Cidadãos repintam ciclofaixa com a largura correta em Recife

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Ciclofaixa da Estrada do Encanamento, antes e depois da população fazer o que a prefeitura deveria ter feito. Fotos: Victor Senna (esq) e Rodrigo Melo

No último dia 10 de novembro, a ciclofaixa da Estrada do Encanamento, em Recife, foi cenário de um atropelamento. Um motorista atropelou pelas costas uma ciclista que trafegava sobre a estrutura (veja box mais abaixo). Na quarta-feira 15, um protesto alertou sobre a largura insuficiente da faixa para ciclistas, com um cordão humano indicando o espaço que deveria existir. E, no dia seguinte, a ciclofaixa amanheceu com a largura refeita pela população, para que ofereça mais segurança a quem a utiliza.

A rede cicloviária da região foi implantada em 2012 e compreende cerca de 4,3 km nos bairros do Parnamirim e Casa Amarela. Em 2016 a Ameciclo (Associação Metropolitana de Ciclistas do Grande Recife) avaliou a ciclofaixa da Estrada do Encanamento criando o Índice de Desenvolvimento da Estrutura Cicloviária (IDECiclo) e foi constatado que, além da quantidade de tachões ser insuficiente, a via não possui sinalização horizontal ou vertical nos cruzamentos ou qualquer pino que impeça o trânsito e parada de automóveis dentro da ciclofaixa.

Boa parte dos motoristas já está respeitando a nova largura. Foto: Aldenio Alves

Largura mínima

A Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) informou recentemente, em nota ao Jornal do Commercio, que “em relação à largura do equipamento, o tamanho atende às recomendações previstas no manual de sinalização do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran)”.

As informações, no entanto, não procedem. A largura útil da ciclofaixa, que é a distância compreendida entre as linhas vermelhas, possui apenas 1,34m, portanto, em desconformidade com o Manual de Sinalização Horizontal do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), que em sua página 36 indica como 1,5m a largura mínima para ciclofaixas de sentido único. Em alguns pontos, chega a ter 1,08 cm.

Ciclofaixa é muito utilizada pela população em seus deslocamentos. Foto: Victor Senna

Seu tamanho reduzido decorre da falta de coragem e displicência da Prefeitura do Recife e de sua autarquia controladora de trânsito em diminuir a larga faixa de rolamento de veículos, que possui 3,34m, quando a largura mínima desta poderia ser de até 2,7m, segundo o manual supracitado. Para efeitos de comparação, uma das principais avenidas do Brasil, a Av. Paulista, possui faixas de rolamento com largura de 2,8m.

O redesenho das vias, solicitado através de protocolos pela Ameciclo desde 2013, permitiria mais segurança, pois diversas pesquisas indicam que quanto mais largas as vias de rolamento, maiores velocidades são imprimidas por motoristas. Além disso, ciclofaixas estreitas dificultam a possibilidade de uma ultrapassagem segura, principalmente quando envolvem bicicletas largas como cargueiras e triciclos. Tal demanda nunca foi atendida pela CTTU.

Em setembro deste ano, Cezar Martins, ex-Coordenador e atual Conselheiro Fiscal da Ameciclo, foi atropelado na Av. Mário Melo, no bairro de Santo Amaro. O atropelamento poderia ter sido evitado, pois a avenida já deveria possuir estrutura cicloviária desde setembro, de acordo com a CTTU.

O atropelamento

Foto: Ameciclo

A coordenadora da Ameciclo, Lígia Lima, foi atropelada no dia 10 de novembro na Estrada do Encanamento, a menos de 200m de sua casa. Lígia estava pedalando na ciclofaixa quando o motorista, que estava parado sobre a calçada, invadiu a estrutura cicloviária batendo na roda traseira da bicicleta e derrubando-a. Apesar de inicialmente desmaiada por alguns segundos, Lígia permaneceu acordada, deitada ao chão até a chegada da ambulância, sem se lembrar do que havia acontecido. Após exames e medicações, Lígia recebeu alta na madrugada da sexta para o sábado, mas ainda sente dores pelo corpo, cabeça e tonturas. O prognóstico é de no mínimo uma semana para recuperação.

O motorista que atropelou Lígia não se evadiu do local, porém, segundo testemunhas, apresentou diferentes versões do fato. Em sua primeira versão ele não apenas não assumiu a culpa como ainda insinuou que o verdadeiro atropelador havia fugido, mas logo a versão foi desmentida por uma pessoa que presenciou todo o fato. Diante disso, surgiu uma segunda versão apresentada pelo motorista e seu carona de que Lígia, uma ciclista experiente e que pedala diariamente há mais de 5 anos, caiu sozinha. Mais uma vez a versão foi contestada por testemunhas que estavam em outro veículo e que, além de presenciarem, possuem filmagens do atropelamento.

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2 comentários para Cidadãos repintam ciclofaixa com a largura correta em Recife

  • Fernando

    Quisera eu estar lá para ajudar os camaradas nessa tarefa!

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  • Fabrício José Barbosa

    O Manual de Sinalização Horizontal do CONTRAN não determina ou obriga largura mínima. Este, parte integrante da Resolução do CONTRAN Nº 236/2007 “recomenda”. Portanto não tem força de lei pois não obriga a exatidão ou largura mínima. “Recomenda-se para a Ciclofaixa de sentido único a largura mínima de 1,50 m, e para ciclofaixa de sentido duplo a largura de 2,50 m, sendo recomendada sua colocação na lateral da pista.” (página 36). Infelizmente a prefeitura de Recife pode fazer a largura que ela quiser. Por isso é que temos tanta infraestrutura cicloviária precária nas cidades brasileiras, porque as resoluções e manuais respectivos são fraquíssimos no Brasil e não tem força de lei. Att, Fabrício, especialista em planejamento cicloviário.

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