas com um semi-reboque atrelado à traseira. Podemos conversar pelo Facebook? Um abraço.

    Fabio

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  • maria luciani

    Como assim, a última? Não vai mais para a Escócia? Vou sentir saudades das suas narrativas. Viajei nelas com você.Bom, agora é só se preparar para a próxima, não é ? Boa sorte e muita saúde para que vc tenha várias viagens/sonhos maravilhosas! Abraços fraternos. Sua grande admiradora. Maria Luciani.

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    • Raquel Jorge

      Obrigada querida, foi delicioso poder compartilhar esta viagem tão bela e única. No fim o tempo acabou e não consegui ir para a Escócia… uma boa desculpa para voltar! beijo enorme 😉

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