Conheça a estrutura apelidada de “ciclovia do descaso”, em Niterói/RJ

Má qualidade da ciclofaixa coloca ciclistas em risco. Foto: Sergio Franco/ Mobilidade Niterói

Falta de sinalização coloca ciclistas em claro risco em curva da via. Foto: Sergio Franco/ Mobilidade Niterói

Quando inaugurada em 2012, a estrutura cicloviária da rua São Lourenço, no bairro de mesmo nome, representou um alívio aos moradores da zona norte de Niterói (RJ). A importância da via, que apesar do apelido que recebeu é, na verdade, uma ciclofaixa, deve-se ao fato de que a principal alternativa dos ciclistas da região para acessar o centro da cidade é a avenida do Contorno, que vem a ser um trecho da BR 101 Norte – ou seja, uma via expressa. Anteriormente à instalação da ciclofaixa, o ciclista oriundo da zona norte era obrigado a trafegar na contramão da rua São Lourenço, aumentando o risco de acidentes e desrespeitando o Código de Trânsito Brasileiro (CTB). A ciclofaixa, bidirecional, proporcionaria segurança nesse trajeto. Proporcionaria.

Inúmeros são os problemas identificados no trecho de pouco mais de 800 metros: carros estacionados sobre a ciclofaixa, buracos e irregularidades no asfalto, bueiros com tampas inapropriadas para o tráfego de bicicletas, sinalização apagada ou inexistente, calçadas muito estreitas – que forçam o pedestre a caminhar na ciclofaixa – e até um poste no meio do caminho.

Excesso de velocidade

Leandro Carmelini, morador da região, comenta: “é uma via residencial, embora pareça uma BR”. Leandro, que utiliza a ciclofaixa no mínimo cinco vezes por semana, sugere que a primeira ação para solucionar os problemas apontados deve ser a reconstrução e expansão das calçadas, que em certos trechos não chegam a meio metro de largura, seguida da transformação da rua em Zona 30. “Seria a primeira Zona 30 da cidade”, ressalta.

A velocidade dos veículos automotores é uma constante preocupação para quem utiliza a bicicleta por ali. A Bicicletada / Massa Crítica de Niterói afirma que “os carros disparam pela São Lourenço como se estivessem em uma corrida depois de esperar quase quatro minutos no semáforo da rua Marechal Deodoro”. Consultada sobre a existência de algum plano para fiscalização na via, bem como sobre a instalação de radares ou redutores de velocidade, a NitTrans, empresa municipal responsável pela fiscalização de trânsito, respondeu que reclamações de excesso de velocidade serão repassadas para o setor responsável para a fiscalização ser mais atuante.

Foto: Sergio Franco/Mobilidade Niterói

Foto: Sergio Franco/Mobilidade Niterói

Estacionamento irregular

Os carros estacionados sobre a ciclofaixa podem ser vistos a qualquer hora. Entre os estabelecimentos comerciais encontram-se algumas oficinas, que normalmente utilizam a calçada e a área exclusiva para o tráfego de bicicletas como extensão do comércio. Mas o campeão de reclamações é uma vidraçaria, cujo caminhão é um velho conhecido na região.

A NitTrans não dispõe de dados específicos para rua São Lourenço, mas divulga que de janeiro/2015 ao dia 18 de agosto passado 12.813 veículos foram autuados por estacionamento irregular sobre calçada, ciclovia ou ciclofaixa. Contudo, a professora de alemão Beatriz Lemos e o editor de vídeos Thiago Magalhães, que costumam transitar pela via até seis dias por semana, afirmam que nunca viram agentes realizando autuações. “Já vi inclusive um carro da NitTrans estacionado na ciclofaixa, com as luzes apagadas”, afirma Beatriz. Segundo Thiago, ele já reclamou com agentes posicionados numa esquina próxima, ouvindo como resposta que telefonasse para a NitTrans. Também enviou diversas mensagens para o whatsapp da empresa denunciando as irregularidades, porém nunca recebeu qualquer resposta.

Conflitos e atropelamentos

Os relatos de situações de conflito e perigo são comuns entre os ciclistas que trafegam pela ciclofaixa cotidianamente. A professora Eliane Cunha conta que foi atropelada por um taxista que vinha de uma rua adjacente, não parou no cruzamento e não a viu se aproximando pela ciclofaixa, mesmo pedalando no mesmo sentido dos carros. Em outra ocasião, ela se locomovia no contrafluxo – a ciclofaixa, ressalte-se, é bidirecional – e quase foi atingida de frente por uma van escolar que invadiu a faixa para realizar uma ultrapassagem. “Foi um susto e tanto.”

Beatriz Lemos engrossa o coro de relatos de más experiências: “numa noite, indo para casa, um motorista de táxi jogou o carro em cima de mim e disse que eu não tinha que estar ali, que aquele espaço era para carro [ela transitava na margem da ciclofaixa devido aos buracos], e as pessoas no táxi gritavam ‘derruba ela, passa por cima dela’. Eu fiquei uns meses sem andar de bicicleta, morrendo de medo de ser morta.”

Soluções

Mas os ciclistas não reagem aos problemas apenas com críticas e sugerem soluções. A unanimidade entre os usuários da ciclofaixa é a necessidade de alargamento das calçadas. Muitos conflitos com pedestres poderiam ser evitados se estes encontrassem boas condições de mobilidade, pois, além de calçadas estreitas e quase inexistente em certos trechos, eles encontram pelo caminho postes, latas de lixo, buracos, poças e, também, carros estacionados. Outras soluções citadas foram a transferência da ciclofaixa para o lado contrário da rua – solução questionada por alguns porque não vai resolver todos os conflitos –, instalação de segregadores, ampliação da largura da ciclofaixa, recapeamento do asfalto, reforço na sinalização e campanhas de educação preparadas especificamente para a região.

Procurado pela reportagem, o programa municipal Niterói de Bicicleta não respondeu aos questionamentos sobre se a prefeitura possui planos a curto prazo para minimizar ou solucionar as dificuldades enfrentadas pelos ciclistas no local.

As reclamações e as cobranças acerca das condições da rua São Lourenço vêm sendo repetidas há meses nas redes sociais, em debates presenciais e foi colocada em discussão durante audiência pública recente realizada na Câmara de Vereadores da cidade, que contou com a presença de autoridades, incluindo o vice-prefeito. Mas, enquanto os problemas não são solucionados, o apelido “ciclovia do descaso” vem ganhando cada vez mais popularidade entre os usuários da via.

Art. 24. Compete aos órgãos e entidades executivos de trânsito dos Municípios, no âmbito de sua circunscrição:

II – planejar, projetar, regulamentar e operar o trânsito de veículos, de pedestres e de animais, e promover o desenvolvimento da circulação e da segurança de ciclistas;

Código de Trânsito Brasileiro
(Lei 9.503, de 23/09/1997)


5 comentários para Conheça a estrutura apelidada de “ciclovia do descaso”, em Niterói/RJ

  • Raniere Mazille

    Realmente o problema das ciclovias em Niterói não se restringem aos cuidados e manutenção das mesmas, sou utilizador das ciclovias e ciclofaixas que vão da Roberto Silveira, passando pela Marques de Paraná, seguindo pela Amaral Peixoto e terminando na Barão do Amazonas até a Rodoviária de Niterói. Isso porque ainda percorro o trajeto do Largo do Marrão(Santa Rosa) descendo pela Av. Paulo Cesar até chegar na Roberto Silveira(Trajeto sem ciclofaixa ou ciclovia). Sequer nessas faixas e vias, o ciclista pode andar tranquilo, pois os animais que vestem roupas dirigindo os seus carros, trafegam sobre a ciclovia quando precisam virar em alguma rua, sem esperar que o ciclista que tem o direito de trafegar por aquela via, o faça primeiro. Está se tornando uma constante os “Quase Atropelamentos” que testemunho e por “N” vezes quase que fui eu a vítima… Pergunta da produção: O que podemos fazer em relação à esses sérios problemas encontrados de quase atropelamentos? ou teremos mesmo que esperar o pior acontecer pra depois corrermos atrás dos prejuízos que podem até ser, a própria vida de um pai de família como eu que só quer deixar o carro na garagem e poder usufruir da sua qualidade de vida adquirida com muito esforço e trabalho… Está difícil demais aturar a falta de compromisso com todo e o desrespeito com todos em nossa cidade. Se alguém tiver alguma ideia ou resposta positiva que contribua para o bem comum à todos, por favor, nos dê a graça !!!

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  • Pretendo ir para Olímpiada Rio2016 e pedalar pelas cidades… Niterói possui mapa cicloviário?
    Não estou achando na internet… cicloabraços – joaozinho

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  • RicardoP

    [Comentário oculto devido a baixa votação. Clique para ler.]

    Esse comentário não tem feito muito sucesso. Thumb up 0 Thumb down 8

  • Carlo Alexandre

    Niteroi e seus gestores públicos, infelizmente não tem a competência necessária para tratar de um assunto tão sério e especializado, que demanda tempo, vontade e estudo para se entender do assunto: BICICLETA COMO TRANSPORTE.

    A melhor saída para Niteroi, seria ter a humildade de criar parcerias com cidades como Copenhagem, Amsterdam, Portland ou qualquer uma que ja tenha ultrapassado a fase primaria da engenharia de transito, para ensinar aos “Tupinikins” da prefeitura, como trabalhar, rápido, com eficiência e cidadania, ou seja respeitando a obviedade dos fatos e a necessidade de mudança que os novos tempos impõem.

    Obviamente, isso não vai acontecer, ou porque a cidade não tem dinheiro, ou porque a corrupção sistêmica entrava as boas ideias, seja porque o poderoso fascismo e poder dos viciados em automóveis historicamente não adere a causa …

    Diante desses fatos e suposições, melhor talvez seja uma passagem na mão e um caminho mais curto para o futuro, cidades da Europa onde essa realidade acontece a décadas.

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  • Anderson Ramos

    Utilizo a ciclofaixa da São Lourenço de segunda a sexta e é isso mesmo, um descaso só. Atualmente a via precisa ser pintada, pois tem trechos em que está apagada. Gravei até alguns videos dessa via. Não sei se transferir a via para outro lado da rua vai resolver. Acho que segregadores e compartilhar a ciclofaixa com pedestres talvez fosse melhor.
    Segue link com mais informações sobre pedalar da zona norte até o centro de Niterói: http://mobilidadeniteroi.blogspot.com.br/2015/09/video-do-fonseca-ao-centro.html

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