Duas ciclistas morrem atropeladas por motoristas de ônibus em Porto Alegre no mesmo dia

Primeira morte ocorreu por volta das 8h00. Patrícia Figueiredo foi atingida por um ônibus enquanto atravessava o corredor na faixa de pedestres. Foto: reprodução/internet

A primeira morte ocorreu por volta das 8h. Patrícia Figueiredo foi atingida por um motorista de ônibus enquanto atravessava o corredor na faixa de pedestres. Foto: Reprodução/Zero Hora

Os porto alegrenses passaram a manhã da quinta-feira, 20/03, chocados com o atropelamento e morte da estudante de pedagogia Patrícia Figueiredo, de 21 anos. Ela ia de bicicleta à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde estudava, e foi atingida por um motorista de ônibus enquanto atravessava a faixa de pedestres da avenida Érico Veríssimo, em Porto Alegre, por volta das 8h. Enquanto no Jornal do Almoço da RBSTV a jornalista finalizava a matéria dizendo que testemunhas afirmavam que a jovem estava sem capacete (como se a falta do capacete tivesse motivado o fato de ela ser atropelada na faixa de pedestres), uma testemunha da ocorrência, estagiária na Justiça Federal do RS, postou o seguinte relato, replicado nas redes sociais:

Infelizmente eu presenciei este acidente no exato momento da batida. O sinal havia acabado de fechar e o ônibus que eu estava havia parado, nisso o outro ônibus veio no sentido centro-bairro e atropelou a ciclista que havia recém entrado na faixa de pedestre. Foi uma cena terrível! Com a batida, a moça foi lançada longe. Lastimável!

A avenida Érico Veríssimo, onde ocorreu o crime, está incluída no Plano Diretor Cicloviário de Porto Alegre e tem previsão de receber uma ciclovia, anunciada no fim de 2012, a exemplo da infraestrutura que vem sendo implantada em vias próximas. Nos corredores da Érico, o limite máximo de velocidade é de 30km/h.

Ao longo do dia, autoridades informaram que iriam apurar se houve excesso de velocidade do ônibus que atropelou Patrícia, que morreu no local logo após a colisão. O que nos remete aos dados divulgados pela Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, que informa que em atropelamentos a 32km/h, 5% dos pedestres atingidos morrem (Patrícia era ciclista, mas atravessava na faixa), 65% sofrem lesões e 30% sobrevivem ilesos, enquanto nos atropelamentos ocorridos a 64km/h, 85% morrem e os 15% restantes sofrem algum tipo de lesão. Se o ônibus estivesse dentro do limite de velocidade da via, Patrícia dificilmente teria morrido no próprio local do crime, já que o mais comum é haver lesões que podem, ou não, requerer hospitalização.

A segunda ocorrência vitimou a jovem Daise Lopes, atropelada depois de ser derrubada pela lateral do ônibus. Foto: reprodução/internet

A segunda ocorrência vitimou a jovem Daise Lopes, atropelada depois de ser derrubada pela lateral do ônibus. Foto: Reprodução/Gaúcha

Uma só morte não foi suficiente

Enquanto as circunstâncias da morte de Patrícia vinham sendo apuradas, outra tragédia aconteceu em Porto Alegre, agora na Zona Norte, por volta das 17h: outra moça, outra ciclista, foi atropelada por outro motorista de ônibus, dessa vez na altura do número 2732 da estrada Martim Félix Berta, e morreu no local. Ela se chamava Daise Duarte Lopes, tinha 19 anos.

De acordo com testemunhas o motorista “teria tentado desviar”, mas a parte traseira bateu na bicicleta, provocando a queda da jovem, que foi atingida pelas rodas de trás do ônibus.

As discussões continuam, a apuração segue. Uma denúncia do vereador Pedro Ruas (PSOL/RS) mostra que flagrantes de excesso de velocidade em corredores, controlados por radar, registraram 30 motoristas trafegando além do limite permitido, mas a Empresa Municipal de Transporte e Circulação (EPTC) não autuou as concessionárias de transporte público, alegando que “a operação foi realizada para fins de teste”. E os motoristas infratores e suas empresas saíram ilesos da infração. O mesmo não aconteceu com Patrícia e Daise, que perderam suas vidas pela displicência com que é tratada a irresponsabilidade de prestadores de serviço público.

Ocorrências diminuem, mas mortes aumentam

Dados divulgados pela própria EPTC mostram que, entre 2012 e 2013, houve um crescimento de 80% no número de ciclistas mortos, subindo de cinco para nove ocorrências que resultaram no óbito de ciclistas. Porém, no mesmo período, o número de incidentes envolvendo bicicletas, bem como o número de feridos, caiu 20%. Um estudo realizado em 2009 na Grã-Bretanha apurou que, quanto maior o número de bicicletas nas ruas, como vem ocorrendo em Porto Alegre, menor o risco de acidentes. Por outro lado, relatos diversos de ciclistas da capital gaúcha apontam frequentes casos de hostilidade no trânsito, como fechadas, xingamentos e as chamadas “finas educativas”.

Ciclistas relatam situações de hostilidade por parte de motoristas em Porto Alegre. Foto: reprodução/Facebook

Ciclistas relatam situações de hostilidade por parte de motoristas em Porto Alegre. Foto: reprodução/Facebook

Enquanto a estatística de mortos sobe em Porto Alegre, a prefeitura tenta implantar medidas para evitar a obrigatoriedade de investimentos em ciclovias e educação no trânsito. Um projeto de lei apresentado pela Prefeitura Municipal e que está para ser votado na Câmara propõe a extinção do dispositivo que prevê a obrigatoriedade do uso de 20% das multas arrecadadas no município para a construção de ciclovias e ações e campanhas de educação no trânsito. Nenhum representante da prefeitura participou da audiência pública realizada no fim do ano passado para discutir o tema. Embora a EPTC alegue que as contrapartidas de grandes obras da capital exijam a construção de vias para ciclistas, campanhas educativas não fazem parte dessas obrigações. Independentemente disso, Patrícia e Daise não utilizarão essas ciclovias, sejam resultado de investimentos públicos ou privados, pois estão mortas.

Ciclistas conclamam solidariedade

Dois protestos foram marcados pela sociedade civil para expressar sua indignação com as duas mortes. Na sexta-feira, 21 de março, às 18h30, uma manifestação no local do atropelamento; e, posteriormente, na Massa Crítica de 28 de março, poderá ser colocada uma ghost bike no local da morte de Patrícia.


11 comentários para Duas ciclistas morrem atropeladas por motoristas de ônibus em Porto Alegre no mesmo dia

  • transito mata mais pessoas que numa guerra
    cadeia condenaçao pesada sem fiança
    com puniçao cadeia condenaçao as pessoas ficam educadas e vao respeitar mais

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  • edson

    olha nos ciclistas estamos sendo cassados
    os motorista acham que nos estamos atrapalhando eles nao tem consiencia que eles podem esta matando ciclista seu filho filha neto neta irmao pai outros parentes nas ruas nao e so filhos dos outros que pedalam pessoas de sua familia tambem podem esta pedalando

    paz no transito e penas duras
    edson

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  • Famscrow

    É bem complicado lidar com ciclistas aqui na minha cidade (Uberaba/MG), é incrível a quantidade de ciclistas que andam ao lado dos canteiros centrais atrapalhando a movimentação na pista rápida.

    Tenho saudade da minha época de biker, mas dá medo de voltar a ser ciclista… ninguém respeita ninguém.

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  • Anderson

    Nós estamos no Brasil, aqui uma vida vale R$2.000,00 de fiança e pronto. Já cheguei a conclusão que essa farra não vai abacar nunca, se um Brasileiro quer ter qualidade de vida, tem que sair do país por que aqui impera o caos.

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  • Bruna Guterres

    infelizmente pagamos caro por um transporte público que trata passageiros como carregamento de batatas e pedestres e ciclistas como obstáculos. Não estou generalizando, mas semana passada o motorista do T1 não esperou a descida completa do passageiro arrancando com o coletivo, levando o passageiro ao chão. Curvas rápidas, furar sinal vermelho. Cada vez mais penso na necessidade de uma reciclagem no nosso transito. Cada motorista, pedestre, ciclista que vejo por ai que me faz pensar como é possível tanta agressividade e despreparo. Falta por parte do governo um meio de desarmar pessoas despreparadas para o transito.
    Quantas vidas perdemos no transito de Porto Alegre? Duvido existir alguém que não perdeu alguém no transito. E isso é uma vergonha. Não é com taxas absurdas para tirar a cnh que se nivela o transito é visando a qualidade não o lucro. Até quando???

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  • marcus

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    Esse comentário não tem feito muito sucesso. Thumb up 1 Thumb down 21

    • Cícero Soares

      “Arrumar confusão”, marcus? Quando você for criminosamente atropelado e morto, seu desejo é que não “se arrume confusão”? Então é só colocar isso em testamento, ok?, nós vamos respeitá-lo, em solidariedade.

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    • Adriano

      Simples assim…
      Se você entende que está tudo bem, não proteste.
      Se entende que algo está errado, proteste, mobilize.

      Agora um número curioso, marcus.
      São Paulo registrou menos de 40 mortes de ciclistas em 2013, no entanto, foram mais de 500 pedestres assassinados no trânsito.

      Com base nestes números, responda:
      Quantos protestos de caminhantes você viu “trancando o transito só conseguindo cada vez mais a antipatia e hostilidade dos motoristas”?

      Nenhum. Então seu argumento é fraco.
      Quem conduz uma bicicleta, moto, carro, caminhão… deve fazê-lo com respeito aos cidadãos e as regras de convívio.

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  • Geraldo

    Normal numa cidade onde as ciclovias não levam a lugar nenhum. Os carros são os donos da rua. E o ciclista é considerado um “chinelão’.

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  • Samuel

    Acho imensamente triste. Enquanto “tirar uma vida” parecer coisa pequena, que não dá em nada, que ninguém liga e a justiça não condenar… porque era ciclista, ou pobre, ou negro ou qualquer discurso desses. Casos como esses ainda vão se repetir. =(

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  • Otávio

    Enquanto não tratarem crimes de trânsito como crimes nada mudará. Discordo desse papo de mais bicicleta menos acidente, na minha opinião apenas 4 coisas diminuem os atropelamentos, menor velocidade, infra estrutura adequada, educação e leis, desculpem, o resto pra mim é conversa. Em SP caiu muito as mortes, porque aumentou o número de ciclistas? Duvido, tem muito mais relação com a redução forçada da velocidade no horário de pico graças aos congestionamentos cada vez maiores, qual foi a última morte no horário de pico? Agora peguem os últimos casos de morte, a maioria de noite e madrugada pela manhã, horário que a velocidade é liberada, além da bebida.

    Em SP basta a rua estar livre que você começar a sofrer pressão e agressões, reflexo da impunidade, como disseram pra uma ciclista a uns anos atrás “Você vai morrer e eu só vou assinar o BO”, essa é a situação no braziu. Senão baixarem a velocidade, fiscalizar e prender, mortes estúpidas continuarão acontecendo e resta apenas a fé e a sorte pra não ser o próximo. Pedalemos.

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