Ciclistas em acostamento: lhes falta empatia? Foto: Willian Cruz/VdB

O que nos pedem é uma empatia unilateral

Veja a opinião de Guilherme Moraes sobre as afirmações de que ciclistas que usam o acostamento também deveriam ter mais empatia com os motoristas

Em recente entrevista sobre mortes de ciclistas, o presidente da CCR Infra SP sugeriu que ciclistas não usem o acostamento das rodovias. Questionado se os motoristas não deveriam ser mais gentis com quem está numa bicicleta, afirmou que “falta empatia para todo mundo que está no trânsito”. O que incluiria o ciclista, que no acostamento é atropelado por trás e sem chance de reação, por um motorista que não poderia estar ali. Veja a opinião de Guilherme Moraes.

Pois é. Ninguém quer se colocar em risco. Essa é uma premissa bem básica na vida de todo mundo.

O ciclista que está em qualquer estrada tem um objetivo único: chegar a algum lugar. E olha que interessante: é o MESMO objetivo dos motoristas.

Ciclistas já são bem empáticos com motoristas, porque aceitamos as migalhas de estrutura existente e sempre em decadência. Acostamentos pequenos, inexistência de acostamentos, acostamentos interrompidos, sujidades no acostamento, bloquetes, tartarugas e o escambau no acostamento…

Ciclistas respiram fundo, às vezes xingam mentalmente e seguem seu rumo.

Agora, do outro lado, tem bem menos empatia. Motoristas buzinam, aceleram e passam muito perto.

Quando buzinam, trazem os motivos mais nobres (“calma, eu só estava avisando a presença do carro!”). Só esquecem que o barulho da buzina é um elemento surpresa bem desagradável para quem pedala. A buzina é uma comunicação que nada comunica ao ciclista (a não ser elementos de violência por vezes pacífica).

Quando o responsável pela rodovia indica para ciclistas usarem outras vias, parece que ele nada entende de deslocamento. É claro que ciclistas vão pelo caminho mais seguro, mas desde que seja um caminho intuitivo. Indicar ao ciclista para usar um caminho mais seguro, mas que leve para OUTRO lugar, ou que tenha MAIS SUBIDAS, ou que tenha OUTRO PAVIMENTO…. Ah, isso não é empatia.

Tenho vontade de indicar aos usuários de carro viagens por outras vias. Sei lá, imagine pegar o carrinho popular e ir para uma estradinha de terra? Imagine que a sugestão é que você vá por essa estradinha por ser mais “seguro” e que essa estradinha te leve para uma cidade diferente do seu destino. Isso é empatia?

A cada ano que passa fico menos afável a argumentos inaceitáveis.

É tão simples fazer um bom uso dessa demanda… Custaria pouco para as concessionárias e traria um ótimo resultado para os ciclistas. Basta uma via auxiliar de 3 metros de largura paralela às rodovias. Só isso. Nem precisa ter pirotecnia. Só uma faixa de 3 m de largura em cada lado das rodovias, para além do acostamento.

Daí as empresas poderiam fazer marketing e o escambau para dizer que são empresas verdes, preocupadas com a vida, com o esporte ou o que quer que seja.

Vou parar por aqui. Novamente estou sendo empático com quem não merece. Ensinar empresas a fazer marketing e ganhar mais dinheiro com isso não é tarefa para mim. Sou só um ciclista que quer sair de um lugar e chegar ao outro da forma mais legal, mais lúdica e mais agradável.

Empatia unilateral é violência.

Guilherme Moraes
Gosta de utilizar a bicicleta em deslocamentos urbanos diários, mas já perdeu as contas de quantas pequenas viagens de bicicleta fez. Adora o silêncio ensurdecedor do cicloturismo. Ciclista e mestrando PPGHDL/USP. Possui especialização em Direito Processual Penal pela Escola Paulista da Magistratura e hoje é servidor do Tribunal de Justiça (TJ-SP).

1 comentário em “O que nos pedem é uma empatia unilateral

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *