Mulheres se organizam para abolir o machismo dentro e fora do ambiente ciclístico

Mulheres participantes da Massa Crítica Feminista de BH. Foto: Thamires Siqueira

Mulheres participantes da Massa Crítica Feminista de BH. Foto: Thamires Siqueira

“Não vou ser ultrapassado por uma mulher!”, disse um homem que pedalava quando uma das ciclistas acelerou em uma parte do percurso. “Ser ultrapassado por mulher é humilhação total”, explicou o ciclista quando questionado. Ao ser chamado de machista, foi agressivo: “se não gostou, venha resolver comigo e não com toda a Massa!”. “Eu deixo as minas me ultrapassarem se quiserem. Melhor para mim, que vou ter algo para apreciar”, ironizou outro ciclista. “Mais piranha, menos picanha”, entoaram alguns quando as bicicletas passaram em frente a uma churrascaria. “Vem pra massa, moça, você é gata demais para estar dirigindo”, gritou um homem ao passar por uma motorista que parou para os centenas de ciclistas passarem.

Para que alguém diga que ser
ultrapassado por uma mulher
é humilhante, é preciso haver
uma aceitação prévia da ideia
de que a mulher está
numa situação inferior

Infelizmente todas essas situações de assédio aconteceram na Massa Crítica de Belo Horizonte (MG). Pensando nisso e observando como algumas mulheres se afastavam da celebração mensal, algumas delas se organizaram na capital mineira para pedalar juntas e articular ações para que episódios como esses deixassem de acontecer. Em fevereiro de 2014 manifestou-se a Massa Crítica Feminista de Belo Horizonte, que é uma junção das dissidências em cima de bicicletas: mulheres cisgênero e trans, pessoas não-binárias, negras, gordas, lésbicas e bissexuais que encontraram, umas nas outras, uma oportunidade de pedalar livremente, sem sofrer a opressão pela qual passam em todos os demais espaços além dos pedais. O grupo se reune de acordo com as demandas que surgem e a articulação é feita por meio de grupo criado  no Facebook.

A estudante de arquitetura Enne Maia, 28, é uma delas. “Fiquei sabendo do Massa Crítica Feminista dentro do grupo da Massa Crítica no Facebook. Depois de várias deliberações sobre gênero e casos de abuso, era essencial ter um espaço para discutir ideias e ações relativas a bike e gênero”. Enne também explica por que aquela organização foi necessária: “acreditamos e queremos falar sobre empoderamento feminista através de ação direta com a bicicleta”, responde.

A professora Renata Ayala avisa: "não deixaremos nosso direito de ir e vir ser cerceado pelo patriarcado!". Foto: Reprodução

A professora Renata Ayala avisa: “não deixaremos nosso direito de ir e vir ser cerceado pelo patriarcado!”. Foto: Gil Sotero

Dentro e fora da Massa

A luta pelo reconhecimento e respeito quando o assunto é gênero inclui também as discussões sobre racismo e sexualidade. Janaina Rochido, 35, jornalista, é negra e pedala com seu cabelo naturalmente crespo. “O que sempre acontece quando pedalo ‘à paisana’, sem capacete, com o cabelo solto, com roupas comuns, sou olhada como uma criatura exótica”. E Barbara Aouaghi, 35, professora de artes, conta que além do gênero, é comum ser violentada pela sexualidade. “Uma vez que um cara me chamou de ‘sapatão’ e outra o cara cantou uma música do Cazuza”. Além disso, ela acredita que é preciso estar alerta e saber se defender. “Eu acabei desenvolvendo minhas técnicas de auto defesa com o tempo”. E isso não é exagero quando lembramos, por exemplo, dos ocorridos com as ciclistas Vivian Souza e Marina Chevrand, além dos casos cotidianos de que nem sempre temos conhecimento por não serem denunciados.

Um dos casos citados no início da matéria pareceu uma simples imaturidade de um garoto que havia começado pedalar e não sabia lidar com os apontamentos sobre seu comportamento absolutamente machista. A ciclista atingida relatou o caso: “na Massa, quando estávamos passando pela Hermilio Alves, eu dei uma acelerada. Um dos participantes me ultrapassou falando: não vou ser ultrapassado por uma mulher!’”. O ciclista em questão primeiro disse estar brincando, mas depois tentou desconversar: “ao invés de ficar discutindo, vamos falar de coisa boa?”.

Outros integrantes insistiram na tentativa de que o ciclista repensasse seu comportamento e foi então que ele achou que seria o momento de ridicularizar a mulher que o denunciou a outros integrantes da Massa. “A mulher que não aceita isso: foda-se o dela. Sinto muito, você está de ‘criancice’”. E ainda ameaçou: “se aparecer na minha frente, vou mandar para ‘aquele lugar’ sem dó, porque estou ficando com raiva. Se não gostou, venha resolver comigo e não com toda a Massa! Minhas atitudes agora estarão na base da agressividade!”.

As discussões sobre este caso, além de apoio, despertaram ironias e falta de preocupação com o problema, que se mostrou maior do que a violência propagada pelo jovem que pedalava. Uma das respostas na discussão sobre o ocorrido partiu de um ciclista que além de dizer que deixaria as mulheres o ultrapassarem para apreciar seus corpos, disse que a discussão era desnecessária, já que “feminismo de verdade não existe, pois as pessoas que dizem ser feministas só querem os benefícios e não as obrigações”, mostrando profundo desconhecimento do que é o feminismo e quais são as suas pautas.

Massa Crítica Feminista: frente de luta anti-machismo criada por mulheres e para mulheres. Imagem: Massa Crítica Feminista

Massa Crítica Feminista: frente de luta anti-machismo criada por mulheres e para mulheres. Imagem: Massa Crítica Feminista

Solução entre mulheres: acolher e empoderar

A solução, então, foi criar um espaço onde elas trocariam vivências, criariam empoderamento e segurança, discutiriam o que pode ser feito sobre estes casos dentro dos ambientes ciclísticos, no trânsito como um todo e em toda a esfera pública e privada. “Se você é mulher, o medo de sofrer violência verbal e física, ser assediada e estuprada é muito maior. Por isso a necessidade de levar as discussões da Massa Crítica Feminista para outras esferas e alcançar o maior número de pessoas possível, para fazer chegar a todos que temos direito de estar ali na rua pedalando. Não deixaremos nosso direito de ir e vir ser cerceado pelo patriarcado”, avisa a professora de literatura Renata Ayala, 28. Não é possível discutir mobilidade urbana sem pautar os direitos das mulheres de serem reconhecidas e respeitadas. “Acredito ser muito importante discutir as pautas feministas no universo da mobilidade urbana em geral e da bicicleta, mais especificamente”, concorda Renata.

A ideia da Massa Crítica Feminista é combater a violência e acolher mulheres que pedalam para que a bicicleta seja mais presente no cotidiano delas e que elas próprias sejam vistas como sujeitas do trânsito. Janaína Rochido conta como essa organização entre mulheres é necessária: “pedalar juntas é questão de segurança, passa confiança uma para a outra, é troca de ideias, de experiências, é ocupar um espaço importante. Nesses tempos bicudos, ficarmos juntas, seja no pedal, na rua, ou no bar, é questão de sobrevivência em vários sentidos.”

O imaginário popular que coloca a mulher na posição de fragilidade vem sendo questionado há muito tempo pelas mulheres feministas, assim como a fragilidade da bicicleta e o ato de pedalar ser visto majoritariamente como uma atividade masculina. Mas e quando falamos sobre ser mulher ciclista? Para que alguém diga que ser ultrapassado por uma mulher é humilhante, é preciso haver uma aceitação prévia da ideia de que a mulher está numa situação inferior.

E para abolição desta ideia é preciso união. “É fundamental que todas as ciclistas e minorias em geral participem, porque até nos movimentos de bike encontramos atitudes esdrúxulas do patriarcado”, aponta Enne. Bárbara concorda: “vejo tudo como um mesmo sentimento de resistência e fortalecimento, mas a cidade é muito hostil, os homens são primitivos demais”. Renata conclui: “é preciso discutir assuntos sobre gênero, violência contra a mulher – principalmente no trânsito, preconceitos, machismos no universo da bicicleta, dentre outras temáticas”.

Num artigo sobre bicicleta e autonomia, Talita Noguchi, do coletivo de pedal feminino da capital paulista Pedalinas, questiona bem por quais motivos esse tipo de organização entre mulheres é visto com certa resistência. “A quem interessa manter essa imagem de dupla fragilidade? Quem sai ganhando com a submissão das mulheres ou da bicicleta? Quem sai ganhando com a submissão de uma mulher de bicicleta?”, pergunta.

A estudante de arquitetura Enne Maia: "é fundamental que todas as ciclistas e minorias em geral participem porque até nos movimentos de bike encontramos atitudes esdrúxulas do patriarcado". Foto: Reprodução

A estudante de arquitetura Enne Maia: “é fundamental que todas as ciclistas e minorias em geral participem porque até nos movimentos de bike encontramos atitudes esdrúxulas do patriarcado”. Foto: Gil Sotero


16 comentários para Mulheres se organizam para abolir o machismo dentro e fora do ambiente ciclístico

  • Tarantino

    …cisgêneros, trans, negras, gordas.

    Pra quê toda essa divisão? Não somos todos humanos?

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    • Cícero Soares

      Sim, Tarantino, sim, somos todos humanos, humanos machistas e não machistas, humanos homofóbicos e não homofóbicos, humanos racistas e não racistas, humanos desumanos e não desumanos, humanos que compreendem e humanos que não compreendem que há divisões para o mal e que há divisões para combater esse mal…

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  • RicardoP

    Eu acho que o site queima o filme publicando esse tipo de conteúdo ultra-radicalizado. Trata-se, inclusive, de um material que difama a luta das mulheres moderadas (a maioria absoluta) por respeito e igualdade. Esse papo de “patriarcado” serve apenas para criar conflitos e ridiculariza a própria mensagem que está sendo exposta. Os panfletos em formato “revolucionário”, com mensagens agressivas e que fomentam a divisão entre as pessoas, deixam tudo mais ridículo ainda.

    Hoje em dia a maioria das causas são sequestradas por radicais carentes, por pessoas problemáticas que instigam conflitos para conseguir atenção. É uma pena.

    Polêmico. O que acha? Thumb up 2 Thumb down 6

  • na boa? porque do incomodo ao ser ultrapassado (seja por homem, mulher, trans, CD, adulto, criança, cães, gatos, pássaros, alienígenas)? se for uma competição, foque em melhorar para não ser ultrapassado. se não, qual o ponto? se ultrapassar, a gente fica pra trás e a vida continua… quanto mais rápido, menos tempo tem-se de apreciar o passeio! se tivesse pressa, teria um carro e não uma bicicleta. ;)

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    • RicardoP

      É porque ser ultrapassado por alguém do “patriarcado” é ofensivo. É uma forma de “oprimir” elas. Eu sinceramente acho que o site queima o filme ao publicar esse tipo de conteúdo ultra-radicalizado.

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  • Eduardo

    Existem idiotas em todos os modais…

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  • Paulo Roberto Ferreira

    [Comentário oculto devido a baixa votação. Clique para ler.]

    Esse comentário não tem feito muito sucesso. Thumb up 1 Thumb down 18

  • [...] Os relatos contam que nos passeios era comum as ciclistas ouvirem comentários machistas. “Não vou ser ultrapassado por uma mulher!”, “Ser ultrapassado por mulher é humilhação total”,“Vem pra massa, moça, você é gata demais para estar dirigindo” são alguns dos exemplos apontados no texto publicado na página eletrónica “Vá de Bike”. [...]

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  • Paulo Henrique Guimaraes

    Eu, na verdade, vejo e entendo que os gêneros masculino e feminino, deveriam estabelecer relações harmônicas e complementares. Eles na verdade se completam e a competição produz um efeito subtrativo para ambos. Para mim esse tipo de situação não tem sentido algum. Eu não trabalho dessa forma. Gosto muito das mulheres que trabalham para mim e se um dia puder dar um passeio de bicicleta com alguma delas, farei isso com imenso prazer. Não sou nem machista nem feminista, apenas creio e invisto na capacidade que as pessoas têm para resolver nossos problemas. É absurda a hipótese de que os homens são mais fortes do que as mulheres, ou que as mulheres são mais sensíveis que os homens. Volto a insistir: são complementares. Competição? Pode esquecer.

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  • Força Garotas! Todo apoio à causa!
    Jessica me representa!

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  • maria luciani

    Essa raiva que o homem tem ao ser ultrapassado por uma mulher pedalando, é global, penso. Aqui em Curitiba, acontece o mesmo comigo, quando ultrapasso um homem. Ele faz de tudo pra ficar na frente. Eu acho graça. Só uma coisa a maioria dos homens desconhece; a mulher por razões biológicas, tem muito mais força nas pernas, por causa da gravidez. Relaxe, mulherada!

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    • Deal With It

      Deixa eu ver se entendi. Uma mulher dizer que é superior aos homens fisicamente na parte das pernas por questões biológicas, pode, mas um homem dizer que é fisicamente superior a uma mulher pelos mesmos motivos, sempre é machismo (como cansei de ler feminista escrevendo)… Bacana hein. Mas você deve estar certa, e deve ser por isso que eu com minha MTB de ferro e pneu 1.95 deixo um monte de mulher de Speed comendo poeira… e pra você não dizer que sou machista, deixo outros homens comendo poeira tb.

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    • Eduardo

      E é por toda essa força nas pernas que as mulheres não podem disputar o Tour de France com os homens… Ganhariam todos!
      (Meu Deus…)

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  • Tulio Borges

    Jéssica, eu sou seu fã.

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  • Carla Moraes

    Não poderia deixar de comentar e compartilhar esse belo texto, que sintetiza muitas coisas que penso e situações que já passei e tenho certeza que muitas outras mulheres irão se identificar. Jéssica, parabéns!! Esse texto significa muito, muito mesmo… e a Massa crítica de BH tá de parabéns… quero muito ir nesse pedal das mulheres aí um dia… quando estiver por BH eu vou fazer o possível para ir!! Beijos, beijos

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