A bicicleta branca de Marcia Prado, na Avenida Paulista, em São Paulo

Lembro até hoje dos telefonemas e mensagens de texto que recebi naquele 14 de janeiro de 2009, com a notícia de que uma ciclista havia sido atropelada por um ônibus em plena Avenida Paulista, anos antes da construção da ciclovia. Sendo uma mulher trafegando de bicicleta, naquela época, naquele local, as chances de que fosse uma amiga eram grandes. Alguns colegas ciclistas foram tentar descobrir quem era, também preocupados em ser alguma conhecida nossa.

Quando o Vitor do Quintal me ligou contando que a ciclista era a Márcia Prado e que ela de fato tinha morrido, me recusei a acreditar. Achei que era alguma brincadeira de mal gosto. “É brincadeira, né?” Quando vi que ele estava falando sério, continuei negando. “Não é possível. Tem certeza?”

Mas não adiantava negar: mesmo com sua experiência de pedal nas ruas, Márcia foi morta por alguém que não lhe deu chance alguma de reação, jogando em cima dela oito toneladas de ônibus e achando que isso só lhe daria “um sustinho”, impondo o conceito distorcido de que as ruas seriam só para veículos com motor. Comecei a receber outras ligações, mensagens de texto, e-mails, sinais de fumaça (as pessoas ainda não se conectavam em redes sociais na abrangência que temos hoje). E ainda era difícil aceitar.

Levei dois dias para conseguir escrever alguma coisa no Vá de Bike. E nem escreveria, de tão abalado que fiquei com o ocorrido, mas havia a insistência de amigos que esperavam que eu me manifestasse, leitores que queriam saber minha opinião e as frequentes perguntas de jornalistas por e-mail e telefone.

Depois de ler alguns absurdos imperdoáveis na imprensa, escrevi um texto que fala um pouco sobre a mulher que poucos conheceram, sobre o acidente atropelamento em plena Avenida Paulista e sobre as bizarrices da cobertura inicial da “grande mídia”. Alguns dias depois, escrevi outro texto, mostrando um pouco da visão que Márcia tinha sobre os problemas que os ciclistas enfrentam na cidade, para que as pessoas pudessem saber como ela pensava.

A primeira homenagem

Foto: Mario Amaya

Na noite seguinte ao atropelamento, ciclistas, amigos e familiares realizaram a primeira das homenagens, mesmo debaixo de forte chuva. Todos caminharam ocupando a avenida, com velas e flores nas mãos, da Praça do Ciclista até o local do ocorrido. As pessoas empurravam suas bicicletas (como viriam a fazer novamente dois anos depois, em solidariedade aos colegas de Porto Alegre).

No ponto do asfalto onde Márcia sucumbiu à intransigência, depositamos as velas e as flores, choramos abraçados e rezamos pela amiga que se foi, em um momento de saudade e de amor. Amor por ela, pelos amigos presentes, pelos familiares que nos aguardam em casa todas as noites. O sentimento de união naquele momento era muito forte. Éramos todos um.

A PM apareceu com várias viaturas e armamento pesado. Não sabiam o que pretendíamos ao fechar a avenida e vieram preparados para confronto. Mas ao notar que a manifestação era pacífica, uma ação de luto e não de violência, a polícia se mostrou compreensiva com os sentimentos dos que estavam ali e permitiu que a homenagem fosse feita em pleno asfalto, no ponto exato do atropelamento, ajudando a desviar o tráfego e a evitar conflitos com motoristas impacientes. A PM apenas pedia aos ciclistas que liberassem duas das quatro faixas de rolamento existentes na avenida.

Os motoristas que passavam pelo local recebiam flores de pessoas que vestiam capacetes, capas de chuva e lágrimas no rosto. Ao final da homenagem, um minuto de silêncio debaixo da chuva forte na Avenida Paulista. E por uma estranha coincidência, esse minuto termina com o enorme estrondo de um raio caindo em algum lugar ali por perto, como se alguém lá em cima participasse da homenagem. Os ciclistas, emocionados, aplaudem. Momentos que nunca esqueceremos.

As pessoas que participavam da homenagem choravam e se abraçavam, consolando uns aos outros, fortalecendo seus laços e decidindo em silêncio lutar por uma cidade melhor, onde ameaças à vida deixem de ser praticadas como punição a quem usa a bicicleta na rua.

Difícil lembrar de tudo sem me emocionar. Dói como se fosse hoje.

Veja outros relatos dessa homenagem no site da Bicicletada.
Uma boa matéria foi publicada aqui.

Condenações

Do motorista

Apesar de ter vários advogados atuando em sua defesa, o motorista Márcio José de Oliveira foi condenado pelo crime de trânsito que cometeu – art. 302 do Código de Trânsito Brasileiro, “praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor”.

“A própria descrição do réu e a dinâmica dos fatos revelam sua culpa”, diz o texto da sentença, emitida em julho de 2013, quatro anos e meio depois do ocorrido. “Seja por manobra abrupta, seja por ter resvalado no guidão da ciclista, o réu foi determinante com sua conduta para o desfecho fatal e sua imprudência ficou patente.”

Em julho de 2013, quatro anos e meio depois da morte de Marcia, o motorista que a atropelou foi condenado a 3 anos, 6 meses e 20 dias de detenção, “ficando suspensa sua habilitação para dirigir veículo automotor no mesmo intervalo.” Entretanto, por estarem presentes as condições previstas no art. 44 do Código Penal, sua pena privativa de liberdade foi substituída por “prestação de serviços à comunidade, por igual período, mais 10 dias multa”.

Entretanto, o juiz considerou que esses serviços comunitários não poderiam ser em projetos ligados a cicloativismocomo pediu o promotor. “A dor pelo óbito causado, bem como a pena ora aplicada, inclusive com suspensão de habilitação a impedir que o réu, já com 57 anos, continue exercendo sua profissão, são mais que suficientes para lhe despertarem a consciência da necessidade de respeito ao ciclista no trânsito.” E completou: “a frequência em cursos de convivência com o ciclista apenas infligiria sofrimento e constrangimento inúteis ao réu.”

Da empresa

A Viação Oak Tree foi condenada a pagar R$ 100 mil de indenização à família de Márcia Prado. A decisão é importante por reconhecer a responsabilidade de uma empresa de transportes urbanos pela conduta criminosa de um de seus motoristas, criando jurisprudência para que outras vítimas também venham a ser indenizadas.

A fundamentação do acórdão sobre a indenização à família da ciclista faz um relato resumido da conduta do motorista, destacando sua responsabilidade por outros usuários da via na condução de um ônibus, principalmente por ser um profissional com experiência. “O réu conduzia um veículo de grande porte, visualizou a ciclista na sua frente e mudou de faixa para ultrapassá-la. Exigia-se aqui que agisse com máxima prudência, certificando-se de que já a tinha deixado para trás e numa distância segura, bem como que se acautelasse também com sua integridade. Assim, não fazendo, concorreu culposamente para o evento”, diz o texto. Saiba mais.

A Ghost Bike

No dia 16 de janeiro de 2009, uma bicicleta branca foi colocada na avenida Paulista, no local do atropelamento, numa homenagem conhecida no mundo todo como ghost bike. Além da bicicleta, foram plantadas flores no canteiro, com a ajuda de alguns meninos de rua – que talvez por já terem perdido amigos tão cedo na vida compreenderam o que fazíamos ali, acharam bonito e se ofereceram para ajudar.

Junto à bicicleta, foi colocado um totem colorido montado a muitas mãos, com textos e frases que falavam sobre Márcia e relatavam o acontecido. Por muito tempo, bilhetes e cartazes anônimos, mesmo de pessoas que não a conheciam, apareciam regularmente no memorial.

Depois de algum tempo foi afixada uma placa de metal na bicicleta, com a silhueta que acabou virando o símbolo da Rota Cicloturística que leva seu nome. O totem, de madeira, desgastou-se pela ação do tempo e já não está mais lá. Tento manter um cartaz contando quem foi Márcia e falando sobre o que ocorreu ali, mas ele sempre é arrancado em poucos dias.

Hoje, a bicicleta branca é vítima constante de vandalismo e de tentativas de retirada. Ancorada por baldes de concreto, ainda tem resistido. E a cada vez que alguém a danifica ou tenta retirá-la, ciclistas se unem para reformar o memorial mais uma vez. Se a retirarem dali, outra certamente aparecerá no lugar.

Nesse meio tempo, um shopping foi construído no local. À época da inauguração, a empresa responsável chegou a propor a substituição da bicicleta por uma escultura em homenagem a Márcia dentro do shopping, mas a pedido dos ciclistas concordou em mantê-la no local.

O memorial virou atração turística, algo que pode ser comprovado em qualquer dia da semana. As pessoas param ali, leem o cartaz, tiram fotos, explicam para colegas de trabalho estrangeiros o que a bicicleta significa.

E se você parar ali com sua bicicleta para dar uma ajeitada na ghost, há grandes chances de alguém vir se solidarizar pelo acontecido. Em muitos sentidos, todos somos Márcia.

A bicicleta branca em frente ao Shopping Cidade de São Paulo, na Avenida Paulista, marca o local onde Marcia Prado foi atropelada por um motorista de ônibus. A uma quadra dali está outra ghost bike, em memória de Julie Dias, também atropelada por um motorista que conduzia um veículo desse tipo. Foto: Willian Cruz/VdB

Rota Cicloturística Márcia Prado

Uma rota cicloturística foi criada com seu nome, ligando São Paulo a Santos, pelo caminho em que ela fez uma de suas últimas cicloviagens. O roteiro sai de São Paulo pelo Grajaú, cruza a Ilha do Bororé até sair na Rodovia dos Imigrantes, continuando pela Estrada de Manutenção (veja mapa).

Várias descidas coletivas e auto-organizadas foram realizadas ao longo dos anos, sendo a maior delas em 2012, com cerca de 10 mil ciclistas. A Ecovias sempre proibiu o trânsito de bicicletas até mesmo no acostamento, onde têm direito de circulação garantido por Lei, recorrendo à justiça para impedir a tradicional descida anual a santos. Essa situação foi piorando ao longo dos anos, até que em 2017 culminou em violenta repressão policial contra 10 mil pessoas, que foram conduzidas pela Ecovias para a Rodovia Anchieta, onde seriam atacadas com jatos d’água, bombas de gás e ameaças de agressão.

Mas esse episódio lamentável trouxe também seus frutos. Em 2018, finalmente, a descida anual ocorreu com apoio do governo do estado e da própria Ecovias, tendo a Rodovia Anchieta reservada para bicicletas e atraindo um público de 40 mil pessoas (veja nesse vídeo e também aqui).

A Ecovias construirá uma estrutura com ciclovia e ciclopassarela para permitir que os cicloviajantes acessem a Estrada de Manutenção sem precisar cruzar o trajeto dos automóveis. Detalharemos esse projeto em breve no nosso canal do YouTube – inscreva-se!

Outras homenagens

De tempos em tempos, ciclistas e amigos renovam o Memorial Márcia Prado, como ficou conhecido o local da ghost bike, colocando novas flores, cartazes e placas. Essas atividades também costumam ser realizadas no dia de seu aniversário, 17 de novembro, e no dia de sua morte, 14 de janeiro. Em novembro de 2010, por exemplo, foi plantada uma jabuticabeira no canteiro onde está afixada a bicicleta branca.

Homenagens já foram realizadas também em outras cidades, como Aracaju (2009 e 2010) e Belém (2009). Foram manifestações de pessoas que não a conheceram pessoalmente, mas que compartilham do sentimento de perda por alguém que vivia a vida como nós, sobre duas rodas sem motor em uma grande cidade. Pessoas que se revoltam contra a impunidade em crimes de trânsito bárbaros como esse e tantos outros, com anônimos que não recebem nem uma nota no jornal a não ser para dizer que “causaram lentidão no trânsito”, com seus corpos inertes caídos no asfalto.

Márcia Prado nunca será esquecida. E continuará sendo uma inspiração para as novas gerações, que lutam para que tenhamos cidades mais humanas e receptivas ao ciclista, onde a bicicleta tenha sua presença aceita nas ruas e pessoas como esse motorista não ameacem mais a vida de quem só quer chegar em casa no final do dia.

Veja um vídeo feito pelo amigo Daniel Haase mostrando sua última viagem a Santos, pelo caminho que mais tarde levaria seu nome:

Márcia Prado não será esquecida. E essa cidade irá mudar.


16 comentários para A bicicleta branca de Marcia Prado, na Avenida Paulista, em São Paulo

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