Livro retrata ciclistas de bairros periféricos da região do Recife

Foto: Paulo Sultanum

Foto: Paulo Sultanum

Dizem que a beleza está nos olhos de quem vê. E foi no universo das bicicletas enferrujadas e surradas pelo uso que o fotógrafo pernambucano Paulo Sultanum dirigiu o seu olhar e as suas lentes fotográficas. Foram dois anos andando pelos bairros periféricos de municípios da Região Metropolitana do Recife, clicando “bicicleteiros” e seus instrumentos de locomoção. O que chama atenção nas imagens de Sultanum é a delicadeza de captar as belezas e detalhes, invisíveis dentro do contexto caótico que predomina nas grandes cidades. O resultado desse trabalho foi compilado no livro “Pernambuco Correia Virada”, lançado em 22 de setembro, Dia Mundial Sem Carro, na capital pernambucana. A obra tem a curadoria e concepção gráfica do pesquisador e fotógrafo José Afonso Júnior e do designer Raul Kawamura, e textos do arquiteto e urbanista Cristiano Borba e da jornalista Iara Lima.

Além da beleza plástica das imagens, o livro explora o eixo documental da urbes a partir da apropriação popular da bicicleta e a relação com a cidade. Nesta entrevista ao Vá de Bike, Sultanum traz um pouco de como foi o processo produtivo deste trabalho e o que despertou seu interesse pela temática.

Rosália Vasconcelos – Como surgiu o teu interesse pela bicicleta?

Paulo Sultanum - Meus pais deram a mim e aos meus irmãos nossa primeira bicicleta quando éramos criança. Eu tinha 5 anos. Lembro as peripécias que fazíamos, as quedas, os arranhões, o pedal rachando o osso da canela. A partir daí eu tive algumas outras bicicletas, umas com marchas, outra sem marchas, uma foi roubada a tapa, a outra sobreviveu a um assalto. Eu pedalava aqui e ali por Boa Viagem, bairro no Recife onde nasci e cresci, mas enquanto isso eu mantinha uma relação muito próxima com os porteiros, zeladores, entregadores, vendedores de frutas no Recife da Rua das Calçadas, Rua Direita, em Boa Viagem, Aldeias e Regiões da Zona da Mata. O tipo “caboclo cabra da peste”, hora gentil, hora jagunço, que usava a bicicleta como meio de transporte no seu dia a dia, com seus adereços, enfeites, porta objetos e bancos com estofado colorido de napa, com direito a penduricalhos e tudo mais, um festival de cores, texturas e personalidade. Já nos anos 90, minha mãe me estimulava a usar a bicicleta como modal, enquanto meu pai nos levava para conhecer as pessoas e os lugares mais desprovidos da nossa cidade e região metropolitana, isso há mais de 30 anos. Conversávamos e interagíamos com gente que pedalava porque não fazia sentido possuir um carro. A bicicleta reinava e o automóvel de passeio era um personagem secundário. Então posso dizer que o interesse aconteceu por osmose. Essa é a estética de Seu João, Seu Heleno, entre outras que permeiam o meu imaginário, e quando passo em frente à garagem do prédio onde morava, estico o pescoço à procura de uma ou outra Monark encostada na parede. Mas só vejo carros.

“De bicicleta dá pra
ver a cidade a granel”

A partir das brincadeiras sobre duas rodas, a bicicleta virou um importante meio de locomoção quando me mudei para Boston (EUA), onde morei por quatro anos, a partir de 1998. Passei três anos e meio sem carro, o dinheiro era pouco e a bicicleta era um dos meus principais meios de transporte, assim como ônibus e metrô. Mas a bicicleta é o meu modal favorito, pois dá para ver a cidade a granel, sentir os cheiros, interagir, ver, sentir e viver a cidade de uma forma mais real e natural.

Foto: Paulo Sultanum

Foto: Paulo Sultanum

RV – E por que a bicicleta tida como “popular”?

PS - Fotografei as bicicletas populares por sua estética, sua importância cultural e como um protesto às prioridades de mobilidade urbana da minha cidade que mergulhou de cabeça na armadilha do automóvel. Isso a despeito da real e invisível demanda dos ciclistas que fazem um enorme favor a nossa cidade ao escolher pedalar.

RV – Na produção das imagens, quais aspectos te chamaram mais atenção?

PS - As pessoas, as cores, as texturas, os muros, as ruas, os bairros, a emoção da abordagem e da conversa. Em um outro livrinho chamado “Pernambuco Cor de Canela”, eu retrato somente as pessoas que encontrei nessas viagens.

RV – O que esse olhar mudou em sua perspectiva de mobilidade e da bicicleta?

PS - Me deu mais coragem para pedalar em Recife. Mais respeito aos ciclistas que pedalam na selva de asfalto e navegam no perigoso mar de carros em que a minha cidade, o meu país – aliás, o mundo – se transforma.

RV – Além de fotografar, você conversava com os ciclistas no trabalho de campo? Alguma história te comoveu ou te despertou atenção/interesse?

PS - Sim. São muitas histórias. Mas uma que se destaca e que me comoveu foi um cadeirante que adaptou sua cadeira de rodas com catraca e pedal ao alcance de suas mãos. Era assim que ele se locomovia, num triciclo, uma fusão, bicicleta e cadeira de rodas. Muitas outras histórias sobre pessoas que pedalam desde que são crianças e que nunca quiseram possuir um automóvel; que têm uma relação amorosa, por vezes de devoção, às suas magricelas. Essa foi uma constante durante esses encontros.

“Se atropelar alguém em San Francisco,
é dor de cabeça conseguir um
habeas corpus e se safar.
O buraco é bem mais embaixo.”

RV- Você já morou em San Francisco (EUA), onde o uso da bicicleta como modal tem uma outra concepção. Pode resumir essa experiência no uso da bicicleta lá nos Estados Unidos?

PS - Na San Francisco de hoje, o movimento ganha espaço a cada dia, a duras penas. O “Bike Coalition” promove debates e pressiona o poder público, o “Critical Mass” fecha e colore as ruas com ondas de ciclistas fantasiados, indignando alguns motoristas e retomando o espaço que foi tomado pelos automóveis. Há muita tensão nas relações, mas muito respeito. É a velha história: lá não vale a pena perder o controle. Se atropelar alguém, é dor de cabeça conseguir um habeas corpus e se safar. Se o motorista atropela um pedestre ou ciclista, o buraco é bem mais embaixo. Isso faz toda a diferença nas relações diárias entre um motorista aborrecido que tira seu carro da garagem na segunda-feira de manhã e o pedestre ou ciclista que acorda nas mesmas condições emocionais, mas numa desvantagem física enorme. A diferença é que uma vida vale anos, ou mesmo décadas atrás das grades.

Foto: Paulo Sultanum

Foto: Paulo Sultanum

RV – E qual o resultado desse outro contexto?

PS - O resultado é o diálogo. Que fique claro que a coisa não é um mar de rosas, mas na região metropolitana de São Francisco está avançando bem, temos um sistema de ciclovias razoável e ciclofaixas distribuídas pela cidade de São Francisco e Oakland. Lá eu pedalo diariamente, é meu meio de transporte principal para fazer tudo, fazer compras, ir ao banco, ir ao trabalho, ao médico, é assim que me locomovo. Já em São Paulo, há cinco ou seis anos atrás, eu deixava o carro na garagem e enfrentava o trânsito caótico, sempre com muita cautela mas com muita alegria. Quando morei em Boston em 1998 não havia muitas ciclovias mas dava para pedalar em paz. Hoje Boston mudou e abriu espaço ao modal bicicleta, assim como outras cidades norte-americanas como Minneapolis, Portland e Los Angeles, que dá os primeiros passos ao que poderá vir a ser uma revolução. Tudo isso acontece em paralelo ao perigosamente sedutor modal que serão os carros autodirigíveis que a Uber/Google anunciam lançar nos próximos meses em São Francisco.

O movimento dos ciclistas cresce nos EUA, o país do automóvel, um país imenso, mais parecido com o Brasil do que países da Europa, e que tem alguns projetos interessantes em andamento, incluindo o USBRS (United States Bicycle Route System), um projeto que objetiva construir um sistema de freeway cicloviária para conectar todo o país. Mas tudo isso às custas de muita pressão, às custas de uma sociedade civil unida, organizada e que pressiona com consistência e perseverança. Nada está vindo de mãos beijadas.

RV – Por que o nome “Pernambuco Correia Virada”?

PS - É uma uma homenagem ao Maracatu de Baque Virado (movimento cultural pernambucano).

Foto: Paulo Sultanum

Foto: Paulo Sultanum

Esclarecimento

Lamentamos que com tantas mensagens importantes que a produção desse livro, o seu conteúdo e o texto da entrevista possam transmitir, os dois primeiros comentários feitos em nossa fan page polemizem sobre a escolha de palavras do título, que originalmente havia sido: “Livro retrata bicicleteiros de bairros periféricos da região do Recife”.

Quem acompanha nosso trabalho sabe que nunca fizemos essa distinção absurda entre “ciclistas” e “bicicleteiros”, tampouco utilizamos este termo de forma pejorativa. Pelo contrário: nos opomos a esse tipo de categorização e a qualquer forma de discriminação, seja social, de gênero, étnica, geográfica e até mesmo em relação a tipos de bicicleta, vestimenta e perfis de uso.

O título foi uma sugestão da jornalista, que decidimos acatar pois entendemos que as pessoas retratadas não têm na bicicleta apenas um meio de transporte, mas dedicam um carinho a ela que pode ser notado nos adereços, acessórios e adaptações. A bicicleta transcende o utilitarismo e faz parte da cultura desses ciclistas. O termo foi utilizado para tentar passar essa relação íntima e admirável que eles têm com a bicicleta. Tanto que o endereço da página já utilizava o termo “ciclista”.

Lamentamos profundamente que conceitos pré-estabelecidos sobre o que seriam ciclistas ou bicicleteiros possam ter feito com que fôssemos mal interpretados. Entendemos os questionamentos e pedimos desculpas pelo equívoco causado pela escolha das palavras, que foi feita – e podemos dizer isso plenos de sinceridade – com o maior carinho.

Contra nossa vontade, alteramos o título original, para que o preconceito semântico de alguns leitores não mais embote a leitura da entrevista.

A Redação


1 comentário para Livro retrata ciclistas de bairros periféricos da região do Recife

  • Deplorável a tentativa de utilizar um termo chulo e preconceituoso que nunca será uma correta categorização. A missiva da tentativa de justificar um erro é uma demonstração de falta de capacidade de entender o verdadeiro sentido do que seja um termo pejorativo e discriminatório, que surgiu como forma de “separar” ciclistas ricos de pobres nas grandes cidades. O site deveria é fazer uma campanha para que as pessoas não utilizem termo, que nada têm de carinhoso. A jornalista devia estudar mais e entender o Brasil para não cair nas armadilhas do preconceito arraigado na cultura brasileira.O cicloativista Denir Mendes Miranda, da Ong Transporte Ativo, em seu artigo BICICLETA, ORDEM E PROGRESSO faz algumas considerações interessantes:
    Entre os usuários da bicicleta percebe-se, igualmente, a reafirmação das desigualdades sociais. O uso do termo bike é o sintoma mais claro disto. E bicicleteiro como termo pejorativo. A linguagem é o primeiro canal de manifestação das ideologias aparentes e ocultas. Depois que o modismo californiano chegou ao Brasil, o objeto-bicicleta foi apropriado pela classe média, para lazer e diversão – muitas vezes para extravasar, longe do asfalto, a tensão das cidades dos automóveis. Bicicleta passou a ser “bike”. Novamente o american way of life como sinal de modernidade, de evolução tecnológica – que é a diferença básica entre as bicicletas de transporte e as mountain bikes… Este é o Brasil: desigual, preconceituoso, estratificado, positivista.

    Quem quiser ler o artigo completa, acesse o link a seguir:
    http://www.ta.org.br/site/area/arquivos2/bop.pdf

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