Grupo faz levantamento sobre atropelamentos de ciclistas em São José dos Campos (SP)

Cartaz produzido pelo coletivo Ciclistas de São José dos Campos com dados sobre mortes e acidentes envolvendo ciclistas. Imagem: Divulgação

Cartaz produzido pelo coletivo Ciclistas de São José dos Campos com dados sobre mortes e acidentes envolvendo ciclistas. Imagem: Divulgação

Entre 2009 e 2013, 36 ciclistas foram mortos em São José dos Campos (SP), o que dá uma morte a cada 50 dias. Os números dessa estatística perversa também mostram que houve 1.130 casos de colisões (atropelamentos) envolvendo bicicletas, das quais 53 foram graves o suficiente para ocorrer internação.

Os dados fazem parte de um levantamento detalhado realizado pelo coletivo Ciclistas de São José dos Campos para a “Semana de conscientização sobre acidentes com ciclistas em São José dos Campos”, realizada de 13 a 17 de abril, para chamar a atenção do poder público, mídia e sociedade para a gravidade dos fatos. “A intenção é colocar o dedo na ferida para alertar sobre a gravidade da situação e conscientizar os joseenses de que, mesmo sem fiscalização, é preciso respeitar o ciclista”, afirma o engenheiro cartógrafo Eric Silva, integrante do coletivo.

Os dados usados na campanha não “existiam” de forma organizada e foram obtidos após muita insistência do grupo. “Desde outubro de 2014 eu cobrava um relatório da prefeitura. Em geral, só é divulgado uma parcela bem pequena do que acontece e isso nunca é tratado com muita seriedade pelo poder público ou pelos próprios motoristas e ciclistas”, aponta Silva.

A escolha dessa semana em especial para a divulgação dos dados não foi por acaso. Além de ser o mês mais fatal para ciclistas, no dia 16 de abril completou-se dois anos desde que o jovem Luís Augusto Franco foi morto após ter sido atropelado por um motorista de ônibus no cruzamento da rua Genésia B. Tarantino com a avenida Santos Dumont, no Jardim Paulista, centro da cidade. “Foi uma situação bem comovente, porque nesta região sempre reclamávamos de não ter espaço seguro para as bicicletas e pedestres. É um cruzamento muito perigoso”, lamenta Silva. O local continua sem infraestrutura para os dois grupos mais frágeis do trânsito e atropelamentos ali são constantes.

Semana de conscientização foi escolhida em função dos dois anos da morte do jovem ciclista Luís Augusto Franco, atropelado por um motorista de ônibus em São José dos Campos. Na imagem, a ghost bike em sua homenagem. Foto: Eric Silva

Semana de conscientização foi escolhida em função dos dois anos da morte do jovem ciclista Luís Augusto Franco, atropelado por um motorista de ônibus em São José dos Campos. Na imagem, a ghost bike em sua homenagem. Foto: Eric Silva

Conscientização

Desde o começo do ano,  o coletivo já fez diferentes ações, como a Cartilha do Ciclista Urbano, o mapa cicloviário da cidade e a adesivagem dos carros para a ultrapassagem segura.

No mapa cicloviário é possível notar que grande parte dos acidentes ocorre em ruas próximas às ciclovias ou logo quando elas acabam. “Estão construindo ciclovias bem caras em regiões em que há opções seguras de pedalar. E não há nenhuma análise de como integrar estes trechos todos”, afirma Silva. “A administração pública nem sabe muito bem o que é um plano cicloviário e os investimentos são decididos de forma totalmente aleatória.”

Para o próximo ano, a ideia do coletivo é melhorar o relatório com dados sobre o número de multas aplicadas para defesa do ciclista e obter os dados de ocorrências envolvendo ciclistas na rodovia Presidente Dutra.

Plano Cicloviário

Entre os pedidos feitos pelo coletivo na campanha está a participação na construção do Plano de Mobilidade Urbana e Transportes, que já está em ação pela prefeitura. A “Carta compromisso para o modal bicicleta” foi elaborada com apontamentos e ideias para tornar a bicicleta efetivamente um modal reconhecido e assegurado pelo poder público.

No documento são descritas ações a serem realizadas pela prefeitura de São José dos Campos para aumentar a segurança dos ciclistas, priorização dos investimentos de infraestrutura cicloviária nas áreas com maior necessidade, maior transparência e diálogo com a população sobre o plano cicloviário, reformulação das leis relacionadas ao modal (e a garantia de fiscalização e cumprimento), adequação das vias e da fiscalização para o compartilhamento seguro, garantia de construção de infraestrutura cicloviária em toda a extensão do BRT e outros pontos. Um abaixo-assinado foi criado para apoiar a iniciativa. Até o fechamento dessa reportagem, mais de 600 pessoas haviam assinado. Para colaborar, clique aqui.

São José dos Campos possui apenas 68 quilômetros de infraestrutura cicloviária (incluindo ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas e calçadas compartilhadas), mas a maioria é separada e instalada em locais de lazer apenas. “Queremos que o investimento seja feito com estudo e com a participação dos ciclistas também.” Para lembrar a necessidade dessa infraestrutura para a segurança dos ciclistas, a ciclovia da avenida Andrômeda foi batizada de Juliana Dias, em homenagem à ciclista de São José dos Campos que foi atropelada e morta por um motorista de ônibus na avenida Paulista, em São Paulo, quando se deslocava para o trabalho, em 2012.

Outro cartaz criado por ciclistas de São José dos Campos mostra principais leis que protegem quem pedala. Imagem: Divulgação

Outro cartaz criado por ciclistas de São José dos Campos mostra principais leis que protegem quem pedala. Imagem: Divulgação

Entre duas ciclovias, a rua mais perigosa

A rua Caravelas (zona sul), a mais perigosa da cidade para quem usa bicicleta, fica entre duas ciclovias importantes e tem só uma ciclofaixa parcial, que termina em lugar nenhum quando a via se estreita. Entre 2009 e 2013 houve duas ocorrências fatais e uma grave, além de muitas outras que não resultaram em internação. “As mortes aconteceram bem onde acaba a ciclofaixa, próximo de alcançar a ciclovia mais importante de São José dos Campos na avenida Doutor João Batista de Souza Soares. Lá é uma rua pequena, sem muito comércio ou casas e os ciclistas a usam porque é o caminho mais fácil ‘e seguro’ entre duas ciclovias”, ressalta o representante dos Ciclistas de São José dos Campos.

Duas das principais vias na cidade são inacessíveis para pedestres e ciclistas: a via Dutra e o Anel Viário (semelhante às marginais em São Paulo). Nos locais é proibida a circulação de bicicletas e não há calçada ou semáforos para pedestres (apesar de haver espaço para construção de ciclovias e essa ser uma demanda antiga dos moradores). “A cidade inteira cresceu em volta da Dutra e do Anel Viário e isso prejudica a mobilidade urbana, pois qualquer outro modal, além de carros, motos e caminhões, são proibidos nestas vias. O Anel Viário liga a cidade toda e tem um relevo perfeito para andar de bicicleta”, explica Silva.

Mais dados

  • Dia da semana, horário e mês com maior índice de ocorrências envolvendo bicicletas: segunda, das 17h às 18h, do mês de abril.
  • A vítima mais nova tinha apenas cinco anos e morreu após ser atingida por um caminhão. A mais velha tinha 82 e faleceu após ser atropelada por uma motocicleta.

Atropelamentos por tipo de modal

  • Carro – 60%
  • Motos – 14%
  • Ônibus e vans – 13%
  • Caminhões – 13%

2 comentários para Grupo faz levantamento sobre atropelamentos de ciclistas em São José dos Campos (SP)

  • Paulo Henrique Guimarães

    Gente, o Brasil ainda não acordou para a importância da bicicleta. Bicicleta é esporte, é saúde, é lazer, é melhoria da qualidade de vida e ainda traz benefícios para o meio ambiente. É o movimento ágil e rápido num deslocamento que precisa ser mais seguro e desfrutar de mais proteção tanto do poder público quanto dos motoristas dos outros veículos. Acorda Brasil!

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  • nilson neves

    Acho temos priorizar ainda mais com pontos seguros oara guar nossas bicicletas

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