Uma Ghost Bike foi instalada no local do atropelamento. Foto: Simone Penninck/BZO

Atropelamento e fuga: ciclistas fazem homenagem e ghost bike a Joab Xavier

Motorista não foi identificado, mas família suspeita de vingança por parte de um motorista de ônibus

Um ciclista trafegava pela avenida, quando um motorista o atropelou, matou e fugiu. A história lembra a de Marina Harkot, mas as semelhanças acabam por aí: no caso de Joab Xavier de Oliveira, o motorista não foi identificado até agora, quase 20 dias depois de sua morte. E, pelo jeito, nem vai ser.

Joab, de 34 anos, foi atropelado na Av. Jacu-Pêssego, Zona Leste de São Paulo, na madrugada de 4 de novembro. O local era parte de seu trajeto diário para o trabalho, de Itaquaquecetuba até o bairro de São Mateus, cerca de 30 km de percurso. Mas naquela quarta-feira, por volta das 3 horas da manhã, sua vida foi abruptamente encerrada.

Suspeita de vingança

De acordo com matéria do SP1 (Globo), policiais que atenderam a ocorrência disseram que, pelo tipo de ferimento, a impressão inicial foi de que ele teria sido atropelado por um caminhão. Mas familiares do ciclista dizem ter conversado com uma testemunha, que afirmou ter visto um ônibus ou micro-ônibus atropelando Joab.

Sua esposa, Raquel da Silva Oliveira, conta que ele teve uma discussão com um motorista de ônibus, há cerca de um mês. “Ele estava indo trabalhar e um ônibus ‘fechou ele'”, declarou Raquel ao G1. “Ele deixou para lá, mas conforme ele foi passando, ele [Joab] disse [ao motorista:] ‘cuidado, rapaz’. Mas ele disse que o rapaz continuou provocando ele. Ele não era uma pessoa de briga, todo mundo que conhece ele, todo mundo sabe [que ele não era de briga].”

“Provocar”, nesse contexto, provavelmente significa que o motorista ficou ameaçando com o veículo, jogando o ônibus em cima. É uma situação pela qual muitos de nós, que pedalamos nas ruas, já passamos em algum momento. A viúva conta que as provocações continuaram e que Joab então “não aguentou e socou o retrovisor”. Depois disso, o motorista o teria ameaçado de morte: “se eu te pego, eu vou te atropelar”.

Em 2014, um motorista de ônibus jogou o ônibus propositalmente sobre nosso colaborador Enzo Bertolini e ainda o ameaçou, dizendo que o atropelaria se estivesse à frente do ônibus. Também já passei por situações assim diversas vezes, mas sem testemunhas não há como provar que o crime ocorreu. Leia o relato do Enzo. Fotos: Enzo Bertolini

Ao que tudo indica, o motorista fechou Joab e ainda continuou jogando o ônibus em cima do ciclista repetidas vezes. Essa é uma situação que sabemos ser extremamente revoltante para quem está na bicicleta, pelo risco direto em que nos coloca. É o equivalente a tentarem nos matar e, quando o ato é intencional, muitas vezes a reação acaba sendo agressiva.

A família suspeita que esse motorista de ônibus tenha atropelado Joab propositalmente, ao reencontrá-lo pedalando no mesmo local e horário. O ciclista pode ter sido morto pelas costas, sem chance de defesa, sem tempo para entender o que estava acontecendo.

Nem o motorista e nem o veículo foram identificados. Uma possível linha investigativa seria descobrir quais ônibus faziam o trajeto nesse horário e descobrir se algum deles apresenta avarias, talvez intimar os motoristas que trabalhavam naquele dia, horário e local para depor. Mas a polícia investiga o caso apenas como um “acidente de trânsito”.

Arrastado por um micro-ônibus

O cunhado de Joab, Fábio do Amaral, fez uma declaração em vídeo no canal Entregadores Brasil questionando se haveria imagens das câmeras do motel que fica do outro lado da avenida e se os funcionários não teriam visto nada.

Ele pede a implantação de ciclofaixa e sinalização no local e, sobretudo, que as pessoas que viram o atropelamento ou que tenham informações ajudem nas investigações. “Pessoal do motel, que deve estar vendo esse vídeo, pessoal que passou no momento, que viu o acidente, viu que ele estava sendo arrastado, porque ele foi arrastado sim pelo micro-ônibus, que acompanharam e não testemunharam: por favor, em nome da família, eu venho pedir para que vocês possam nos ajudar a identificar essa pessoa.”

Até o momento, tudo indica que esse crime ficará impune. E o criminoso continuará dirigindo e colocando em risco a vida de outros ciclistas, pedestres, motociclistas e até motoristas.

Quem tiver informações sobre o atropelamento deve ligar para o Disque Denúncia, no telefone 181. Não é necessário se identificar.

Ciclovia

O local onde Joab morreu não tem ciclovia. E nem terá tão cedo. Imagem: Google Street View

“A região de São Mateus, onde Joab foi morto, possui poucas ciclovias e ciclofaixas e ainda não está conectada ao restante da rede”, relata Thomas Wang, no site do coletivo Bike Zona Sul.

“Recentemente a Prefeitura iniciou a sinalização de uma ciclofaixa em um trecho da Av. Jacu-Pêssego, porém o local onde Joab foi atropelado não terá ciclovia. Se a Prefeitura tivesse feito uma ciclovia por toda avenida, talvez Joab estivesse vivo”, completa.

Além de proteger a vida de quem pedala, as ciclovias ainda passam uma mensagem bem clara: o ciclista tem direito de estar ali e, naquele espaço, os motoristas não devem trafegar. Joab parece ter sido morto pela intolerância, porque um motorista via como ofensiva sua presença na faixa de ônibus – que era o local correto de circulação nesse caso, por se tratar da faixa direita da via.

Uma ciclovia nesse trecho da Jacu-Pêssego poderia ter salvado Joab. Assim como uma ciclovia da Rua dos Trilhos poderia ter salvado Lucas. Não podemos aceitar atropelamentos de ciclistas por falta de ciclovias ou desrespeito às leis de trânsito. Todo ciclista importa, em todas regiões da cidade, seja em bairros nobres ou na periferia.

Sabemos que o trânsito de São Paulo é violento, mas também sabemos que ciclovias diminuem as mortes de ciclistas, então por que a Prefeitura demora tanto para fazer ciclovias?

Precisamos de ciclovias para proteger pessoas e evitar mortes. Precisamos de ciclovias para que São Paulo seja mais segura e humana.

– Thomas Wang, Bike Zona Sul

Homenagem

Ciclistas de toda a cidade (e até do ABC) se encontraram na estação São Mateus do Metrô. Foto: Thomas Wang/Bike Zona Sul

Indignados com o atropelamento covarde e impune, com a falta de avanço nas investigações e com a falta de ciclovias na cidade, que poderiam ter protegido a vida de Joab, ciclistas, familiares e amigos fizeram um protesto e uma homenagem à vítima, no local onde sua vida foi repentinamente retirada.

Cartazes pediam justiça para Joab Xavier. Foto: Simone Penninck/BZO

“Cerca de 60 ciclistas de todas regiões e até do ABC estiveram presentes para homenagear Joab, assim como grupos de pedal como o Pedala Itaquera e as Magrelas Aladas”, conta Thomas, no site do Bike Zona Sul.

“Junto aos ciclistas estavam parentes, amigos e colegas de trabalho, que participaram em carros e motos. O cortejo foi escoltado pela Polícia Militar desde a Estação São Mateus (Metrô Linha 15 Prata).”

Nas bicicletas, cartazes davam o tom da manifestação, mostrando indignação e questionando a gestão Bruno Covas: “quais são as propostas da gestão atual em relação à violência no trânsito?” – Foto: Thomas Wang/BZS

“A primeira parada foi a empresa Costa Lavos, onde Joab trabalhava. Para homenagear Joab, os companheiros de trabalho colocaram os caminhões em fila, de frente para o cortejo. Durante o tempo que ficamos lá, colegas de trabalho fizeram discursos falando de Joab e contando um pouco sobre ele”, completa.

Protesto e Ghost Bike

Saindo da empresa, as pessoas saíram em cortejo até o local do atropelamento, na Avenida Jacu-Pêssego. A Polícia Militar deu apoio ao ato, exigindo apenas que ocupassem no máximo 2 faixas de rolamento da avenida para realizar a manifestação.

Manifestantes ocupam duas faixas da avenida Jacu-Pêssego, no local do atropelamento. Foto: Thomas Wang/BZS

Uma bicicleta foi levada de caminhonete até o local, para que fosse pintada de branco e afixada no local da morte de Joab, numa homenagem conhecida em todo o mundo como Ghost Bike.

A bicicleta sendo preparada para instalação, ainda sem a pintura na cor branca. Foto: Thomas Wang/BZS

Ghost Bikes são bicicletas brancas instaladas em locais de atropelamento de ciclistas, em homenagem a quem perdeu a vida para a pressa de alguém, para a falta de planejamento viário, para a omissão do poder público. Também têm o objetivo de evitar que aquela morte caia no esquecimento, sendo considerada apenas um inconveniente temporário ao trânsito de uma madrugada qualquer.

Ghost Bike sendo pintada por familiar de Joab. Foto: Simone Penninck/Bike Zona Oeste

As bicicletas brancas servem como um alerta aos condutores de automóveis para que tomem mais cuidado com as vidas que pedalam pelas ruas, lembrando que um ciclista é uma pessoa e não um obstáculo, com família, amigos, filhos, amores e sonhos. Veja aqui como preparar uma ghost bike.

O irmão de Joab, Moab, segura cartaz durante o protesto. Foto: Simone Penninck/BZO

Moab, irmão de Joab, e Fabio, cunhado, participaram da pintura da ghost bike. “Durante a pintura foi explicado o significado da ghost bike, de homenagear o ciclista morto. Familiares pediram que todos se reunissem para orar um ‘Pai Nosso’, todos juntos, mesmo que cada um à sua maneira. Novamente, foram feitas várias salvas de palmas e vários gritos pedindo justiça. Ciclistas relembraram lemas como ‘Vai ter ciclovia na Paulista e na periferia’, ‘Mais amor, menos motor’ e ‘Não foi acidente’. Também foram gritados ‘Justiça para Joab’ e ‘Joab presente'”, relata Thomas.

Bicicleta branca é afixada no poste. Foto: Simone Penninck/BZO

Ciclistas, parentes e amigos desenharam bicicletas e frases no asfalto, com o nome de Joab e pedindo mais ciclovias. Também houve crítica ao atual prefeito e candidato à reeleição, Bruno Covas, como podemos ver nas imagens.

O nome de Joab foi marcado no asfalto, no local onde ele foi covardemente atropelado. Foto: Thomas Wang/BZS
Pinturas no asfalto também questionaram a falta de ciclovia no local. Foto: Thomas Wang/BZS
O prefeito e candidato Bruno Covas também foi criticado durante o protesto. Foto: Simone Penninck/BZO

Ações como essa são necessárias para chamar atenção de poder público, imprensa e toda sociedade para o absurdo que é a morte de uma pessoa que estava apenas se deslocando de bicicleta. O conceito de Visão Zero, proposto por essa gestão com o objetivo de zerar as mortes no trânsito, precisa ser aplicado de fato e de forma ampla e corajosa, não podendo ficar apenas no discurso e em iniciativas pontuais.

Por uma cidade onde Ghost Bikes não sejam mais necessárias. Foto: Simone Penninck/BZO

3 comentários em “Atropelamento e fuga: ciclistas fazem homenagem e ghost bike a Joab Xavier

  1. Conheço esse trecho se era 3 horas da manhã provavelmente deve ser micro ônibus que estava saindo da garagem ali nessa avenida jacu pêssego tem umas garagem de micro ônibus vermelho , provavelmente deve ser dessas garagens esses cara dirigi igual loucos .

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  2. Olá aqui cunhada do joab, esposa do irmão dele moab.
    Joab era cunhado alegre e de bom. Coração com tds nós
    Homen, de caráter, trabalhador . nós
    da família estamos desnorteados com essa situação
    Um assassinato a sangue frio. Sem prestar socorro..
    Estamos indignados ate agora nada se resolveu para achar o culpado
    Por ter nos tirado oh joab
    Por isso peço justiça “!

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  3. Oi aqui é o moab irmão do Joab Xavier de Oliveira
    Deixo aqui meus agradecimento á ghost bike e todas as equipes de bike e amigos e familiares que foram lá na manifestação e na homenagem para meu irmão Joab
    Eu estou indignado com a nossa justiça brasileira que não serve pra nada nas horas que nós mais precisamos tenho sede de justiça não consigo nem dormi tranquilo só fico pensando como meu irmão Joab foi morto o meu coração está doendo muito e minha cabeça também parece que eu estou enlouquecendo .

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