Ciclovia atrai novos perfis de ciclistas em São Paulo

Foto: Rachel Schein

Marina Gurgel usa a ciclovia para entregar suas flores. Foto: Rachel Schein

Taís Balieiro, da Ciclocidade. Foto: Rachel Schein

Taís Balieiro, da Ciclocidade: canteiro central nem sempre é a melhor solução. Foto: Rachel Schein

Em setembro de 2013, mês da mobilidade, a Ciclocidade (Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo) promoveu contagens de ciclistas e organizou cafés da manhã, em dois pontos da cidade: a Av. Inajar de Souza, na Zona Norte da cidade, e o cruzamento das avenidas Rebouças e Faria Lima, na Zona Oeste, onde recentemente foi instalada uma ciclovia que, ao menos em parte do trajeto, é bem sinalizada.

Na contagem da Av. Inajar de Souza foram registrados 1.413 ciclistas em 15h (saiba mais). Na Faria Lima, em 14h foram contadas 1.726 pessoas circulando de bicicleta (números atualizados).

Esse ano as avenidas Paulista e Eliseu de Almeida não entraram na contagem. Segundo Thiago Benicchio, diretor da Ciclocidade, as contagens dos anos anteriores permaneceram estáveis. “Será importante fazer a contagem na Eliseu no ano que vem, quando a ciclovia estiver pronta”, ressalta Thiago.

Planilhas permitiram anotar rapidamente diversas características dos deslocamentos. Foto: Camilo Zorrilla

Planilhas permitiram anotar rapidamente diversas características dos deslocamentos. Foto: Camilo Zorrilla

Metodologia

Dessa vez processo não foi fotográfico, como nos anos anteriores. Pelo novo método, desenvolvido também pela Transporte Ativo, foram criadas tabelas (foto ao lado), para uma análise mais rápida.

Além da quantidade de bicicletas passando, outros dados também foram analisados, como a direção do ciclista, uso de capacete, proporção de mulheres, crianças e adolescentes, bicicletas compartilhadas (Bike Sampa), elétricas, de serviço e também quantos ciclistas pedalavam na contramão, na calçada ou fora da ciclovia. Skates, patinetes e patins também foram anotados, mas não entraram na contagem oficial.

Thiago esclarece que o fato de haver infraestrutura cicloviária diversifica bastante o tipo de ciclistas, permitindo que idosos, mulheres e crianças também se sintam incentivados a se deslocar de bicicleta.

Para Taís Balieiro, coordenadora da pesquisa, também é importante observar se existem muitos ciclistas pedalando fora da ciclovia (na própria avenida ou na calçada), pois isso seria “um indicador de que a ciclovia no canteiro central, com algumas exceções, não é a solução ideal, pois inibe uma das maiores vantagens do ciclista que é permear a cidade com facilidade”.

Pelos resultados parciais, a ciclovia funciona bem no canteiro central no caso da Avenida Faria Lima, pois somente cerca de 15% dos ciclistas pedalavam fora dela. Das 1.726 bicicletas, 100 eram compartilhadas (Bike Sampa) e mais de 40% dos ciclistas usavam capacete. Os horários em que mais se registraram ciclistas foram das 8h às 10h da manhã e das 18h às 20h, mostrando que a maioria das pessoas que utilizam a ciclovia está indo ou voltando do trabalho.

Veja a reportagem que a TV Globo fez sobre o assunto

A ciclovia tornou mais seguro o transporte de crianças em cadeirinhas. É o caso dessa família, que se desloca pedalando. Foto: Ciclocidade/Divulgação

A ciclovia tornou mais seguro o transporte de crianças em cadeirinhas. É o caso dessa família, que se desloca pedalando. Foto: Ciclocidade/Divulgação

Construam as ciclovias e os ciclistas virão

A florista Marina Gurgel (foto que abre este post, lá no topo da página), costuma utilizar a ciclovia das avenidas Pedroso de Moraes e Faria Lima para fazer suas entregas. Onde não há ciclovia, reveza entre a rua e as calçadas: “É claro que é um alívio quando chego na ciclovia. Me sinto bem mais segura e o chão é lisinho, é bem melhor”. Mas Marina reclama de quando ela acaba: “o pior é quando a Faria Lima vira Hélio Pellegrino, os ônibus costumam ser bem impacientes e os motoristas costumam estar com pressa e distraídos”, desabafa.

Adalberto Costa com seu filho de 2 anos: "se não tivesse [a ciclovia], eu teria que pagar condução". Foto: Rachel Schein

Adalberto Costa com seu filho de 2 anos: “se não tivesse [a ciclovia], eu teria que pagar condução”. Foto: Rachel Schein

Durante a contagem, famílias com crianças pequenas e pais com filhos na cadeirinha também foram fotografados em seus deslocamentos, algo incomum de se ver na mesma avenida quando não havia a ciclovia. A quantidade de pessoas pedalando com “roupa de escritório” também é grande.

O vigilante Adalberto Brito Costa transporta seu filho Pedro, de 2 anos, todos os dias pela ciclovia, em um trajeto de 3 km entre a Vila Madalena e o Clube Pinheiros. “Só consigo trazer ele de bicicleta porque tem a ciclovia. Se não tivesse eu teria que pagar condução.”

Adalberto, que pedala em São Paulo há 11 anos e mora na Zona Oeste, utiliza a Av. Eliseu de Almeida pra voltar para casa, mas não se aventura com a criança por lá. “Com ele eu só me desloco por aqui. Se um dia tiver ciclovia na Eliseu, eu consigo levá-lo pra casa com segurança, mas por enquanto eu não posso arriscar a vida dele nem a minha”.

Se todo o cidadão que puder se locomover de bicicleta tiver sua segurança garantida, o transporte público fica melhor pra quem realmente depende dele para distâncias longas e o trânsito fluirá melhor pra quem optar por continuar dirigindo.

Para lembrar

Por Willian Cruz

Em novembro de 2011, durante uma Audiência Pública sobre a Operação Urbana Consorciada Faria Lima, um vereador se posicionou contrário à construção da ciclovia, afirmando que ninguém teria coragem de andar de bicicleta nessa avenida devido ao risco de assaltos.

O legislador em questão foi Paulo Frange, do PTB, que foi reeleito e cumpre novo mandato: “Ah, mas agora vem a ciclovia! Alguém aqui se atreve a andar de bicicleta na Faria Lima? À noite? Alguém tem coragem? Eu não tenho. Não tenho coragem de parar em farol!” Desnecessário dizer que quando ele perguntou se alguém andava de bicicleta nessa avenida eu levantei a mão no meio do plenário, para diversão de um dos vereadores que integravam a bancada. Desnecessário também dizer que Frange “não viu” meu aceno insistente.

Quando se vive a cidade apenas por detrás do para-brisa do carro, é difícil imaginar que existe vida inteligente do lado de fora. As bicicletas são invisíveis, quando muito um estorvo, e os ciclistas são chatos que não querem dirigir. Mas os números estão aí para mostrar o quanto a visão do vereador estava equivocada. Tem muita gente usando a bicicleta na cidade, inclusive na referida avenida. E haverá muitos mais conforme a cidade se tornar mais receptiva a quem pedala.

Veja no vídeo abaixo um resumo dessa Audiência Pública, no tocante à ciclovia, incluindo o áudio da fala do vereador e meus comentários quando tive direito à palavra. Relato da Audiência aqui.

Cafés da manhã

Equipe de voluntários que forneceram café da manhã para os ciclistas na ciclovia da Av. Faria Lima. Foto: Rachel Schein

Equipe de voluntários que forneceram café da manhã para os ciclistas na ciclovia da Av. Faria Lima. Foto: Rachel Schein

Na semana seguinte às contagens, cafés da manhã foram oferecidos pela Ciclocidade para homenagear quem passava de bicicleta por essas mesmas avenidas. Na terça-feira 17, quem passou pela avenida Inajar de Souza pôde retirar seu kit com lanche, colete refletivo e material educativo. Quem não estava atrasado ainda conseguiu parar para comer um bolinho e tomar um café. Na quinta 19, foram presenteados os ciclistas da Av. Faria Lima. Em ambos os dias, a chuva não deu trégua, mas isso não foi impedimento para que muitos ciclistas passassem por lá.

Vá de bike! ;)Foto: Rachel Schein

Vá de bike! ;)
Foto: Rachel Schein


11 comentários para Ciclovia atrai novos perfis de ciclistas em São Paulo

Enviar resposta

  

  

  

Você pode usar estas tags HTML

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>