Como uma simples pintura no chão pode aumentar a segurança dos ciclistas

Grupo de ciclistas sinaliza trechos críticos de ciclovia. Pintura deveria ter sido feita pelo poder público há tempos. Foto: Rachel Schein

Cidadãos sinalizaram trechos críticos da ciclovia na avenida Pedroso de Morais. Pintura deveria ter sido feita pelo poder público há tempos. Foto: Rachel Schein

Antes e depois: intervenção teve efeito positivo. Neste local, porém, ainda é necessária a instalação de semáforo para garantir a segurança de pedestres e ciclistas. Foto: Rachel Schein

Antes e depois no cruzamento da rua Mário Guastini: intervenção teve efeito imediato. Foto: Rachel Schein

Em abril de 2014, antes do início do plano de ciclovias que vem sendo implantado em São Paulo, cidadãos insatisfeitos com a omissão histórica do poder público na sua obrigação de criar infraestrutura segura resolveram agir. Na noite de 8 de abril, um grupo de dez pessoas sinalizou dois cruzamentos de risco na ciclovia da avenida Faria Lima, zona oeste da capital paulista. Os trechos sinalizados ficavam na avenida Pedroso de Morais. Para executar o trabalho, os voluntários utilizaram tinta vermelha, barbante, rolos de pintura, cones e cavaletes.

Veja a galeria de fotos, mostrando como a ação foi realizada e o respeito dos motoristas logo no dia seguinte.

Um dos cruzamentos fica na Pedroso de Morais com a rua Mário Guastini, onde há um semáforo para retorno dos veículos, mas nenhuma sinalização para a travessia de ciclistas. O cruzamento seguinte, na Praça Ernani Braga, sem semáforo, foi pintado pela metade, deixando claro o recado para os órgãos competentes para que continuem o trabalho. “A gente passa aqui todo dia, e todo dia a gente vê pessoas em risco porque, dependendo do lado que o ciclista vem, o motorista olha para o outro lado e não verifica se tem alguma bicicleta passando [no caso do cruzamento sem semáforo]“, disse um ciclista que participou da ação.”É perigoso pra ciclistas, pedestres e até para os próprios motoristas”, afirmou outro participante do trabalho.

Algumas pessoas que passavam pelo local, a pé ou de bicicleta, pararam para conversar com os ciclistas. Transeuntes que pensaram se tratar de funcionários da prefeitura informaram outras áreas de risco. “Perigosa mesmo é a Praça Panamericana, que não tem guia rebaixada no local adequado”, opinou um passante. Ele foi instruído a entrar no site da Prefeitura de São Paulo para formalizar a reclamação. “É bom que as pessoas entrem no site e reclamem porque isso mostra a demanda e a urgência de sinalização”, disse uma das voluntárias que ajudava na intervenção.

Ao ver a movimentação na rua, um motociclista parou e parabenizou a equipe. “Eu passo sempre aqui e paro antes pra dar espaço para os ciclistas, mas aí vem um carro e para lá na frente. Isso já deveria ter sido feito há muito tempo.”

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Resultado positivo

Um dos integrantes conta que o grupo gastou cerca de R$ 200,00 para fazer a sinalização. “A gente sabe que a tinta não é adequada, mas pelo menos funciona”.  O Vá de Bike esteve lá durante a ação e também na manhã seguinte (9/4) conferindo o resultado e constatou que a iniciativa teve efeito imediato. Mesmo com a frase “feito pelo povo” pintada no chão, motoristas aguardavam atrás da faixa, garantindo o espaço para a travessia segura dos ciclistas.

Reforma

A intervenção durou pouco tempo, consequência direta da qualidade da tinta. Hoje, a situação voltou ao que era antes no cruzamento da rua Mário Guastini. Mas como a ciclovia está atualmente (junho/2015) em reforma, alguns dos outros cruzamentos já tiveram um recuo na faixa de retenção, em preparação para a pintura vermelha.

A ciclovia está sendo estendida em mais 11,5 km, com previsão inicial de entrega para outubro de 2015 – o que pode atrasar, pois os trabalhos foram interrompidos em alguns momentos a pedido do Tribunal de Contas do Município, que questionou a necessidade de reformar alguns trechos. Saiba mais.

Nas conversões não sinalizadas, a prioridade continua sendo do automóvel, o que coloca em risco a vida do ciclista.

Pontos de risco de uma ciclovia

Por Willian Cruz

Os maiores pontos de risco de uma ciclovia são as conversões, pois os motoristas, com sua atenção voltada apenas para a parte asfaltada do viário, podem não ver os ciclistas que se deslocam pela ciclovia e fechar seu caminho inadvertidamente – ou mesmo atropelá-los, com consequências trágicas.

Ciclovias em que o ciclista precisa desviar de carros parados nos cruzamentos, ou torcer para que alguém na faixa esquerda não faça uma conversão, colocam em risco sua vida. Quando isso ocorre, parte dos ciclistas continuará usando a avenida. E, com isso, os críticos à bicicleta alegarão que “não adianta construir ciclovias, já que não usam mesmo”.

Além de estar em local que já seja um caminho natural dos ciclistas (ou uma alternativa compensadora em termos de aclives e distância), para que seja utilizada por todos a ciclovia deve estar sinalizada corretamente, com intervenções em cruzamentos e retornos quando necessário.

Ciclovias devem proteger vidas

Para acabar com esses pontos de risco, a solução seria eliminar as conversões, fazendo com que os automóveis contornem uma quadra para cruzar a avenida – como, por sinal, é feito na Ciclofaixa de Lazer, aos domingos, justamente por uma questão de segurança.

Quando não se aceita abrir mão dessa comodidade para proteger a vida das pessoas, a solução mínima é utilizar um semáforo, para indicar a ciclistas e motoristas o momento certo de cruzar em segurança, evitando conflitos que podem ter consequências graves para a parte mais frágil.

O asfalto das áreas comuns, em toda a extensão da ciclovia, deve ser pintado de vermelho como nos trechos segregados, com faixa de contenção branca, demonstrando claramente a prioridade de circulação das bicicletas nessas intersecções (prioridade que, por sinal, é prevista em Lei).

Uma terceira solução seria fazer a travessia elevada em relação ao asfalto, constituindo em uma espécie de lombada larga e com o topo plano. Dessa forma, em vez do ciclista descer à via dos carros, estes devem subir para passar pela via dos ciclistas. Além de obrigar o motorista a reduzir a velocidade, esse tipo de intervenção tem o bônus de tornar bastante claro que a prioridade no cruzamento deve ser sempre do ciclista. Infelizmente, o que temos no trecho já sinalizado dessa ciclovia (na Av. Faria Lima) são placas de “pare” para os ciclistas, subvertendo a prioridade de deslocamento e imputando a estes a responsabilidade por evitar os atropelamentos.

Espera-se que, por ser uma estrutura segregada, uma ciclovia seja segura o suficiente para que nossas crianças e nossos idosos também pedalem por ela.


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