SP: Ciclovia ameaçada de remoção tem grande fluxo de crianças, adolescentes e idosos

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Menina pedala sozinha na ciclovia da Avenida dos Metalúrgicos: alguns parecem preferir que ela estivesse em meio aos carros. Foto: Felipe Claros

Menina pedala sozinha na ciclovia da Avenida dos Metalúrgicos: alguns parecem preferir que ela estivesse em meio aos carros. Foto: Felipe Claros

A ciclovia da Avenida dos Metalúrgicos, na Cidade Tiradentes (extremo da Zona Leste de São Paulo) liga dois terminais de ônibus e tem alto índice de uso por crianças, adolescentes e idosos – que, somados, representam 28% dos usuários. Mas a estrutura está sob risco e pode ser removida em breve pela gestão João Doria, deixando essas pessoas desprotegidas em meio ao tráfego intenso de carros e ônibus no local.

Inaugurada em maio de 2015, a estrutura tem o formato de ciclofaixa bidirecional, com 2 quilômetros de extensão sinalizados no asfalto, junto à calçada. É uma das mais distantes do centro, a 30 km da Praça da Sé. E apesar de estar isolada do restante da malha, é bastante utilizada pelos moradores da periferia: em uma sexta-feira (23 de junho) foram registradas 580 viagens em apenas 14 horas de contagem, com 69 ciclistas/hora no horário de pico, conforme contagem realizada pela Ciclocidade em parceria com o coletivo Bike Zona Leste.

Atenção: Na segunda-feira, 10 de julho, haverá uma audiência pública para debater o futuro dessa ciclovia, na Prefeitura Regional, a partir das 18h. Compareça!

Risco de retirada

As alegações para retirada da ciclovia da Avenida dos Metalúrgicos são: falta de conexão, pouca utilização e incômodo ao trânsito de automóveis.

O prefeito regional de Cidade Tiradentes, Oziel Souza, entre Bruno Covas (esq) e João Doria (dir) ao receber o prêmio de melhor prefeito regional do mês de março. Para ele, a ciclovia é pouco utilizada e "atrapalha o trânsito". Foto: Alline Tolezano/SMPR

O prefeito regional de Cidade Tiradentes, Oziel Souza, entre Bruno Covas (esq) e João Doria (dir) ao receber o prêmio de melhor prefeito regional do mês de março. Para ele, a ciclovia é pouco utilizada e “atrapalha o trânsito”. Foto: Alline Tolezano/SMPR

Em reunião ocorrida em 7 de junho com a Câmara Temática da Bicicleta (espaço oficial de diálogo de ciclistas com a Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes), o secretário Sergio Avelleda citou justamente essa estrutura como um exemplo de ciclovia que pode ser retirada, por estar “completamente desconectada da malha e a quilômetros de qualquer outra ciclovia”.

Avelleda afirmou ter recebido um abaixo-assinado com 5 mil assinaturas pedindo a retirada da estrutura. “Eu tenho que respeitar e tenho que ouvir essas pessoas. Mas o abaixo-assinado não é determinante. Se a avenida dos metalúrgicos estivesse conectada, fosse um meio de ligação… mas ela não é. O ciclista que chega ao final dela termina no livro do Guimarães Rosa, ‘no nada’.”

O prefeito regional da Cidade Tiradentes, Oziel Souza, também quer retirar a ciclovia. “Os comerciantes são contrários e percebo que há pouco uso efetivo de ciclistas, além de atrapalhar o trânsito”, justificou ao site 32xsp em fevereiro deste ano.

Mas ela não está desconectada?

A ciclovia em questão está realmente sem conexão com o restante da cidade. Mas, fora o fato de que as ciclovias nos extremos das periferias têm que ser criadas inicialmente desconectadas das demais (ou teríamos que esperar muitos anos para que a malha lá chegasse), uma ciclovia sem conexão não é, nem de longe, inútil. Ela provê segurança às pessoas que precisem circular no trecho onde ela foi implantada.

Bastante gente circula de bicicleta pela região - são "os invisíveis da periferia". Foto: Ulisses Marcelus

Bastante gente circula de bicicleta pela região. São “os invisíveis da periferia”. Foto: Ulisses Marcelus

É inequívoco que quem circula nessa ciclovia está muito mais seguro do que antes, quando era preciso ir e voltar para o meio da rua o tempo todo, desviando de carros estacionados. Por mais que a estrutura possa ter problemas de pavimentação, talvez de nível de segregação ou até mesmo de traçado (com a atual troca de lado da rua, por exemplo), não se pode ignorar que um carro espremendo contra a calçada ou acelerando atrás do ciclista representa risco muito maior. Qualquer discurso que negue isso demonstra falta de conhecimento e de interesse em se informar – ou, pior, um profundo desrespeito à vida para defender interesses pessoais ou posicionamentos políticos.

Ainda sobre a falta de conexão, as pessoas raramente saem de casa de bicicleta para passear em uma ciclovia: saem para chegar a algum lugar. Se nesse trajeto houver um trecho mínimo que seja de ciclovia ou ciclofaixa, essas pessoas estarão mais seguras quando passarem por ali. Claro que seria interessante conectá-la ao restante da malha, permitindo viagens seguras às demais áreas da cidade, mas isso não pode ser utilizado como argumento para removê-la, colocando em risco a vida de quem já pedala por ali.

Conexão com transporte público

Além disso, há outra questão de conexão a se avaliar. O secretário de transportes declarou, na mesma reunião, que o plano de revisão de ciclovias tem como principal objetivo “manter e ampliar a rede cicloviária conectada em si e conectada aos equipamentos de transporte público”. Ciclovias que estejam conectadas à rede cicloviária ou muito próximas de serem conectadas, ou estejam conectadas a equipamentos de transporte público, são ciclovias que “ganham do nosso olhar técnico uma situação de acolhimento e de permanência”, segundo ele.

Bicicletário do Terminal Cidade Tiradentes. Foto: Felipe Claros

Bicicletário do Terminal Cidade Tiradentes. Foto: Felipe Claros

Pois bem: a ciclovia da Avenida dos Metalúrgicos está conectada a terminais de transporte público em ambas as pontas. Em uma delas está o Terminal Cidade Tiradentes de ônibus, por onde passam 27 linhas e que dispõe de bicicletário com 148 vagas; na outra, o Terminal Metalúrgicos, que serve como ponto inicial e/ou final de mais quatro linhas de ônibus.

O local onde se situa o Terminal Cidade Tiradentes também é o destino final anunciado para o monotrilho da Zona Leste (linha 15-Prata, prolongamento da linha 2-Verde). Infelizmente, embora tenha sido prevista inicialmente para ser entregue em 2014, a obra ainda não tem previsão nem mesmo para começar – além de uma lamentável controvérsia se será mesmo construída.

E será que realmente não tem uso?

O levantamento feito no local deixa claro que a ciclovia é utilizada. E por estar desconectada e em uma área bastante periférica, essa utilização traz algumas peculiaridades em relação aos estudos feitos em outras regiões.

Resultados da contagem
Total de ciclistas: 580
Média por hora: 41,43
Média por minuto: 0,69
Pico: das 14h às 15h (69 ciclistas)
(23/jul, das 6h às 20h)

O fluxo de ciclistas é predominantemente regional, em oposição ao movimento pendular clássico de origem-destino rumo a alguma centralidade. Junto ao Terminal Cidade Tiradentes há uma “Praça Multiuso”, com Wifi Livre, rampa de skate e quadra de esportes. Existem sete instituições de ensino facilmente acessíveis ao longo da estrutura, da educação infantil ao ensino técnico. Há muitos conjuntos habitacionais nas ruas ao redor, além do Mercado Municipal na outra ponta da ciclovia e diversos estabelecimentos comerciais na própria avenida.

É comum veri dosos pedalando na avenida. Na imagem, trecho após término da ciclofaixa, junto ao terminal de ônibus, de onde as pessoas precisam seguir ainda sem a proteção da estrutura. Foto: Adriana Marmo

É comum ver idosos pedalando na avenida. Na imagem, trecho após término da ciclofaixa, junto ao terminal de ônibus, de onde as pessoas precisam seguir ainda sem a proteção da estrutura. Foto: Adriana Marmo

Com isso, é intenso o fluxo de crianças e adolescentes pedalando, boa parte circulando desacompanhada de adultos: o percentual é de 22%, patamar inédito no histórico de contagens da Ciclocidade. Também chama atenção o número de idosos (6%). Foram registradas ainda bicicletas cargueiras (2%), skatistas (2%), cadeirantes e até cavalos na infraestrutura cicloviária. Mesmo os índices de ciclistas “fora da ciclovia” (5%), “na contramão” (7%) ou “na calçada” (8%) apontam, na verdade, para fluxos de ciclistas em busca do acesso à ciclofaixa.

Veja o detalhamento da contagem nos gráficos do final da matéria – ou acesse o estudo original aqui (em formato PDF).

Talvez então atrapalhe o trânsito…

Os comerciantes e o prefeito regional afirmam que a ciclovia “atrapalha o trânsito”. Mas observando as imagens do Google Street View, registradas antes da implantação da estrutura, percebe-se que a área era utilizada antes como estacionamento (veja mais abaixo).

Ciclofaixa foi sinalizada onde antes carros estacionavam. Foto: Eduardo Magrão

Ciclofaixa foi sinalizada onde antes carros estacionavam. Foto: Eduardo Magrão

Ora, em termos de circulação, uma faixa da avenida reservada para estacionamento “atrapalha” muito mais que uma ciclofaixa, já que haverá motoristas manobrando para entrar e sair dessas vagas o dia todo, impactando o fluxo dos demais – sem contar aqueles que circulam a baixa velocidade procurando uma vaga, ou param no meio da avenida aguardando que outro motorista saia para poderem estacionar. Quem realmente atrapalha o trânsito?

E é nesse ponto que chegamos ao verdadeiro motivo para a remoção da ciclovia: vagas de estacionamento.

Os comerciantes cometem o equívoco de considerar as vagas de estacionamento do outro lado da rua como essenciais para seu negócio, desconsiderando que:

  1. pessoas circulando em bicicleta também são potenciais consumidores;
  2. os automóveis que antes ficavam ali não eram necessariamente de consumidores, muitas vezes ocupando o espaço o dia todo;
  3. o leito viário é público e voltado prioritariamente para circulação, sem haver nenhum dever da municipalidade ou direito dos comerciantes sobre seu uso como estacionamento.
  4. a área imediatamente em frente ao comércio não foi afetada, mantendo espaço onde ainda se pode estacionar, pois a ciclovia fica do outro lado da rua

A decisão sobre a retirada pende entre conveniência para estacionar ou proteção à vida.

O que vale mais, o conforto de quem dirige ou a vida de quem pedala? Que respondam as autoridades municipais.

Imagens de 2014 mostram área da atual ciclofaixa ocupada por carros estacionados (à direita).

Gráficos

Fotos

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1 comentário para SP: Ciclovia ameaçada de remoção tem grande fluxo de crianças, adolescentes e idosos

  • Pesadelo!.

    Resido na Cidade Tiradentes a 29 anos, conheço bem a Região.
    A PMSP Abandonou a CicloFaixa, hoje esta toda desgastada com a sinalização toda quebrada.

    Não e incomum você ver Motos, e até mesmo carros circulando e estacionando em cima da ciclofaixa, isso porque não tem uma fiscalização.

    A Av. metalurgicos sempre teve problemas com transito, inclusive antes da ciclofaixa era um caos de carro parando, estacionando ali.

    a um tempo atras ouvi falar de tirar a ciclofaixa e colocar placas proibindo estacionar no local, o que chega a ser piada, não existe fiscalização, aos Finais de semana o que mais vemos e motoboys sem capacetes, e ninguém e multado. Placas numa região um pouco a frente do Hospital CT existe, mais ninguem respeita, o que você mais vê lá e carros parados e adivinhem? ninguem multa!!!

    sou contra a retirada por causa disso, a Ciclofaixa melhorou o transito da região, tirando aquele estacionamento a Ceu aberto do local.

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