Grupos de pedal feminino se espalham pelo Brasil

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Por Aline Cavalcante e Willian Cruz

Avaliar as potencialidades de uma cidade “bike friendly” passa, sem dúvida, pela quantidade e qualidade de ciclovias, ciclofaixas, vias compartilhadas, estacionamento de bicicletas, integração com o transporte público, sinalização viária e toda a cultura de autoestima que atrai mais ciclistas. Mas o caminho inverso também é verdadeiro e não menos importante: a demanda gera infraestrutura.

Um artigo publicado pela Comunidade Científica Americana, apontou um novo indicador para saber o quão ciclável é uma cidade: o número de mulheres que pedalam nas ruas. Segundo a pesquisa, as moças estão menos habituadas a correr risco menos do que os homens, por isso, quanto mais mulheres pedalando, mais humanas e “amigas do ciclistas” são as cidades. Países que entenderam a importância em investir e estimular a segurança dos ciclistas já fazem seus planejamentos urbanos considerando a forma como as mulheres vêem o uso urbano e diário da bicicleta.

“Quanto mais mulheres pedalando, mais homens as seguirão” – David Byrne

No Brasil, além das várias ações que disseminam a cultura da bike, existem grupos e coletivos que procuram estimular especificamente as mulheres a repensarem suas relações com a cidade e utilizar a bicicleta de uma maneira segura e agradável. Eles são uma ótima oportunidade de promover encontros, conversas, compartilhar experiências, espelhar mais meninas e, principalmente, pedalar em grupo.

Você já reparou que o número de mulheres ciclistas vem aumentando consideravelmente?

Além da atual visibilidade da bicicleta, esse fato vem ocorrendo graças ao trabalho inspirador de algumas grandes mulheres que dão exemplo e desmistificam diversos tabus em relação à “dupla fragilidade” da bicicleta e do sexo feminino.

Entre essas figuras está, sem dúvida nenhuma a jornalista Renata Falzoni, que pedala desde 1974 quando trocou o carro pela bicicleta. Renata é uma pessoa muito importante para o cicloativismo e inspiração de vida a homens e mulheres do país inteiro.

Grupos femininos de ciclistas ganham as ruas

Pedalinas na Praça do Ciclista. Foto: Aline Cavalcante

Estimular que mais mulheres conquistem autonomia, liberdade, segurança e independência diante de um trânsito machista e hostil é um desafio e tanto.

Para isso, a cidade de São Paulo conta, desde 2009, com o Coletivo Feminino de Ciclistas – as Pedalinas – elas promovem oficinas de mecânica básica, ensinam a pedalar, fazem cicloviagens, entre outras atividades.

Outro grupo tradicional em SP é o Saia na Noite que recentemente completou 20 anos de vida. O grupo foi criado e organizado por outra figura ímpar na luta da bicicleta nessa cidade, a inspiradora Teresa D’Aprile. Se encontram semanalmente para pedalar, promovendo ainda pedais temáticos, como no Dia das Mulheres.

No interior do estado, soubemos do grupo Saia de Bike, com mulheres apaixonadas por mountain bike que fazem trilhas pela região de Assis.

As Cíclicas de Porto Alegre. Foto: Aline Brandão

Porto Alegre/RS

Na capital gaúcha as Cíclicas surgiram há pouco mais de 1 ano, em fevereiro de 2011, num contexto muito peculiar: dois dias antes do atropelamento em massa que atingiu dezenas de pessoas, durante a Massa Crítica de Porto Alegre.

“Muitas de nós estávamos presentes naquele episódio triste. Mesmo assim, no encontro do mês de março 10 meninas compareceram com seus receios e insegurança, mas fizemos uma pedalada tranquila. Distraímos um pouco a cabeça no meio daquilo tudo”, contou Aline Brandão, integrante do grupo.

Impulsionadas pela experiência das Pedalinas em São Paulo, as Cíclicas nasceram com o intuito de promover o uso da bicicleta e ajudar as meninas a ter segurança no pedal. “Nos reunimos para trocar experiências e informações sobre a nossa querida bici e sobre o dia a dia das ruas de uma ‘Porto que não está tão Alegre’. Nos apoiamos umas nas outras e nos divertirmos muito pedalando”.

Salvador/BA

As Meninas ao Vento. Foto: Pablo Florentino

Em meio ao calor nordestino, as ‘Meninas Ao Vento’ encaram as ladeiras de Salvador sobre duas rodas, sem motor e com muito estilo. O grupo é contemporâneo das Cíclicas, nascido também em fevereiro de 2011, e agrega ao seu discurso o ‘cycle chic’ como forma de aproximar a bicicleta das pessoas.

“Adotamos o estilo por acreditar que pedalar com as suas roupas comuns, do dia a dia, é um fator a mais para encorajar o uso da bike como transporte”, conta Ana Elisa, integrante do grupo.

No início, as Meninas Ao Vento contavam com apenas 3 integrantes, por isso, segundo relata Ana Elisa, “era necessário a presença de alguns meninos convidados que ajudavam bastante durante o trajeto. Hoje em dia, já são muitas meninas que conseguem ir ajudando as outras e intervindo no trânsito para garantir a segurança das iniciantes durante o pedal”.

Pouco mais de um ano se passou e a realidade de Salvador já mudou muito. “Noto que muitas mulheres que começaram no Meninas ao Vento já estão autônomas com suas bicis pela cidade e também multiplicam sua autonomia fazendo bike anjo de outras. Muitas meninas, quando iniciantes, relatam quão importante é ver outra mulher pedalando de modo seguro nas ruas para que elas percam o medo e comecem a pedalar”

O grupo também promove oficinas e encontros temáticos.

Curitiba/PR

Apesar da fama de “capital mais verde e sustentável do Brasil”, Curitiba conta com um movimento forte de luta e legitimação do uso da bicicleta nas ruas. A Massa Crítica de lá é uma das maiores do país e, apesar do alto número de usuários de bicicleta, a cidade infelizmente enfrenta situações polêmicas quanto aos direitos e deveres do ciclista, como, recentemente, o uso das canaletas.

Em novembro de 2011 foi formado o grupo Saia de Bike , que teve seu nome escolhido por votação pública na internet. Apesar de promover discussões sobre o universo feminino, o Saia de Bike é um grupo que agrega todos os gêneros: homens e mulheres pedalam tranquilamente, em ritmo leve pelas ruas da cidade. “Discutimos questões que só as mulheres passam, como pedalar grávida, por exemplo. O ritmo é mais leve, suave, mas nada impede que todos participem”, informou uma das fundadoras do grupo, Anaterra Viana, ao site Ir e Vir de Bike.

Belo Horizonte/MG

As ladeiras de BH não assustam as meninas do Pedal de Salto Alto. O grupo foi formado em 2010 e, como o próprio nome já remete, também agrega os valores do cycle chic entre as participantes.

“Somos um grupo de mulheres que incentiva o uso da bicicleta em suas diversas modalidades: transporte, lazer e esporte. Cada uma no seu estilo, todas serão bem-vindas”, diz a apresentação no site das meninas. Elas se reúnem a cada dois meses na Praça da Liberdade, no Bairro Funcionários, Região Centro-Sul de BH

Natal/RN

Uma novidade fresquinha é o nascimento das Pedalinas Potiguares, mais um grupo de pedal feminino localizado no Nordeste do Brasil. Elas se reuniram pela primeira vez em abril desse ano e pedalaram num grupo misto (com homens e mulheres) pelas ruas de Natal.

Segundo constam os relatos do site, as Pedalinas Potiguares surgiram com a proposta de também incentivar as meninas a pedalar. “O grupo visa unir as mulheres que já pedalam nos diversos grupos de cilistas da cidade para, juntas, mostrar que nós também temos espaço no ciclismo e merecemos o devido respeito e atenção no trânsito”.

Manaus/AM

Direto do extremo norte do Brasil recebemos a ótima notícia da existência do grupo feminino Amazonas de Bike, um projeto realizado em parceria com o grupo Pedala Manaus, para promover o encontro das meninas que escolheram a bicicleta como estilo de vida. “Nosso objetivo é desmistificar a figura da mulher ciclista e aumentar o número de mulheres que pedalam. Aqui somos mulheres comuns, inclusive atletas, que gostam, amam, adoram pedalar”, diz a descrição na página do Facebook.

Brasília/DF

A leitora Renata Florentino nos avisou aqui nos comentários sobre o Batom Bikers, que realiza pedaladas regulares nos sábados de manhã. Segundo matéria do Correio Brasiliense, “os percursos são formados por passeios na cidade, viagens e trilhas com mais de 170 km a serem percorridos”, mas há ciclistas de todos os níveis, de iniciantes às mais experientes, incluindo uma integrante com deficiência visual.

Joinville/SC

A leitora Tammy nos contou sobre o grupo As Belas da Bike, que se reúne uma vez por mês na cidade para realizar passeios em grupo. Segundo o Notícias do Dia, é pelo Facebook que elas marcam os encontros, definem os trajetos e incentivam outras mulheres a pedalar. “Definimos a programação com antecedência, para as pessoas poderem se planejar”.

Passos/MG

A cidade de passos também tem seu grupo feminino, com pedaladas regulares. É o Pedal das Meninas, uniformizado e com passeios organizados. A informação é da leitora Tereza Sawaya.

Balneário Camboriú/SC

Toda última quarta-feira do mês acontece na orla da cidade o passeio Elas no Pedal. Organizado pela ACBC (Associação de Ciclismo de Balneário Camboriú e Camboriú), foi concebido por mulheres e para mulheres, mas os homens também participam e são sempre bem vindos.

Goiânia/GO

A capital de Goiás também tem seu grupo de pedal feminino: é o Saia no Pedal, que além das pedaladas ainda realizam ações sociais. Dica do leitor Emerson de Lima.

 

Post dedicado à todas as mulheres que pedalam nas cidades brasileiras – especialmente às que faleceram exercitando seu direito, legítimo, de ir e vir.


32 comentários para Grupos de pedal feminino se espalham pelo Brasil

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