O uso da sarjeta como parte da ciclovia, em Buenos Aires e em São Paulo

sarjeta como ciclovia buenos aires

Poças d’água se formam em “bicisendas” construídas em sarjeta. Foto: André Horta

Pedalar nas “bicisendas”, como são conhecidas as ciclovias em Buenos Aires, Argentina, é uma forma agradável e segura de acesso a diversos pontos da cidade. Contudo, muitos quilômetros das “bicisendas” foram projetados sobre sarjetas, espaços originalmente destinados ao escoamento das águas das chuvas. Em razão disso, não é raro o ciclista se deparar com bueiros e outros “obstáculos naturais” desta parte da via.

A ideia de transformar a sarjeta em faixa de tráfego para bicicleta abre espaço na via, o que diminui a conflituosa disputa com outros meios de transporte. Mas, por outro lado, impõe ao ciclista maior atenção e manobras de desvio constantes para evitar algumas armadilhas.

Grelhas na bicisenda. Foto: André Horta

Grelhas na bicisenda. Foto: André Horta

Encontrar uma poça d’água pela frente, algo comum em sarjetas, por exemplo, pode resultar no inconveniente de chegar ao compromisso com a roupa suja. Em relação aos bueiros o perigo está, muitas vezes, na existência de degrau entre o piso e a grelha que tampa o bueiro. Isso pode até cortar o pneu da bike. Outro risco é que parte da roda possa entrar num dos espaços da grelha, o que levaria o ciclista à queda. E há também as “massas de cimento” – rampas instaladas irregularmente como forma suprir a inexistência de guia rebaixada para a passagem dos carros.

Nem todos os usuários se animam, no entanto, a arriscar esse tipo de malabarismo. “Tenho um pouco de insegurança de pedalar na sarjeta, principalmente em trechos inclinados. Quando não vem nenhum ciclista no sentido contrário eu aproveito para usar a outra faixa”, conta Pedro Augusto, um morador de Buenos Aires que costuma usar mais a bike para o lazer nos fins de semana.

Há obstáculos inusitados. Galhos de árvores que avançam sobre a sarjeta podem dificultar a visualização recíproca de ciclistas que se aproximam vindos de sentidos contrários. Isso aumenta as chances de uma colisão frontal. Talvez menos grave, mas da mesma forma indesejável, seja o choque do ciclista desatento contra os galhos da árvore, acidente que provavelmente renderia, além de muitas dores, inúmeras piadas.

A ciclovia que percorre a avenida Libertador, uma das principais na capital argentina, foi implantada, na maior parte da sua extensão, na calçada. Isso faz com que pedestres e ciclistas compartilhem o mesmo espaço. Todavia existe um trecho da “bicisenda”, nas proximidades da avenida José M. Mería, no bairro Retiro, que foi implantado na sarjeta e justamente onde há elevada inclinação lateral. A obra foi imaginada, claro, para permitir o escoamento mais rápido de água. Nesse mesmo trecho da ciclovia há outro obstáculo: uma grade instalada na calçada para evitar que pedestres atravessem a avenida fora da faixa quase “encurrala” o ciclista e exige redobrar a atenção para manter o equilíbrio.

Pedalar pelas sarjetas de Buenos Aires não chega a ser um problema, mas exige atenção. De um lado, cabe sempre ao ciclista aprimorar o senso do desvio dos obstáculos que surgem à sua frente, mas por outro a solução ameniza os conflitos com os demais modais de transporte.

A experiência portenha serve, no entanto, como exemplo para as discussões sobre o tema nas cidades onde pedalar ou não na sarjeta ainda é uma questão. Manter a qualidade do pavimento da sarjeta, remover obstáculos e implementar condições que ofereçam melhor segurança aos ciclistas são questões que o poder público, que deseja incorporar as bicicletas ao meio urbano, tem de enfrentar.

O asfalto é preparado para receber as "folhas" de tinta. Foto: Josias Lech

Área de sarjeta sendo coberta pelas “folhas” de tinta, que recebem tratamento com maçarico para aderir ao pavimento. Técnica encobre parcialmente as irregularidades. Foto: Josias Lech

O uso da sarjeta em São Paulo

Por Willian Cruz

A estrutura cicloviária de São Paulo já recebeu diversas críticas por utilizar também a área de sarjeta, que no caso local foi pintada. Há semelhanças e diferenças entre as duas situações.

Como em Buenos Aires, há irregularidades, grelhas, desníveis e poças d’água em algumas das sarjetas utilizadas. Como Horta pontou sobre Buenos Aires, também por aqui isso não chega a ser um problema, pois as ciclovias/ciclofaixas são via de regra de mão dupla e suficientemente largas (aparentemente até mais do que as argentinas) para desviar desses incômodos sem que o ciclista seja ameaçado por um automóvel – esse sim o real perigo para quem pedala. Além do mais, esses problemas não são a “regra”: apesar de frequentes em alguns trechos, a ponto de atrapalhar de fato, são relativamente raros em outros e passam praticamente desapercebidos pelos utilizadores.

Vale lembrar que em muitos casos a área de sarjeta é utilizada também para a circulação de carros, principalmente em avenidas onde o número de faixas foi ampliado ao longo dos anos através da redução de sua largura, sem que isso tenha sido motivo de crítica ou questionamento ao sistema de circulação baseado em automóveis. Nesses casos, a sarjeta costuma ser nivelada e ter as grelhas reformadas para suportar o peso dos automóveis.

Equipe da Prefeitura de São Paulo realizando reforma em sarjeta. Foto: Willian Cruz

Equipe da Prefeitura de São Paulo realizando reforma em sarjeta. Foto: Willian Cruz

Uma crítica comum é a de que buracos foram apenas cobertos por tinta, o que em alguns locais não deixa de ser verdade. A primeira tinta utilizada nas ciclovias paulistanas era chamada de “tinta a frio”, uma camada fina que chegou inclusive a perder coloração com o tempo. Atualmente é utilizada a “tinta a quente”, uma camada mais grossa aquecida com maçarico, que ajuda a encobrir parte das irregularidades.

Soluções

A melhor solução para utilização dessas áreas para o tráfego de bicicletas seria recapeá-las com asfalto pigmentado, como é feito na Holanda. A medida foi prometida em outubro de 2014, mas até agora não houve avanço nesse sentido.

Para que não fosse necessário utilizar a área das sarjetas como parte das ciclofaixas seria preciso reduzir o espaço de circulação do automóvel, o que ainda não é bem visto pela parte da população que acredita que a prioridade de deslocamento deve continuar sendo dos carros – apesar do Plano Diretor Estratégico da cidade, do Plano Nacional de Mobilidade Urbana e das melhores práticas de urbanismo adotadas no mundo dizerem o contrário. Salvo raras exceções, a malha cicloviária paulistana tem ocupado espaço que antes era destinado a estacionamento e parada de automóveis, sem reduzir a quantidade de faixas de rolamento.

Reparos podem ser solicitados pelos cidadãos

A Prefeitura de São Paulo tem, aos poucos e de forma ainda tímida, reformado algumas áreas de sarjeta, fazendo nivelamento e eliminando com concreto as irregularidades e buracos. Se essa situação lhe incomoda, vale lembrar que a correção pode e deve ser solicitada pelos cidadãos, através do telefone 156 ou do site do Sistema de Atendimento ao Cidadão. Recomendamos que o registro seja feito pelo site, para que seja possível acompanhar com facilidade o andamento através do número de protocolo.


6 comentários para O uso da sarjeta como parte da ciclovia, em Buenos Aires e em São Paulo

  • Rafael Palacio

    Apesar de raríssimas exceções, a sarjeta é intransitável para bike, e na cidade de São Paulo ela está inclusa em todas as ciclovias…

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  • As bicisendas de Buenos Aires, que conheci em 2013, não são nenhum inferno justamente porque as ciclovias são relativamente largas e a separação (esse “tachãozão amarelo”) não permite que veículos comuns entrem na ciclovia. Apenas caminhões de lixo ultrapassam a barreira para recolher as caçambas.
    As sarjetas eram bem largas, e quando não havia ciclista no sentido contrário, dava pra pedalar “na contramão” da ciclovia também.
    A diferença de lá pras ciclovias em BH, por exemplo, é que aqui consideraram a sarjeta como parte útil, mas que na verdade não são. AS sarjetas daqui são estreitas e desniveladas, como uma canaleta. Isso piora e muito a área útil da ciclovia.

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  • olá,sou um usuario diario de bike,pedalo 40km/dia,não tenho 1km de ciclovia,uso a avenida ragueb chofii e a avenida sapopemba,além de tudo ainda não sou respeitado por motoristas de onibus,é um absurdo,uma cidade como são paulo não respeitar o ciclista!
    Claudio,São Paulo.cidade Tiradentes z/l.

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  • ALEKSANDRO

    Na barra funda até a santa efigênia tb é assim, trecho muito bom que mescla com partes onde só é possível andar em uma das faixas…

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  • Marcel Morgado

    Ontem passei na ZN, próximo do Shopping Center Norte.
    A prefeitura está fazendo o recapeamento do asfalto da Av. Zaki Narchi, porém o asfalto onde está a ciclovia está sendo mantido, acredita?

    Comentário bem votado! Thumb up 5 Thumb down 0

    • Leandro Camargo de Oliveira

      Passei na Zaki na quarta feira, e é verdade grande parte da ciclovia no sentido Center norte continua com pavimento antigo, mas no sentido Ataliba Leonel boa parte do pavimento cicloviário foi retirado, pelo que percebi, na área onde eram constantes alagamentos. Fico preocupado em quanto tempo se dará a reimplantação e com essa será feita.

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