Pequenas ações que tornariam as ruas mais seguras

Ciclista na Av. Paulista
Foto: CicloBR

A Gerência da Paulista postou em seu blog o relato de Mariana Rillo, ex-ciclista urbana. Em seu texto, Mariana comenta que desistiu de pedalar devido à agressividade do trânsito, que lhe resultou em um acidente grave, e que a Av. Paulista não é nada gentil com o ciclista.

Pois é, depois reclamam que há ciclistas que pedalam nas calçadas dessa avenida. Não que usar a calçada seja o correto, mas quem o faz é gente que, como a Mariana, tem receio de pedalar na rua. São pessoas que entendem como seu direito usar a bicicleta como meio de transporte, mas só se sentem seguras se escondendo dos carros na calçada. Sim, está errado, está longe do ideal, mas se a via só é receptiva para os carros, é isso que vai acontecer e não adianta reclamar.

Qual o maior problema?

Assim como Mariana, muita gente gostaria de utilizar a bicicleta como meio de transporte, mas têm receio de fazê-lo. O maior impedimento para que essas pessoas circulem na rua é o desrespeito de muitos motoristas, que acreditam que a bicicleta atrapalha o trânsito, que lugar de bicicleta não é na rua e que o ciclista não deveria estar ali – mesmo que o Código de Trânsito, em seu Art. 58, garanta esse direito em todas as vias da cidade.

Ciclista na Av. Paulista.
Foto: Mathias

Há motoristas que começam a ultrapassagem e jogam a lateral do carro para cima do ciclista, colocando-o em situação de risco, tanto quando à sua direita há uma calçada (pois encostar a roda ou o pedal no meio fio e desabar na calçada de concreto, com postes, lixeiras, desníveis, buracos e outras pessoas, causa um acidente que pode até deixar sequelas) como quando – pior! – à direita do ciclista há uma faixa de ônibus.

Some-se a isso a possibilidade do ciclista cair de forma a ter algum do membros (ou mesmo o tórax ou a cabeça) debaixo do veículo que encostou levemente o retrovisor no guidão da bicicleta e você terá uma medida do risco que o ciclista corre numa situação dessas. Ao bater com o retrovisor ou a lateral do carro no guidão, este vira de uma forma que o ciclista cai na direção do veículo que o abalroou. Ou seja: ou o ciclista foge numa tentativa suicida de se jogar na calçada, ou é derrubado para baixo do veículo do homicida em potencial.

Esses motoristas acreditam – mesmo! – que a bicicleta não deveria estar ali e tentam “ensinar” isso ao ciclista ameaçando-o de morte. É por isso que precisamos legitimar a presença da bicicleta com o uso de sinalização.

Por isso, campanhas de conscientização ou mesmo pequenas iniciativas de sinalização ajudariam a tornar as ruas da cidade mais seguras e colaborariam muito mais para difundir o uso da bicicleta do que a construção pontual de ciclovias. E o custo dessas iniciativas seria bem menor.

Conscientização

O mais eficiente seria uma campanha de conscientização em grande escala, que ao mesmo tempo incentivasse o uso da bicicleta (afinal, quanto mais ciclistas nas ruas, mais seguras elas se tornam) e esclarecesse a motoristas e ciclistas que o lugar da bicicleta é na rua, que sua presença deve ser aceita e que a vida que se equilibra em cima dela deve ser respeitada. A bicicleta na frente do carro não é um obstáculo, é uma pessoa, uma vida, tentando chegar em algum lugar com um veículo que ocupa pouco espaço, não polui e não congestiona. É essa a mensagem que deve ser passada.

Se a bicicleta está impedindo que o motorista passe por aquele ponto numa velocidade maior, isso não é um problema tão grande assim: após ultrapassá-la, o espaço à sua frente está livre de carros e o tempo é recuperado. E, se o espaço à frente dela não estiver vazio, não é vantagem ultrapassar, é só esperar que ela siga seu caminho ultrapassando os carros parados e ocupar o espaço onde antes ela estava. O problema não é a bicicleta ter uma velocidade máxima relativamente baixa, é a ansiedade que toma conta do motorista no trânsito parado e principalmente a falta de respeito pelo espaço que outros também têm direito de ocupar. E isso só se corrige com educação e punição.

Após uma fase inicial de educação, deve haver uma segunda fase de punição, onde motoristas que passem próximos demais a um ciclista ou que o ameacem com o veículo sejam punidos, seja com multa ou mesmo como crime, quando a ameaça caracterizar uma tentativa dolosa de lesão corporal ou ameaça à vida. Os motoristas que agem no anonimato dos vidros escuros e na certeza da impunidade passariam a pensar duas vezes antes de colocar a vida de alguém em risco.

Sinalização

Bicicletinhas brancas pintadas no asfalto oficializam o direito que a bicicleta tem de circular naquele espaço, disciplinando os motoristas. Quando ainda havia essa sinalização na segunda faixa da Av. Paulista e as bicicletas circulavam por essa faixa, havia mais respeito dos motoristas e a via era mais segura. Agora que as bicicletinhas, que haviam sido pintadas por iniciativa popular, estão apagadas, aumentou a frequência de motoristas que ameaçam o ciclista com o carro, querendo que ele saia da rua para dar passagem ao monstro de metal, mesmo que seja para o motorista parar depois de 50 metros, no sinal que já está fechado.

Outro motivo para sinalizar a segunda pista da Av. Paulista (e outras tantas em outras avenidas) com bicicletinhas no asfalto, indicando que ela é a pista indicada para o ciclista e que os carros devem respeitar sua presença ali, é que a pista dos ônibus ficaria livre de bicicletas, facilitando também a circulação do transporte coletivo. Afinal, fica complicado para o motorista do ônibus sair da faixa onde está confinado para fazer uma ultrapassagem segura (a 1,5m de distância – art. 201 do CTB). Se o ciclista estiver na segunda faixa, os carros terão outras duas nessa avenida para poder ultrapassá-lo com segurança, mudando de faixa para não colocá-lo em risco e o ônibus também poderá passar livremente.

Placas avisando aos motoristas que naquela via há tráfego de bicicletas também legitimam essa presença. Fazem com que o motorista entenda que a bicicleta tem o direito de estar na via, coisa que é difícil de entrar na cabeça de muita gente que acredita que só quem paga IPVA tem direito de utilizar as ruas (como se o imposto fosse sobre Propriedade Viária, não do Veículo).

Urgência

Mesmo em plena Av. Paulista, onde um olhar desatento só percebe a circulação de carros, há um tráfego intenso de bicicletas: em uma contagem feita pela ONG Transporte Ativo, no início de 2009, foram registradas mais de MIL bicicletas em um período de 12 horas. Tente fazer essa contagem em um dia útil, preferencialmente em horário de pico, contando as bicicletas em ambas as pistas e nas calçadas, e você se surpreenderá com o resultado.

Sinalização visando também as bicicletas deveria ser vista como prioridade da prefeitura e da CET. Afinal, o asfalto não é utilizado apenas por carros, motos e ônibus. E o motorista “médio” precisa ser conscientizado disso com urgência, pois vidas estão sendo perdidas em consequência da vista grossa da Companhia de Engenharia de Tráfego, que só enxerga carros passando nas ruas e insiste em tratar todos os demais usuários da via – como bicicletas, ônibus de linha e fretados, caminhões e até os pedestres – como obstáculos à santificada fluidez do automóvel particular com uma única pessoa dentro.

Espero poder ver a avenida símbolo de São Paulo, que tem se tornado um exemplo de acessibilidade, se tornar também um exemplo de inserção segura da bicicleta no fluxo viário. E que ela sirva de exemplo – de acessibilidade, de convivência, de compartilhamento da via – para o resto da cidade.

Todos têm a ganhar com isso. Até mesmo quem prefere continuar usando o carro.

17 comentários em “Pequenas ações que tornariam as ruas mais seguras

  1. Oi! Faz um tempinho que estou querendo fazer da bike, meu principal meio de transporte.
    O grande motivo que ainda me impede é justamente vencer o medo em dividir o espaço com os carros.
    Tenho observado muito os ciclistas pela cidade e os carros também(só uso transporte coletivo)…e cheguei a conclusão que por onde quer que eu ande, prefiro mais estudar a calçada e imaginar se por ali eu conseguiria pedalar sem atrapalhar os pedestres.
    Na verdade eu poderia dizer, que o meu medo de pedalar entre os carros seria compatível com o medo de pular de um avião sem para-quedas!
    Confesso que é um baita dilema, pra quem já consegue ver todos os pontos positivos da bicicleta…mas vive em uma cidade carrocrata e tão hostil.
    Espero vencer esse medo…mas pelo menos no começo…eu irei utilizar a calçada sim! É a minha vida em jogo.

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  2. Eu uso muito as calçadas em vias onde a velocidade do tráfego é alta. Não vejo problema algum se pedalar devagar e com todo o respeito pelos pedestres. Nunca tive problema algum. Inclusive na Ponte da Cidade Universitária, meu caminho diário, onde há uma estação da CPTM a mesma coisa. Com calma e sem atropelar ninguém.
    O ciclista tem que ser consciente para ter razão. Muitos não são, infelizmente

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    1. Concordo com você Luiz.

      O ciclista, deve “proteger” o pedestre, tanto quanto os motoristas devem proteger os ciclistas.

      Prezando a minha própria segurança, recorro algumas vezes à calçada, sim.

      Quando estas estão vazias, pedalo em velocidade reduzida.

      Quando há pedestres se aproximando, paro a bicicleta por alguns segundos até o fluxo passar ou desço e vou empurrando.

      O meu bom senso também me mantêm numa distância de 1,5m dos pedestres.

      Passar raspando, jamais, pessoal.

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  3. Parabéns pelo blog.

    Não sou mais ciclista mas acompanho o assunto.

    Com placas de 70Km em Avenidas como a Paulista, Indianópolis e outras e 60 & 50 onde deveriam ser de 40km é impossível ter segurança, tanto de bicicleta, como à pé ou mesmo de carro, exceto em condições/dias especiais.
    Há alguns anos o CET parece ter optado por aumentar os limites de velocidade na cidade, para “maquiar” ao invés de atenuar/solucionar o problema dos congestionamentos. Optou pela Velocidade ao invés de buscar a Fluidez, quando cidades inteligentes já haviam optado há uns 15 anos pelo traffic calming entre outras ações para se viver melhor e mais seguro no transito. O CET “encheu” a cidade de placas com velocidades que, além de perigosas, estimulam o motorista a elevar a velocidade, mesmo que seja por poucos metros/segundos.
    A impressão que fica é que o CET teria inclusive responsabilidade, como Fator Contribuinte, em grande parte dos inúmeros acidentes que ocorrem na capital, (Av. Paulista/bicicleta não seria um deles?), pelo descontrole na orientação e fiscalização do transito. Acelerou toda a cidade, a tal ponto que, nas condições atuais, a cidade parece não servir para bicicletas, pedestres a em algumas situações nem mesmo para carros. (Vide a Av. dos Bandeirantes). Acho importante os blogs como meio de formação de redes comunitárias, troca de informações etc. mas talvez uma ação mais eficaz para resultados práticos a médio prazo, seria criar/incluir nas associações amigos de bairro etc. uma área/pessoas que cuide(m) dos assuntos relativos às bicicletas (trafego, passeios, novas ciclovias etc), inclusive “alimentados” de informações pelos Blogs. Grupos de pressão organizados com pleitos pontuais e bem fundamentados, tem se mostrado razoavelmente eficazes, principalmente junto à esses orgãos chamados de “publicos”. É um trabalho quase missionário, mas que ao longo do tempo parece estar obtendo bons resultados em diversos outros casos.

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  4. Dependendo do volume de tráfego, com pouco trânsito e carros a absurdos 70 km/h (permitidos por lei), a Paulista não é nada “amigável” para com o ciclista, principalmente com os menos experientes. Na minha opinião, considerem sempre a opção de usar as paralelas São Carlos do Pinhal e Alameda Santos, por exemplo. E, no caso da Nove de Julho, que o Juliano citou, o conselho vale mais ainda, pois às faixas lá são apenas duas, mais estreitas e, dependendo do trecho, com aclive, o que obrigatoriamente diminui a velocidade do ciclista. O lado bom é que as opções para se evitar a Nove de Julho são em maior número…

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  5. Bom, eu gostaria de usar a Paulista com mais frequencia, porque é uma avenida plana, fica lá no alto, fácil de cruzar a cidade para chegar em vários bairros. No entanto, para evitar ser ejetada da rua ou esmagada, e como eu não pedalo na calçada nunca, acabo optando por ruas paralelas, que não são tão convenientes quanto a Paulista.

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  6. O perigo na segunda pista é grande de um motorista maluco te jogar pra debaixo de um onibus que venha na mesma hora na 1ª pista.

    É bem difícil harmonizar o tráfego ali.

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  7. Willian, só a gente sabe como é andar de bike no meio dos ônibus, carros e caminhões, às vezes eu penso que me acostumei com a pequena distância que os carros passam ao meu lado (<1,5m), e que Deus me protege pois, nada me aconteceu até hoje, com exceção dos retrovisores “semquerer” quebrados…
    cara e a nove de julho???? é um aperto pedalar nela pela pista, tenho que ir em certos trechos pela calçada que não tem pedestre nenhum mesmo, ou porque tem medo de assalto ou porque não quer andar mesmo,,,, só tem vendedor de flores mesmo

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  8. Eu sempre usei a pista da Paulista de bike mas depois do ocorrido com a Márcia passei a utilizar bem mais as calçadas, não só na Paulista como em vários outros pontos da cidade.
    Eu sei que é errado, mas se nada é feito para viabilizar quem quer se deslocar de bike, foi o modo que encontrei de preservar a minha vida.
    Espero que isso mude um dia.
    abs

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