Comércio aumenta faturamento com atendimento a ciclistas

Bicicletas em comércio de São Paulo: presentes até quando não há onde estacionar. Foto: Guilherme Venaglia

Bicicletas em comércio de São Paulo: presentes até quando não há onde estacionar. Foto: Guilherme Venaglia

Em junho de 2014, a prefeitura de São Paulo anunciou um ambicioso plano de construção de 400 km de ciclovias até o final de 2016. À época, o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, estabeleceu como uma das premissas que, sempre que possível, a infraestrutura cicloviária não tiraria faixas de rolamento, mas seria implantada em substituição a 40 mil vagas de estacionamento permanentes ou rotativas nas ruas da cidade.

Junto às primeiras implantações vieram reclamações de comerciantes e moradores, dizendo que “São Paulo não é Amsterdam”, que ninguém anda de bicicleta por aqui e que o comércio iria “quebrar”, pois os clientes não teriam onde estacionar seus carros.

A reclamação não se limita apenas aos comerciantes de São Paulo e já foi repetida em outras cidades do Brasil e do mundo. Mesmo em Copenhagen (Dinamarca), cidade referência na mobilidade por bicicleta, houve reclamação. Aos poucos, moradores e comerciantes foram percebendo que as ciclovias não diminuíam o movimento do comércio, ao contrário: aumentavam.

Times Square, em Nova York, antes e depois da abertura às pessoas. Segunda a ex-secretária de Transportes, Janette Sadik-Khan, “todos disseram que seria o fim do mundo”, mas o trânsito acabou fluindo melhor, vendas no comércio aumentaram 50% e valor dos aluguéis nos arredores dobrou. Imagem: Janette-Sadik-Khan/Reprodução

Times Square, em Nova York, antes e depois da abertura às pessoas. Segunda a ex-secretária de Transportes, Janette Sadik-Khan, “todos disseram que seria o fim do mundo”, mas o trânsito acabou fluindo melhor, vendas no comércio aumentaram 50% e o valor dos aluguéis no entorno dobrou. Imagem: Janette-Sadik-Khan/Reprodução

Muito mais vendas

Em Nova York, uma das maiores cidades do mundo e comparável a São Paulo em volume de pessoas, a construção de ciclovias trouxe reclamações, mas também retorno econômico para os comerciantes.

Um estudo do Departamento de Transportes de Nova York mostrou que vias com ciclovias e boas calçadas aumentam o volume de negócios, mesmo em tempos de recessão. Depois da construção de ciclovias na Nona Avenida, negócios locais registraram aumento de 49% em vendas, enquanto em outros pontos de Manhattan o crescimento foi de apenas 3%.

Já na avenida Vanderbilt os resultados foram ainda melhores. Após três anos de ciclovias, comerciantes registraram um aumento de 102% nas vendas, enquanto na região o volume máximo atingido foi de 18%. Quem não quer um crescimento de 102% em seu negócio?

O mesmo efeito é notado em vias que foram fechadas para carros e transformadas em áreas apenas para pedestres. O crescimento foi de 179% (!) após a prefeitura de Nova York converter uma área de estacionamento no Brooklyn em um boulevard. Em locais próximos, onde carros ainda trafegam, o aumento nas vendas foi de apenas 18%.

Protesto contra a retirada de mais de 3 mil vagas de uma só vez, em maio de 2010

Protesto de comerciantes contra a retirada de vagas em bairro de São Paulo, em maio de 2010. Imagem: Reprodução

Ciclistas consomem mais

Ah, mas quem vai de carro gasta mais porque pode carregar mais coisas, certo? Errado. Pesquisadores da Portland State University questionaram consumidores em diferentes tipos de comércios, restaurantes e bares quanto eles gastavam, com que frequência consumiam e qual o tipo de transporte eles utilizavam para fazer compras (transporte público, de carro, a pé ou de bicicleta).

O resultado mostrou que as pessoas de carro gastam mais por visita, mas quem vai de bicicleta visita o local mais vezes e, na média total, consome mais. Os dados mostraram que de carro as pessoas foram a um mercado em média 9,9 vezes por mês e gastaram cerca de US$ 7,98 por visita, perfazendo um total de US$ 79,73 mensais. Já quem estava de bicicleta visitou mercados em média 14,5 vezes, gastou cerca de US$ 7,30 por viagem, o que dá um total de US$ 105,66 por mês.

Já em Melbourne, na Austrália, comerciantes que investem em uma vaga de carro têm AU$ 65 de retorno por hora desse cliente. Um ciclista gasta em média AU$ 47 por hora, mas cada vaga de estacionamento de automóvel ocupa um espaço onde podem ser estacionadas pelo menos seis bicicletas, o que dá um retorno de AU$ 283 por hora, mais do que o equivalente a quatro carros.

Aumento também em São Paulo

Você, caro leitor, pode estar pensando que esse números são bem legais, mas não se aplicam à realidade de São Paulo, certo? Pois bem, vou lhe mostrar o contrário.

A lanchonete Hooters da Vila Olímpia é um bom exemplo disso. Eles estão localizados bem ao lado de uma ciclofaixa de lazer, que funciona somente aos domingos e feriados das 7h às 16h. Nesses dias, e após a instalação de paraciclos (suportes) para que eles possam receber bem os clientes que chegam de bike, o faturamento aumentou 15% em média. São oito paraciclos na calçada diante do estabelecimento e cada estrutura permite parar até duas bicicletas, o que dá um total de 16 vagas. “Tem dia que não sobra vaga. Para as novas unidades, já planejamos investir em paraciclos”, afirma o CEO da Hooters, Marcel Gholmieh. Ele diz que, mesmo em dia de semana, o espaço tem sido aproveitado por clientes, em uma demonstração de que o veículo de duas rodas vem ganhando status de meio de locomoção e não apenas de lazer.

ciclofaixa de lazer - proximo ao villa lobos

Ciclofaixas de Lazer aquecem o comércio próximo a onde estão instaladas. Foto: Willian Cruz

Também na Vila Olímpia, na rua Funchal, o The Fifties seguiu o mesmo caminho e instalou paraciclos para melhor receber o público de bicicleta. O local dispõe de sete suportes em U invertido (14 vagas) e a demanda gerou uma ação diferente. “A procura é tão grande que o gerente comprou corrente e cadeado para os clientes que queriam prender a bicicleta ali e não tinham o equipamento”, conta o gerente de marketing do The Fifties, Paulo Henrique.

Empresa especializada em fornecer estruturas para o estacionamento de bicicletas, a Ciclomídia foi a responsável por ajudar as duas marcas. “Os comerciantes que estão reclamando das ciclovias em frente aos seus estabelecimentos estão olhando apenas para o lado vazio do copo e deixando de observar uma ótima oportunidade que de atender uma demanda que existe e que hoje eles não atendem. Ciclistas também são consumidores”, afirma o proprietário da Ciclomídia, Eduardo Grigoletto.

Por outro lado, há uma série de comerciantes que mesmo antes da implantação das ciclovias já perceberam o retorno positivo que elas trazem. “Eles nos procuraram para adequar seus comércios para receber bem quem chega pedalando, e estão faturando com isso”, conta Grigoletto.

A tradicional Confeitaria Vera Cruz, localizada no Tatuapé, é outro estabelecimento que disponibiliza paraciclos para o cliente ciclista. Um espaço para amarrar o cachorro enquanto as compras são feitas era utilizado por ciclistas, gerando conflitos pela falta de espaço para os cachorros e atrapalhando o fluxo de entrada e saída. O proprietário do local, João Orlando Junior, optou então por instalar paraciclos na calçada em frente à confeitaria. “O número de pessoas que frequentam a padaria de bicicleta triplicou aos finais de semana”, diz Orlando Junior, também ciclista. “Queremos instalar mais dois em um futuro breve.”

Em agosto de 2015, com a iminência da abertura da Avenida Paulista às pessoas aos domingos, havia a preocupação de que o comércio teria “de 30 a 40% de prejuízo” com a medida, como chegou a afirmar Vilma Peramezza, presidente da Associação Paulista Viva. Entretanto, os comerciantes da região rapidamente perceberam que as vendas aumentavam com pessoas a pé e de bicicleta no lugar dos automóveis.

Há locais que, além de ter estacionamento adequado para as bicicletas, ainda oferecem descontos e vantagens para os adeptos da magrela. É o caso do Twin Burger, que dá 5% de desconto para quem for de bicicleta. “O sucesso está em saber aproveitar as oportunidades e se adaptar. Enquanto uns reclamam, outros transformam o ‘problema’ em oportunidade”, conclui Grigoletto.

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10 comentários para Comércio aumenta faturamento com atendimento a ciclistas

  • Marcio

    Ótima notícia! De qualquer forma, mesmo que não fosse verdade, seria igualmente importante a implantação de ciclovias e paraciclos para o cidadão que deseja usar a bicicleta como meio de transporte.

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  • maria luciani

    Aqui em Curitiba, como quase todos tem carro, quando chego em um comércio com a minha magrela, nem me olham na cara. ” Essa é dura!” Como não ligo, vou em frente. Em frente ás farmácias, nunca tem um paraciclo; então, entro com ela. Levo bronca, mas digo: Se a roubarem, a farmácia paga? Diante da negativa, aceita…

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  • Isso de comerciante dizer que “sem as vagas, vão perder clientes” é exagero e até terrorismo! Muitos não querem é perder as vagas para pararem os próprios carros! Isso acontece muito aqui em Ribeirão! Como pode um comércio que acabou de abrir as 8 horas e já ter carro parado? Muitas vezes são os próprios comerciantes e funcionários que deixam os veículos durante todo o horário de expediente!

    Dai se um cliente precisar estacionar, não vai conseguir!

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  • Marcelo

    O link para o artigo de Melbourne não está mais funcionando :(

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  • Carlos

    Até as ciclofaixas poderão ser alvo de publicidade, como é demonstrado neste graffitti em bike Lanes.( e lá as bike lanes, ou ciclofaixas, não são pintadas de vermelho, o que torna o graffiti em ciclofaixas muito mais interessante ). http://www.muxu.cc/blog/mario-kart-bike-lane-in-portland/

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  • Alexandre

    Os bancos também deveriam se atentar a isso e colocar paraciclos em frente aos caixas eletrônicos. Sempre que ou em algum banco amarro a bike em alguma grade ou corrimão.

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    • Carlos

      Acho bom mandar uma carta ou e-mail para o gerente geral da agência do banco prõximo ou de preferência para instalarem paraciclos, ou reservarem vagas ( se tiverem estacionamento ) com paraciclos. Assim, os paraciclos estarão mais disponíveis. Recentemente, implementaram uma ciclofaixa, na avenida próxima á minha casa, em que há vários bancos. Não preciso de ir de bicicleta, mas em prol de gente que anda de bicicleta ( porque vejo muitos parando nas grades dos bancos ), e, há carros demais parados em lugares indevidos, vou fazer uma campanha pessoal, começando pelo Banco do Brasil.

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    • Carlos

      Aliás, creio que a prefeitura deveria priorizar áreas de comércio da periferia que foram afetadas pela ciclofaixas. Seria uma forma de compensação, por perda de clientes que vem de carro, por clientes que andam de bicicleta.

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  • larissa

    Gostaria de saber se dispoe de mais dados a respeito do impacto das ciclovias para o comércio paulistano, pois para a afirmação que faz a matéria, acredito que se basear em 3 depoimentos nao seja suficiente… O debate é interessante e muito me interessa…
    Se houverem mais dados gostaria de conhece-los…
    obrigada…

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  • Carlos

    Isso é fato, por exemplo no Starbucks da berrini já deixei de ir varias vezes pq eles tem 5 vagas de carro e sempre esta cheio, entao percebi que eles tem paraciclos e percebi que sempre tem de 2 a 4 bikes e comecei a ir de bike tambem, mas o legal é que ocupa um cantinho menor que 1 carro e tem capacidade para mais clientes, aos domingos devido a ciclofaixa já cheguei a ir e ter 10 bikes e 5 carros.

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