Um cineasta e sua bicicleta – a relação de Jacques Tati com a mobilidade

Alguns filmes de Tati tinham a bicicleta como peça central. Imagem: Reprodução

Alguns filmes de Tati tinham a bicicleta como peça central. Imagem: Reprodução

O ator e cineasta francês Jacques Tati (1907-1982) deixou em suas obras várias referências à mobilidade, em especial às bicicletas. Numa das mostras promovidas pelo Cinesesc, tive o prazer de conhecer alguns de seus filmes, sobre os quais comento aqui.

Naquela época eu ainda não tinha descoberto a bicicleta, mas já era apaixonada pelo cinema. Mesmo sem “estar num relacionamento sério” com a magrela, fiquei encantada com seus filmes. Ainda não existia Youtube, acho que nem sequer a internet, e as grandes locadoras ainda não tinham tomado lugar das locadoras de bairros, então fui na locadora do lado de casa e passei uma semana “num relacionamento muito divertido” com Jacques Tati.

Como cinéfila e “bicicleteira”, não posso deixar de homenagear esse grande mestre do cinema e da bicicleta, que hoje (9 de outubro) faria aniversário.

Jour de Fête, de 1949, fala sobre um carteiro e sua bicicleta. Imagem: Reprodução

Jour de Fête, de 1949. Imagem: Reprodução

O início

Tati nasceu em Le Pecq ( França), em 09 de outubro de 1907, descendente de família russa (seu verdadeiro nome era Jacques Tatischeff). Depois de cursar engenharia e artes na academia militar de Lycée de Saint Germain-en-Laye, foi jogador de Rugby profissional, mas durante os jogos descobriu um novo talento: a mímica. Imitava os atletas em sua escola para diversão de colegas e professores.

E certamente seus aprendizados tanto na escola de engenharia e artes, quanto sua dedicação ao esporte, lhe renderam boas referências para suas cenas, tanto na direção como na atuação. Como na sua primeira interpretação, no curta de René Clement, “Cuida da tua esquerda” ( Soigne ton gauche), de 1936, em que fazia um habitante de uma pacata cidade sonhando em ser um lutador de boxe.

A partir de 1931, Jacques percorreu as salas de música de Paris, teatros e circos com suas imitações e acrobacias. A revista francesa “Le Jour”, foi uma das primeiras a reconhecer a sua crescente popularidade, descrevendo Tati como “um palhaço de grande talento”.

Mas a  Segunda Guerra Mundial, o serviço militar e as restrições resultantes da ocupação alemã interromperam temporariamente sua carreira.

O carteiro e a bicicleta

O pequeno vilarejo de Saint-Grave, em que Tati se refugiou durante a ocupação, serviu de inspiração para seu primeiro filme, a Escola de Carteiros (“L’Ecole des facteurs”) e  para a criação do personagem François, um carteiro desajeitado de 1,91m e suas aventuras com sua bolsa e sua bicicleta, representado por ele mesmo. São 15 minutos que valem todas as suas cenas. O filme está dividido em duas partes no Youtube:

Depois de um tempo, Tati decidiu refilmar a comédia como longa-metragem – com ele mesmo novamente no papel central –  usando os moradores como figurantes. E assim nasceu Jour de Fête, dois anos depois (1949). No filme, algumas cenas da “Escola de Carteiros”são repetidas. Em ambos os filmes, a bicicleta ganha o papel principal e certamente diverte adultos e crianças.

Além de François, Tati deu vida ao sr. Hulot em  ”As Férias do Sr. Hulot”,  e começou a imprimir um estilo particular de trabalhar os sons, com o ranger das portas da sala de jantar do hotel.

Vale a pena conhecer toda sua filmografia, mas falando sobre mobilidade, destacaria Carrossel da Esperança (Jour de Fête), 1949,  e Traffic. Em Carrossel da Esperança, o carteiro François, que frequentemente interrompe suas tarefas para conversar com os habitantes da pequena cidade onde vive, observa a montagem da festa, que acontece uma vez por ano. Após assistir num filme os métodos mais rápidos dos correios dos Estados Unidos, François começa uma nova aventura com a sua bicicleta.

Algumas cenas de “Jour de Fête” (1949):

Play Time, de 1967: carrosel de carros. Imagem: Reprodução

Play Time, de 1967: carrosel de carros. Imagem: Reprodução

Tati e a (i)mobilidade

Usando o trânsito como pano de fundo em muitas de suas cenas, em 1971 lançou”Traffic”, fazendo do próprio trânsito o personagem principal. Neste filme, o personagem de Tati, Sr. Hulot, desenhista de um modesto fabricante de veículos, desenha um caminhão com várias inovações e decide levá-lo à Exposição Internacional do Automóvel de Amsterdã.

Para isso, conduz seu carro, seguido de uma jovem norte-americana responsável pelas relações públicas da fábrica, que dirige um carrinho esportivo. Há tantas interrupções na viagem e ocorrem tantos problemas que o carro chega tarde demais à exposição.

Tati consegue fazer, dos momentos mais triviais da relação dos motoristas com seus carros, cenas que parecem uma grande coreografia.

Confira algumas delas:

Em Tempo de Diversão (Playtime), de 1967,  Tati transforma uma rotatória com um trânsito intenso de ônibus, carros, motos, bikes e pessoas num grande carrossel.

Neste programa da TV italiana RAI, em 1971, imita um passageiro dentro de um ônibus.

Ao longo de sua carreira, Tati permaneceu obstinadamente comprometido com a sua integridade artística e à sua independência como um cineasta. Ele foi um dos poucos diretores que constantemente empregava atores não-profissionais nos seus filmes. Recusou ofertas de Hollywood e declarou: “Eu poderia ter satisfeito os produtores do mundo, fazendo uma série de pequenos filmes Hulot, e eu gostaria de ter feito um monte de dinheiro, mas eu não teria sido capaz de fazer o que eu gosto:  trabalhar livremente.” (NY Times, 06 de novembro de 1982, fonte: IMDB)

Jacques Tati provavelmente conhecia bem a maior vantagem da bicicleta: a liberdade.

Morreu em  novembro de 1982, em Paris, aos 75 anos, de embolia pulmonar. Sua filmografia completa está no site IMDB. Veja também seu site oficial.

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