Sempre há espaço para estrutura cicloviária

Infraestrutura para bicicletas pode ser criada com facilidade, bastando vontade política de fazê-lo. Foto: Willian Cruz

Infraestrutura para bicicletas pode ser criada com facilidade, bastando vontade política de fazê-lo.

Por Zé Lobo

O que é a Velo-City
Uma conferência de planejamento cicloviário mundialmente respeitada, unindo milhares de especialistas que compartilham suas experiências sobre o uso da bicicleta como meio de transporte urbano.

A Velo-City ocorre anualmente. Nos anos ímpares, é sediada sempre em um país europeu e tem abrangência "local", tratando geralmente apenas da Europa e com foco na região onde é organizada. Nos anos pares, é chamada de Velo-City Global e tem abrangência mundial, atraindo especialistas de todo o planeta em discussões de altíssimo nível.

Mais informações, em inglês, no site da Federação Europeia de Ciclistas.
A caminho do Velo City Viena, em 2013, pedi ao Vá de Bike uma dica do que gostariam de assistir por lá, para que eu trouxesse informações para um post. Assisti então à apresentação There’s Always room for cycling infrastructure! (sempre há espaço para infraestrutura cicloviária), do Engenheiro Sênior e Consultor Cicloviário Philip Loy, ao qual  agradeço pela colaboração com este artigo. Para a realização da viagem à Viena, contamos com patrocínio do Banco Itaú, que vem apoiando e patrocinando diversas atividades e organizações pró-mobilidade por bicicletas, em busca de cidades melhores.

Os ciclistas já sabem: existe espaço nas ruas para infraestrutura cicloviária. Afinal, estamos nas ruas e sabemos que esse espaço existe. Mas a bicicleta, embora cada vez mais falada e cogitada, ainda não é levada a sério como deveria. Se mesmo na Europa ainda é assim, imagine aqui! Por isso é muito comum ouvirmos, como resposta à busca de infraestrutura cicloviária, que não há espaço para as bicicletas no viário.

Justamente pra quem ocupa menos espaço, é mais difícil ceder, mesmo que um pouquinho. Mas perceba: nos casos de grandes eventos e de obras emergenciais ou de infraestrutura. como água, esgoto, metrôs, BRTs, o espaço sempre surge. Normalmente, ocupando uma área muito maior do que se usaria para a infraestrutura cicloviária. E, mesmo assim, a cidade não para.

O congestionamento que evapora

O congestionamento causado por diferentes intervenções, de longo período ou permanentes, tem a capacidade de evaporar. É o Traffic Evaporation (evaporação de tráfego), segundo a publicação Reclaiming the Strees for people: Chaos or quality of life? da Diretoria Geral de Meio Ambiente da Comunidade Européia:

“A experiência em muitas cidades europeias é que:

  • Problemas de trânsito posteriores a intervenções são geralmente bem menos sérios que o previsto
  • Após um período inicial de ajustes, parte do congestionamento que surgiu nas vizinhanças da intervenção desaparece ou “evapora”, devido às mudanças de comportamento e de rotas pelos motoristas
  • Como resultado, o ambiente urbano se torna mais habitável em muitos aspectos.”

“Os motoristas procuram novas alternativas para seus deslocamentos, seja mudando o percurso ou o modo de transporte”, esclarece Phillp Loy. O gerenciamento da demanda e campanhas promocionais e de marketing podem ajudar muito neste processo de adaptação.

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Seguindo esta linha de pensamento, se torna claro que intervenções cicloviárias que ocupem espaço na via, logo terão os “problemas” gerados sanados e muitos outros problemas locais de deslocamento também serão solucionados pela nova infraestrutura cicloviária, resultando em um saldo positivo para a cidade.

Porém o veículo que mais deveria receber atenção é o menos atendido. Afinal grandes obras são coisas sérias, exigem engenharia, projetos, concreto, asfalto, verbas… E bicicletas? São apenas aquele brinquedo de criança de nos remete a juventude?

Um exemplo recente disso foi a liberação, por parte do Governo Federal, de R$ 50 bilhões para o setor de transportes. A bicicleta nem foi mencionada, apesar termos sido convidados para debater o assunto em Brasília. Os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro requisitaram mais de R$ 20 bi desse montante, mas zero para bicicletas. O Rio, que se intitula a Capital das Bicicletas, apresentou seu plano para gasto da verba: Metrô, BRT, VLT. Bicicletas? Ora não brinque comigo, estamos falando de coisa séria! “Embora possa não parecer assim para alguns, a bicicleta pode, de fato, ser a mais séria forma de transporte de todas”, destaca Loy.

E o consultor cicloviário conclui: “Sempre existe espaço para infraestrutura cicloviária. As restrições são políticas e não técnicas“.

Exemplos

Veja abaixo alguns exemplos de intervenções no Rio de Janeiro e a convivência com as obras (fotos de 2013):

Av. Ataulfo de Paiva, Principal eixo viário Oeste-Leste do bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Via totalmente bloqueada para obras da Linha 4 do Metrô por um período de dezoito meses. Após retensões e adaptações no inicio, hoje o bairro convive perfeitamente com as obras.

Av. Ataulfo de Paiva, Principal eixo viário Oeste-Leste do bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Via totalmente bloqueada para obras da Linha 4 do Metrô por um período de dezoito meses. Após retensões e adaptações no inicio, o bairro passou a conviver perfeitamente com as obras.

Outra imagem da mesma obra da Ataulfo de Paiva, já no trecho em Ipanema, onde se chama Visconde de Pirajá

Outra imagem da mesma obra da Ataulfo de Paiva, já no trecho em Ipanema, onde se chama Visconde de Pirajá

Túnel Sá Freire Alvim, no coração de Copacabana, um dos principais eixos viários do bairro. Uma faixa há vários anos vem sendo ocupada por obras do metrô e nunca fez falta ao viário em todos estes anos. Recentemente, uma segunda faixa foi tomada pelas obras da linha 4 e o trânsito permanece fluindo. Mas não se cogita transformar uma delas em via para bicicletas ao final das obras. Será devolvida aos motorizados.

Túnel Sá Freire Alvim, no coração de Copacabana, um dos principais eixos viários do bairro. Uma faixa há vários anos vem sendo ocupada por obras do metrô e nunca fez falta ao viário em todos estes anos. Depois de um bom tempo, uma segunda faixa foi tomada pelas obras da linha 4 e o trânsito permaneceu fluindo. Mas não se cogita transformar uma delas em via para bicicletas ao final das obras, será devolvida aos motorizados.

Zé Lobo é diretor geral da Transporte Ativo e trabalha por cidades mais humanas e cicláveis desde 1992.


7 comentários para Sempre há espaço para estrutura cicloviária

  • aliodoro

    Na avenida Domingos de Morais em frente ao shopping Santa Cruz(ZS de SP) a obra do metro ocupa 2 faixas e já ocupou 3. E a ciclovia que devia passar ali nada de sair.

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    • A Domingos tinha 9 faixas (4 Jabaquara e 5 Centro) agora todas sentido centro mais a calçada estão interditadas, metade da avenida, e mesmo assim no horários que passo nos picos da manhã e da tarde o transito flui. Creio que ficaria no limite colocar um ciclofaixa alí, bem melhor esperar a obra terminar.

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  • Walter Macedo Filho

    A rede globo incentiva o uso do automóvel no Rio. Quer construir um estacionamento na Floresta da Tijuca para seus diretores e funcionários graduados em um terreno de APA (Área de Preservação Ambiental) de 250 mil metros quadrados de Floresta. Ajude a impedir esse crime ambiental e urbanístico. Pelo transporte público de qualidade para todos! Vamos barrar o projeto nº 14/2001.027/2011 que tramita na prefeitura para autorizar esse crime.
    https://secure.avaaz.org/po/petition/Impedir_construcao_de_estacionamento_na_Floresta_da_Tijuca

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  • Sama

    Falando do assunto, esse vídeo chegou até mim hj, a maioria já deve ter assistido, mas ele é tão genial, mas tão genial que merece menção (em inglês): https://www.youtube.com/watch?v=pX8zZdLw7cs&feature=youtu.be

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  • Rosana

    Ótimas observações! Tenho visto aqui também que quando resolvem estacionar ao longo da via o trânsito rapidamente se adapta, mas se colocassem uma ciclofaixa no lugar começaria a chiadeira.

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  • Cícero Soares

    Mas e aí, Zé, da reunião com a dona president…a não deu pra colar em nenhum interlocutor específico pra, vamos dizer, continuar enchendo o saco, martelando, buzinando no ouvido, etc.?

    Normalmente, desde o mandato do Lula, esse é o papel do Gilberto Carvalho. Eu tinha uma amiga (hum, não que ela não seja mais, mas é que faz tanto, tanto tempo que não a vejo…) que participava do movimento dos moradores de rua, e ela dizia que o Gilberto era bastante acessível (pelo menos pra ouvir, né?, pra levar proposta adiante aí é outro quinhentos).

    Mas aí sugiro (re)começar, em vez de com uma pauta muito geral, com uma demanda específica. Por exemplo, aproveitar a recém iniciada campanha aqui em Sampa pro compartilhamento seguro, e que os mandatários são do mesmo partido, e encher o saco e martelar e buzinar ao ouvido dele exigindo a formulação de uma campanha nacional (DENATRAN-CONTRAN) nos mesmos moldes ou mais abrangente. Que tal, hein?

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