Foto: Willian Cruz/VdB

O Brasil trabalhando para sustentar as montadoras

Benefícios como incentivos fiscais, reduções de imposto e financiamentos recorrentes deveriam garantir empregos, mas outras estratégias trariam melhores resultados

Segundo estimativa da Anfavea, a redução de IPI causou a venda adicional de 250 a 300 mil carros no primeiro semestre de 2009. As vendas tinham sido 3% maiores que o mesmo período do ano anterior. Em algumas localidades, a venda de automóveis chegou a ser 30% maior em 2012.

Além de movimentar a economia, a intenção por trás desses benefícios é garantir empregos na indústria automobilística. Mas já é hora de percebermos que tem algo de muito errado nessa dependência que o país tem das montadoras. Vende-se a ideia de que, se elas forem mal, o país também irá mal, mas isso só é verdade até a página 3.

É certo que, quanto maiores as vendas, mais gente tem emprego. Mas quanto maiores as vendas, mais carros nas ruas também. Mais poluição no ar, mais mortes em acidentes de trânsito e em rodovias. O custo do automóvel para a sociedade é muito mais alto do que pode parecer. Até que ponto vale vendermos nosso presente e futuro com a justificativa de manter empregos (mesmo sem garantias disso)?

Você seria a favor de desmatar toda a Amazônia e vender a madeira? Ora, seriam criados milhares de empregos e o país encheria os cofres… Mas não dá, né? Descontadas as devidas proporções, estimular a venda de carros recai em um problema semelhante.

Trabalhando para as montadoras, o governo arma uma arapuca para si mesmo. O aumento do número de automóveis faz aumentar a demanda e a pressão popular por pontes, estradas, viadutos. O aumento da infraestrutura aumenta mais ainda a demanda, formando um ciclo. Progresso? Sim, talvez. Progresso sustentável? Nem de longe!

Se o país investisse mais em ferrovias e hidrovias do que em rodovias, não teríamos tantas mortes nas estradas. Não teríamos tantos caminhões, que acabam sendo culpados pelos congestionamentos nas cidades por onde precisam trafegar.

Se os municípios investissem mais em transporte público do que em alargamentos de avenidas e em pontes, teríamos menos congestionamentos e mais qualidade de vida.

E quem trabalha na indústria automobilística, e os empregos indiretos nas fábricas de peças e outros setores ligados ao automóvel? Desemprego em massa? Fome, guerra, morte? Se jogarem uma bomba em cada montadora e todas elas sumirem do dia para a noite, talvez, mas obviamente a quebra dessa dependência deve ser gradual. Só que ela precisa começar!

Um primeiro passo seria desenvolver políticas públicas de reciclagem profissional, para que as pessoas que trabalham nesse setor há décadas sejam capazes de trabalhar em outra área, talvez até com um rendimento maior. Junte a isso a transferência dos incentivos fiscais e financiamentos, dados habitual e continuamente às montadoras, para outros setores de atividade econômica.

Por que não se incentiva a indústria têxtil, que há décadas tem perdido espaço para os produtos estrangeiros? Ou a indústria calçadista? Transfiram os benefícios para outros setores, para produzirmos aqui e vendermos lá fora. Transfiram os trabalhadores de segmento, com treinamento e ensino adequados, para que possam ter uma vida melhor do que a que têm hoje.

Já tivemos presidentes que sabiam na pele como os trabalhadores com pouca especialização foram tratados ao longo de décadas e o quanto foi difícil conseguir direitos básicos e um mínimo de dignidade. Se eles tivessem opção de trabalhar em outro setor, teriam se mudado e pronto, as montadoras que se virassem para reconquistá-los.

O Brasil não tem que trabalhar para as indústrias do automóvel e do petróleo, levando de carona as empreiteiras que participam de obras viárias milionárias. Quanto dinheiro o país gasta, direta e indiretamente, com essa dependência absurda? Mesmo sem sabermos o valor – e ele passa facilmente da casa dos bilhões – podemos deduzir que dá para se mudar o país com essa mudança de foco.

Só é preciso começar. Mas para isso é preciso ter interesse em beneficiar, de fato e a longo prazo, a população.

6 comentários em “O Brasil trabalhando para sustentar as montadoras

  1. E isto explica a questão também dos sindicatos, principalmente de montadoras. E aí está o fracasso dos sindicatos, porque em ultima análise está agindo a desfavor da classe trabalhadora e da sociedade.

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  2. Enquanto isso, o governador do Rio vai à China para comprar os trens do metrô. Quantos empregos não seriam criados se a grana dos impostos fosse investida em transportes públicos e não para subsidiar o automóvel? A verdade é que a indústria automobilística cria a cada dia menos empregos. Uma pergunta que eu não deixo de me fazer é: o que uma pessoa faria com a grana que ela usa na compra e manutenção de um carro se ela não tivesse um? (No meu caso eu posso afirmar que essa economia me permite gastar em coisas muito mais úteis – do ponto de vista pessoal e social – e agradáveis).

    Uma matéria interessante (link abaixo) mostra a proposta do governador de Michigan para usar as fábricas de automóveis para produzir trens:

    http://www.infrastructurist.com/2009/06/04/michigan-governor-use-car-factories-to-make-trains/

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  3. Acho que você foi muito feliz na comparação com a amazônia. Quem ganha com a redução do IPI? Quem ganha quando o governo tira as montadoras do buraco? Expandir a ineficiência da mobilidade, a segregação do espaço público, a segregação social, a dependência por combustíveis fósseis, a expansão descontrolada de nossas cidades, a internação por acidentes de trânsito é dar um tiro no pé.

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