Parem tudo, renovem o asfalto, um carro vai passar

Vão reasfaltar a Av. Pedro Álvares Cabral, em frente ao Parque do Ibirapuera. Aquela, onde tem o Obelisco aos Heróis de 32 e o Monumento às Bandeiras, que o pessoal chama de “empurra-empurra”… E vão recapear em caráter de urgência!

Mas por que? A avenida está toda esburacada, atrapalhando a circulação dos veículos que nela transitam? Não.

Ocorreu alguma desgraça, do tipo solapamento por infiltração de água das chuvas, explosão de encanamento subterrãneo de gás, chão rachado por terremoto, queda de meteoro, aterrissagem do Hancock? Também não.

Passo todos os dias nessa avenida e posso dizer que ela está acima da média das vias de São Paulo. Não tem nem aquelas ondulações em forma de onda nas laterais da pista, apesar dos ônibus que passam por ali.

Então por que é que vão gastar o meu dinheiro, o seu, recapeando justamente ESSA avenida, com tantas em São Paulo?

Para um carro passar.

Como? Não entendi…

É, para um carro passar! Ah, mas não é um carro qualquer… É um carro que não pode trafegar em vias normais, porque não tem seta, triângulo, extintor, excede fácil o limite de velocidade, não tem placa, não foi licenciado, não pagou IPVA e se a pista tiver muita ondulação, ele não passa.

Por isso, vão fazer um asfalto novo. Pra esse carro passar.

Também vão interditar a avenida. Enquanto esse carro estiver lá, ninguém passa. Carros, ônibus, motos, ninguém. Nem mesmo as pessoas. Estão proibidas de passar ali. Claro, podem ficar de longe aplaudindo. Aplaudindo um carro passar.

O carro é um carro de corrida. Projetado para circular em autódromos, que têm um asfalto diferente do das ruas. Então, como a rua não está adaptada para esse carro, vamos reasfaltar… Vamos mudar a rua para que UM veículo possa passar. Para fazer uma exibição. Para mostrar a marca de um fabricante de automóveis, a Renault. Esse veículo é um carro de Formula 1. Vão gastar o meu dinheiro e o seu para um showzinho de uma empresa.

Todos os dias, milhares de ônibus passam por essa avenida. Nos horários de pico (que ocupam uma parte cada vez maior do dia), eles têm que ficar presos atrás do oceano de carros. Um ônibus com 50 pessoas esperando 50 carros com 1 pessoa, na distância que separa um ponto do outro. E não há pista exclusiva. Não adaptam a via para o ônibus passar.

Todos os dias, centenas de bicicletas passam por ali. Desviam dos carros parados, ouvem buzinadas nos poucos momentos em que eles andam, querendo recuperar em 10 segundos a última hora de frustração. Não há ciclofaixa, nem sinalização viária indicando a presença de bicicletas. É preciso ocupar o mesmo espaço que deveria ser exclusivo dos ônibus e torcer para nenhum deles passar raspando. Não adaptam a via para a bicicleta passar.

Ah, mas vão adaptá-la para o carro passar. Isso vai custar R$ 220 mil reais e estão pensando em botar na conta do papa. O secretário de esportes do município, Walter Feldman, disse ao UOL Esporte (é, automobilismo é considerado esporte) que “se o evento for considerado estratégico, a organização não paga. Se não for, ainda não definimos se é a empresa ou a secretaria que arca com a despesa”.

Não sei o que ele considera estratégico. Não sei como isso incentivaria o esporte no país. E também não sei o que ele considera “organização” (de quê?) e “empresa”. Empresa acho que é a Renault. Organização eu sei lá quem é. Só sei que a Secretaria sou eu. Eu quem vou pagar. E você também, se mora aqui em São Paulo. Na mesma entrevista, o secretário de esportes diz que “é prioridade absoluta recapear o trecho para o evento”. Prioridade absoluta para o esporte. Certo.

Espero que o Sr. Feldman, a quem eu (ainda) nutro algum respeito, reveja essa posição. Se uma empresa quer fazer o seu showzinho usando as ruas da nossa cidade, que pelo menos pague para isso. Precisa de asfalto novo para fazer o show? Então dê esse asfalto de presente para a cidade. É o mínimo que se pode fazer. A fumaça no ar a gente engole quieto, a interdição e o congestionamento a gente também até aceita. Já estamos acostumados! Mas pelo menos não dêem prejuízo direto. Não usem para um show particular o dinheiro que poderia ser usado na saúde, na educação, na merenda escolar, na pintura de faixas de pedestres que foram sepultadas na cidade toda ou em qualquer outro lugar que seja necessário em caráter de urgência. Acho que precisamos rever nossas “prioridades absolutas”. Aliás, a lei manda pagar os custos da CET. E a ética, a responsabilidade e o bom senso mandam pagar o asfalto novo.

O piloto disse que “vai ser uma experiência única passar voando baixo pela avenida que circunda o Parque do Ibirapuera a bordo de um F-1”. Voando. Espero que nenhum pedestre resolva atravessar, como aconteceu no evento da Red Bull, em que nos vídeos dava para perceber um pedestre atravessando a rua segundos antes do carro passar, senão quem pode sair voando é o pedestre.

A rua não é lugar de “voar baixo” e não deveria ser usada para isso, nem de brincadeira. Um evento desse tipo e uma declaração dessas estimulam nos motoristas a vontade de dirigir rápido nas ruas. A F1, restrita aos autódromos, já incentiva mais que o suficiente, não precisamos mostrar isso na mesma rua em que os motoristas dirigem todos os dias. O excesso de velocidade é uma das maiores causas de mortes no trânsito. A visão de que dirigir rápido é algo cool se propaga fácil pelas mentes dos Ayrton Sennas de avenida, que um dia errarão uma curva, escorregarão numa freada e vão assassinar alguém em outro carro, em uma moto ou até na calçada esperando o ônibus.

Nossa cidade não precisa disso. Principalmente se nós é que vamos pagar a conta da publicidade da montadora. Já não basta pagar pelos carros, pelo seu custo em saúde e em vidas, pelas mortes no trânsito, pela degradação urbana e pelo desgaste social que eles nos impõem? Ainda temos que pagar pela propaganda?

Leia mais

Até quem fabrica carros sabe que em São Paulo eles não cabem mais
Considerações sobre uma declaração feita pelo presidente mundial da mesma Renault que vai organizar esse “show”.

Ruas fechadas para aplaudir um carro
Artigo sobre o evento semelhante realizado pela Red Bull dois anos atrás.

Red Bull não pagou tudo que devia
Será que já acertaram as contas?

Exibicionismo privado e irresponsabilidade no espaço público
Velocidade incentiva velocidade. A lei manda o organizador do evento pagar os custos da CET. Alô, Secretário!


5 comentários para Parem tudo, renovem o asfalto, um carro vai passar

  • CET quer multar ciclistas outra vez | + Vá de bike! +

    […] mais irônico é que essa mesma lei obriga a CET a cobrar o “show” que a Renault fez no ano passado, com um carro de Fórmula 1 em via pública. Mas dessa parte a CET se esquece. […]

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  • Luiz

    Isso, vota no Kassab, vota.
    Reelege o homem que ele merece….

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  • XuPaKaVrAz

    Lembrando que nem mesmo Ayrton Senna, foi poupado.
    Mais um sacrifício humano (de muitos) ao deus motorizado.

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  • guarnier

    Willian, por esta eu não esperava! E olha que sou bastante pessimista.
    Esse CIRCO que chamam de F-1 nunca desenvolveu tecnologias (copiar da indústria bélica não é desenvolver) e nunca contribuiu com p*rr* nenhuma em sociedade nenhuma. Não passa de um pretexto para transformar carros barulhentos e poluidores assim como seus pilotos boys em estrelas. Tudo isso para criar uma ILUSÃO de divindade nos automóveis (o meu anda mais que o seu).
    Esse showzinho aí é tão absurdo que beira a insanidade, é digno de motim e depredação!

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  • Fabiano Faga Pacheco

    Eu também quero que asfaltem uma rua pra mim toda vez que eu for pra São Paulo! Ia ser lindo…

    af

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