Vereador de BH diz que ciclistas são “meia dúzia” e recebe enxurrada de e-mails

Arte da campanha feita pela BH em Ciclo. Imagem: Divulgação

Arte da campanha feita pela BH em Ciclo. Imagem: Divulgação

A BH em Ciclo começou, em novembro, a campanha #EuSouMeiaDuzia #SomosMeiaDuzia, que pretende mostrar aos vereadores que os ciclistas em Belo Horizonte são muito mais do que meia dúzia e que estão atentos às ações para promoção da bicicleta como meio de transporte na cidade. “Além disso, fazer com que a Câmara Municipal seja um órgão que promova a bicicleta neste sentido, inclusive se adequando às exigências legais no que se refere às políticas de mobilidade, como cumprimento da Política Nacional de Mobilidade, que prevê priorização dos meios não-motorizados ativos”, completa Amanda Corradi, da BH em Ciclo.

A expressão “meia dúzia” está sendo utilizada em razão da declaração do vereador Valdivino, do Partido Popular Socialista (PPS). Em audiência pública com a presença de comerciantes para discutir a implementação de ciclovias em Venda Nova (região norte de BH), o parlamentar disse que não se pode agradar meia dúzia (de ciclistas). “Quem fomenta a região é o comércio e nós não podemos agradar meia dúzia, que ainda é meia dúzia de ciclistas, podem ser milhões amanhã, mas por enquanto são meia dúzia, para acabar com centenas de comércios que geram emprego e renda”. Assista em vídeo à declaração do vereador.

Ciclovias beneficiam o comércio
O vereador acredita estar protegendo os comerciantes ao
recusar a ciclovia, mas esse posicionamento só evidencia sua
falta de informação. Os exemplos de que a presença de pedestres
e ciclistas beneficia o comércio são muitos, em todo o mundo.
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Amanda rebate a declaração de Valdivino: “meia dúzia são todos os ciclistas que pedalam por Belo Horizonte e pessoas que acreditam na bicicleta como instrumento para melhoria da mobilidade urbana da cidade que ficaram incomodados com a colocação do vereador”. Desde que o abaixo-assinado foi criado, foram recolhidas, até o momento, mais de 1.500 assinaturas de ciclistas e simpatizantes da bicicleta. Nesta campanha, cada vez que uma pessoa faz sua assinatura, os 41 vereadores de Belo Horizonte, incluindo Valdivino, recebem um e-mail com o título “Eu pedalo em BH, #EuSouMeiaDuzia! #SomosMeiaDuzia!”.

No convite que a BH em Ciclo faz para o abaixo-assinado, a proposta é mostrar que “ao contrário do que pensa e verbaliza o vereador, nós somos dezenas de milhares e, sim, seremos mais a cada dia”. Amanda é enfática: “existem ciclistas sim em Belo Horizonte e promovendo sua visibilidade, questionando o ‘meia dúzia’ proferido pelo Valdivino, está sendo possível mostrar que também somos atores políticos”.

A intenção da associação de ciclistas é que a campanha continue ativa até que o vereador se retrate. “Até o dia em que o vereador Valdivino reconhecer publicamente que nós, ciclistas de Belo Horizonte, somos mais que meia dúzia e/ou vier experimentar as delícias de se pedalar em uma cidade”, publicou o grupo.

Mora ou pedala em Belo Horizonte? Contribua com sua assinatura

Foto: Augusto Schmidt

Bem mais que meia dúzia de ciclistas de BH saíram às ruas para apoiar SP na época em que MP questionava as ciclovias. Foto: Augusto Schmidt

Resposta do vereador

Depois dos 1.566 e-mails (até o fechamento desta reportagem), Valdivino enviou uma nota de esclarecimento a BH em Ciclo. O parlamentar, que em 2008 foi absolvido pelo TRE depois de condenado por práticas de falsidade ideológica e uso de documento falso no requerimento de seu registro de candidatura nas eleições de 2004, esclareceu que: “no uso de suas atribuições, apoiou e encabeçou a ideia de uma solução conjunta na qual seriam beneficiados os ciclistas, com a manutenção das ciclovias, alterando apenas seu traçado e percurso (…) Com sua maneira simples de se expressar, acabou sendo mal compreendido ao manifestar que não seria justo ao imenso polo comercial da região de Venda Nova sofrer quaisquer prejuízos em função da instalação de ciclovias, sobretudos quando feitas de maneira desarrazoada e sem o devido estudo do impacto local. As palavras colocadas incomodaram a comunidade ciclista de Belo Horizonte, motivo pelo qual cumprimos esclarecimento”.

A BH em Ciclo argumenta que não houve diálogo por parte do vereador e que seu único pronunciamento foi através da nota de esclarecimento. Sobre o comunicado, a associação vai se posicionar em breve.

Mais adiante, em sua nota, o vereador diz que “não por outro motivo, um de seus slogans é ‘Valdivino: esse apoia o esporte”. “Não existe a consciência da bicicleta como meio de transporte e como parte de um sistema de mobilidade urbana”, observa Amanda.

Audiência para quem?

A audiência em que Valdivino e outros vereadores e representantes da BHTrans (órgão que administra o transporte e trânsito na cidade) se reuniram com comerciantes e moradores da região de Venda Nova, foi convocada em maio deste ano. Amanda revela que a audiência, apesar de pública, não foi divulgada e que a BH em Ciclo não foi notificada. “Somente com a divulgação dos encaminhamentos após a realização é que chegou até nós a notícia. Essa reunião ocorreu para atender ao pedido de comerciantes”, aponta a ciclista. Falar sobre a manutenção de vagas e sobre o saldo dessa decisão para os ciclistas sem que eles estivessem presentes pode acarretar consequências negativas. “[A audiência] foi num contexto de construção de ciclovias sem a participação de seus usuários que a sociedade civil conquistou o GT Pedala”, completa.

O GT Pedala é um espaço de diálogo entre a população e o poder público e todos os cidadãos podem participar, não só os ciclistas, sem precisar fazer qualquer inscrição. As reuniões acontecem sempre na primeira quarta-feira do mês, na região sul da capital.

Em entrevista à TV Câmara à época do encontro, Samuel Junior, que é representante dos comerciantes, declarou que a ciclovia tem de ser feita de forma inteligente. “O representante da BHTrans disse que ele se reúne com os ciclistas para poder estudar onde fazer uma ciclovia. Por que não chamam os moradores? Por que não convidam os comerciantes locais para que seja feito este estudo antes?”, perguntou. Amanda responde que qualquer pessoa pode participar do GT Pedala. “Talvez seja questão de divulgação. Ela é feita apenas pelas páginas do GT Pedala, pela BH em Ciclo. Não temos o alcance que as páginas governamentais têm”. E denuncia: “Eles [a BHTrans] souberam dessa audiência pública com antecedência, pois participaram, assim como eles estão presentes no GT”. Com isso, a BHTrans, além de pouco falar sobre o GT em seu site e pouco contribuir com a divulgação dos encontros, teve acesso a essa informação e não levou ao GT. A BHTrans foi procurada, mas até o fechamento da reportagem não havia respondido aos contatos.

Com relação aos estudos prévios sobre a implementação das ciclovias, Amanda alerta que o PlanMob-BH possui toda a rede cicloviária de BH, mas com ressalva de que modificações podem ser feitas caso haja alguma inviabilidade ou mudança neste tempo entre planejamento/execução, “mas uma garantia do GT Pedala é que antes da execução tudo isso seria levado para lá para ser estudado”.

Enquanto o diálogo entre poder público e população não é totalmente estreitado, a última informação oficial era de que BH possuía 70 km de ciclovias e ciclofaixas. A meta é ter 200 km de ciclovias até 2016, mas para que a meta seja cumprida, é preciso reconhecer que os ciclistas de BH são muito mais que meia dúzia.


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