Foto: Thomas Wang/BZS

A manobra de um pequeno grupo para destruir a ciclofaixa da Luis Góis

Veja como esse grupo está manobrando nos bastidores para remover a estrutura de proteção, colocando interesses próprios acima das vidas dos ciclistas

Em janeiro desse ano, uma ciclofaixa começou a ser implantada na Rua Luis Góis, na Vila Mariana, em São Paulo. Mas a obra foi interrompida poucos dias depois – e agora, passados QUATRO MESES, não só continua parada como estão manobrando politicamente para remover o que já foi feito.

Apesar de terem durado poucos dias, as obras já estavam avançadas e tecnicamente a estrutura de proteção já existe e já está valendo: há placas indicando a circulação de bicicletas e proibindo parada e estacionamento, bem como faixas separadoras no chão. Faltam apenas uma faixa lateral vermelha e os tachões. A área da via junto à calçada já é exclusiva para circulação de bicicletas, transformando um espaço antes ocioso em espaço de circulação.

Mas essa sinalização já implantada corre risco de remoção, gerando custos desnecessários ao erário público e transformando tempo, esforço humano e dinheiro já investidos em um completo desperdício para a cidade. Sem falar no retrocesso.

Essa ciclovia já foi aprovada em 2019, em audiência pública que foi divulgada até em jornais de grande circulação, e faz parte da estrutura cicloviária planejada para a região, tendo conexão com outras ciclovias existentes ou futuras.

Com quatro meses de obra suspensa, motoristas continuam estacionando na área que deveria ser destinada a ciclistas, ignorando a sinalização que deixa clara a proibição. E a ciclovia ainda corre o risco de ser desfeita.

Para entender melhor o caso e a manobra que tentam fazer, veja nosso vídeo:

Quem suspendeu a obra?

Pelo que apuramos, as obras foram interrompidas pela Secretaria de Mobilidade e Transportes, que é comandada por Levi dos Santos Oliveira. E aparentemente essa suspensão atendeu ao pedido de um vereador: Aurélio Nomura, do PSDB.

O vereador alega representar os comerciantes da região – que parecem ter algum tipo de poder especial (talvez econômico?) para decidir o que se deve fazer na via pública, negando políticas de proteção à vida e decisões de audiências públicas anteriores.

O secretário Levi mantém a obra suspensa desde janeiro. Por sua vez, Nomura solicitou uma Audiência Pública para “discutir” a implantação da ciclofaixa. Essa reunião ocorreu no dia 8 de abril.

Conduzindo a Audiência Pública para justificar a remoção

O Vereador Aurélio Nomura, durante a Audiência Pública que tentou “provar” a necessidade de remoção da ciclovia. Imagem: CMSP/Reprodução

Ao participar do que deveria ser um debate, tivemos a sensação de estar em meio a uma ação estudada e planejada para justificar a remoção da ciclovia. A Audiência de 8 de abril começou com a exibição de um vídeo totalmente parcial, que só mostrou as reclamações dos comerciantes que não querem perder o privilégio de ter uma vaga de estacionamento na porta.

Não foi mostrado um depoimento de comerciante favorável, mesmo havendo ao menos três bicicletarias naquela rua, de empresários que certamente ficarão felizes de terem mais ciclistas passando na frente de suas lojas. Também não mostraram a opinião de ninguém que usa a bicicleta – e que terá sua vida protegida pela ciclofaixa.

Esse vídeo foi uma tentativa do vereador de conduzir a audiência pública desde o início na direção que lhe interessava. De transformar uma discussão pública em um “apelo” pela remoção da estrutura. Uma maneira de fazer com que essa reunião se tornasse uma “prova” de que a estrutura deve ser desfeita.

O suposto “direito” de estacionar

A rua Luis Góis já é, hoje, muito usada por ciclistas, mesmo sem estrutura de proteção. Até o mapa de calor do aplicativo Strava demonstra isso, como expôs o ciclista e morador Mário José dos Santos Jr. durante a audiência (veja no vídeo).

Os argumentos contrários à ciclovia se resumem todos a um só: estacionar na via pública. Os comerciantes que reclamam consideram que o espaço público, de circulação, tem que servir às necessidades privadas deles, seja para estacionamento de clientes ou para descarga de mercadorias.

Ciclovias não prejudicam o comércio. Pelo contrário, trazem novos clientes: se em vez de um carro estacionado o dia todo na porta do comércio houver um espaço onde as pessoas passam devagar, podendo ver a fachada e a vitrine, maior a chance de um cliente entrar. Principalmente se for bem recebido.

Há comércio em vias como Domingos de Morais, Rebouças e Faria Lima, onde não é permitido estacionar, e tudo funciona muito bem. Fornecedores que entregam até mesmo móveis e eletrodomésticos em shopping centers seguem por centenas de metros de corredores, levando as mercadorias em um carrinho, e tudo funciona. Por que na via pública não se pode atravessar a rua para fazer uma entrega? Não faz sentido.

Se é difícil atravessar a rua, como tentaram convencer no vídeo de abertura, que peçam para melhorar a travessia. Para reduzir a velocidade. Para implantar uma lombada eletrônica. Para aumentar a fiscalização… E se acham arriscado atravessar a rua, imagine transitar de bicicleta? Isso só justifica a importância de uma ciclofaixa nessa via.

No fundo, o que as pessoas que reclamam da ciclofaixa querem é estacionar onde bem entenderem, não se importando se, para esse conforto, os ciclistas correrão risco de vida e poderão ser atropelados. Não estão nem aí para as vidas de outras pessoas, sua preocupação é apenas com seus carros e sua comodidade.

E não se pode negar uma ciclofaixa, que é uma estrutura de segurança viária, com argumentos pessoais. É como o comerciante dizer que não quer uma travessia de pedestres na porta da loja, porque precisa estacionar um carro ali. Faz sentido? É ético? Merece apoio?

A maior parte dos imóveis dessa rua é residencial, com estacionamento próprio. Boa parte dos comércios também tem vagas próprias, como mostramos em nosso vídeo.

E, acima de tudo, a via é pública. Não é estacionamento de loja nenhuma.

Incentivados por comerciantes, motoristas continuam estacionando sobre a ciclofaixa, apesar das placas que deixam clara a proibição. Foto: Redes Sociais

Em defesa da ciclofaixa

Felizmente, ciclistas, especialistas em mobilidade e outras pessoas que se preocupam com segurança viária também participaram da audiência. E trouxeram estudos e argumentos coerentes e bem embasados.

Vídeo tendencioso

Morador da região e membro da Câmara Temática da Bicicleta (grupo do Conselho Municipal de Trânsito e Transporte que debate questões relativas à ciclomobilidade com a Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes), Thomas Wang questionou o vídeo de abertura, que considerou tendencioso por só mostrar um lado da questão.

“Fui eu que fiz o vídeo”, admitiu Nomura ao fim da fala de Thomas, justificando que, em vez de falar, exibiu as imagens “para que todos pudessem ver que o motivo dessa Audiência Pública foi a reclamação dos moradores”. Cabe ressaltar que ninguém que seja apenas morador aparece nas imagens reclamando, todos são comerciantes. Os moradores presentes defenderam a estrutura de proteção.

“Mas o senhor não acha que é um vídeo tendencioso?”, questionou Wang ao vereador, lembrando que há comerciantes que têm interesse na ciclofaixa. Nomura não respondeu, ignorou a pergunta e chamou o próximo participante.

Aprovada anteriormente

Thomas Wang lembrou ainda que a estrutura já havia sido aprovada em Audiência Pública anterior, em 24 de junho de 2019. “A lista [de vias a receberem novas estruturas] foi lida e havia mapas nas paredes mostrando todas as ruas onde seriam implantadas ciclofaixas”, relatou, reforçando que houve ampla divulgação da Audiência, inclusive em jornais de grande circulação.

“Não apareceram comerciantes, nem a Associação Comercial, nem mesmo o vereador Nomura, que eu fiz questão de enviar um e-mail porque eu sei que ele é um vereador do bairro que não gosta de ciclistas, porque ele já tentou remover a ciclofaixa da Bosque da Saúde em meados de 2016. Não tive nenhuma resposta por parte do vereador nos dois ou três e-mails que enviei na época”, afirmou.

Outro membro da Câmara Temática da Bicicleta (CTB), Jean Carlos M. do Vale, afirmou que a Audiência que estava sendo realizada “de certa forma insulta todo o processo democrático”, por tentar negar o que já havia sido decidido anteriormente. “Por um ano praticamente, houve espaço aberto para deliberação e diversas formas de se inserir sugestões para melhoria da implantação da malha cicloviária”, lembrou, chamando atenção para o fato de que a CET levou dados e cadernos técnicos nas reuniões, para que pudessem ser consultados pelos cidadãos.

Entrega de mercadorias

Erick Araújo do Nascimento, membro do coletivo Bike Zona Sul e também morador da região, foi outro participante a lembrar que a ciclofaixa já havia sido aprovada anteriormente e a questionar o vídeo que tentou conduzir a reunião na direção que interessava ao vereador. Sobre as entregas de mercadorias, apontou que os fornecedores podem parar em vias laterais e seguir com os pacotes e caixas em carrinhos para fazer as entregas.

Também questionou as imagens feitas pelo dono do açougue, mostrando o entregador atravessando a rua com uma caixa no ombro (veja no vídeo): “por que não deixaram a vaga de estacionamento que tem na frente ocupada [reservada] para que fosse feita essa descarga? Para mim não faz sentido.”

Redução de mortes

O morador e membro do Conselho Participativo da Vila Mariana, Lucian de Paula, disse estranhar que o Conselho, que acompanha essa obra, não foi chamado para a Audiência Pública. “[A ciclofaixa] é uma estrutura que dá segurança viária para todos que circulam no bairro. A gente tem os relatórios da CET de anos anteriores e todas as ruas que receberam infraestrutura cicloviária tiveram redução no número de atropelamentos, no número de colisões, no número de feridos e no número de mortes. Não só de ciclistas, porque por um efeito de acalmamento de trânsito a rua se torna mais segura e mais agradável para todo mundo”, esclareceu.

Aline Pellegrini, ciclista e moradora da região, questionou se a necessidade de estacionar os carros é mais importante que a vida das pessoas que circulam de bicicleta. Veja seu depoimento no vídeo.

Trecho faltando

Lucian de Paula questionou o porquê de um trecho da via não ter recebido a estrutura, entre a Coronel Lisboa e a Domingos de Morais: “um dos critérios de instalação das ciclovias no Plano Cicloviário da Secretaria de Mobilidade é a conectividade, então ficarem dois quarteirões faltando estrutura não faz sentido.” Também apontou que o fato de haver várias bicicletarias naquela rua por si só já indica a presença de ciclistas, porque esses comerciantes “não seriam burros de colocar uma bicicletaria onde não passa ninguém”.

Dinheiro já investido

A vereadora Silvia da Bancada Feminista (PSOL) também partiu em defesa da estrutura, lembrando que ela “é fruto de uma participação popular” e que dinheiro público já foi investido. Explicou que se as estruturas fossem construídas só onde não há comércio, seriam inviabilizadas, e deu exemplos como o do Bom Retiro, onde há intensa atividade comercial coexistindo com as ciclofaixas. “Quem usa a bicicleta está fazendo um bem pra cidade. Se a gente for pensar do ponto de vista financeiro, deveriam até ser remunerados por usar a bicicleta, porque estão fazendo um bem pra cidade inteira!”

Vagas de estacionamento

Lucian de Paula declarou que o Conselho Participativo Municipal da Vila Mariana e nem a Câmara Temática da Bicicleta foram procurados procurada pelos comerciantes para buscar alternativas, que preferiram chamar uma Audiência Pública para negar a implantação. “A gente poderia elaborar algum outro tipo de projeto para preservar inclusive vagas de estacionamento dos dois lados, paralelas à ciclofaixa”, mas os comerciantes preferiram “demonizar” a estrutura.

Também abordou a questão das vagas o ciclista e morador Mário José dos Santos Jr., comprovando através de fotos que, mesmo com as lojas fechadas pela fase de restrição, só havia vagas para estacionar nas áreas de Zona Azul. “Se o problema é estacionamento, que se coloque Zona Azul, e não se impeça o ciclista de ir e vir [em segurança], concluiu. Mário ainda comparou os críticos a ciclovias aos terraplanistas e negacionistas antivacina: “o Brasil é um dos poucos países do mundo onde as pessoas com pensamento retrógrado têm voz ativa”.

Já o também ciclista Luiz Andrade alertou que as reclamações contra a estrutura se baseiam em premissas erradas, dando exemplo de vários locais na cidade, como a região central e a Rua Augusta, onde não é permitido estacionar e há lojas de todo o tipo, de mercados a material de construção.

Willian Cruz

Representante do Vá de Bike e especialista em mobilidade por bicicleta, Willian Cruz, começou sua fala criticando o uso do vídeo para conduzir a Audiência Pública na direção que interessava ao vereador que a convocou.  “Só escutaram quem é contra a ciclovia e o único argumento, em resumo, é a dificuldade de estacionar. É o mesmo que questionar uma faixa de pedestres escutando só quem passa de carro. A via é pública, não é estacionamento de loja nenhuma.”

Cruz afirmou que não adianta fazer a ciclofaixa onde não há comércio, porque é preciso haver pontos de interesse, lembrando que a maioria das pessoas que circula na rua de bicicleta está tentando chegar a algum lugar, não está ali só a passeio.

Também apontou a necessidade de proteção à vida. “Quantas vezes não fui ameaçado por motoristas quando trafegava de bicicleta na Luis Góis? São finas, fechadas, xingamentos e ameaças diretas à minha vida com o tamanho e o peso do automóvel, que muitas vezes é jogado na minha direção. Quem anda de bicicleta sabe disso, uma ciclovia faz toda a diferença. Quem é contra a ciclofaixa está dizendo aqui claramente que minha vida não vale nada e que está tudo bem se continuarem tentando me matar.

Willian criticou a realização de nova Audiência Pública para negar uma estrutura que já havia sido aprovada. “É um desrespeito ao rito democrático. Desse jeito a gente vai ficar eternamente fazendo Audiência Pública sem decidir nada, travando o progresso da cidade. Nessa a gente decide que vai tirar, semana que vem eu pego algum vereador que eu apoiei a eleição e mando fazer outra Audiência Pública, mostrando um vídeo bonitinho com todo mundo a favor da ciclofaixa pra poder garantir a implantação dela. Não é desse jeito que funciona a democracia.”

Willian Cruz: “Quem é contra está dizendo aqui claramente que minha vida não vale nada e que está tudo bem se continuarem tentando me matar”. Imagem: CMSP/Reprodução

Renata Falzoni

Quando conseguiu a palavra, a vereadora suplente Renata Falzoni (atualmente em exercício) já estava bastante irritada com a falta de proficiência técnica da mesa, com a falta de uma lista aberta de oradores e de isonomia de representantes. “Eu sou a terceira pessoa só que vai orar a favor da ciclovia e já ouvi mais de dez pessoas falando contra”, reclamou.

Para piorar, outras pessoas começaram a falar e fazer barulho com seus microfones abertos enquanto ela falava, o que a fez dar bronca em quem a interrompia e na mesa que comandava a Audiência: “por favor, desliguem o microfone, porque agora é a minha vez de falar e eu estou aqui com três minutos e eu preciso ser ouvida. Mesa, você tem capacidade de desligar os microfones de quem está falando e atrapalhando minha oração.” Depois disso ainda ocorreu outra interrupção em sua fala.

A vereadora questionou fortemente a validade da Audiência Pública: “é um desvio de função, uma vez que o legislativo não pode interferir naquilo que já está corroborado em outras audiências pelo próprio executivo, portanto o que nós estamos fazendo aqui é uma profunda perda de tempo”. Esclareceu que estacionar não é um direito e chamou essa defesa de uma tentativa de “privatizar o espaço público em detrimento da circulação das pessoas”.

Eloquente, direta como sempre e com argumentos bem embasados, Falzoni ressaltou que a bicicleta aquece a economia e que “andar a pé e de bicicleta vem sendo a solução para a pandemia e para o resgate da economia de cidades europeias”. Vale a pena ver sua fala na íntegra, no vídeo que publicamos.

Renata Falzoni: “Essa Audiência Pública é um desvio de função, o que nós estamos fazendo aqui é uma profunda perda de tempo”. Imagem: CMSP/Reprodução

Protesto

Na noite seguinte à audiência pública, ciclistas pintaram bicicletinhas no asfalto e colaram cartazes nos postes, em protesto à tentativa de remoção que está em andamento. O objetivo foi conscientizar que a bicicleta não atrapalha o comércio e que nossas vidas importam mais do que a comodidade de estacionar na porta de uma loja para não ter que andar 50 metros.

Mas houve comerciantes que se ofenderam com as bicicletinhas no asfalto e tentaram apagar os desenhos. Veja em nosso vídeo.

Ciclistas pintaram frases de protesto na ciclofaixa que corre risco de remoção. Foto: Bike Zona Sul

Vão remover?

Resta agora saber se a SMT e a CET seguirão com o planejamento, o estudo e a própria implantação, que já estava aprovada e avançada, com dinheiro público já aplicado. Ou se vão ceder à pressão de uma dúzia de comerciantes egoístas que querem para seu uso particular o espaço que é de todos.

E o pior: se a prefeitura ceder a essa pressão pelo retrocesso, terá desperdiçado dinheiro com a implantação e desperdiçará mais ainda para remover o que já foi implantado e para refazer em outra rua. O Tribunal de Contas tem que ficar de olho nisso.

Vamos continuar acompanhando essa situação e informando vocês aqui no site e em nosso canal do YouTube. Portanto, inscreva-se já.

Seguimos na luta por uma cidade mais segura para quem usa a bicicleta, onde possamos pedalar com tranquilidade com nossos amigos, nossos amores e nossos filhos.

Participe do abaixo-assinado a favor da ciclovia da Rua Luis Góis

2 comentários em “A manobra de um pequeno grupo para destruir a ciclofaixa da Luis Góis

  1. Triste. No Brás/Pari removeram a ciclofaixa da Rua Hannemann e Rio Bonito e voltaram vagas de estacionamento. Com certeza foi feito na calada da noite e motivado pelos supostos interesses econômicos.
    Alguém tem informações sobre essa ação e se temos como reverter a situação?

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  2. O que a Falzoni fara? Porque só falar defendendo a causa ela já fazia antes, espero que no minimo esse cargo de vereança de um poder maior para ela defender a causa ciclistica.

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