Alerta: várias ciclovias em São Paulo estão sendo removidas silenciosamente

Trecho de ciclovia removido por recapeamento na Avenida Aratãs. Foto: Estevao Laurito

Trecho de ciclovia removido por recapeamento na Avenida Aratãs. Foto: Estevao Laurito

Diversas ciclofaixas começaram a ser fresadas e recapeadas essa semana em São Paulo. O processo é muito semelhante ao que ocorreu na ciclovia removida do Morumbi, colocando em alerta quem usa a bicicleta para se deslocar na cidade.

Fresagem em ciclovia do Bom Retiro: passo anterior ao recapeamento. Foto: Beni Fisch

Fresagem em ciclovia do Bom Retiro: passo anterior ao recapeamento. Foto: Beni Fisch

Como no caso anterior, as obras não foram comunicadas à Câmara Temática da Bicicleta, espaço oficial de participação dos ciclistas junto à Secretaria de Mobilidade e Transportes (SMT). Outra semelhança é que nesses novos casos a CET e a SMT também não souberam responder sobre as intervenções de imediato – o que é de se estranhar, pois são alterações na sinalização de trânsito, que teoricamente só poderiam ser feitas com anuência do órgão por ela responsável.

Quem acaba por dar a primeira resposta coerente sobre essas ações acaba sendo sempre a Secretaria de Coordenação das Prefeituras Regionais. A justificativa é que são sempre intervenções pontuais, temporárias, de manutenção e que a sinalização cicloviária será restaurada brevemente. Mas aí vem outra coincidência: as ações acontecem sempre somente na área de ciclofaixa, em alguns casos acompanhada de retirada de tachões.

Para quem acompanhou o caso da ciclovia da rua Dr. Fausto de Almeida Prado Penteado e Av. Amarílis, no Morumbi, a situação é preocupante. Como aquela, essas ciclovias podem não voltar mais. No caso da primeira remoção, a gestão João Doria afirma que ela só será sinalizada novamente depois de “amplo debate” envolvendo os moradores – que são contra a estrutura, pois suas vidas não dependem dela e o estacionamento de seus carros na via pública foi prejudicado.

O assunto fez parte da pauta da reunião extraordinária da Câmara Temática da Bicicleta ocorrida na quinta-feira, 18 de maio. Veja o relato do coletivo Bike Zona Sul.

Trecho do Bom Retiro, já parcialmente recapeado. Foto: Beni Fisch

Trecho do Bom Retiro, já parcialmente recapeado. Foto: Beni Fisch

Ciclocidade (Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo) enviou nota ao Vá de Bike a respeito da situação: “Desde o primeiro caso de remoção de ciclofaixa a Ciclocidade vem buscando caminhos para conter os já evidentes retrocessos – seja através da Câmara Temática de Bicicleta, seja oficiando a gestão e denunciando o desmonte das políticas cicloviárias. A ausência de diálogo, a falta de planejamento e de um plano cicloviário e o desrespeito às leis e ao dinheiro público têm sido a marca da gestão Doria para a mobilidade por bicicletas nestes 130 primeiros dias de administração”.

História confusa

Uma das ciclovias que está sendo removida por fresagem e recapeamento fica no Bom Retiro, especificamente na Rua Silva Pinto, próximo à Rua Anhaia. Como em outros casos, o recape acontece apenas sobre a área destinada à ciclofaixa. O local tem grande fluxo de bicicletas devido aos trabalhadores do comércio local, alguns dos quais realizando entregas com cargueiras – como é o caso das empresas que entregam aviamentos para as confecções do bairro.

Ontem, quinta-feira (18), nossa redação questionou a CET sobre a intervenção, mas eles não estavam a par do que estava sendo feito. Nos pediram para inquirir a Secretaria das Prefeituras Regionais, que nos respondeu em nota que a fresagem do asfalto seria em razão de uma instalação de rede de fibra ótica. “A pintura será realizada novamente pela empresa privada responsável pelo serviço”, segue a nota, informando que “à Prefeitura Regional Sé compete verificar, após a conclusão nas obras, se a recomposição do pavimento, bem como a pintura da via está de acordo com as normas exigidas pelo município”.

Obra seria decorrente de instalação de uma rede de fibra ótica, mas o recapeamento da uma faixa inteira, em tão longa extensão, está bem longe do procedimento padrão. Foto: Beni Fisch

Obra seria decorrente de instalação de uma rede de fibra ótica, mas o recapeamento da uma faixa inteira, em tão longa extensão, está bem longe do procedimento padrão. Foto: Beni Fisch

Consultamos um engenheiro que trabalha no setor, que achou estranho uma instalação de rede de fibra ótica precisar de fresagem e recapeamento. “Qualquer tipo de infraestrutura urbana, seja fibra ótica, seja gás ou eletricidade, não se utiliza deste método”, esclarece Mario Araujo, 42, lidera uma equipe de engenharia que atualmente está fazendo instalações desse tipo de fibra.

“Uma fibra ótica precisa ser acondicionada dentro de uma tubulação que proporciona proteção mecânica”, explica Araujo. “Esta tubulação deve ter profundidade de 3 a 4 metros, para minimizar o risco de rompimento das tubulações e suas respectivas fibras, pois toda a tubulação de água e esgoto fica acima desta cota e elas possuem muitas intervenções para manutenção. A profundidade diminui para 1 metro apenas próximo às caixas de emendas. A única instalação que fica na superfície do asfalto é aquelas que servem de sensores (semáforo, tráfego, velocidade) para veículos e são visíveis após a instalação.”

De acordo com o engenheiro, a instalação desse tipo de tubulação não demanda a retirada de todo o asfalto. “Quando o método utilizado é a escavação, é necessário abrir uma vala de, no máximo, 50 cm de largura. Porém hoje o método mais utilizado não requer escavação: trata-se do popularmente conhecido como “tatuzinho”. Neste método é realizada uma única furação de 1×2 metros para a passagem da broca. Esta furação possui profundidade de até 4 metros.”

Por que então foi removido o asfalto em toda a largura da ciclofaixa? Façam suas apostas.

Ciclovia removida no Largo do Socorro. Foto: Bike Zona Sul

Ciclovia removida no Largo do Socorro. Foto: Bike Zona Sul

Diversas ciclovias sendo removidas

Trecho a trecho, a infraestrutura cicloviária da capital paulista dá sinais de estar sendo desmontada. Aos poucos, em pequenos pedaços, sem muito alarde. Mas, como os ciclistas paulistanos realmente utilizam as estruturas, percebem essas retiradas. Além do Morumbi e do Bom Retiro, recebemos informações sobre vários outros pontos onde ocorrem remoções, todas com o mesmo procedimento de fresagem e recapeamento.

Um desses pontos de remoção fica na Avenida Aratãs, próximo à esquina com a Al. dos Guainumbis (bairro de Indianópolis). A ciclovia foi removida por recapeamento apenas num trecho curto, em frente a três residências com guia rebaixada, onde o estacionamento continua, de qualquer forma, proibido. A foto desse local é a que abre essa matéria, no topo da página.

Outro trecho retirado fica na região de Guarapiranga. Depois das obras do novo corredor da Av. Guarapiranga, a ciclovia não recebeu sinalização horizontal e virou local de estacionamento, embora ainda exista uma placa sinalizando como tráfego de bicicletas. Esse trecho servia de ligação com a margem oeste da Ciclovia Rio Pinheiros, próximo ao Largo do Socorro.

Outro trecho do qual recebemos relato fica na Av. dos Jangadeiros, em Interlagos. Ainda não recebemos imagens desses local. Se você tiver, nos mande no e-mail contato@vadebike.org, por gentileza, e acrescentaremos à matéria.

Atualizado: Havíamos citado um sexto trecho, relatado por uma leitora na Rua Tutoia, mas Beni Fisch passou por lá e nos mandou as fotos abaixo. Parece ser apenas um tapa-buraco comum, que não foi repintado. São portanto cinco pontos de risco até esse momento. Obrigado, Beni!

Fotos: Beni Fisch

Fotos: Beni Fisch


1 comentário para Alerta: várias ciclovias em São Paulo estão sendo removidas silenciosamente

  • Mário

    Que retrocesso. As entidades internacionais que premiaram Haddad por sua gestão progressista, deviam dar o troféu abacaxi para o mimadinho dolynho!!!!!

    Comentário bem votado! Thumb up 6 Thumb down 0

Enviar resposta

  

  

  

Você pode usar estas tags HTML

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>