Licitação de ônibus de SP não traz grandes avanços para quem pedala na cidade

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Foto: Willian Cruz

Por Rita Silva

A Prefeitura de São Paulo deve anunciar essa semana o edital de licitação do novo sistema de transportes por ônibus da cidade. O contrato deve ser de 20 anos, no valor de R$ 66 bilhões. Seria o momento ideal para avanços que beneficiassem também quem usa a bicicleta na cidade.

Pamela Emerich mora no bairro do Cambuci e utiliza a bicicleta todos os dias para ir à faculdade, na Vila Mariana. Quando pedala também até o trabalho, que fica na Barra Funda, o percurso total chega a 24 km, mas por conta do cansaço físico ela acaba fazendo isso apenas duas vezes por semana. Os ônibus poderiam ajudá-la a percorrer esse caminho mais facilmente, caso fosse possível embarcar com a bicicleta. “Seria menos cansativo se eu levasse a bicicleta no ônibus e pedalasse apenas a metade do caminho”, explica Pamela.

Uma bicicleta branca (ghost bike) marca o local onde Marcia Prado faleceu atropelada por um motorista de ônibus na Avenida Paulista. A uma quadra dali está outra ghost bike, em memória de Julie Dias, também atropelada por um veículo desse tipo. Foto: Willian Cruz

Em seu trajeto, ela utiliza em alguns trechos a faixa de ônibus, redobrando a atenção. Em 2017, os coletivos foram responsáveis por 25,64% das mortes de ciclistas por atropelamentos. Se os motoristas repeitassem a distância de segurança mínima exigida pelo Código de Trânsito ao ultrapassar um ciclista na via (1,5m), ela não teria tanto medo.

Mas a julgar pelo edital da licitação, Pamela e as demais pessoas que se deslocam de bicicleta na cidade podem perder as esperanças de avanços. O texto, que esteve aberto a contribuições até o início de março, é tímido na integração entre esses dois modais de transporte, segundo especialistas da área.

Um quarto das mortes de ciclistas

Flávio Soares, da Ciclocidade (Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo), lamenta que São Paulo esteja perdendo a oportunidade colocar em prática uma visão integrada que priorize o transporte público sem colocar em risco pessoas que se locomovem a pé ou por bicicleta. “Temos que pensar também em quem está fora do veículo, até porque pedestres e ciclistas são usuários frequentes do transporte público.”

Ação da Prefeitura no “Maio Amarelo” de 2017 fez motoristas de ônibus passarem pela experiência de levar uma fina, para entender o risco a que submetem os ciclistas (veja aqui). Mas a ação foi pontual e de escopo limitado, quando poderia ter se tornado um treinamento padrão. Foto: Willian Cruz

“Nos últimos 7 anos, dados da CET mostram que os ônibus estiveram envolvidos em pelo menos um quarto das ocorrências com mortes de ciclistas e um quinto das que levaram a mortes de pedestres”, alerta Flávio. “Isso se repetiu também em 2017. Se queremos estimular a intermodalidade, o primeiro passo é agir imediatamente para mudar este cenário e nada melhor do que esta licitação para garantir isso”.

Com base em sua experiência diária, Pamela concorda: “Seria muito mais seguro pedalar ao lado do motorista que recebeu treinamento para respeitar o meu espaço como ciclista. A licitação de ônibus precisava tocar em temas como segurança no trânsito e espaço para os ciclistas tanto na via quanto dentro dos ônibus.”

“Eu mesma já sofri um acidente por falha do motorista e felizmente não foi grave. Percebo que alguns motoristas ainda não estão preparados para a convivência pacífica no trânsito”, completa.

Como fica

Caso não haja mudanças até a versão final do edital:

Apenas uma bicicleta por ônibus

O edital limita o transporte de apenas uma bicicleta por ônibus, partindo do princípio que ciclistas pedalam sempre sozinhos. Segundo a Ciclocidade, o ideal seriam duas bicicletas. O edital também poderia permitir o acesso de bicicletas dobráveis, ampliando a intermodalidade com bicicletas de 11% para 54% da frota, e já possibilitar a adoção de racks externos, caso a legislação federal os permita nos próximos 15 a 20 anos (período previsto para a duração dos contratos).

Bicicleta é apoiada pela roda e presa a um suporte vertical com uma cinta. Estrutura existe em apenas parte dos superarticulados de São Paulo e não há como o ciclista saber onde e quando encontrar um ônibus que aceite sua bicicleta, o que torna seu uso quase impraticável. Foto: SPTrans/Divulgação

Limitador de velocidade

O edital da licitação prevê a obrigatoriedade nos ônibus de um aparelho limitador de velocidades que se ajuste às máximas estabelecidas pelas vias da cidade, não podendo passar de 50km/h. Limitar a velocidade dos ônibus é bom, mas velocidades máximas de 50km/h são pouco seguras para pedestres e ciclistas, ainda mais para veículos do porte de ônibus ou caminhões. O que faz o ônibus chegar mais rápido a seus destinos é uma boa velocidade média, não uma alta velocidade máxima.

Treinamento para motoristas

O edital prevê obrigatoriedade de treinamento de direção defensiva apenas para motoristas envolvidos em ocorrências de trânsito com vítimas. Treinamentos devem ser também preventivos, buscando a convivência com modais ativos de transportes.

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