Na cadeirinha ou pedalando, cada vez mais crianças vão à escola de bicicleta

Pedalando rumo à escola por rotas alternativas e mais seguras. Foto: Auira Ariak

Pedalando rumo à escola por rotas alternativas e mais seguras. Foto: Auira Ariak

Joana diz que gosta do vento contra o rosto e que se diverte muito no caminho. Nina conta que saboreia o milho em plena calçada e que no último verão curtia o sorvete vendido através de uma “janelinha”. Iana vai sorrindo feliz da vida e cumprimentando todos que cruza nas ruas. Thomas, enérgico, gosta da ideia de movimento ao usar as próprias pernas como um motor. Luanda, ao mudar o percurso indo por uma área toda gramada, passou a curtir o novo trajeto e, longe das movimentadas avenidas, sente-se mais segura.

Todd Ollivier e a filha Iana, de 5 anos. Foto: Federica Fochesato

Todd Ollivier e a filha Iana, de 5 anos. Foto: Federica Fochesato

Todos e todas são personagens reais. São crianças entre cinco e 12 anos relatando com entusiasmo o que veem, o que sentem e o que questionam, pelas ruas da cidade, cada vez que vão e voltam da escola de bicicleta, seja estando na cadeirinha da bike do pai ou da mãe – como acontece com Nina, de 9 anos, e Iana, de 5 -, seja indo na própria magrela, como acontece com Joana, 11, Thomas, 9, e Luanda, 12. Na certa, quem hoje vai com o pai ou com a mãe não demorará muito para começar a ir sozinho, o que representa emancipação para todo mundo; aliás uma característica intrínseca ao ir e vir pedalando.

Joana, Thomas e Luanda vão guiando suas magrelas e fazendo a maior parte do percurso nas calçadas. Isso ocorre com toda a turminha entrevistada, que tem na ponta da língua o porquê desta atitude e a forma adequada de se comportar ao lado dos pedestres. Ao lado da diversão e das novas descobertas através do corpo em contato com as ruas, surgem também as contestações sobre o direito de ir e vir na urbe. Afinal, a turma toda, em resumo, disse que “gostaria de ver mais gente de bike nas ruas, mas isso não acontece porque quase todo o espaço é dos carros e eles andam em alta velocidade”.

Pierre Sylvestre Panthet e seu filho Thomas. Foto: Federica Fochesato

Pierre Sylvestre Panthet e seu filho Thomas. Foto: Federica Fochesato

Boom motorizado e vantagens da bicicleta

Em tempos passados, em cidades de médio porte como São José dos Campos (SP), era muito mais comum ir para a escola de bike – na própria, numa cadeirinha ou na garupa mesmo –, e compartilhar ruas ou calçadas fazia parte do cenário urbano sem maiores confrontos. Hoje, com o boom do automóvel, a verdade é que, em áreas centrais ou mais nobres, as crianças passaram a enxergar a cidade muito mais a partir dos vidros “filmados” dos carros, vivendo menos a rua. Restou mais às periferias – tanto de São José dos Campos, como de qualquer outra cidade urbanizada – a realidade de se ver crianças rumo à escola no pedal. Os motivos para esse uso são claros: muitas famílias que não possuem carro utilizam a bicicleta diariamente e o estudo costuma ser próximo de casa, no próprio bairro, numa instituição pública.

Em termos de distância, quem faz o percurso maior é Nina, em São Paulo, sendo levada por sua mãe, Silvia Balan, 44 anos. São cerca de três quilômetros sempre percorridos mais rapidamente quando estão na bike. Nina reforça com exatidão que quando tem que ir de táxi, não gosta nem um pouco. O motivo? “De táxi a gente fica presa no trânsito. Não gosto! E a pé demora demais”, diz a pequena. Segundo Silvia, através do ir e vir de bike, é possível trocar com a filha a própria noção de cidadania. Isso começou com a primeira filha de Silvia, Bia, que já era levada de bike para lá e para cá em Ubatuba, ainda bebê. Hoje, Silvia tem uma página no facebook e um blog nos quais relata toda a experiência e curiosidades junto à filha Nina, ao circular de bike pela pauliceia – ou melhor: ao não circular de carro particular na capital.

Silvia e Nina: recados na cadeirinha não faltam. Foto: Luiz Cavalli

Silvia e Nina: recados na cadeirinha não faltam. Foto: Luiz Cavalli

Estacionamento

Para Todd Ollivier, 39, pai de Iana, e Pierre Sylvestre Panthet, 40, pai de Thomas e Joana, encontrar vaga para estacionar o carro perto da escola deixou de ser um problema. Ambos levam os filhos para a escola pedalando e prosseguem de bike rumo ao trabalho depois de deixarem as crianças. Muitas vezes, Pierre e filhos vão a pé. São atores, o tempo todo, do próprio movimento e relatam que acham estranho a passividade de estar dentro de um carro.

Quando perguntado às crianças qual a principal diferença que sentiam entre ir de bicicleta e ir de carro, houve unanimidade em torno da seguinte resposta: de carro não prestam atenção em quase nada (“vou lendo um gibi e nem vejo a rua”, relatou Joana) e de bicicleta vão atentos e olham tudo que se passa na cidade. Junto a isso, se movimentam e mandam a preguiça para longe.

Ao olhar a cidade de perto, essas crianças não têm dúvida: há mais espaço e tempo para quem decide fazer seu ir e vir pedalando. Se andassem trancafiadas dentro de um automóvel, talvez não concluíssem isso tão cedo.

Pedalando na calçada: por quê?

A maioria das crianças entrevistadas para esta reportagem, seja guiando a sua bike, seja na cadeirinha da mãe ou do pai, pedala pelas calçadas. E uma recomendação é clara e unânime entre os pais e mães: na calçada, deve-se ter muita atenção com os pedestres e, principalmente, com as pessoas de idade. Quando surgem vias de velocidade reduzida é possível que pedalem na rua, sob o olhar cuidadoso do adulto que as acompanha e sempre com bastante cautela, já que infelizmente, muitas vezes, nem mesmo Zonas 30 são respeitadas pelos motoristas.

Para Auira Ariak Boainain, 41 anos, mãe de Luanda, quando a calçada é larga, é sempre mais tranquilo o compartilhamento, mas de qualquer forma, conta que nunca passou por alguma situação em que ela e a filha (cada uma em sua bicicleta) fossem alertadas por alguém a pé. “Creio que há mais sensibilidade e as pessoas não vão xingar uma criança que esteja pedalando na calçada. Se tivéssemos mais ciclovias, as pessoas não iriam pedalar na calçada e haveria menos conflito para todo mundo”, disse ela. “Afinal, a criança, às vezes, também fica tensa por estar na calçada à medida que compreende que aquele espaço é do pedestre”, completa.

É na calçada que elas vão - questão de segurança, não de infração. Foto: Auira Ariak

É na calçada que elas vão – questão de segurança, não de infração. Foto: Auira Ariak

Não foi à toa que, na busca de rotas alternativas para traçar o melhor caminho rumo à escola, Luanda aprovou a passagem por uma área verde gramada e arborizada localizada entre duas grandes avenidas. Agora, passam sempre a por ali.

Independentemente de o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) dizer que os ciclistas devem estar desmontados na calçada, deve-se lembrar que os municípios brasileiros não possuem ciclovias totalmente interligadas e a maior parte do espaço urbano se destina aos veículos motorizados. Logo, pedalar na calçada – com zelo pela segurança dos pedestres – é uma questão de segurança e não de infração, visto que a alternativa seria não utilizar a bike. Principalmente em se tratando de crianças ou de pais/mães levando seus filhos na cadeirinha. Como ressaltaram todos os pais e mães, é necessário haver o bom senso sempre, antes mesmo das leis, para que se estabeleça uma convivência mais harmônica nas ruas. Portanto, se é pedido tanto para que os motoristas respeitem os ciclistas, reforça-se que os ciclistas respeitem, por sua vez, os pedestres.

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Depoimentos

“Se a gente estivesse de carro, não ia dar pra parar e comer o milho que fica num carrinho bem na frente da padaria. De bicicleta, a gente para e come” – Nina, 9 anos, filha de Silvia Ballan, 44, videomaker, moradoras de São Paulo

“Vou para a rua quando não tem espaço na calçada. Mas na rua sinto medo por causa da velocidade dos carros” – Luanda, 12 anos, filha de Auira Ariak Boainain, 42, documentarista, moradoras de São José dos Campos

“Em Tremembé, onde nasci, aos sete anos eu já ia de bicicleta sozinha para a escola. Eram outros tempos, né? Mas, lá, ainda hoje, muitos vão para a escola pedalando. Levava já minha primeira filha bem pequenininha de bicicleta para a escola e, depois, ainda em Tremembé, também passei a levar a Luanda. A bicicleta sempre fez parte de minha vida e representa uma espécie de emancipação quando os filhos passam a usá-la. Emancipação pra gente e pra eles” – Auira Ariak Boainain

“Eu preferiria que as cidades não tivessem carros. E eu gosto da bicicleta porque ela é um motor que se alimenta dormindo” – Thomas, 9 anos, filho de Pierre Sylvestre Panthet, 40, que atua na área de TI (Tecnologia da Informação), moradores de São José dos Campos

“Na França, onde morei, me lembro muito das crianças indo de bicicleta – e sozinhas – para a escola. O paraciclo ficava cheio de bicicletas estacionadas” – Joana, 11, filha de Pierre Sylvestre

“Para as pessoas voltarem a usar a bicicleta teria que ser oferecido mais espaço a este veículo. E a realidade é que para isso acontecer seria necessário ‘reduzir’ o espaço dos carros, como aos poucos começa a ocorrer, pois está nítido que tudo se volta cada vez mais aos automóveis. O próprio tempo dos semáforos dos pedestres, por exemplo, é curto demais” – Pierre Sylvestre Panthet

“Ela só tem quatro anos, mas noto que ir de bike comigo é um estímulo para ela, pois vai olhando tudo curiosamente pela cidade. Interage com as pessoas do caminho. Vai super feliz. Aí, na volta, ela já não gosta muito quando vem de carro com a mãe. É completamente diferente” – Todd Ollivier, 39 anos, professor, pai de Iana Ollivier, cinco anos

Nossa repórter, Federica, com Thomas e seu colega Natan, outro adepto da bike, depois do bate papo. Foto: Federica Fochesato

Nossa repórter, Federica, com Thomas e seu colega Natan, outro adepto da bike, depois do bate papo. Foto: Federica Fochesato


2 comentários para Na cadeirinha ou pedalando, cada vez mais crianças vão à escola de bicicleta

  • federica giovanna fochesato - Kika

    Olá, Carlos!
    Obrigada pela sua mensagem e você tem razão: a observação dos pais/mães sobre a rota de seus filhos/filhas rumo à escola no pedal é fundamental que vá além, ou seja, que leve efetivamente as observações de melhorias à gestão, compartilhando-as junto à comunidade.
    E é isso mesmo: nas periferias de aqui e acolá Brasil afora, há bem mais crianças indo para a escola de bike diferentemente do que ocorre nas zonas centrais e mais nobres.
    Estamos juntos e vamos em frente para que nossas cidades se revolucionem mais e mais a favor de fazer valr a inclusão de tod@s no cenário urbano.
    Abraços, paz e pedais,
    Federica

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  • Carlos

    É ótimo que esteja acontecendo esse movimento, acidade precisa que as ruas e avenidas sejam mais caminháveis ( Walkables ). Aliás, caminháveis e cicláveis andam juntas.
    Reparem que as fotos mostram áreas mais nobres da cidade. Há este movimento de levar as crianças e/ou irem para escola de bicicleta, na periferia. Tenho observado isto pois moro na região periférica de São Paulo na Zona Oeste. Enquanto nas áreas nobres as calçadas são melhores e está mais servido de ciclovias. Nas periferias, as calçadas esão em péssimo estado, sem falar em ciclovias.
    É importante que pais interessados que a criança desenvolvam atividades físicas como pedalar, tenham ciência das melhores rotas e das ideais. Nas primeiraz vezes,é claro que os pais levem e acompanhem, ensinando os problemas da rota, ao mesmo tempo que os pais aprendam os problemas da rota, e tome atitudes para a melhoria desta rota, como melhoria da calçada,sinalização, arborização, tudo o que afeta o uso daquela rota. É uma leviandade falar para a criança ir de bicicleta para a escola ou outros lugares, sem saber por onde eles andam. Embora isto aconteça com mais frequência que imaginamos. Os pedestres também deveriam ter uma mesma consciência de proteger as crianças, já que muitos são pais, também tornar as calçadas mais caminháveis e cicláveis reinvidicando para a prefeitura/subprefeitura este espaço.
    Portanto, é necessário que os pedestres e ciclistas tomem mais atitudes como reinvidicar para a prefeitura as melhorias das calçadas.

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