Como foi o Fórum com Mikael Colville-Andersen

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No dia 9 de julho aconteceu em São Paulo o Fórum Semana do Ciclista – Tendências, promovido pelo coletivo Libvee, em parceria com o SESC Pinheiros. Veja aqui o que rolou por lá e como foram as palestras.

Abertura

Abrindo o evento, Daniel Guth falou um pouco sobre o Libvee. Em seguida, assistimos a um descontraído making of do vídeo de apresentação do projeto. Foi feita uma breve apresentação dos participantes, conforme eram chamados ao palco.

Mikael Colville-Andersen (esq), sua tradutora e Willian Cruz (dir). Foto: Ricardo Yasuda (@shadowmaru)

Palestras

O Fórum começou com palestras individuais dos convidados. Abaixo, alguns comentários sobre cada uma delas.

Não fiz anotações porque estava participando ativamente do fórum, então tento puxar de memória, me perdoem se não há muitos detalhes.

Willian Cruz
Cicloativista e criador do site Vá de Bike

A primeira palestra foi a minha, onde falei um pouco sobre como o ciclista é visto pela sociedade, o preconceito que ainda existe com o uso da bicicleta e os motivos que levam as pessoas a pedalar.

Comentei também que o conceito de ciclista representa uma situação temporária, que dura enquanto a pessoa está fazendo uso da bicicleta, assim como a situação de pedestre dura enquanto se está andando pela rua. Não deve ser visto como um rótulo.

O site Eu Vou de Bike está publicando o áudio das palestras em seus podcasts. Minha palestra já foi disponibilizada nesse podcast. O áudio da palestra começa aos 45’25”.

"A foto que lançou um milhão de bicicletas" - de Mikael Colville-Andersen

Mikael Colville-Andersen
Autor dos sites Copenhagenize e Copenhagen Cycle Chic

Nessa primeira apresentação, Mikael Colville-Andersen falou um pouco sobre o movimento Cycle Chic e como ele começou, a partir de uma foto sua que não tinha essa pretensão.

Era uma foto que pretendia apenas mostrar as pessoas nas ruas, no que era o cotidiano de Copenhagen, mas impressionou pela elegância de uma moça em sua bicicleta e por mostrar ao mundo que pedalar pode ser “chic”. Essa foto inspirou pessoas de todo o mundo a usar a bicicleta e ficou conhecida como “a foto que lançou um milhão de bicicletas”.

Mais tarde, durante a sessão de perguntas, alguém na platéia pediu para ver essa foto, mas Mikael não a tinha disponível. Por isso a reproduzo aqui nesta página (clique para ampliar).

João Claudino Junior
Presidente da Houston Bikes

Quem esperava uma visão do uso da bicicleta como meio de transporte limitada aos consumidores com menor poder aquisitivo e em cidades menores, o discurso de João Claudino Junior, presidente da Houston, surpreendeu. Além de abordar a mobilidade, Claudino Junior comentou sobre o mercado de bicicletas e sua produção no país.

Como estava atento ao discurso, infelizmente não fiz anotações e nem comentários no Twitter, por isso puxando de memória agora não consigo citar muita coisa. Me desculpem. Mas logo o áudio da palestra dele estará disponível também e colocarei o link aqui.

Eduardo Jorge fala sobre bicicleta e poder público. Ao fundo, o vereador Gilberto Natalini.

Eduardo Jorge
Secretário Municipal do Verde e Meio Ambiente

Os cicloativistas que acompanham o trabalho do Secretário há alguns anos já sabem sua disposição em incentivar o uso da bicicleta na cidade de São Paulo, principalmente por ser um meio de transporte não poluente.

Com seu bom humor e simplicidade de sempre, Eduardo Jorge contou suas experiências ao utilizar a bicicleta nas ruas, dizendo que “tinha que experimentar”, para ver como era. Falou sobre a dificuldade de trabalhar a favor da bicicleta no governo, pela cultura automobilista existente. “Anos atrás, diziam que incentivar a bicicleta era loucura, que ia morrer gente. Hoje começa a mudar”. Comentou ainda que mudar a política pública “é como manobrar um transatlântico”: você começa a mudar lá para trás, para um dia, lá na frente, começar a sentir a mudança de direção.

O Secretário falou também sobre a importância dos bicicletários públicos na cidade e mostrou conhecer o caminho para uma cultura de respeito à bicicleta na cidade. “O centauro antigamente tinha quatro patas, hoje tem quatro rodas. O homem [dentro do carro] se transforma, fica selvagem. (…) Um trabalho de cultura de paz, de convivência no trânsito, é muito importante”.

Mostrando-se favorável ao compartilhamento da via, o Secretário disse ainda que “mesmo quando tivermos 1000km de ciclovias, vamos continuar com 17000km de vias sem ciclovias”, por isso precisamos de respeito. Não há como não concordar.

Como sempre comentamos aqui no Vá de Bike, a cultura de uso da bicicleta precisa ser construída através do respeito, porque mesmo que tivermos uma malha cicloviária extensa, abrangente e eficiente, em algum momento o ciclista terá que sair dela para ir até a porta de casa – e nesse momento precisará de respeito.

Gilberto Natalini
Vereador do município de São Paulo

O vereador Gilberto Natalini falou sobre vantagens econômicas, de saúde e ambientais da bicicleta. Entre os diversos exemplos citados, afirmou que “o maior redutor da glicemia no sangue é o uso da bicicleta”, referindo-se ao controle do diabetes.

Comentou que “nossa cultura ainda não a aceita”, mas ressaltou que isso tem mudado. “Existem discussões [no poder público] sobre os prós e contras de se incentivar a bicicleta, e os prós hoje já estão ganhando”.

“O uso da bicicleta é uma mudança que veio para ficar. Não tem volta.” – afirmou o vereador.

Público

Ao término das apresentações, foi aberto um espaço para perguntas, que acabou sendo mais utilizado para manifestar opiniões. Lembro de haver uma pergunta sobre a qualidade de bicicletas e de acessórios, que gerou um curto debate sobre tributação e incentivos governamentais à produção e uso da bicicleta.

Entre as opiniões de quem, na platéia, teve acesso ao microfone, destacou-se a de André Pasqualini, do Instituto CicloBR, que fez um belo discurso sobre uso da bicicleta, poder público, mudanças, acrescentando ao evento informações e opiniões relevantes sobre o assunto debatido.

A Palestra Magna de Colville-Andersen

Teve início a palestra principal do Fórum, com apresentação de slides. Colville-Andersen apresentou sua palestra “Four Goals for Promoting Urban Cycling” (“quatro metas para promover o ciclismo urbano”).

Bicicleta deve ser algo natural

Mikael começou dizendo que seus amigos acham estranho viajar o mundo falando de “bicicletas”. Em Copenhagen, todos têm, todos usam, é algo tão comum quanto um aspirador de pó. Mostrou fotos do dia a dia em Copenhagen, com pessoas de todos os tipos usando a bicicleta: homens de negócios, famílias, idosos. Lá a bicicleta não é um nicho, nem coisa de uma minoria contestadora.

Mostrando fotos que mostravam o uso da bicicleta na cidade, mesmo sob neve, Colville-Andersen comentou que “25% dos casais com mais de 2 crianças têm um cargo bike”. “Em Copenhagen não há ‘ciclistas’. Bicicleta faz parte da vida, como andar a pé”.

O exemplo de Copenhagen

“A partir dos anos 50, começaram a tirar espaço das bicicletas para dar aos carros”. Em um processo lento e gradual, sem nenhum grande catalizador da mudança, a cidade de Copenhagen conseguiu trazer de volta a cultura da bicicleta em um período de 30 anos. Naturalmente, sem nenhum esforço especial, apenas pela vontade das pessoas.

“Em uma cidade como São Paulo, é possível aproveitar esse know-how para mudar a cultura em apenas 5 anos”, afirmou Colville-Andersen. E o objetivo de sua palestra é exatamente esse: transmitir, de forma sucinta, os pontos-chave para essa mudança.

O incentivo à bicicleta e a polêmica do capacete

Em uma verdadeira aula para cicloativistas e poder público, mostrou que devemos sempre mostrar o uso da bicicleta como algo positivo e normal, não algo alternativo, contestador e perigoso.

Explicou que as pessoas precisam buscar identificação com quem usa a bicicleta, por isso ciclista de roupa esportiva e capacete não vai atrair tanto a atenção de quem pensa em ir de bicicleta ao trabalho quanto uma pessoa usando roupas normais, do dia a dia (veja o texto A importância do cycle chic, aqui no Vá de Bike). Contrário à obrigatoriedade de uso do capacete, afirmou que ela desestimula as pessoas a adotarem a bicicleta, por passar a imagem de um esporte de risco em vez de um meio de locomoção.

A maior parte das pessoas não quer ser “ciclista”, não vai usar a bicicleta para praticar esporte ou salvar a natureza, mas pode aceitar usá-la como um meio rápido, eficiente e agradável de chegar a algum lugar. “O foco deve ser para que as pessoas que ainda não usam bicicleta passem a fazer as coisas do dia a dia com ela”.

Desde a década de 80 existem capacetes para serem usados por todos dentro de um carro. Por que insiste-se tanto em obrigá-los apenas a quem utiliza a bicicleta?

Ainda dentro da discussão referente ao uso do capacete, Mikael afirmou fazer parte de um grupo de estudos sobre uso do capacete em Copenhagen e comentou que há estudos provando que uso de capacete em carros também diminuiria traumatismos cranianos, mesmo com air bags, mas que não há o menor interesse em divulgar isso ou obrigar seu uso, para não diminuir as vendas.

Mostrou duas tentativas de incentivar o uso de capacete em automóveis (tanto para o motorista como para os passageiros), uma dos anos 80 e outra de 2001. Obviamente, foram abafadas e esquecidas e ninguém veste um capacete ao entrar num carro hoje em dia. “Se você aceita usar capacete na bicicleta, tudo bem”. O que não podemos fazer é obrigar esse uso, ou colocá-lo como item essencial para poder usar a bicicleta, para não desincentivar quem pensa em começar. E isso a indústria automobilística sabe muito bem.

Uso excessivo do automóvel

Mr. Copenhagenize disse ainda que precisamos parar de ignorar os males do uso excessivo do automóvel e precisamos parar de fazer o jogo das montadoras, quando fazemos propaganda sem perceber do modelo de mobilidade baseado no carro particular. As pessoas falam bem do carro o tempo todo, mesmo sabendo de todos os males que seu uso causa à cidade. É hora de parar com isso.

A bicicleta e as cidades

Afirmou que a bicicleta é um veículo simples, que deixa a mostra a pessoa que o utiliza. Você não vê veículos, coisas: voce vê pessoas circulando. Isso humaniza o trânsito e a cidade, permite interação e civilidade. E ressaltou que é preciso tirar o uso da bicicleta da subcultura, do nicho, e transformá-lo em algo comum, acessível a todos, mostrando que a pessoa não precisa mudar para usar a bicicleta. Basta sentar em uma e pedalar até onde deseja ir.

Mikael contou que a cidade de Copenhagen descobriu que incentivar a bicicleta trazia lucro para a cidade, enquanto incentivar o automóvel trazia prejuízo. Ao adotar a bicicleta, as pessoas passam a viver mais e melhor e a serem mais produtivas.

Mostrou ainda como grandes cidades fizeram para incentivar o uso da bicicleta, basicamente diminuindo a velocidade máxima das vias para 30km/h e incentivando o aluguel e compartilhamento de bicicletas.

A palestra de Mikael Colville-Andersen foi uma aula de cicloativismo e de como a bicicleta pode contribuir para tornar as cidades melhores.

A palestra foi encerrada com o vídeo “Copenhagen – Cidade de ciclistas”:

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2 comentários para Como foi o Fórum com Mikael Colville-Andersen

  • Fabricio Semmler

    Esse semana do ciclista serviu para aumentar e muito minha esperança no futuro das cidades. Quanta riqueza! Quanta cultura! É verdade, pessoas comuns podem fazer a diferença.

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    […] semana que o Secretário dos Transportes, Marcelo Branco, disse com todas as letras que acredita mesmo é no compartilhamento das vias, está reduzindo as velocidades máximas na […]

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