Violência no trânsito: importa quem começou?

Foto: Rachel Schein

Foto: Rachel Schein

Por Daniel Guth

Toda violência ocorre ao arrepio das leis e do diálogo. Existe uma relação direta entre violência e a constituição de leis e de laços sociais – que nos definem como SOCIEDADE. Laços sociais bem estabelecidos fortalecem a construção de vínculos que nos permitem, em última análise, existir como sociedade.

A violência, motivação deste texto, é o que devemos destacar de qualquer agressão. Aqui cito a agressão como o ato em si; e a violência como a intenção. Por trás de uma agressão pode haver uma ou inúmeras violências.

A violência se manifesta, de certa forma, no limite da conversa, do diálogo, da fala. Ou ela é a antítese do diálogo, ou uma alternativa a ele. Na carta de Freud para Einstein (“Por que a guerra?”), o psicanalista diz:

Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra e, se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente.

Sigmund Freud, em carta a Albert Einstein

Podemos citar, como exemplo, a violência destacada nas agressões de trabalhadores durante a revolução industrial, que utilizavam os sabots (tamancos, em francês) para paralisar e danificar as máquinas, culminando em avanços importantes para a garantia de direitos trabalhistas.

Usar a bicicleta
não nos torna melhores.
Não nos torna maiores.
Não nos torna invencíveis.
E essa postura deve ser
constantemente
revisitada e reforçada.

Nestes casos, a violência é a alternativa ao diálogo, quando o sistema opressor – avalizado pela própria legislação – rompe com laços sociais que nos definem como sociedade. Ou mesmo as primaveras árabes, exemplos mais contemporâneos, onde a insurgência – muitas vezes violenta – se dá como alternativa ao diálogo de governos fechados, autoritários e, por essência, também violentos.

Agressões em situação onde os laços sociais estão, de uma certa forma, garantidos, representam violências que não só colocam em cheque os próprios laços, como atuam justamente como antítese ao diálogo. Ou seja, são violências que não deveriam existir, apesar das nossas limitações como seres humanos.

Se pensarmos em uma democracia como a nossa no Brasil, a violência do Estado é, talvez, a mais grave de todas – pois ela age “em nome do interesse público”, ferindo o próprio interesse público, que é, ouso afirmar, o guardião dos laços sociais. Por exemplo, a forma com que as polícias lidam com negros e com estudantes em manifestações é, sem dúvida alguma, uma violência que se manifesta como a antítese ao diálogo. Mesmo que o Estado, de forma arbitrária e até sádica, aja “em nome da lei”.

As violências e suas motivações, portanto, são diversas. Elas devem ser analisadas como sendo ou uma alternativa ao diálogo, ou a antítese dele. A partir desta introdução faço uma reflexão sobre o trânsito e os laços sociais que se estabelecem a partir das relações de intermodalidade.

Dia de chuva: carros parados, bicicletas fluindo. Foto: Rachel Schein

Foto: Rachel Schein

Brigas e agressões no trânsito

Rato Carro de rua
Aborígene do lodo
Fuça gelada
Couraça de sabão
Quase risonho
Profanador de tumba
Sobrevivente
À chacina e à lei do cão

Saqueador da metrópole
Tenaz roedor corredor
De toda esperança
Estuporador da ilusão
Ó meu semelhante
Filho de Deus, meu irmão

adaptação de trecho da canção “Ode aos ratos”,
de Chico Buarque (Cambaio, 2001)

Tenho refletido sobre as inúmeras vezes em que rompi os laços sociais, abri mão do diálogo e promovi uma agressão, culminando em diversas violências.

Desde que passei a me locomover de bicicleta em São Paulo – lentamente a partir de 2006 e intensamente a partir de 2008 -, na minha conta pessoal já se acumulam 3 retrovisores quebrados, uma dezena de bate-bocas e muitos xingamentos. “O que originou tais reações?”, vocês poderiam perguntar. Não importa. O fato é que, por alguma razão, nestas ocasiões eu fui promotor de alguma violência, rompendo com fundamentais laços sociais que nos fazem indivíduos que vivem em sociedade. Por que, afinal, abri mão do diálogo nestas ocasiões?

Usar a bicicleta não nos torna melhores. Não nos torna maiores. Não nos torna invencíveis. E essa postura deve ser constantemente revisitada e reforçada.

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Se uma pessoa estressada muda completamente depois da primeira parada cardíaca e uma fumante depois de sentir a iminência de um câncer, esta semana vivi o meu ponto de cisão, de ruptura e de inflexão para uma mudança pessoal intensa e profunda.

Envolvi-me em uma briga de trânsito. Feia, inútil, com muitas agressões, um retrovisor quebrado e pessoas assustadas. Não convém detalhar o caso, pois o importante é que o arrependimento, o golpe narcísico e as reflexões me conduziram para uma conclusão que deveria ter sido óbvia desde sempre: a violência afasta, deseduca, desestimula e nos faz retroceder muitas casas no tabuleiro do processo evolutivo como sociedade.

Desde minha tenra formação como indivíduo, a partir do segundo setênio, sempre acreditei nos laços sociais e no diálogo como pontos de partida e chegada para resolução de todo e qualquer conflito. Não à toa políticas públicas e os instrumentos de reforço destes laços sempre me fascinaram e até hoje são objeto ou das minhas investigações, ou da minha praxis.

Se a cidade, a urbe, é um território de disputas, a violência não pode ser o modus operandi a partir do qual estas disputas se dão. Não se quisermos mudanças estruturais, contínuas e perenes.

Se a violência deseduca, afasta e desestimula, a generosidade e a inclusão produzem efeito inverso. Na disputa por espaço viário, uma das maiores inequidades da mobilidade urbana, qual papel queremos desempenhar no sentido de uma cidade mais diversa, inclusiva e humana?

Condutores que passam mais tempo no trânsito
(taxistas e motociclistas, por exemplo)
apresentam média de emoção raivosa
superior à dos motoristas amadores

Um estudo realizado com 400 motoristas da cidade de Manaus apontou que justamente os condutores que passam mais tempo no trânsito (taxistas e motociclistas, por exemplo) foram os que apresentaram média de emoção raivosa superior à dos motoristas amadores. O estudo apontou ainda que motoristas infratores também apresentaram emoção raivosa média superior à dos não infratores.

É preciso compreendermos, portanto, que a exposição às mazelas dos congestionamentos, da poluição, das buzinas, tem nos causado severas enfermidades. E a raiva – seja ela acumulada ou manifestada por rompantes – não pode ser justificada a partir destas condições urbanas que nós mesmos construimos e reforçamos diariamente.

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Quando reagimos com agressões e virulências em detrimento de uma compreensão generosa sobre as enfermidades alheias, as subjetividades, dificuldades e limitações individuais, estamos justamente dinamitando as possibilidades de fortalecimento dos laços sociais do nosso ecossistema de mobilidade urbana.

Se quisermos ser a mudança que queremos ver no mundo, sugiro deixarmos de ser tão apocalípticos no trânsito e passarmos a ter uma compreensão holística sobre nossos laços sociais. Escrevo no plural, mas falo sobre e para mim. Tem sido minha mais profunda reflexão cotidiana no trânsito paulistano. Mais amor, menos u-lock no retrovisor.

P.S. Este texto-reflexão foi estimulado pela pessoa com quem mais tenho aprendido nesta vida.

Daniel Guth é diretor geral da Ciclocidade
(Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo)


5 comentários para Violência no trânsito: importa quem começou?

  • Tarantino

    Ninguém percebeu o viés de doutrinação esquerdista no texto? O assunto bicicleta foi só um pretexto.

    “Por exemplo, a forma com que as polícias lidam com negros e com estudantes em manifestações é, sem dúvida alguma, uma violência que se manifesta como a antítese ao diálogo”

    “Podemos citar, como exemplo, a violência destacada nas agressões de trabalhadores durante a revolução industrial, que utilizavam os sabots (tamancos, em francês) para paralisar e danificar as máquinas, culminando em avanços importantes para a garantia de direitos trabalhistas.”

    Sacaram?

    Esse pessoal esquerdista não perde uma chance.

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  • Concordo muito com o texto mas, infelizmente, nem sempre (em casos de stress agudo – raramente) a razão é a primeira a se manifestar. É claro que não temos (nós? eu?) a intenção de agredir e promover a violência, especialmente quando defendemos cidades mais humanas, mas também não acredito que podemos, ou devemos, ser “só flores”. Flores que, por sinal, ultimamente adornam minha bicicleta, quebrando a imagem hostil de um ser que se locomove “tapando a cara com trapos”, para evitar a poluição que agride os ocupantes das vias públicas da cidade. “O meio é a mensagem”, “você é para os outros a imagem que eles tem de você”, e assim por diante. Muito bem, talvez seja isso mesmo que nós devemos ter no horizonte, até o primeiro filho da puta jogar uma tonelada de lata na sua direção.

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  • Cícero Soares

    Cara… Sei não. O texto tá com muita cara de mea-culpa, a despeito das “referências” pomposas aí.

    Digo “sei não” porque não sei (não sabemos) no detalhe o que aconteceu, e uma das primeiras lições que tive ao iniciar esses meus três anos de bici foi rever algumas posições após analisar no detalhe os conflitos de trânsito em que me meti ou em que fui metido.

    E a primeira lição foi me forçar a me comportar 100% dirigindo um veículo, o veículo-bici no trânsito, 100% cdf, e, quando dando, me comportar como veículo-lento, tipo: eu determino a segurança do “aqui você me passa, aqui não”.

    Isso, mais minha gentileza espontânea (em dias de bom humor) ou não, fizeram com que o número desses conflitos no trânsito desabasse.

    Outra coisa que eu logo aprendi: NÃO me comportar como “motoqueiro” nessa questãozinha dos retrovisores. Se eu perceber que a distância tá “em cima”, eu PARO em cima e transponho esses obstáculos laterais que nem uma lesma, pro motorista pelo menos sacar o meu cuidado.

    Agora, no detalhe, no detalhe mesmo, não tem como não perder a cabeça em algumas situações, situações que acabam literal e metaforicamente com o nosso dia (que tem a ver com risco de morte, promovido por irresponsabilidade de motoristas, né?), e tenho plena certeza de que todos nós ciclistas passamos e vamos continuar passando por essas situações que…

    Que, me desculpa, Guth, se o motorista quase encostar em mim e der chance de eu dar uma porrada na lataria, exigir a distância segura e regulamentar e mandar o cara à merda (o que já aconteceu mais de uma vez), no problema, às favas os meus pruridos civilizatórios.

    Mas, de novo, tudo é questão do “no detalhe”. Hoje mesmo aconteceu de, num cruzamento, o motorista entrar muito colado na bici, eu na preferencial. Como estávamos devagar, eu fui parando, parando e parei, ele atrás, e só dei uma visada de reprovação pra ele e pra “colada”, sem dizer palavra alguma. E o cara sacou a desatenção dele. E ao seguirmos, ainda devagar, ele na outra faixa baixou o vidro e me deu milhões de desculpas, ele estava super envergonhado, e eu, ainda sem dizer nada, só acenei um tudo bem.

    Noves fora, Guth, se tudo é no detalhe como afirmo, ouso dizer que: sim, a ameaça à violência (claro, não a violência em si, aí já entramos num “outro mundo”) é sim até capaz de “recompor os laços sociais”, mas ameaça tática, como chamamento ao diálogo, à razão.

    E no nosso caso essa razão é: respeitem os ciclistas como um vulnerável, respeitem TODOS os socialmente vulneráveis. Senão…rs.

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  • Olá!
    Muito bacana o tema, a abordagem, as citações e os exemplos em geral!
    Também compartilho o fato de que após deixar de dirigir veículos a combustão, minha paciência, tolerância, compreensão e entendimento de todo contexto melhorou e aumentou muito, pois após vivenciar casos semelhantes, percebi o mal que gerava em todos envolvidos e hoje, grande maioria das vezes, prefiro ser feliz do que ter razão!
    Gratidão por compartilhar e seguimos ao ritmo dos pedais com + AMOR & – MOTOR! Abraço forte.

    Comentário bem votado! Thumb up 4 Thumb down 0

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