Dossiê mostra descaso do poder público em relação a ciclovia

Em abril de 2012, após a morte do ciclista Lauro Neri na aveinda Eliseu de Almeida, cidadãos pintaram bicicletinhas no asfalto em protesto. A ciclovia, que deveria estar pronta há anos, teria salvo sua vida. Foto: Aline Cavalcante

Entre as atividades do Dia Mundial Sem Carro de 2012, a Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade) apresentou para a população um dossiê com o histórico dos projetos e ações voltados para a implantação da ciclovia nas avenidas Eliseu de Almeida e Pirajussara.

O documento traz dados importantíssimos, que escancaram a falta de compromisso e de seriedade da prefeitura de São Paulo quando o assunto é mobilidade urbana sustentável.

Para a próxima gestão, o dossiê pretende subsidiar a tomada de decisão e fazer com que o compromisso com a bicicleta se torne, finalmente, realidade.

O trabalho é inédito e foi realizado pela equipe de Pesquisa da Ciclocidade

Diretora Responsável: Tais Balieiro
Coordenadora do relatório: Patrícia Y. C. Caldeira

Segundo o relatório, as tentativas de implantação de uma ciclovia na região vêm desde 2004, com a realização do Plano Regional Estratégico do Butantã, que estabeleceu o ano de 2006 como data para a conclusão da obra. Mas, no ano seguinte, houve o anúncio da prefeitura de que a estrutura seria concluída até 2010.

“Em 2012, ao fim de mais uma gestão, o poder público não deu início a viabilização de qualquer infraestrutura básica a fim de fornecer segurança e conforto para o tráfego de bicicletas nessa importante avenida, acessada diariamente por mais de 600 ciclistas, em condições extremamente precárias e com trânsito intenso de automóveis”, diz o relatório.

Durante 3 anos consecutivos, a Ciclocidade realizou contagens de ciclistas na região, demonstrando uma demanda relevante de pessoas utilizando a bicicleta e “um número que poderia ser bem maior se houvesse condições de segurança para os usuários”.

Sistema Viário Estrutural do Plano Regional Estratégico da Subprefeitura do Butantã. Fonte: Secretaria Municipal de Planejamento Urbano - PMSP

São Paulo x Taboão da Serra

A região das Avenidas em questão fica situada no limite entre os municípios de São Paulo e Taboão da Serra. Tem intensa atividade urbana, comércio, serviços e compreende importantes vias de acesso à Marginal do Rio Pinheiros e regiões centrais da cidade da cidade de São Paulo.

Por isso, uma das dificuldades apontadas pelo relatório é a falta de interesse comum entre as prefeituras e secretarias envolvidas.  No lado de Taboão da Serra, a Prefeitura implantou uma ciclovia de 4km (da Avenida Brasil até a Rua João Santucci), que termina bruscamente assim que cruza o lado de São Paulo – esta tinha previsão de interligação cicloviária nas avenidas Eliseu de Almeida e Pirajussara.

“O trecho que compreende as Avenidas Eliseu de Almeida e Pirajussara é de aproximadamente 5,5 km, plano, fluvial (Rio Pirajussara), faz ligação entre a Rodovia Régis Bittencourt no Taboão da Serra, ao Butantã e à Marginal do Rio Pinheiros, permitindo o acesso da zona oeste da Região Metropolitana de São Paulo às regiões centrais, junto das vias estruturais Av. Francisco Morato, Rod. Raposo Tavares e Av. Corifeu, que desembocam principalmente nas Pontes Eusébio Matoso e Cidade Universitária.”

 

“Atualmente elas se encontram em condições extremamente precárias, com asfaltamento deteriorado e tráfego intenso de veículos automotores, incluindo um grande número de veículos pesados que utilizam as avenidas como acesso à rodovia Regis Bittencourt.”

Ciclo Rede Butantã

Em 2006/2007 o Instituto de Política de Desenvolvimento e Transporte – ITDP – elaborou e doou à prefeitura o projeto da Ciclo Rede Butantã, consolidando uma proposta de rede integrada de ciclovias, ciclofaixas, calçadas compartilhadas, trânsito compartilhado, ponte de pedestres e ciclistas, totalizando 105 km, para a região.

Ciclo Rede Butantã. Fonte: Dossiê Ciclocidade/Apresentação Pró-Ciclista de Arturo Alcorta

Mais promessas

Foto: Reprodução

No dia 20 de setembro de 2007, a Prefeitura publicou no Diário Oficial a notícia de que faria “a maior ciclovia da Cidade, com 15 Km de extensão” (referente à soma de ambos os sentidos das vias – uma forma de contabilização que não é utilizada em avenidas).  O projeto cicloviário seria aquele apresentado no seminário “Ciclovia no Butantã”, sob responsabilidade da Secretaria do Verde e Meio Ambiente.

Na sequência, foi iniciado o processo de contratações de projetos (básico e executivo) feito pela Subprefeitura do Butantã. Até hoje absolutamente nada foi concretizado.

>> Estadão: Maior ciclovia de SP não saiu do papel <<

2012

Em maio desse ano, moradores do Butantã entregaram na Prefeitura de São Paulo e Subprefeitura do Butantã um abaixo-assinado contendo mais de 2.500 assinaturas reivindicando a implantação da ciclovia na Eliseu de Almeida. O ato foi organizado por representantes de moradores do Butantã, com apoio da Ciclocidade.

“A ciclovia da Eliseu de Almeida/Pirajussara não é um caso único em São Paulo. Diversos projetos de infraestrutura cicloviária já foram feitos ao longo das últimas décadas, mas poucos saíram do papel e, os que saíram, não tiveram continuidade ou encontram-se em péssima condição de manutenção”, concluiu o dossiê.

>> SP TV: Associacao cobra ciclovia anunciada em 2004 na Av. Eliseu de Almeida<<

Download

Faça download no site da Ciclocidade:

+ DOSSIÊ ELISEU DE ALMEIDA (PDF)

+ RELATÓRIO DA CONTAGEM DE CICLISTAS (PDF)

Em abril de 2012 o trabalhador Lauro Neri foi atropelado e morto na Av. Pirajussara, enquanto pedalava de volta do trabalho. Ele foi mais uma vítima da omissão do poder público e da irresponsabilidade que as sucessivas gestões municipais demonstram com a vida de pedestres e ciclistas dessa cidade.

>> Vá de Bike: Omissão da Prefeitura resulta em morte de ciclista <<

>> Vá de Bike: Reação e Ação – a reação da população estimulando ação da prefeitura <<


6 comentários para Dossiê mostra descaso do poder público em relação a ciclovia

  • Roberto Silva

    Teimosamente utilizo a Avenida Eliseu de Almeida diariamente entre o Peri-Peri e a Estação Butantã do Metrô. Foram tantos os sustos e perigos que passei que não vale a pena descrevê-los. Pedalo na cidade de São Paulo bem antes das ciclo-faixas e percebo que estas últimas foram fundamentais para divulgar o ciclismo e despertar as pessoas para utilizar esta alternativa de transporte além do lazer. Afirmo que a única forma de conseguirmos mais ciclo-vias e ciclo-faixas é através de pressão aos órgãos públicos mesmo. Percebi também que a transição política na PMSP já está trazendo alguns problemas: vários trechos da ciclo-faixas não estão sendo montadas por “terceiros” contratados. Será que o novo prefeito ainda não deu a devida atenção ao assunto ? Conheci o sistema de ciclovias na Alemanha, França e Holanda. Tenho certeza que um dia chegaremos lá. É só trabalharmos para isto !

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  • Roberto

    Temo que o mesmo vá ocorrer com a tal ciclovia junto ao Monotrilho da ZL, qualquer um que acompanha as obras percebe que existem vários trechos onde a base da estrutura do Monotrilho está muito acima da rua e em cruazentos, o que inviabilizará o nivelamento da rua com a estrutura. Quem viver, verá. A desculpa para a não implementação da ciclovia já está sendo construida.

    Vamos seguindo e acreditando em promessas!

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  • EMERSON RIBEIRO

    Certamente a opnião do Daniel Cursini é pertinente, mas a pressão junto ao poder público, Ministério Público, Jornais e Entidades Organizadas da Sociedade Civíl (se não existirem, que se inicie), precisa continuar. O País anda colhendo os frutos de um avanço econômico de muitos países em desenvolvimento, temos mais pessoas com acesso a cursos superiores, estamos cada vez mais exigentes quanto a qualidade de vida e a estrutura que temos a nossa volta, então, a hora é agora !
    Precisamos aproveitar o momento para reunirmos, “perder” (hoje é ganhar …) horas antes de alguma folga e focar no que precisamos, no que queremos para melhorar nosso meio, termos de volta ao menos uma melhor qualidade de vida.
    Vamos deixar nossa marca na história de nossas regiões, ao contrário do mau exemplo que nossos políticos deixam e continuarão a deixar se só ficarmos indiguinados e sem ação.
    Parabéns a Taís Balieiro, Patrícia Caldeira, ao pessoal do ITDP e ao pessoal do Vá de Bike confirmando sua sempre excelente cobertura do mundo dos cidadãos e suas bikes.

    Abraços,

    Emerson Ribeiro
    Ribeirão Preto – SP

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  • Daniel Cursini

    É uma pena, mas acredito que dificilmente o poder público proverá o que deveria ao ciclista, simplesmente porque é uma categoria que não oferece lucro nenhum, a não ser a padarias e bicicletarias. O lucro quem dá é quem utiliza postos de gasolina e transporte público, paga IPVA e seguro obrigatório. E o resto… infelizmente só atrapalha o faturamento.

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  • Joaquim

    +1 aqui, também moro bem próximo à Eliseu e adoraria usar minha bike para ir ao trabalho passando por lá, mas é ridículo ver o estado da avenida em todos os sentidos: asfalto lunar, aquele canteiro central mal aproveitado – basta ver a quantidade de tampas de concreto no meio dele inviabilizando qualquer coisa, nem que seja plantar uma árvore. Enquanto isso, prédios e mais prédios subindo na região, cada vez mais carros travando a avenida todas as manhãs e a população ficando sem alternativas. Ainda sonho com uma ciclovia não somente na Eliseu, mas uma que te permita atravessar a marginal com segurança e por que não, integrar com a ciclovia da Faria Lima?

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  • Danilo

    É a ciclovia que eu usaria para ir ao trabalho todos os dias. Sem ela, já me esborrachei no meio da avenida – os carros colam atrás e pressionam, forçando uma alta velocidade, os ônibus intermunicipais empurram para a calçada, e o pior de tudo é a qualidade terrível do asfalto, tão esburacado que fica impraticável pedalar em linha reta. Por sorte não me aconteceu nada mais sério, mas também me vi obrigado a parar de usar a bicicleta para ir trabalhar. E o triste é olhar para o canteiro central, onde deveria estar a ciclovia desde o projeto que tapou o rio, e ver que não há nada. Nem árvore, nem calçada, é espaço morto.

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